O quarto onde Suya e Daphine descansavam era amplo, silencioso, quase sagrado. Cortinas de linho branco ondulavam suavemente com a brisa noturna, e a luz da lua filtrava-se pelas frestas das janelas, espalhando reflexos prateados pelas paredes de pedra clara. O ar ainda guardava o perfume do incenso e das flores de lótus, vestígios do templo que parecia nunca abandonar aquele lugar.
Duas camas simples repousavam lado a lado, cobertas por lençóis de linho bem cuidados. Entre elas, uma pequena mesa sustentava uma lamparina cujo fogo ardia lento, como se temesse quebrar o silêncio.
Foi o som quase imperceptível da janela se abrindo que despertou Suya.
O vento da noite entrou no quarto, frio e carregado de mistério, fazendo as cortinas dançarem. Ainda sonolenta, ela virou-se na cama e viu Daphine adormecida, o rosto sereno, a respiração tranquila, alheia a tudo.
Com cuidado, Suya levantou-se e caminhou até a janela para fechá-la. Contudo, antes que pudesse tocá-la, a brisa ganhou forma.
Um lobo cinzento saltou para dentro do quarto. Sua pelagem reluzia sob a lua, e os olhos azuis brilhavam como fragmentos de céu noturno.
Suya recuou um passo, o coração acelerado. Então reconheceu aquela presença.
— Akla... o lobo do sonho. — murmurou.
O animal a fitou em silêncio, e havia em seu olhar algo que transcendia o tempo e o espaço.
— Isso é um sonho, não é? — perguntou Suya em voz baixa.
— Sim. — respondeu Akla. Sua voz não saiu de sua boca, mas ecoou diretamente na mente dela, grave e urgente.
— Escute-me, Suya. Não tenho muito tempo.
O vento se intensificou. A chama da lamparina tremulou, projetando sombras inquietas pelas paredes.
— A Noite Mais Escura está chegando. — anunciou o lobo. — Você deve se preparar.
— A noite mais escura...? — repetiu Suya, confusa.
Akla assentiu lentamente.
— Ela trará sombras que nem mesmo o fogo poderá dissipar. Prepare-se, minha arqueira.
Temendo perdê-lo, Suya deu um passo à frente e estendeu a mão.
— Akla, onde você está agora?
— Enfrentando grandes desafios. — respondeu ele. — Mas não desista. Assim como eu, também não desistirei de te reencontrar. Siga a estrela. Ela a conduzirá até mim.
Suya levou o punho ao peito, sentindo o coração pulsar forte.
— Você está indo para o norte, não é?
O lobo assentiu uma última vez.
— Sim.
— Então seguirei a estrela-guia… e nós nos reencontraremos. — prometeu ela.
Akla dissolveu-se na névoa como um sopro de luar, deixando apenas o murmúrio do vento e o brilho da lua atravessando a janela.
Daphine despertou de repente.
O quarto estava mergulhado em penumbra, e um som estranho — semelhante ao tilintar seco de um chocalho — ecoava próximo à sua cama. Ao virar-se, percebeu que Suya não estava ali.
Um arrepio percorreu-lhe a espinha.
No canto mais escuro do quarto, algo se moveu. Dois olhos amarelados surgiram entre as sombras, seguidos pelo deslizar lento e hipnótico de escamas.
Uma serpente colossal revelou-se. A criatura ergueu a cabeça e falou com uma voz sibilante e arrastada:
— A Noite Mais Escura se aproxima…
A frase ecoou três vezes, cada repetição mais distante, até que a serpente se dissolveu nas trevas, como se jamais tivesse existido.
Daphine permaneceu imóvel, o coração disparado.
Do lado de fora, uma estrela riscou o céu noturno — solitária, intensa, impossível de ignorar. Daphine a viu pela janela e, naquele mesmo instante, Suya também a contemplava, cada uma em um ponto diferente do mundo, unidas pelo mesmo presságio.
Logo depois, o canto de uma águia ecoou pelos sonhos das duas. Era majestoso, profundo, como se viesse do próprio firmamento.
Então, tudo se apagou.
Suya, Daphine, Soso, Carlos, Diogo e Akla encontraram-se em um vasto espaço branco e etéreo. Não havia chão nem céu, apenas luz infinita. Estavam dispostos em círculo quando, diante deles, surgiu uma imensa águia verde, radiante, com olhos que refletiam estrelas antigas.
Era o Sábio Alado.
Sua voz profunda ecoou não apenas em suas mentes, mas por toda a cidade adormecida de Olímpia:
— Preparem-se. Olimpianos.
— Pois a Noite Mais Escura se aproxima.
— A escuridão consumirá a luz, e a chama da esperança se extinguirá… a menos que vocês despertem e tragam um novo amanhecer.
Naquela noite, todo ser vivo que dormia — humano, fera ou espírito — ouviu a mesma mensagem do Sábio Alado, a Grande Águia Verde.
E o vento que soprou sobre o mundo carregou o presságio de um novo ciclo.
O prenúncio da Noite Mais Escura.
Assim aquele Sonho terminou, com as palavras do sábio alado ecoando nas mentes deles na manhã seguinte, suya foi a primeira acordar, as palavras do Sabio alado martelando em sua mente, a presença de Akla fez com que a promessa entre eles fortifica-se ainda mais, ela lavou o rosto e desceu para cozinha e tomou seu cafe, ajudou a dali a servir o cafe na mesa, enquanto a maga ainda despertava de seu longo sono naquela manha, lembrando de sua amiga que ainda dormia, suya levou uma bandeja de cafe da manha para Daphine la no quarto,
Suya: Bom dia, Daphine….— disse suavemente ao entrar no quarto.
Vendo que a maga ainda estava na cama, ela se aproximou e então deixou a bandeja na mesa ao lado da cama, aproximou-se de Daphine e a sacudiu de leve.
Suya: Levanta logo, - sacode mais forte.
Daphine: Hmmm, o que aconteceu…. — Se espreguiça… Olha para suya com cara de sono
Suya: Toma seu cafe, precisamos conversar, mas antes tome um banho você ta fedendo.
Daphine arqueou uma sobrancelha, sem esconder o desagrado.
Daphine: — Nossa, que jeito carinhoso de me acordar… — resmungou, mas obedeceu.
Daphine levantou-se da cama não gostando muito do que sua amiga disse, mas foi para o banheiro, após alguns minutos, ela retornou vestida, pegou a bandeja de café e sentou se na cama, com a xícara ainda nas mãos, os olhos perdidos no vazio.
Daphine: — Eu tive um sonho muito estranho hoje… — murmurou. — Você estava lá… e o Sábio Alado também.
Suya, que observava pela janela, se virou imediatamente.
Suya: — Espera… tivemos o mesmo sonho? Porque no meu, você também estava lá… e o Sábio Alado falava conosco. — Ela estreitou os olhos, pensativa. — Não me diga que… você também sonhou com a noite.
Daphine ergueu o olhar, surpresa.
Daphine: — A noite mais escura… — respondeu, com a voz baixa. — E a estrela… aquela que apontava para o norte. Estávamos em círculo enquanto ele falava.
As duas se entreolharam, arrepiadas.
Por um instante, o silêncio pareceu ecoar o peso daquela revelação.
Suya: — Então é isso… — disse Suya, por fim. — Nossa missão é continuar seguindo para o norte.
Ela fez uma pausa, respirou fundo e encarou Daphine.
Suya: — Mas há algo que preciso te dizer.
Daphine: — Pode falar. — A maga pousou a xícara, o tom desconfiado.
Suya aproximou-se e sentou-se ao lado da amiga. Sua mão buscou a de Daphine, apertando-a com carinho.
Suya: — Você sabe que eu te considero como uma irmãzinha, certo? E que eu jamais quebraria a promessa que fiz… de sempre estar ao seu lado. — Sua voz era suave, quase um pedido. — Mas… preciso que entenda que, em algum momento, estarei também ao lado de Akla.
O rosto de Daphine se fechou imediatamente. O cenho franzido, os olhos se estreitando.
Daphine: — Então é isso? — perguntou, a voz falhando entre incredulidade e dor. — Vai me deixar… para ficar com um lobo? — A última palavra saiu quase como um veneno. — Eu não vou permitir isso.
Suya suspirou, lutando para não perder a calma.
Suya: — Daphine… por favor. Akla está procurando por mim, assim como eu o procuro. Eu não vou te abandonar. — Tentou sorrir, tentando suavizar o golpe. — Pense nisso como uma adição, não uma divisão. Ele só vai fazer parte da nossa pequena família.
Mas Daphine desviou o olhar. Uma sombra de ciúme tomou seu rosto, fazendo seus dedos tremerem.
Daphine: — Eu não quero uma “família maior”… — murmurou, quase inaudível. — Eu quero você.
Suya sentiu o coração apertar, mas permaneceu firme.
Suya: — Olha para mim, Daphine. — Ela ergueu delicadamente o queixo da maga. — Presta atenção. Em algum momento, você também vai encontrar alguém. Alguém que vai ser importante para você do jeito que Akla é para mim.
A conversa se arrastou por longos minutos. Suya explicou, com paciência, que Akla logo faria parte da vida delas, que isso não mudaria a lealdade que sentia por Daphine. Mas a maga permanecia rígida, tomada por receio.
Suya: — Me promete… — disse Suya, por fim. — Que não vai interferir nas minhas escolhas. Eu gosto do Akla. Quero estar ao lado dele também. E sei que ele vai te aceitar como parte da nossa família.
Houve um silêncio pesado.
Daphine não gostou nem um pouco, mas também não disse mais nada. Seus lábios se entreabriram, como se fosse responder… porém, desistiu.
Suya se levantou, lançando-lhe um último olhar triste.
Suya: — Eu volto depois. — murmurou.
E então saiu do quarto, deixando Daphine sozinha por alguns momentos.
Suya deixou o quarto e desceu as escadas lentamente, sentindo o peso da conversa com Daphine ainda ecoando em sua mente. Cada passo parecia arrastar consigo a certeza de que, se não tomasse cuidado, tudo poderia desmoronar entre elas.
Eu não pertenço à Olímpia… pensou. Preciso encontrar uma forma de voltar para Cronos. Luarina… e todos os outros continuam lá.
Suspirando, ela saiu para as ruas da cidade. O ar fresco da manhã ajudou a clarear seus pensamentos enquanto caminhava entre comerciantes, viajantes e artesãos. Logo seus olhos pousaram em uma oficina de ferreiro.
O calor das forjas e o som ritmado do martelo batendo no metal a fizeram parar. Entrou.
Lá, aprimorou seu arco mágico — agora mais leve e com runas reforçadas — e adquiriu alguns itens novos. Entre eles, uma adaga dracônica ácida, cuja lâmina possuía um brilho esverdeado e um odor leve de veneno. Suya a testou ali mesmo, cortando um pedaço de couro que fumegou ao contato com o ácido.
Poucos minutos depois, o som suave de sininhos anunciou a entrada de Daphine na loja.
A maga parecia mais calma. Ela comprou alguns itens mágicos, além de dois grimórios cujas capas pulsavam com energia arcana selada. Logo, as duas se viram conversando casualmente sobre armas, roupas e artefatos — um descanso bem-vindo após tantas tensões.
Com tudo devidamente equipado e revisado, estavam prestes a deixar a cidade e continuar a jornada rumo ao norte. Mas antes que dessem o primeiro passo para fora do portão, uma voz familiar as chamou.
O Guru se aproximava, e ao lado dele caminhava Dali, carregando duas mudas de roupas típicas da região, adornadas com jóias e bordados tradicionais.
Guru: — Vocês já estão de partida? — perguntou o Guru.
As duas responderam juntas: — Sim.
O Guru sorriu, mas seus olhos expressavam gratidão profunda.
Guru: — O caminho de vocês será longo e perigoso. Aceitem isto como presente, por terem libertado nosso povo da deusa.
Dali entregou as roupas a Daphine, que agradeceu. O Guru, então, fez um gesto discreto para Suya.
Guru: — Suya… posso falar com você a sós?
A arqueira assentiu e caminhou alguns passos à frente com ele, deixando Daphine conversando com Dali.
Quando já estavam afastados, o Guru inspirou fundo.
Guru: — Com a queda da deusa, agora existe um trono vazio. E eu vejo em você o potencial para reivindicá-lo.
Suya arregalou os olhos, surpresa. Por um momento, ficou sem palavras.
Suya: — Eu… agradeço. De verdade. Mas não posso aceitar um título desses. Ser uma deusa, governar… não é isso que eu busco. — Ela inclinou a cabeça. — E acho que há alguém muito mais adequado.
O Guru a observou, curioso. : — Quem?
Suya sorriu de lado: — O senhor, Guru. Não consigo imaginar outro mais digno de ocupar o trono que antes pertencia à deusa.
Ele ficou pensativo por longos segundos. Seus olhos, antigos e sábios, pareciam enxergar além do que estava diante dele. Por fim, assentiu lentamente.
Guru: — Talvez… você esteja certa. — Ele sorriu, emocionado. — Obrigado, jovem arqueira.
E a abraçou. Suya retribuiu o gesto — e nesse instante, uma lembrança doce e engraçada veio à tona.
Flopp.
O gnomo alegre, barulhento e impossível de ignorar.
Ela se afastou do Guru e caminhou até Daphine, que terminava de guardar as roupas novas na bolsa dimensional.
Suya: — Daphine… — Suya a chamou, séria. — Quero te pedir algo. Quero que liberte o Flopp.
A maga piscou, claramente surpresa.
Daphine:— Libertar… aquele gnomo de jardim?
Suya: — Sim. — Suya cruzou os braços, mas seu olhar era suave. — Sinto falta dele. Você pode libertá-lo da prisão do Oriundo?
Daphine ficou em silêncio por alguns instantes, observando atentamente o rosto de Suya. A arqueira parecia mesmo sincera — determinada, até.
A maga suspirou, pesada, vencida pela insistência da amiga.
Daphine:— Se é isso mesmo que você quer… tudo bem. — murmurou, relutante.
Com um gesto cuidadoso, Daphine rompeu o selo do Oriundo. A dimensão sombria se abriu como uma fenda retorcida, e de seu interior emergiu Flopp.
Mas algo estava errado; O gnomo, antes vibrante e alegre, agora tinha olhos opacos, sombreados por uma névoa negra. Sua pele parecia ter perdido o brilho, e uma aura escura serpenteava ao redor de seu corpo como fumaça viva.
Suya deu um passo à frente, emocionada.
Suya: — Flopp! — exclamou, correndo para abraçá-lo.
Mas quando chegou perto, congelou. Ele estava… diferente. Quase irreconhecível.
Flopp ergueu a cabeça devagar, sua voz rouca como se viesse de um abismo.
Flopp: — Suya…? Não… não pode ser você. É só mais uma ilusão… chega de ilusões.
Antes que Suya pudesse reagir, Flopp avançou com uma expressão ensandecida.
Suya: — Flopp, espera! —
Mas ele já atacava.
Por sorte, Daphine ergueu a mão e lançou um feitiço de barreira que o arremessou para trás, fazendo-o deslizar pelo chão.
O gnomo se levantou aos trancos, delirante.
Flopp: — Vocês… meras cópias… não vão me enganar desta vez…
Daphine estreitou os olhos, irritada.
Daphine: — Eu sabia que era uma péssima ideia libertar ele.
Suya se virou para ela, indignada.
Suya: — Isso é culpa sua, Daphine! Se você não tivesse deixado ele preso naquele lugar horrível—
Daphine: — A culpa é sua por insistir! — retrucou a maga. — Uma hora aqui são mil anos lá dentro! Ele ficou preso quase TRÊS dias, Suya. Três mil anos para ele! É claro que mudou!
Suya abriu a boca para responder, mas não teve tempo.
Flopp fugiu, em um lampejo de sombras, disparou pelas ruas da cidade, desaparecendo entre becos e vielas antes que qualquer uma pudesse detê-lo.
Suya: — Eu não vou deixar meu amigo se corromper ainda mais. — disse Suya, apertando os punhos. — Precisamos encontrá-lo.
Daphine bufou, mas concordou com um aceno.: — Isso vai dar muito trabalho…
Flopp corria sem destino, sua mente em frangalhos. O mundo ao redor parecia distorcido, e cada som ecoava como se viesse de longe.
Nada fazia sentido. Nada parecia real.
Flopp: É tudo ilusão… tudo ainda é a prisão… Eu não saí… eu nunca saí…
Cambaleando, ele acabou entrando em um pequeno parquinho. Ali, encontrou um garotinho sentado sozinho em um balanço, o rosto banhado de lágrimas. A tristeza dele era profunda… e, aos olhos de Flopp, familiar.
A aura sombria do gnomo reagiu imediatamente.
Ele se aproximou devagar. — Ei… por que chora? — perguntou, a voz distorcida, quase múltipla.
O garoto ergueu o olhar, assustado, mas frágil demais para fugir.
Enquanto conversavam, a escuridão dentro de Flopp começou a transbordar. Primeiro como uma névoa fina… depois, como uma sombra viva que se derramava pelo chão, subindo pelos brinquedos e apagando as cores ao redor.
O céu, antes claro, tornou-se cinzento. depois, quase negro.
O parque inteiro afundou em uma melancolia sufocante
As crianças que estavam ali para brincar sentiram o peso da presença sombria e começaram a correr em pânico. Gritos ecoaram pelas ruas próximas.
Crianças: — MONSTROOOO! SOCORROOOOO!!! —
E o caos começou a se espalhar pela cidade.
Suya correu assim que ouviu o grito desesperado ecoando pelas ruas. Seu coração batia tão rápido quanto seus passos, mas ela não tinha ideia de que direção seguir. Parava pessoas pelo caminho, ofegante:
Suya: — Você viu um gnomo de cabelo verde? Baixinho, falante — por favor!
Mas ninguém tinha visto nada.
Foi quando Suya trombou com Soso, a menina-coelho, quase derrubando-a no chão.
Soso: — Suya! — exclamou Soso, segurando o esquilo que se equilibrou no ombro dela. — O que houve?
Suya: — Você viu um gnomo? Ele desapareceu! — disse Suya, aflita. — Preciso encontrar ele antes que aconteça algo pior!
Soso: — Não vi… mas vou te ajudar! — respondeu Soso sem hesitar.
O esquilo, atento, batia o rabo como se também quisesse participar da busca. As duas partiram imediatamente pela rua principal, chamando, perguntando, procurando em becos e esquinas.
Daphine caminhava atrás delas em silêncio. Não demonstrava pressa, nem vontade de ajudar — apenas seguia, com os braços cruzados e a expressão amarga de culpa e irritação misturadas.
Foi então que uma criança esbarrou forte em Suya.
Suya: — Ei! — ela segurou o garoto pelos ombros. — Por que está correndo assim?
O menino apontou para trás, apavorado.
Menino: — Um monstro, moça! No parque! Ele tá engolindo tudo!
Suya trocou um olhar rápido com Soso — e dispararam.
Chegando ao parquinho, o cenário era de arrepiar.
O céu acima estava enegrecido, como se algo drenasse sua luz. O solo, antes colorido, agora era tomado por rachaduras de sombras vivas.
E no centro de tudo… Flopp; Tremendo. Corrompido. A escuridão pulsava ao seu redor, como se respirasse.
Suya: — Flopp! — gritou c, aproximando-se com cautela. — Olha para mim! É a Suya!
Mas o gnomo não a enxergava. Acreditava ainda estar preso naquela prisão eterna.
Flopp:— Ilusões… tudo ilusões… — rosnou, avançando. — NÃO VOU CAIR DE NOVO!
Ele atacou, e a sombra se expandiu como uma onda. Atrás dele, o chão se rasgou — e um portal sombrio brotou, sugando tudo com força de um buraco negro.
O menino que Flopp encontrara estava à beira de ser engolido, junto com Flopp.
Sem pensar, Suya se lançou para a frente e segurou a mão dos dois.
Suya: — AGUENTEM! — gritou, sentindo a força do portal puxando seu corpo para trás.
A escuridão subiu pelas mãos dela como fogo gelado, queimando sua pele. Suya gemeu de dor — mas não soltou.
Soso correu até o chão, tirou um giz mágico da bolsa e começou a desenhar freneticamente símbolos brilhantes.
Soso: — Só mais um pouco, Suya! — gritou ela. — Eu quase terminei!
A sombra alcançava agora os pulsos da arqueira. Sua pele ardia, latejava, como se a escuridão tentasse arrancar algo dela.
Suya: — RÁPIDO, SOSO! — gritou Daphine, que finalmente conjurava uma barreira para evitar que a atração aumentasse.
O desenho de Soso — um círculo de energia luminosa — brilhou como um pequeno sol e ganhou vida, elevando-se em um clarão que empurrou a escuridão para trás.
O portal rugiu, encolheu… e explodiu em uma onda de luz.
Suya caiu para trás, arrastando Flopp e o menino consigo.
Por um momento, tudo ficou quieto.
Flopp desmaiou ao seu lado, o garoto também.
Nesse exato instante, o Guru apareceu no parque, observando os destroços da escuridão.
Guru: — Meu céu… — murmurou.
Ele correu até eles. Pegou o garotinho nos braços, enquanto Suya ergueu Flopp com cuidado.
Guru:— Venham. — disse o Guru. — Levem-nos para o templo!
Soso, Suya e até Daphine seguiram apressadas.
No templo, colocaram Flopp em uma cama, enquanto Dali cuidava do menino, limpando-lhe o rosto e verificando seu pulso.
O Guru aproximou-se de Suya e notou algo em suas mãos.
Duas runas — marcadas nas costas das mãos, brilhando como feridas recentes.
Ele franziu o cenho, impressionado.
Guru:— Estas marcas… não são comuns. Você tocou a escuridão diretamente. — Ele abriu um cofre e retirou um par de luvas de couro marrom reforçado com runas protetoras. — Use isto. Vai ajudar a conter o avanço da marca… por enquanto.
Suya aceitou as luvas e sorriu, ainda ofegante.
Suya: — Obrigada Guru.
Ela deu um último olhar para Flopp. Ele respirava, mas profundamente inconsciente, os olhos parcialmente fechados, como se ainda estivesse preso entre dois mundos.
Suya saiu do quarto com o peito apertado.
Seu amigo estava vivo. Mas ela não sabia… se o Flopp alegre e brincalhão de antes ainda existia lá dentro. Ou se a escuridão já o tinha tomado para sempre.
Enquanto Suya e Daphine conversavam no andar inferior do templo, Soso estava com o Guru no quarto onde o Flopp descansara antes. O Guru observava a menina-coelho com seus olhos serenos, estudando não apenas sua habilidade, mas o brilho de determinação que ela mostrara ao enfrentar o caos causado pela escuridão.
Ele se aproximou devagar, apoiando uma mão leve sobre o ombro dela.
Guru: — Pequena… — disse suavemente. — Pelo seu ato de coragem e, sobretudo, pela empatia que demonstrou ao ajudar aqueles que precisaram de você… desejo lhe entregar algo muito especial.
Soso piscou, surpresa. O esquilo em seu ombro inclinou a cabeça, curioso.
O Guru abriu uma pequena caixa de madeira runificada. Dentro, repousava um pincel de cabo branco e cerdas douradas — como se tivesse sido criado com luz condensada.
Guru: — Este pincel — continuou ele — não é como os comuns. Você não precisará mais de papel. Com ele, basta desenhar no ar… e o que criar ganhará vida. Mas, Soso… — o olhar dele se tornou mais sério — use-o com sabedoria. Este item carrega um poder antigo. E confio esse poder a você.
Os olhos vermelhos de Soso brilharam, não só pela luz do pincel, mas pela alegria profunda que sentiu. Suas orelhas até tremeram levemente de emoção.
Soso: — M-muito obrigada, senhor Guru! Eu prometo… vou usar com cuidado! — disse, abraçando o pincel contra o peito.
Com passos leves, ela saiu do templo em busca de Suya e Daphine.
Soso encontrou as duas no grande salão de jantar. Elas conversavam em voz baixa — e parecim mais tranquilas depois de tudo.
A menina aproximou-se devagar, prestes a chamá-las, quando uma explosão de alegria surgiu atrás dela.
Flopp:— SUYAAAAAAA!!!
Flopp atravessou o corredor como um tiro, Radiante, Saltitante, Completamente recuperado.
Ele pulou nos braços de Suya e a apertou em um abraço tão forte que quase a derrubou. A arqueira arregalou os olhos — e então sorriu, aliviada.
Parecia que Flopp não lembrava de nada do terror vivido na dimensão sombria de Daphine. Nenhum fragmento da escuridão restara nele.
Tudo havia sido drenado naquele redemoinho sombrio antes do portal desaparecer.
Daphine soltou um suspiro discreto, quase imperceptível — mas Suya percebeu: era de alívio.
Suya: — Bem Vindo de volta meu amigo, ela cariciou acabeça dele bagunçando de leve seus cabelos.
Flopp: — É bom estar de volta.
Soso finalmente se aproximou, sorridente, e o grupo se reuniu ali mesmo, num círculo de aconchego e risadas.
A Festa dos Pêssegos
A cidade inteira se transformava. Bandeirinhas cor-de-rosa cintilavam ao vento, casas eram decoradas com lanternas de papel, e barracas de comida e bebida enchiam as ruas com aromas doces e esfumaçados. Vestidos bordados com flores pendiam em varais, prontos para serem vendidos.
O grupo decidiu permanecer alguns dias na cidade, relaxando e aproveitando a paz tão rara em suas jornadas.
Suya e Daphine caminharam entre as barracas quando encontraram um grupo de crianças brincando perto da praça.
No meio delas, claro, estava Flopp — pulando de um lado para o outro como se fosse uma criança a mais.
Uma garotinha se aproximou e puxou a mão de Daphine.
— Vem brincar com a gente! — pediu com um sorriso inocente.
Daphine ficou sem reação por um instante.
Suya riu baixinho da cena — era tão improvável quanto adorável.
Por fim, ambas se juntaram à brincadeira. As crianças gargalhavam, Flopp vibrava como se fosse feito de pura energia, e a cidade parecia respirar alegria.
Depois de um tempo, Suya e Daphine sentaram-se juntas sob um enorme pessegueiro. Suas flores rosadas caíam em pétalas lentas, criando um tapete suave ao redor. Um rio de águas cristalinas corria atrás delas, trazendo um som calmo e constante.
O momento era tão tranquilo que parecia um sonho.
Suya ( respirou fundo): — Daphine… sobre antes… — ela hesitou.
A lembrança da discussão ainda a machucava um pouco. Mas precisava ser dita, com clareza e sinceridade. — Eu…
Ela se virou para encarar a amiga — pronta para finalmente terminar aquela conversa inacabada.
Suya: — Daphine… eu quero que me prometa algo. Prometa que, seja qual for a decisão que eu tomar… você não vai interferir. Não vai usar o Oriundo só porque não gosta de quem se aproxima de mim. Prometa que… que nunca vai atrapalhar minha busca pelo Akla.
A maga desviou os olhos, incomodada. A promessa lhe pesou no peito como uma pedra, mas ela amava Suya demais para negar.
Daphine:— Eu… prometo. — Ela tragou seco. — Mas com uma condição.
Daphine: — Nunca me deixe, Suya… nunca.
A arqueira sentiu o coração apertar ante a vulnerabilidade da amiga.
Suya: — Daphine… o que aconteceu? Por que isso é tão importante?
Os olhos vermelhos da maga tremeram. Algo dentro dela se rompeu lentamente, como vidro sob pressão. Ela baixou a cabeça e, quando falou, sua voz era baixa… quase um sussurro quebrado.
Daphine:— Quando eu era pequena… meus pais… eles não me amavam, Suya.
Daphine: — Eles me maltratavam todos os dias. Diziam coisas horríveis. — “Você é inútil.”
Daphine: — “Você não serve pra nada.” — “Nem vale uma única moeda de ouro pra comprar pão.”
Daphine: — Eu era só uma criança…
Ela apertou as próprias mãos, os dedos tremendo.
Daphine: — Nós éramos pobres. Miseráveis. E um dia… meus pais decidiram que eu seria mais útil se… se fosse vendida.
Daphine: — Eu me lembro da voz do meu pai dizendo: “Pelo menos assim essa garota vai render alguma coisa.”
Daphine: — Minha mãe nem olhou pra mim. Só empurrou minha mão para o mercador.
Daphine: — Eles me entregaram como se eu fosse… uma mercadoria.
Daphine: — Como se eu não fosse gente.
A voz dela falhou. Ela respirou fundo, tentando conter o choro, mas uma lágrima escapou.
Suya sentiu o peito arder. Aproximou-se devagar e a envolveu em um abraço firme, protetor, caloroso.
Suya: — Daphine… eu sinto muito. Você nunca mereceu nada disso.
A maga se apertou contra ela, como alguém que teme ser deixada para trás outra vez.
Suya passou a mão pelos cabelos dela, gentil.
Suya: — Escute. Enquanto eu permanecer em Olímpia… eu vou ficar com você.
Suya:— Eu não sei quanto tempo vai levar até eu encontrar o caminho de volta para Cronos… mas até lá, você tem a mim.
Suya: — Eu vou te proteger, — Eu vou ser sua família.
Daphine ergueu o rosto, os olhos marejados, respirando com dificuldade.
Suya então completou, com voz firme mas cheia de carinho:
Suya: — Mas você precisa entender uma coisa, Daphine. O Akla… ele também fará parte disso.
Suya: — Ele é importante para mim, — E eu gostaria muito que, algum dia… você pudesse vê-lo como parte da nossa família também.
A maga permaneceu em silêncio por alguns segundos, absorvendo cada palavra. Então assentiu, lentamente, com esforço… mas também com esperança.
Flopp, que estava observando de longe o abraço silencioso entre Suya e Daphine, trocou um olhar cúmplice com as outras crianças. Um sorriso travesso se formou no rostinho do gnomo — e em segundos todos já haviam tramado um plano.
Eles se aproximaram devagar, como pequenos predadores arteiros. Suya nem desconfiou. Daphine, ainda emocional da conversa, sequer percebeu o cerco.
Então, de repente: — AGORA! — gritou Flopp.
As crianças empurraram as duas ao mesmo tempo — e plash! Suya e Daphine caíram no rio de águas cristalinas, espirrando água para todos os lados.
Suya emergiu primeiro, rindo alto, os cabelos roxos grudados no rosto.
Suya:— Ai, vocês não prestam mesmo! — disse, gargalhando.
Já Daphine… não achou graça nenhuma.
Ela levantou devagar, encharcada, com uma expressão que fez as crianças darem dois passos para trás. Flopp, percebendo o perigo iminente, soltou um gritinho:
Flopp: — CORRE!
A maga disparou atrás dele, ainda escorrendo água, enquanto o gnomo fugia em zigue-zague pelo gramado, rindo e pedindo desculpas ao mesmo tempo.
Suya, ainda tentando se recompor da crise de riso, levantou-se do rio e observou a perseguição caótica pela margem, balançando a cabeça em diversão.
Daphine acabou alcançando Flopp antes que ele conseguisse escapar completamente. Com um gesto rápido da mão, fios de magia cintilante serpentearam pelo ar e, num instante, o gnomo estava amarrado ao tronco de uma árvore, preso por laços arcanos que brilhavam em vermelho.
Flopp:— Suyaaaa! Me tira daqui!
Ele se sacudia, tentando se soltar, mas a expressão suplicante só fez a arqueira explodir em risos.
Suya:— Você pediu por isso, Flopp. Agora aguente — disse ela, ainda rindo, enquanto o gnomo gemia dramaticamente.
Depois da confusão, Suya e Daphine se secaram e trocaram de roupa. Quando a noite caiu, a cidade já estava tomada pela luz suave das lanternas de papel, tingindo tudo com tons rosados e dourados. A Festa dos Pêssegos começara.
Crianças dançavam em rodas, rindo e pulando ao som de flautas e tambores. O ar estava doce com o aroma de frutas e bolinhos recém-assados. Suya e Daphine experimentaram os famosos bolinhos de pêssego lunares — macios, quentinhos e irresistíveis. Até o guru, sempre sereno, deixava escapar um sorriso enquanto participava da celebração.
Soso corria pelo lugar com o esquilinho no ombro, brincando com outras crianças, colorindo o ar com sua energia alegre.
Flopp, agora livre das amarras, havia voltado às travessuras — transformando pequenas moedas em canecas de bebida espumante. Com a consciência parcialmente pesada, aproximou-se das duas como quem oferece um ramo de oliveira.
Com um sorriso tímido e os olhos brilhando, estendeu uma caneca para Suya e outra para Daphine.
Flopp:— Trégua?
A arqueira riu. A maga, apesar de manter a postura, acabou cedendo a um leve sorriso. A noite seguia viva, quente, acolhedora — e por um momento, todos ali pareciam exatamente onde deveriam estar.
Na manhã seguinte, Suya e Daphine se despediram do guru, de Soso, Antes que partissem, o pequeno gnomo flopp correu até Suya e colocou algo em sua mão.
Era um colar delicado, com uma pequena joia verde-azulada.
Flopp: — Se algum dia precisar de mim… basta quebrar a pedra. Eu vou aparecer, aconteça o que acontecer.
A arqueira sorriu emocionada e o abraçou com força. Depois disso, ela e Daphine iniciaram a jornada.
Logo chegaram a uma encruzilhada onde três caminhos se abriam diante delas:
- Veredito dos Ventos — o caminho que levava à floresta.
- Espinhaço de Gelo — a trilha que subia para as montanhas nevadas.
- Estrada Âmbar — a rota de terra usada por caravanas e comerciantes.
Daphine cruzou os braços, estudando os caminhos.
Daphine: — Devíamos pegar a Estrada Âmbar e seguir para a próxima cidade.
Suya pensou por alguns instantes.
Suya: — A floresta é mais segura. Teremos água, frutas, animais. Nas montanhas podemos morrer congeladas… e na Estrada Âmbar não sabemos quantos dias até a próxima cidade — nem se teremos comida.
Relutante, a maga concordou, e as duas seguiram pela Veredito dos Ventos.
Não demorou para que encontrassem um filhote de panda preso em uma armadilha de caçador. Ele choramingava baixinho: — “Huuum… Uuuhn… Whuuu…”
(um som entre gemido e chamado aflito)
Suya ergueu o braço impedindo que Daphine se aproximasse.
Suya:— Armadilhas… Caçadores devem estar por perto. Vamos com cuidado.
Mas enquanto discutiam, sombras escuras deslizaram entre as árvores, se aproximando do panda. Ao vê-las, o bichinho choramingou mais alto, desesperado.
Sem hesitar, Suya correu e o libertou antes que as sombras o alcançassem.
Daphine observava, inquieta.
Daphine:— Essas coisas estão nos seguindo desde o início… algo as atrai.
Antes que pudessem reagir, passos pesados e vozes ecoaram entre as árvores.
E então, nove raposas, de pelagem escura e olhos flamejantes, surgiram cercando as duas.
A maga reagiu primeiro, lançando um círculo de fogo que queimou três. Suya disparou flechas imbuídas em magia ignífera, derrubando as demais.
Daphine: — Vamos sair daqui. Agora!
Suya pegou uma raposa pela cauda para usar como comida e segurou o panda com o outro braço.
Suya: — Bom… pelo menos não vamos passar fome. Um caldo de raposa… hmmm, delicioso.
Daphine fez uma careta.
Daphine: — Você tem um gosto horrível.
Minutos depois, três caçadores surgiram na clareira onde haviam deixado o panda preso.
Caçador 1: — Eles levaram tudo! Até a raposa!
Caçador 2: — Tem rastros indo para o norte…
Caçador 3: — Então vamos. Quero minha presa de volta.
Suya e Daphine ouviram os gritos ao longe.
— Atras delas! — Gritou um dos caçadores.
As duas correram, até chegarem a outra bifurcação:
- Um caminho levava a um acampamento de aventureiros.
- O outro, para uma cabana solitária envolta em névoa.
Daphine:— Se forem aliados dos caçadores… estaremos mortas.
Suya: — Podemos nos esconder usando lama. Apaga nosso cheiro, cobrir pegadas…
A maga franziu o nariz.
Daphine: — Eu não vou me cobrir de lama.
E sem pensar duas vezes, puxou a chave de portal. Um rasgo vermelho se abriu no ar.
Suya:— Daphine, espera!
Tarde demais, A maga agarrou Suya pelo pulso e a puxou.
As duas caíram em uma enorme caverna avermelhada, com rios de fogo cortando o chão, chamas subindo pelas paredes e ecos distantes de sofrimento humano.
Suya:— Você está louca? Você… nos trouxe para o inferno!
O ar queimava nos pulmões. O panda tremia nos braços dela.
De repente, uma versão distorcida de Suya, sombra viva feita de culpa e cinzas, ergueu-se diante dela.
Sombra-Suya: — Você já foi melhor. Nem ao menos cuidou do panda que salvou. Só pensa em si mesma. Egoísta. Fria. Antipática.
As palavras a acertaram como flechas.
Ao mesmo tempo, diante de Daphine surgiram os espectros de seus pais.
Pai:— Inútil! Nem servir para trabalhar você servia!
Mãe: — Se arrependemos do dia em que você nasceu. Nunca valeu nem uma moeda de ouro!
A maga estava em transe, olhos vidrados, incapaz de reagir.
Suya respirou fundo, lutando contra a voz sombria. Olhou para o panda — ferido, sofrendo.
Ajoelhou-se.
Suya: — Me desculpa, pequenino…
Ela limpou os ferimentos, colocou ataduras e falou com carinho.
Uma presença suave tocou sua mente.
PANDU (voz mental): — Obrigada, humana… sua bondade é verdadeira. Posso lhe conceder um desejo… apenas um.
A arqueira ficou sem palavras. O panda ergueu a cabecinha e, com grande esforço, murmurou:
Pandu:— …mamãe…
Isso partiu o coração de Suya. Ela o colocou nas costas, protegendo-o. A sombra que a atormentava se dissolveu, revelando-se um diabrete que queimou ao cair em um dos rios de fogo.
O espectro do pai de Daphine se desfez como cinzas levadas pelo vento quente do inferno.
Mas a sombra da mãe dela não desapareceu — pelo contrário.
A figura se distorceu, os olhos vazios se abriram em chamas escuras, os dentes se alongaram, transformando-se num monstro feito de culpa e rancor.
Ela avançou contra Daphine.
Suya reagiu antes mesmo de pensar. Puxou uma flecha branca e luminosa — a Flecha da Esperança — que acendeu toda a caverna infernal.
Suya: — Fique longe dela!
A flecha atravessou o peito da criatura, abrindo um clarão. Daphine recobrou os sentidos no exato instante em que a sombra recuou, vacilante.
A maga, ainda tremendo, fechou a mão ao redor de sua energia arcana.
Então ela encarou sua “mãe”.
Daphine (com firmeza): — Você não é minha mãe. Você é só a dor que eu carreguei por tempo demais.
A criatura rugiu, investindo.
Sombra:— Inútil… fraaca… nunca deveria ter nascido…
Daphine:— Eu sobrevivi ao que vocês fizeram.
E vou sobreviver a você também.
Com um gesto, ela concentrou sua magia sombria em uma esfera pulsante e esmagou a sombra entre os dedos. A criatura gritou, rachando como vidro, até se desfazer em fumaça negra que se dissipou no ar.
Quando desapareceu, ela e Suya foram envolvidas por vento e poeira…
e perceberam onde estavam.
Túmulos antigos, lápides quebradas e estátuas demoníacas preenchiam a paisagem. O ar era pesado, como se milhares de almas observassem.
Um diabrete, o mesmo que havia atormentado Suya, pousou sobre uma lápide torta.
Diabrete:— Vocês não deveriam estar aqui.
Se continuarem fazendo barulho… vão acabar acordando ela.
Suya ergueu o arco, tensa.
Suya:— Ela… quem?
O diabrete abriu um sorriso cheio de dentes afi ados.
Diabrete:— A mãe de todos os monstros.
Daphine engoliu seco.
Suya:— Esse lugar é…?
O diabrete a interrompeu, rindo.
Diabrete:— A sexta camada do inferno, sua tola. Para sair, terão que subir todas as outras.
Mas não vão conseguir.
Ninguém consegue.
Ele riu, o som ecoando como metal quebrado.
Diabrete (desaparecendo):— Vocês nunca sairão daqui…
A risada dele ainda ecoava quando Daphine desabou de joelhos, tremendo. Suya a segurou pelos ombros.
Suya:— Ei… acabou. Eles já foram. Você está segura, Daphine. Estou aqui.
Foi então que uma luz branca surgiu atrás delas.
As almas verdadeiras dos pais de Daphine apareceram — frágeis, espectrais, porém agora com olhares gentis, arrependidos.
Suya imediatamente ergueu o arco, mas os espíritos levantaram as mãos num gesto de paz.
Pai (alma):— Filha…
Finalmente conseguimos encontrá-la…
Mãe (alma):— Nunca nos perdoamos pelo que fizemos.
Fomos vendidos como escravos… e morremos na imundície de um mercado.
Mas nada foi mais terrível do que ter vendido você, nossa própria filha.
Daphine apertou os olhos. Lágrimas escorriam.
Daphine:— Eu… eu perdoo vocês.
Ela respirou fundo.
Daphine:— Não para aliviar a culpa de vocês…
mas para libertar a mim mesma.
Os espíritos sorriram, já desfazendo-se em partículas de luz.
Mãe (alma):— Você se tornou mais forte do que sonhamos.
Adeus, querida…
Pai (alma):— Caminhe livre, Daphine.
E então desapareceram.
Suya enxugou discretamente os olhos e olhou para o pequeno panda em suas costas.
Ele parecia cada vez mais translúcido, como se estivesse esmaecendo.
Suya, suavemente: — Pandu… eu quero usar meu desejo.
Por favor…Nos leve para onde o ponteiro do anel-bússola aponta; para o noroeste.
O filhote brilhou, uma luz intensa envolveu as duas, preenchendo todo o cemitério infernal.
Quando a claridade se dissipou…elas estavam em um campo aberto, de grama alta que balançava sob o vento frio do norte. Um céu azul imenso se estendia acima delas. Uma estrada simples corria perto do campo.
Era sereno. Limpo. Silencioso.Livre.
O panda emitiu um pequeno som fraco.
Seu corpo começou a se desfazer em faíscas douradas que subiram lentamente, como poeira estelar.
Até formar… uma constelação no céu.
Uma voz suave tocou o coração de Suya, como um sussurro quente.
Pandu (voz distante): — Adeus, mamãe…
E então desapareceram as luzes.
Suya ficou em silêncio por longos segundos… apenas sentindo a brisa tocar seu rosto.
Ao lado, Daphine apertou sua mão.
Daphine: — Ele… descansou.
E salvou a gente.
Suya assentiu, firme, limpando as lágrimas antes que caíssem.
Suya: — Vamos seguir em frente.
Daphine e Suya avançavam por um vasto campo verde, onde a relva ondulava como um mar tranquilo e flores silvestres pintavam o chão com cores vivas. Haviam caminhado por horas, guiadas pela estrela-guia, visível tanto sob o sol quanto sob a lua. Ela não permanecia fixa no céu; arrastava-se lentamente para o norte, como se chamasse por elas.
O som de rodas quebrando o silêncio chamou a atenção das duas. Uma carroça cruzou o campo, puxada por um cavalo cansado. À frente, um soldado vestindo uma armadura de prata reluzente conduzia o veículo. Atrás, amarrada com cordas grossas, seguia uma jovem mulher.
Suya franziu o cenho, o olhar afiado como a ponta de suas flechas.
Suya: — Daphine… temos que ajudá-la.
A maga nem diminuiu o passo. Daphine: — Não vamos nos meter nos problemas dos outros — respondeu, fria. — Já temos o suficiente para lidar.
A carroça continuava se afastando, levando a prisioneira consigo.
Suya não esperou mais. Avançou alguns passos, puxou o arco e disparou. A flecha cortou o ar com precisão cirúrgica, atingindo a roda da carroça e forçando-a a parar sem ferir a mulher.
O soldado desceu da carroça com fúria estampada no visor. Sacou a espada e avançou sem aviso.
Daphine: — Ótimo… — suspirou Daphine, erguendo as mãos. — Lá vamos nós de novo.
A lâmina desceu como um raio, mas Suya rolou para o lado. Daphine se posicionou ao seu lado, os olhos brilhando com magia. A luta começou feroz. A armadura do soldado era quase impenetrável, cada golpe ricocheteando como se atingisse pedra viva.
Foi então que um terceiro vulto surgiu atrás delas.
aventureiro: — Ei! — gritou um aventureiro, empunhando uma espada de duas mãos. — Parece que vocês estão precisando de ajuda!
Mesmo com três combatentes, o soldado se mantinha firme. Suya rangeu os dentes, puxou uma flecha de ponta ácida e mirou uma fresta vulnerável na articulação da armadura. O disparo acertou em cheio. O metal chiou, borbulhou… e começou a derreter. O soldado caiu de joelhos, a armadura se desfazendo no chão como cera.
Ofegantes, as três se aproximaram da mulher e cortaram suas amarras.
Então perceberam.
Os olhos dela não refletiam luz comum. Suas pupilas eram estrelas. O vestido, bordado com fios cintilantes, parecia conter o próprio céu noturno.
O coração de Suya acelerou. — Ela está ligada à estrela-guia… pensou.
Instintivamente, ergueu o olhar. No alto, a estrela continuava sua lenta travessia para o norte, como uma estrela cadente que se recusava a desaparecer.
Mulher Estrela: — Obrigada… — disse a mulher, com uma voz suave e distante.
Antes que pudessem responder, o metal atrás delas rangeu.
A armadura caída começou a se mover.
Sem um corpo dentro, as peças se ergueram sozinhas, encaixando-se como partes de um quebra-cabeça profano. Dois olhos vermelhos se acenderam no elmo vazio. A espada que Suya segurava foi arrancada de suas mãos, puxada como por um ímã, retornando ao cavaleiro amaldiçoado.
Aventureiro:— Isso não é bom… — murmurou o aventureiro.
Ele se adiantou. — E acho que já estou envolvido demais para recuar agora.
Empunhando sua espada de duas mãos, o aventureiro avançou sem hesitar.
Daphine lançou um olhar carregado para Suya.
Daphine: — Eu avisei que não devíamos ter nos envolvido.
Suya revirou os olhos, tensa.
Suya: — Ok, ok… você tinha razão. Mas agora precisamos acabar com essa coisa!
Toya atacou com força devastadora, mas a armadura era rápida demais. Em um golpe preciso, o cavaleiro cortou a perna do bárbaro, que caiu ao chão com um grito rouco.
Suya: — Cuidado! — gritou ela, Desesperada, disparou outra flecha ácida. Mas algo deu errado. A flecha se desfez no impacto, e os estilhaços voltaram contra ela, atingindo seu rosto.
Suya: — Aaaah! — o grito de Suya ecoou pelo campo enquanto caía de joelhos, tomada pela dor.
Daphine sentiu o sangue gelar. Seus olhos se incendiaram.
Daphine: — Chega, hora de acabar com isso de vez.
Ela ergueu ambas as mãos e liberou toda sua magia. Um tornado de fogo se formou ao redor da armadura, girando com violência. O metal amaldiçoado não resistiu. Derreteu, retorceu-se e, por fim, desabou em silêncio.
O campo voltou a ficar quieto, exceto pelos gemidos de dor.
Daphine correu até Suya e começou a enfaixar cuidadosamente o ferimento em seu rosto. Ao lado, a Mulher-Estrela ajoelhou-se junto de Toya, usando tecidos luminosos para estancar o sangue e cuidar do coto da perna perdida.
A dor era insuportável. Suya apertou os dentes, lágrimas escorrendo.
Suya: — Daphine… pega a joia… aquela que o Flopp me deu…
A maga assentiu, retirou a joia e a quebrou entre os dedos.
Uma luz suave explodiu, e Flopp surgiu diante delas. Mas algo havia mudado. Ele parecia mais alto, mais firme… quase como um sabio gnomo.
Ao ver o estado de Suya, cruzou os braços, irritado.
Flopp: — Vocês não conseguem ficar longe de uma tragédia por cinco minutos?
Mesmo reclamando, aproximou-se dela e retirou uma pequena poção.
Flopp:— O sábio gnomo me deu isso. Era pra emergências. Claramente… esta é uma.
Flopp ajudou Suya a beber. A poção brilhou ao tocar seus lábios. Em segundos, a dor cessou. A pele ferida se restaurou, lisa e reluzente, e sua beleza tornou-se ainda mais marcante, quase etérea.
Suya tocou o rosto, incrédula.
Após a batalha, a noite se aproximou lentamente. Suya, Flopp e a Mulher-Estrela montaram acampamento, enquanto o silêncio da floresta envolvia o grupo, eles descasaram sobre as estrelas.
Na manhã seguinte, a Mulher-Estrela havia se retirado para buscar ervas para o chá. Durante sua ausência, o homem que os acompanhava resolveu se apresentar de forma adequada. Ele apoiava o corpo sobre a espada, usando-a como muleta; onde antes havia uma perna, restava apenas um cotoco envolto em faixas.
Toyazin:— Meu nome é Toyazin. Estava a caminho da cidade. E vocês?
Suya: — Me chamo Suya — respondeu a arqueira. — E esta é Daphine.
Toya observou Suya com atenção e, em seguida, desviou o olhar para Daphine. Seu semblante endureceu. Havia ali um preconceito evidente; ele não gostava de magos nem de bruxas.
Daphine percebeu o olhar no mesmo instante. Seus olhos se estreitaram, e por um breve momento ela considerou usar o Oriundo sobre ele. No entanto, lembrou-se de que Toya havia sido de grande ajuda e decidiu mantê-lo por perto, por conveniência, pelo tempo que fosse necessário.
Foi então que um grito ecoou pela floresta.
Os quatro se entreolharam. A Mulher-Estrela não retornava havia tempo demais.
Suya: — Acho que ela está em perigo — disse Suya, já se levantando. — Vamos.
Eles deixaram o acampamento e seguiram o rastro. Toya ficou para trás devido à dificuldade para caminhar, e Flopp permaneceu com ele para ajudá-lo. Suya e Daphine seguiram à frente, enquanto os dois vinham atrás, mais lentamente.
Logo chegaram a uma aldeia.
Na praça central, moradores se aglomeravam com forcados, pás e tochas nas mãos, gritando em uníssono:
Homem Campones:— Matem a bruxa! Mulher camponesa: — Queimem-na viva!
Quando Suya e Daphine avistaram a figura presa a uma tora de madeira, o choque as paralisou por um instante. Era a Mulher-Estrela.
Um guarda lançou um corvo aos céus para pedir reforços. Suya reagiu sem hesitar, disparando uma flecha que atravessou o ar e impediu a ave de escapar.
O guarda voltou-se furioso para elas.
Guarda: — Quem são vocês? Estão do lado da bruxa?
Os camponeses se calaram, encarando-as com desconfiança. Nesse momento, uma garotinha vestindo um vestido amarelo saiu de uma das casas e se aproximou, observando-as com cautela.
Garota:— O que vocês querem aqui?
Suya: — Por que prendem uma mulher inocente? — perguntou Suya.
O soldado cuspiu no chão.
Soldado: — Ela é uma bruxa. Faz magias estranhas e move as estrelas com seu poder demoníaco. Veio do céu.
Suya: — Como algo demoníaco pode vir do céu? — retrucou Suya. — Vocês são cegos? Olhem para ela. Ela não é um demônio.
Um murmúrio de dúvida percorreu a multidão, até que a menina do vestido amarelo falou: — Até anjos podem se tornar demônios.
O momento de hesitação se quebrou com um grito: — Vamos queimá-la!
As tochas tocaram a madeira, e o fogo começou a subir. A Mulher-Estrela gritou.
Percebendo que o diálogo não seria suficiente, Suya e Daphine agiram. A maga conjurou um feitiço para apagar as chamas, enquanto Suya lançou flechas contra os guardas, forçando-os a recuar. Em seguida, Daphine levitou a Mulher-Estrela para longe da tora, trazendo-a para perto de Suya.
Mais soldados surgiram. Um dos camponeses, tomado pela fúria, correu à frente segurando uma dinamite e a lançou em direção a elas.
Garota:— Saiam todos! — gritou a menina do vestido amarelo.
Seu nome era Yuimi, filha de um dos moradores da vila, apesar da sua aparencia havia sabedoria em seus olhos, ela então correu e agarrou a dinamite contra o próprio peito. Daphine, agindo por instinto, levitou Suya e a Mulher-Estrela para fora da aldeia.
Um estrondo ensurdecedor ecoou.
Yuimi explodiu junto com a dinamite, tornando-se uma heroína ao impedir que a explosão destruísse o vilarejo.
Os camponeses, enfurecidos, avançaram com lanças e forcados, gritando:
— Matem as adoradoras do demônio! — Matem o demônio!
Flutuando, Suya e Daphine conseguiram escapar. Exaustas, montaram um novo acampamento à distância.
Minutos depois, Toya e Flopp chegaram.
Flopp:— Vocês nos deixaram para trás — reclamou Flopp.
Suya: — Desculpa — respondeu ela — Tivemos um problema. Não havia tempo para esperar.
Aquela noite seguiu calma. Flopp ajudou a montar a fogueira, enquanto Suya preparava a refeição com a Mulher-Estrela. Um barulho na mata fez Suya ficar alerta, mas era apenas um esquilo que se aproximou.
Suya:— Espera… eu te conheço.
Logo atrás dele surgiu Soso, a menina-coelho.
Soso: — Até que enfim achei vocês!
Ela sentou-se ao lado de Suya, sorridente. Daphine observava à distância, incomodada. O ciúme e a possessividade fervilhavam dentro dela. Em silêncio, levantou-se e se afastou.
Suya percebeu, mas decidiu dar espaço.
A Mulher-Estrela aproximou-se de Daphine.
Mulher estrela: — Você está bem?
Daphine: — Tanto faz — respondeu a maga.
Mulher estrela: — Quero agradecer. Você me salvou.
A Mulher-Estrela tocou as mãos de Daphine. Um brilho estelar suave percorreu seu corpo, restaurando sua mana e fortalecendo-a. — Este é o meu agradecimento — disse ela.
Daphine assentiu, e a Mulher-Estrela voltou ao grupo, e viu ela curar a perna de toya, com um cipo forte e magia estelar ela le deu uma nova perna.
Sozinha, a maga sussurrou para si mesma:
Daphine: — Não vou deixar que tirem a Suya de mim. Assim que encontrarmos Akla, usarei Oriundo nele e na Suya. Assim, ela nunca me deixará.
Ela não percebeu que Suya escutava, escondida atrás de uma árvore. O coração da arqueira se apertou. Sentiu-se traída.
Sabia que Daphine era forte demais para um confronto direto. Em silêncio, começou a traçar planos. Talvez pudesse roubar a chave de portal durante a noite. Ou, se necessário, impedir a maga antes que ela pudesse conjurar o Oriundo.
Suya também se lembrou de Toya. Ele odiava magos e observava Daphine com desconfiança. Uma aliança com ele poderia ser um plano B.
Decidiu permanecer em silêncio, observando cada gesto de Daphine. No primeiro sinal de hostilidade, agiria.
Quando voltou à fogueira, Flopp gritou: — Ei, maga fedorenta, vem comer!
Daphine foi arrancada de seus pensamentos.
Daphine: — Já disse para não me chamar assim.
Ela se sentou, e todos compartilharam da refeição.
Com a barriga cheia, foram dormir. Daphine conjurou uma grande tenda para abrigar a todos. A maga deitou-se ao lado de Suya. Soso dormia como uma criança, abraçada ao esquilo como se fosse seu brinquedo favorito. Toya descansava um pouco mais distante. Flopp ficou próximo de Suya, e a Mulher-Estrela ao lado de Toya.
A noite passou calma, sem incidentes.
No dia seguinte, Suya foi a primeira a despertar. A luz tímida da manhã ainda engatinhava pelo acampamento quando ela abriu os olhos. Por alguns instantes, ficou observando a maga, adormecida, a respiração tranquila contrastando com a inquietação que fervilhava dentro da arqueira. Então, em silêncio, Suya se levantou e deixou a tenda.
Pouco depois, Toyazin fez o mesmo. Os dois se encontraram ao lado da fogueira apagada e, juntos, reacenderam as chamas. O crepitar da lenha quebrava o silêncio da alvorada, enquanto a fumaça subia em espirais preguiçosas. Foi ali, à meia-luz do fogo nascente, que Suya decidiu falar.
Suya:— Toya, queria conversar contigo… sobre a maga.
Toyazin ergueu o olhar para ela, atento, enquanto Suya respirava fundo antes de continuar.
Suya:— Eu descobri que ela pretende me levar “de arrasta”, mais cedo ou mais tarde. E, como você odeia magos… que tal uma aliança?
Toyazin deixou escapar uma risada curta, quase sem humor.
Suya:— Você continuaria agindo normalmente — prosseguiu Suya, firme. — No instante em que ela mostrar as garras, eu revido. Mas quero sua ajuda nisso. Não esqueça: ela só te mantém por perto porque você serve como escudo.
Toyazin ficou sério.
Toyazin: — Eu sei disso.
Suya:— Ela está nos usando como peões — completou Suya, a voz baixa, mas afiada.Toyazin:— Ainda detesto magos — respondeu ele, com franqueza.
Suya inclinou levemente a cabeça.
Suya:— Se ela tentar algo contra você, eu te ajudo. Então… topa?
A arqueira estendeu a mão, oferecendo um acordo silencioso, selado apenas pela confiança e pela necessidade.
Toyazin olhou para a mão por um segundo, depois apertou-a com decisão.
Toyazin:— Topado.
O fogo estalou mais alto, como se aprovasse o pacto recém-nascido.
Aos poucos, Soso despertava do sono, espreguiçando-se ao lado do esquilo que bocejava como se imitasse a dona. Logo depois, a Mulher-Estrela saiu de sua quietude luminosa, seguida por Daphine e Flopp. Em pouco tempo, todos estavam reunidos ao redor da fogueira, partilhando um café da manhã simples, aquecido mais pela companhia do que pelas chamas.
A conversa corria leve, típica de um começo de dia sem presságios, quando um som cortou o ar feito lâmina. Um apito longo, metálico, impossível de ignorar.
Suya ergueu a cabeça de imediato.
Suya:— Um trem… nessas regiões? — murmurou, franzindo o cenho. — Estranho.
Daphine: — Um trem? — Daphine perguntou, confusa. — O que é isso?
Flopp já estava de pé, os olhos brilhando.
Flopp: — Ora, por que não vamos lá descobrir?
Antes mesmo que alguém respondesse, a Mulher-Estrela já caminhava na direção do som. O grupo a seguiu e, entre as árvores, surgiu o trem mágico, imponente e silencioso, como se estivesse aguardando apenas por eles.
Assim que se aproximaram, uma bela dama desceu de um dos vagões.
O Bilheteiro, com uniforme impecável e olhar atento, examinou o grupo.
Bilheteiro: — Vão embarcar?
Suya: — Para onde esse trem vai? — perguntou Suya.
Bilheteiro: — Para o norte, senhorita. — Ele sorriu de lado. — A passagem custa duzentas dimas.
Suya lançou um olhar rápido para a maga.
Suya: — Você pode comprar minha passagem?
Toyazin: — Eu… não tenho esse valor — respondeu Toyazin, seco.
Enquanto ainda decidiam, a Mulher-Estrela já havia entrado e pago a própria passagem. O Bilheteiro voltou o olhar para os demais, paciente, mas firme.
Sem esperar mais, Suya pagou a passagem dela e de Flopp. Em seguida, a maga fez o mesmo por si e por Toyazin. Soso, tranquila, pagou a própria passagem. Um a um, todos embarcaram.
Assim que o último entrou, o Bilheteiro anunciou:
Bilheteiro: — Sintam-se à vontade para explorar o trem. Cada vagão é diferente e contém um mundo único. Temos vagões de praia, biblioteca, restaurantes, quadras esportivas… O que desejarem. Basta colocar a mão na maçaneta e imaginar o lugar. O vagão se adaptará a vocês.
Os olhos de Soso brilharam. Sem hesitar, ela seguiu para o vagão de arte. Lá dentro, telas em branco flutuavam suavemente, tintas de todas as cores repousavam em frascos cintilantes, livros de arte de outras dimensões enchiam prateleiras infinitas, e quadros famosos aguardavam, silenciosos, por novas ideias.
Suya e Daphine ficaram paradas por alguns instantes, indecisas, tentando compreender a lógica daquele lugar mutável.
— Para onde você vai? — perguntou Daphine.
— Ainda estou tentando entender como isso funciona — respondeu Suya.
Flopp, porém, já havia desaparecido. Ninguém percebeu para qual vagão ele tinha ido.
Depois de alguns minutos, Suya e Daphine decidiram entrar no vagão da praia. Toyazin, que permanecera em silêncio até então, apenas as seguiu.
O sol dourado, a areia quente e o som das ondas criaram um contraste imediato com o mundo lá fora. Suya e Daphine começaram a brincar pela areia, rindo como se não houvesse ameaças no horizonte. Num impulso travesso, Daphine usou sua levitação e lançou Suya com força em direção ao mar.
Suya: — Daphine! — Suya gritou, rindo, antes de cair na água.
Ela acabou atingindo alguém que surfava habilmente sobre uma onda.
Flopp: — Ei! — protestou Flopp, quase perdendo o equilíbrio. — Isso não estava no combinado!
Suya: — Flopp?! — Suya arregalou os olhos e caiu na gargalhada. — Desculpa!
Antes que pudessem dizer mais alguma coisa, uma onda gigantesca se ergueu e engoliu os dois. Submersos, enquanto tentavam se orientar, algo brilhou no fundo do mar. Flopp apontou e nadou até lá, retornando com esforço, carregando um baú antigo.
Com dificuldade, os dois levaram o baú até a praia. Daphine, intrigada, aproximou-se. Juntos, abriram a tampa com cuidado. Dentro, havia três papiros: um destinado à maga, outro a Suya e o terceiro a Flopp.
Enquanto os três se entreolhavam, cheios de perguntas e inquietação, Toyazin havia seguido para outro vagão.
Ao atravessar a porta, encontrou-se diante de um belo bar, ele sentou -se ali e aproveitou a bebida a musica….
No vagão onde Soso estava, era uma galeria de arte, com telas em brancos, obras de artes nas paredes de famosos de varias dimensoes e epocas diferentes, traços unicos, ate que as pinturas começaram a se distorcer. As cores borravam, as tintas escorriam pelas telas como lágrimas, e os pincéis ganharam vida, dançando no ar com intenção própria.
O trem inteiro começou a ranger. Sons estranhos ecoavam de todos os vagões, como um lamento coletivo.
Na praia, o céu se fechou em nuvens densas. As ondas ficaram furiosas, quebrando com violência. Foi então que Suya e Daphine perceberam que algo estava terrivelmente errado.
Num lampejo súbito, como um relâmpago surgindo do mar, uma criatura emergiu das águas e, antes que qualquer um pudesse reagir, agarrou Suya e a arrastou consigo para as profundezas.
Quando Suya despertou, a primeira coisa que sentiu foi o peso das amarras. Seus braços estavam presos, o corpo imóvel, e ao redor não havia nada além de escuridão. Nenhuma fresta de luz, nenhum som familiar. Apenas o balanço suave do trem, agora sinistro, como um coração batendo fora do ritmo.
Ela tentou se mexer. Inútil.
Suya: — Meu arco… — murmurou, a voz falhando. — Onde ele está? Onde eu estou?
O silêncio respondeu por um instante, até ser cortado por um sussurro tão próximo que arrepiou sua pele.
Desconhecido: — Shhh… — disse alguém, em voz baixa. — Ele vai ouvir. Fique quieta.
O coração de Suya acelerou.
Suya: — Quem é você? — ela perguntou, forçando a calma. — Onde estamos?
Nenhuma resposta veio de imediato, apenas o rangido distante do vagão, como se algo se movesse do lado de fora… ou acima delas.
Enquanto isso, em outro ponto do trem, Soso enfrentava o caos em seu próprio vagão. As tintas vivas se lançavam contra ela como serpentes coloridas, pincéis cortavam o ar com cerdas afiadas, e as telas distorcidas pareciam gritar sem som. O esquilo saltava de um lado para o outro, desviando por instinto, enquanto Soso lutava para conter aquela arte enlouquecida.
Em outro vagão, Toyazin combatia as armaduras vivas. As placas de sicornia rangiam a cada movimento, espadas se erguiam sem mãos, escudos avançavam como se tivessem vontade própria. Toya recuava e atacava, os músculos em tensão, sabendo que um erro seria o suficiente para cair.
No antigo vagão da praia, Daphine e Flopp haviam sentido o mesmo pressentimento. A porta estava trancada. Sem hesitar, Daphine concentrou sua energia e arrebentou a passagem com um golpe de poder. Do outro lado, encontrou o mesmo cenário que Toyazin enfrentava.
Daphine: — Toya! — gritou ela, lançando-se para ajudá-lo.
Juntos, conseguiram conter momentaneamente as armaduras, abrindo espaço para respirar.
Flopp, inquieto, fechou os olhos e tentou se teleportar até Suya. A magia do trem, porém, distorcia tudo. Em vez disso, ele surgiu no vagão de Soso, quase tropeçando entre tintas vivas e telas pulsantes.
Flopp: — Era pra eu ir parar em outro lugar… — resmungou, já se preparando para lutar.
O trem inteiro parecia tomado por uma vontade própria, transformando cada vagão em uma armadilha, cada desejo em um risco. Separados, confusos e cercados por ameaças que não deveriam existir, todos lutavam não apenas contra monstros, mas contra o próprio trem, que agora deixara de ser passagem… e se tornara predador.
Suya permaneceu imóvel no chão frio do vagão. Com os pés e as mãos amarrados, tudo o que lhe restava era respirar com cuidado e observar. A escuridão era espessa, quase viva, e o ar cheirava a ferro queimado e medo antigo. Cada balanço do trem fazia as cordas apertarem um pouco mais, lembrando-a de sua impotência momentânea. Ainda assim, sua mente trabalhava incansável, desenhando possibilidades, calculando riscos, procurando qualquer falha naquele pesadelo sobre trilhos.
Foi então que a escuridão começou a se dissipar, como fumaça puxada por um fole invisível. Uma luz avermelhada invadiu o vagão, pulsante, cruel. O maquinista surgiu das sombras. Alto, magro demais, com um sorriso torto que não alcançava os olhos. Seus passos ecoavam como marteladas no silêncio tenso.
Sem dizer palavra, ele agarrou uma das jovens amarradas ali junto de Suya e dos outros prisioneiros. A moça começou a se debater, o pânico rompendo-lhe a garganta.
Mulher: — Não! Por favor! Solta! Alguém me ajuda! — ela gritou, a voz quebrada em desespero puro.
O maquinista inclinou a cabeça, divertido.
Maquinista (corrompido): — Venha… é a sua vez, garota.
Mulher: — NÃO! EU NÃO QUERO MORRER! — o grito ecoou pelo vagão, atravessando carne e ossos.
Maquinista (corrompido): — Não adianta gritar — disse ele, com um riso baixo e áspero. — Você vai servir de comida para ele.
O coração de Suya afundou. Ela permaneceu em silêncio, os dentes cerrados, enquanto assistia ao homem arrastar a moça até a fornalha aberta no fundo do vagão. O fogo lá dentro rugia como uma besta faminta. Rindo, o maquinista a arremessou para dentro, como se fosse apenas mais um pedaço de combustível.
O grito cessou de forma abrupta.
Um silêncio horrorizado tomou conta do lugar. Alguns prisioneiros choravam baixinho. Outros apenas encaravam o vazio, os olhos mortos antes mesmo do corpo.
Suya: — Quem é você? — a voz de Suya saiu firme, apesar do terror que lhe queimava o peito. — Por que está fazendo isso?
O maquinista virou-se lentamente.
Maquinista (corrompido): — Calada, mulher — rosnou. — Se não quiser ser a próxima a alimentar meu mestre.
Suya: — Quem é o seu mestre? — insistiu Suya.
O sorriso dele se alargou de forma doentia.
Maquinista (corrompido):— O trem. Ainda não percebeu? Todos vocês serão devorados por ele. — Ele soltou uma gargalhada estridente. — Muahahaha!
Foi então que outro corpo foi jogado ao chão do vagão, com brutalidade. Suya reconheceu de imediato.
Suya: — Toya…? — sua voz falhou.
Toyazin gemeu, tentando se orientar.
Toyazin: — Suya? Onde estamos? O que está acontecendo?
Suya:— Fique calmo — disse ela, apesar do coração disparado. — Vamos sair daqui. Você consegue se arrastar até mim?
Ele assentiu com dificuldade e começou a se mover, centímetro por centímetro. Suya fez o mesmo, ignorando a dor nos pulsos e tornozelos.
Suya: — Você tem algo aí que possa cortar as cordas? — sussurrou ela.
Toyazin olhou em volta e notou um pedaço de metal esquecido num canto, provavelmente parte do trem.
Toyazin:— Ali… perto de você — murmurou. — Use aquilo nas minhas cordas.
Com esforço extremo, Suya se arrastou, pegou o metal e voltou até Toya. As mãos tremiam enquanto ela serrava as cordas. Quando as mãos dele ficaram livres, Toyazin libertou Suya rapidamente.
Passos se aproximavam.
Eles fingiram estar presos novamente, observando o maquinista retornar para buscar outro passageiro. O desespero tomou conta de Suya. Ela não podia permitir que aquilo continuasse.
Antes que se movesse, Toyazin se lançou contra o maquinista, agarrando-o com toda a força que lhe restava.
Toyazin: — CORRE! — gritou ele.
Suya se preparou para agir… e então o tempo parou.
Tudo ficou suspenso. O fogo congelou, as partículas de poeira ficaram imóveis no ar. Em câmera lenta, uma águia verde, envolta em relâmpagos, surgiu diante dela. Raios escapavam de suas asas, e seus olhos brilhavam como estrelas antigas. A criatura voou diretamente para Suya e atravessou seus olhos.
O choque foi absoluto.
Uma onda de poder percorreu seu corpo, fazendo cada nervo arder. Uma voz firme, profunda e masculina ecoou dentro de sua mente.
Sábio Alado: — Não tenha medo, criança. Agora você é minha campeã. Eu sou aquele que vocês chamam de Sábio Alado.
Suya: — Você… — Suya pensou, atônita. — Você estava nos meus sonhos. Foi você quem alertou sobre a Noite Mais Escura.
Sábio Alado: — Correto. Meu nome é Ekin — respondeu a voz. — Eu te ajudarei a vencer. Respire fundo. Feche os olhos. Agora, abra-os devagar. Você verá através dos meus olhos.
Suya obedeceu.Quando abriu os olhos, o mundo mudou. Ela enxergava como uma águia, como o próprio Sábio Alado. Viu além das formas, além da carne. Enxergava a essência. O maquinista era um núcleo de corrupção viva, e o trem inteiro estava impregnado daquela aura maligna, como um parasita , pulsando como um organismo faminto.Asas de energia, semelhantes às de uma águia branca, irromperam de seus olhos. Num instante, Suya avançou como um relâmpago vivo. Aos olhos de Toya e dos prisioneiros, tudo aconteceu em frações de segundo.
Ela libertou os prisioneiros. Recuperou seu arco. E então Ekin o tocou.
Pequenas estrelas, que não pertenciam a constelação alguma, fundiram-se ao arco, transformando-o. Ele pulsava agora com poder estelar bruto, assim como ela.
Suya: — A Flecha da Esperança… — murmurou Suya.
Sábio Alado: — Não mais — corrigiu Ekin. — Agora ela se chama Supernova.
Suya disparou.
A flecha deixou um rastro de partículas estelares, como poeira de estrelas rasgando o ar. Na ponta, uma estrela pura girava em silêncio. Ao atingir o maquinista, a luz o envolveu por completo. Não houve grito. Apenas purificação. A escuridão se dissipou dele… e do trem inteiro.
No mesmo instante, em outros vagões, a luz dourada percorreu os corredores. Os pincéis vivos caíram inertes aos pés de Soso. As tintas cessaram. As armaduras vivas se desfizeram em pó diante de Daphine. A espada que ameaçava a maga parou a poucos centímetros de seu rosto… e caiu.
O trem silenciou.
Todos respiraram aliviados.
E, no centro de tudo, Suya permaneceu de pé, arco em mãos, com o brilho das estrelas ainda refletido em seus olhos.
O maquinista, agora livre da corrupção, cambaleou alguns passos para trás. A aura sombria que antes o envolvia havia desaparecido por completo, revelando um homem exausto, com o olhar quebrado pelo peso do que lembrava.
Ele ergueu os olhos para Suya e Toya. Não havia mais riso, nem crueldade. Apenas culpa.
Maquinista: — Obrigado… — disse, com a voz trêmula. — Um parasita se infiltrou no trem. Tomou tudo… os vagões, os trilhos… e a minha mente. Eu via, mas não controlava. Sentia minhas mãos se moverem sozinhas. Era… horrível.
As pernas falharam. O maquinista caiu de joelhos diante deles, como se o corpo não aguentasse mais sustentar o fardo.
Maquinista:— Eu sinto tanto… — continuou, a voz embargada. — Cada passageiro… cada vida. Eu os ouvi gritar e não podia fazer nada. — As lágrimas começaram a cair, pesadas, marcando o chão. Maquinista: — Não há perdão suficiente para o que foi feito por meu intermédio.
Ele curvou a cabeça, os ombros sacudindo enquanto chorava, lamentando não apenas seus atos, mas as mortes que o parasita havia causado usando seu corpo como instrumento. Diante deles não estava mais um monstro… apenas um homem despedaçado, sobrevivente da própria culpa.
Suya: — Não adianta apenas lamentar pelas vidas que sofreram… — disse Suya, a voz baixa, ainda carregada pelo peso do que havia acontecido.
Um silêncio respeitoso caiu sobre eles. Nenhuma palavra parecia suficiente. Era um luto compartilhado, denso, que não pedia explicações.
Toyazin foi o primeiro a quebrá-lo.
Toyazin: — Senhor… — disse ao maquinista. — Por favor, volte para a cabine e continue seu trabalho. Chorar não vai trazê-los de volta.
O maquinista assentiu, ainda abatido, e seguiu em direção à frente do trem. Pouco depois, a porta do vagão se abriu novamente.
Daphine surgiu do outro lado, o semblante claramente preocupado. Porém, assim que seus olhos encontraram os de Suya, a apreensão deu lugar ao espanto.
Daphine: — Suya… — murmurou. — O que aconteceu com você? Seus olhos… eles têm estrelas.
Instintivamente, Suya se aproximou de uma superfície metálica polida. O reflexo devolveu-lhe uma imagem quase irreconhecível. Em suas íris, pequenas constelações se moviam lentamente, como um céu vivo. Ela tocou o próprio peito, sentindo ainda o eco daquele poder.
Suya: — O Sábio Alado… — disse com cuidado. — Ele me concedeu a capacidade de ver através dos olhos dele. Não foi só a minha mente que mudou. — Ela respirou fundo. — Se precisarmos dele outra vez, basta chamá-lo. Foi isso que ele me disse.
Daphine assentiu lentamente.
Daphine: — Entendo… — respondeu. — Mas o que exatamente aconteceu aqui?
Toyazin tomou a palavra: — O trem havia sido tomado por algum tipo de parasita. — Ele cruzou os braços. — Graças à Suya, ele foi derrotado. Foi tão rápido que parecia um raio. Eu só vi um rastro de energia passar por mim. Quando percebi, o maquinista já estava… normal. Quase normal. Ele se lembra de tudo que o parasita fez usando ele e o trem.
Antes que Daphine respondesse, uma voz ecoou pelos interfones dos vagões.
Maquinista: — Senhores passageiros, aqui é o maquinista. Tivemos um problema anteriormente, mas agora tudo está sob controle. Retomaremos nossa rota original. Estamos seguindo para o leste.
Suya trocou um olhar rápido com Daphine e Toya.
Daphine: — Mas… — Daphine franziu o cenho. — Quando embarcamos, não foi dito que o trem seguia para o norte?
Suya: — Foi, sim — respondeu Suya. — E se o parasita já estava aqui antes de embarcarmos… ele usava a rota para atrair novos passageiros. Combustível vivo.
Daphine: — É uma possibilidade — Daphine concordou. — Mas agora que estamos indo para o leste…
Toyazin, que observava em silêncio, aproximou-se da janela.
Toyazin:— Acho que não temos mais como voltar — disse ele, chamando a atenção das duas.
Suya: — Por quê, Toya? — perguntou Suya.
Toyazin: — Venham ver.
Suya e Daphine se aproximaram. Do outro lado do vidro, não havia campos, nem trilhos, nem céu conhecido. Estrelas se estendiam em todas as direções, e nebulosas coloriam o vazio.
Suya engoliu em seco.
Suya:— Estamos… no espaço.
Daphine, em vez de medo, deixou escapar um sorriso maravilhado.
Daphine: — Magnífico…
Enquanto o trem mudava de rota, seus vagões rangiam suavemente, como se a própria máquina pressentisse o que estava por vir.
Soso e Flopp voltaram a explorar o interior do trem, atravessando corredores metálicos até alcançarem o vagão-biblioteca, onde estantes altas balançavam discretamente ao ritmo dos trilhos. Toyazin seguiu na direção oposta, indo até um vagão repleto de equipamentos antigos e engenhocas improváveis. Ali, um mercador aguardava.
A voz do homem ecoou pelo trem como um anúncio encantado, chamando passageiros com promessas de artefatos jamais vistos. Foi o suficiente para atrair Suya e Daphine, que se aproximaram curiosas, observando objetos que pareciam pertencer a eras e mundos diferentes.
O trem seguia firme em seu destino quando algo perturbador cruzou a janela de um dos vagões.
Um grupo estranho se movia do lado de fora, acompanhando o trem com olhos de águia. Suya sentiu um arrepio. Aproximou-se da janela e então viu.
Uma pantera negra corria paralela aos trilhos. Sobre ela, um arqueiro de vestes sombrias mantinha o arco tensionado, a mira fixa diretamente nela. Antes que pudesse reagir, Suya viu o arqueiro sussurrar palavras proibidas ao arco.
A flecha estelar negra foi disparada.
Ela rasgou o ar e atingiu a lataria do trem com violência, espalhando uma onda de energia sombria. O arqueiro já preparava o segundo disparo quando Suya respondeu instintivamente, invocando sua Supernova. As duas flechas se encontraram no ar, colidindo em um choque absoluto de luz e escuridão.
A explosão iluminou os trilhos como um segundo sol.
Os passageiros que estavam próximos correram para ajudar a arqueira, mas não houve tempo. Pelo lado oposto do vagão, uma maga negra surgiu como uma sombra viva, atacando Toyazin e Daphine sem aviso.
Enquanto isso, no vagão-biblioteca, Soso e Flopp se viram presos. O sistema de segurança do trem havia sido ativado, selando portas e janelas. Cercados por livros antigos e símbolos arcanos, os dois procuravam desesperadamente uma forma de escapar.
Do lado de fora, Suya avançou novamente. Sua Supernova purificou o arqueiro sombrio e a pantera, ambos se dissolvendo em partículas de luz antes de desaparecerem por completo.
Sem hesitar, ela correu para ajudar Daphine e Toyazin.
A maga negra já havia invocado um T-Rex obscuro, uma criatura colossal formada por ossos e trevas pulsantes. Suya respirou fundo e lançou sua Flecha da Mente, um disparo espiritual capaz de penetrar a consciência do alvo.
A flecha atingiu diretamente a cabeça da criatura.
O monstro estremeceu… e obedeceu.
Suya montou no T-Rex e avançou, enquanto Toyazin lutava para sobreviver contra armaduras vivas animadas pela magia da maga. Daphine o auxiliava, conjurando feitiços defensivos, impedindo que ele fosse esmagado.
Guiando a criatura, Suya saltou da cabeça do dinossauro em pleno ar. No instante da queda, puxou o arco e liberou sua Flecha Supernova contra a maga negra.
A luz engoliu a sombra.
A inimiga se desfez em fumaça, e no mesmo segundo as armaduras perderam vida, caindo ao chão como carcaças vazias. O silêncio tomou o vagão, quebrado apenas pela respiração pesada do grupo após a batalha intensa.Ao longe, o trem desacelerava.
Seu destino surgia no horizonte.
A Faculdade Genius.
E com ela, o fio oculto da trama de Dexa começava a se revelar.
(Três Dias Antes…)
A Faculdade Genius
Uma android de cabelos curtos prateados, olhos azuis intensos e armadura roxa adornada com detalhes em vermelho foi convocada por uma entidade que existia além do tempo: o Sábio Alado.
Ela vinha de outro universo, chamada para deter aquilo que as profecias nomeavam como O Dia Mais Sombrio — a aniquilação completa da luz.
Seu corpo metálico e sua mente incompreensível materializaram-se em um mundo devastado pela guerra. Enfraquecida e confusa, foi encontrada por Dr. Ribby e acolhida pela Sociedade dos Gênios, um grupo que lutava para manter a ciência como o último bastião diante do caos.
Dexa.
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| Feita por Tony |
Foi na Faculdade Genius que ela deu seu primeiro passo rumo a um destino capaz de alterar eras. Utilizando uma relíquia ancestral chamada Ygg Moon — uma joia em forma de ovo que continha energia infinita — Dexa realizou, pela primeira vez, a Criação Espontânea de Vida.
Desse ato nasceu
Kohaku, um pequeno pássaro luminoso.
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| Imagem Criada por Tony |
O trem, ainda marcado pelas cicatrizes do ataque recente, começou a se recompor. A lataria ondulava como carne viva, fechando rachaduras, reconstituindo engrenagens, enquanto avançava por regiões impossíveis. Pelas janelas, os aventureiros viram paisagens se sucederem como páginas viradas por uma mão invisível: a vastidão silenciosa da Biblioteca de Olimpia, as torres geométricas da Faculdade Genius, e, mais adiante, o brilho distante de um Templo Lunar suspenso entre constelações.
Foi então que o ar dentro do trem mudou.
Uma pressão suave, quase sagrada, envolveu a todos. A realidade pareceu afinar-se como um véu, e a voz do Sábio Alado ecoou não nos ouvidos, mas diretamente na consciência do grupo. Seus olhos se perderam em luz, e uma visão compartilhada tomou forma.
Eles viram os três locais ao mesmo tempo.
A Biblioteca ardia sob o avanço de criaturas sombrias que rastejavam entre estantes infinitas, tocando pergaminhos vivos, corrompendo narrativas inteiras. Cada livro que tombava liberava ecos de memórias, risos, dores e sonhos.
Sábio Alado: — Se a Biblioteca queimar, advertiu o Sábio, vidas inteiras de Olimpia serão corrompidas. Cada ser vivo possui sua própria história, e ali repousam todas elas. Não são apenas registros. São existências.
A visão se deslocou.
Na Faculdade Genius, sombras mecânicas se infiltravam entre laboratórios e cúpulas de energia. Torres de dados ruíam, autômatos enlouqueciam, e fórmulas brilhantes se apagavam como estrelas mortas.
Sábio Alado: — Se a Faculdade cair, continuou o Sábio Alado, todo o conhecimento já compartilhado com o mundo será extinto. Tecnologia, ciência, progresso… tudo retornará ao vazio.
Por fim, o Templo Lunar.
Suspenso no firmamento, círculos rúnicos giravam lentamente enquanto criaturas feitas de noite tentavam alcançar os altares. As estrelas do templo ainda ardiam, mas tremulavam, como velas à mercê do vento.
Sábio Alado: — Enquanto a luz do Templo permanecer acesa, a escuridão não reinará, disse o Sábio, com gravidade. Mas se essas estrelas forem apagadas… não haverá amanhecer.
A visão se dissipou.
Nos vagões centrais, o guru repousava com serenidade ao lado de Dali, que saboreava tranquilamente seu chá de neko. Pequenas orelhas felinas surgiam acima de seus cabelos, balançando de forma quase distraída. A cena tinha algo de reconfortante e levemente cômico, como se o universo tivesse decidido oferecer um instante de leveza antes da tempestade.
O guru ergueu os olhos, profundos como constelações antigas.
Guru: — Antes de chegarem ao destino, vocês precisam se preparar. Toyazin: — Preparar? — murmurou ele. Guru: — Vocês precisam sobreviver ao simulado do trem. Se passarem, estarão aptos a enfrentar a noite mais escura que Olímpia já conheceu. Se falharem… suas almas permanecerão presas nestes vagões infinitos, viajando entre as estrelas para sempre.
O silêncio caiu como neve pesada.
Daphine, Toyazin e Suya Violet se entreolharam. Não havia espaço para hesitação. Apenas assentiram.
Então o simulado começou.
O chão vibrou. Das laterais metálicas surgiram golens de armaduras prateadas. Seus olhos brilhavam em um azul frio, e o som de suas lâminas sendo desembainhadas ecoou pelo vagão como um sino de guerra.
A batalha explodiu.
Suya quase foi arremessada para fora do trem em movimento. Seus dedos cravaram-se no piso com desespero. Um golem aproximava-se, espada erguida, pronto para o golpe final.
Foi quando ela se lembrou.
— SÁBIO ALADOOOO!
De seus olhos irromperam asas mágicas, translúcidas e luminosas, sustentando seu corpo no ar. A arqueira girou, firme, e disparou. A flecha atravessou o elmo do inimigo, que caiu com um estrondo metálico.
Enquanto isso, Daphine tentava proteger Toyazin. Lutavam lado a lado, mas os golens eram implacáveis. Um golpe preciso. Outro. Num instante cruel, ambos foram decapitados.
— NÃÃÃÃÃÃO!
O grito de Suya rasgou o vagão.
A energia em seu peito incendiou-se. Sua supernova despertou. A flecha disparada não era apenas luz, era constelação comprimida. Ela atravessou todos os golens de uma só vez, dissolvendo-os em partículas prateadas.
O simulado terminou.
Silêncio.
Daphine pairava ali, etérea. Toyazin também. Espíritos presos ao vagão.
Suya caiu de joelhos. Lágrimas quentes deslizavam por seu rosto. O guru fechou os olhos. Dali abaixou as orelhas felinas em sinal de luto.
Mas a noite mais escura ainda avançava.
Sobre a terra, espalhava-se como um véu sombrio. Cidades, templos, bibliotecas. Tudo começava a ser engolido. Apenas aqueles que ouviam a voz do Sábio Alado mantinham suas lamparinas acesas, pequenas estrelas humanas resistindo à escuridão.
O trem chegou ao Templo Lunar.
Guiada pelo Sábio Alado, Suya enfrentou sombras que serpenteavam pelas colunas antigas. Suas flechas reluzentes cravavam-se na treva, reacendendo as estrelas suspensas no teto do santuário.
Enquanto isso, na Faculdade dos Genius, Dexa, a androide, lutava contra dragões sombrios. Com Ymoon, ela ergueu as mãos e invocou shima enagas feitos de pura luz. Pequenos pássaros cintilantes voaram em direção às criaturas. Os dragões os devoraram… e começaram a brilhar por dentro. A escuridão foi sendo purificada até que suas escamas se tornaram douradas.
Suya, no templo, disparou sua supernova contra corvos gigantes envoltos em trevas. A explosão estelar os envolveu, e quando a luz cessou, as aves renasceram reluzentes, pousando ao seu redor como guardiões alados.
Mas não era apenas o templo ou a faculdade que tombavam.
Na terra inteira, lamparinas mágicas eram acesas. Cada chama, um ato de resistência.
Então algo aconteceu.
O Grande Sábio Alado uniu Dexa com Suya E, por um instante, o tempo suspendeu a respiração.
As duas se viram, não em carne, mas em consciência, conectadas pelo fluxo luminoso do Sábio.
O mundo ao redor silenciou, e o ar ao redor do trem ondulou, como se o próprio céu prendesse a respiração. A presença do Sábio Alado manifestou-se entre luz e silêncio, suas asas feitas de constelações abertas sobre o vazio.
Sua voz não soava apenas nos ouvidos, mas no âmago da alma.
Sábio Alado: — Minhas campeãs, preparem-se. A noite já estende seus dedos sobre Olímpia. Lembrem-se: juntas, vocês são mais do que luz… são aurora. Separadas, são chamas solitárias ao vento.
Ele fez uma breve pausa, e as estrelas ao redor pulsaram.
Sábio Alado:— Dexa. Suya. Confio a vocês o fardo e a esperança. Iluminem a noite. Tragam o amanhã de volta a Olímpia.
A conexão se abriu como um fio dourado entre mundos.
Dexa: — Onde você está, Suya? — a voz de Dexa ecoou, precisa, mas carregada de urgência.
Suya fechou os olhos por um instante, sentindo o templo pulsar sob seus pés.
Suya:— No Templo Lunar, — respondeu. — As estrelas ainda resistem, mas a escuridão avança.
Houve um breve silêncio, como o cálculo de uma rota impossível.
Dexa: — Então mantenha a chama acesa. — disse Dexa, com determinação firme. — Estou a caminho. Vou me juntar a você.
No alto, o Sábio Alado recolheu lentamente as asas, satisfeito.
Dexa e Suya se reagruparam sob um céu que parecia feito de vidro rachado. O vento trazia cinzas invisíveis. O mundo respirava com dificuldade.
O Sábio Alado ergueu-se diante delas e, com um gesto lento, abriu o passado como quem folheia um livro proibido.
A visão surgiu.
Elas viram o nascimento da escuridão.
Não era um monstro. Não era um rugido. Era uma fissura. Um pequeno ponto de sombra na tapeçaria das estrelas, crescendo em silêncio, alimentado por medo, abandono e escolhas mal resolvidas. A treva não gritava. Ela sussurrava.
A visão desfez-se como poeira luminosa.
Suya levou a mão ao arco.
Se eu usar minha Flecha do Passado junto com a Supernova… posso extinguir a escuridão antes que ela exista.
O pensamento brilhou como solução perfeita. Lógica. Direta. Definitiva.
Então, diante delas, surgiu Soso.
A menina coelho.
Seus olhos vermelhos antes vibrantes agora estavam turvos. Sua pele clara, que irradiava inocência, encontrava-se manchada por veios escuros que serpenteavam como rachaduras.
Suya sentiu o coração apertar.
Sem hesitar, puxou a Flecha do Passado.
— Eu vou consertar isso…
O disparo cruzou o tempo.
Mas mexer nas raízes da história não é como podar um galho.
A flecha atravessou a constelação do Coelho.
O céu estremeceu.
Uma a uma, as estrelas daquela raça se apagaram.
Soso olhou para Suya. Seus olhos voltaram a brilhar por um instante… e então ela se iluminou completamente, dissolvendo-se em partículas suaves que subiram ao céu.
Não houve grito, apena o silêncio.
A constelação inteira desapareceu.
Apenas uma coelha sobreviveu. Uma que não estava naquele tempo. Uma exceção perdida fora da linha dos acontecimentos.
Suya deixou o arco cair.
— Eu… eu matei você…
A intenção era purificar. O resultado foi extinção.
A culpa caiu sobre seus ombros como um manto de chumbo.
Foi quando o chão tremeu.
Lobos sombrios avançavam na direção dela, olhos ardendo em negro profundo.
E entre eles…
— Akla…
O lobo ergueu a cabeça. Seu pelo antes prateado agora era uma noite viva. Sua presença fazia o ar vibrar.
— Você também não… Akla, não…
Ele avançou. Seu uivo ecoou como trovão preso em garganta de tempestade.
Suya recuou, devastada.
Dexa aproximou-se. Seus passos eram firmes. Seus olhos, claros.
— Não é tempo para se afogar em culpa, arqueira. — Sua voz era firme, mas não fria. — Lembre-se do que o Sábio disse. Juntas somos mais fortes.
Suya ergueu o olhar.
Nos olhos de Dexa havia algo além de estratégia. Havia sabedoria compartilhada. Havia conexão. O mesmo fio dourado que as unia pelo Sábio Alado.
Suya respirou fundo e estendeu a mão segurando na da Dexa.
A luz explodiu ao redor delas.
Seus corpos fundiram-se em uma única forma. Um só corpo. Duas consciências. Como se carne e circuito, arco e cálculo, estrela e lógica se tornassem um mecanismo divino.
A entidade ergueu o arco ao céu.
— Por Soso.
— Por Akla.
— Por Olímpia.
A Flecha Supernova nasceu entre seus dedos.
Ela subiu, atravessando nuvens, rasgando dimensões, atingindo a constelação do Lobo.
O impacto não foi destruição.
Foi purificação.
A estrela negra reacendeu.
Akla ergueu a cabeça, seu pelo voltando a brilhar em prata viva. Um a um, os lobos transformaram-se em luz, uivando não mais em dor, mas em liberdade.
O brilho se espalhou pelo universo, desenhando uma nova Via Láctea onde antes havia trevas.
A constelação negra que pulsava em sombras foi consumida pela própria luz.
Não aniquilada, mas Purificada.
Entre a nova Via Láctea recém-nascida, onde antes havia cicatrizes de sombra, uma constelação começou a se desenhar.
Primeiro surgiu o arco.
Depois, a águia.
E, na ponta da flecha tensionada para sempre, uma estrela viva.
(imagem)
Era a Constelação de Suya Violet.
A arqueira celestial agora habitava o céu. Seu arco mantinha-se eternamente apontado para a Constelação do Lobo, onde Akla brilhava, não como criatura ferida, mas como guardião restaurado. Entre eles não havia mais dor, apenas direção. A flecha nunca seria disparada. Ela apenas lembrava.
Dexa também ascendeu.
Sua constelação formou-se em linhas precisas e luminosas, um símbolo de asas geométricas envolvendo um núcleo radiante. Não era apenas luz. Era cálculo divino. Era consciência transformada em estrela.
Ambas pairavam agora ao lado do Sábio Alado.
Não eram mais campeãs.
Eram iguais.
Deusas forjadas pela luz, pelas estrelas, pelo KOMOS, o tecido invisível que costura universos.
A missão em Olímpia havia terminado.
Suya desceu uma última vez ao plano onde tudo começara. Akla aproximou-se, seu pelo reluzindo como luar polido. Ele tocou a testa dela com a sua.
— Adeus, meu guardião — sussurrou Suya, a voz serena, mas carregada de eternidade.
O lobo uivou baixo. Não era lamento. Era promessa.
Ela se despediu dos que permaneceram. Dos templos. Das bibliotecas. Das lamparinas que ainda brilhavam nas mãos dos mortais.
Por fim, voltou-se para Dexa.
As duas ficaram frente a frente.
Não havia mais urgência entre elas. Apenas reconhecimento.
— Você foi minha força quando eu quase me perdi — disse Suya.
— E você foi meu coração quando eu precisei sentir — respondeu Dexa.
Suya ergueu o arco uma última vez e, com delicadeza, retirou uma pequena essência de luz da madeira estelar. Era uma centelha do vínculo que haviam criado.
Ela a colocou nas mãos de Dexa.
— Para que nunca esqueça que fomos uma só.
Dexa fechou os dedos sobre a essência, que se acomodou em seu núcleo como memória viva.
O Sábio Alado abriu então um portal. Não era um rasgo no espaço, mas um horizonte dobrando-se sobre si mesmo.
— O tempo chama por você, Suya — disse ele.
Ela respirou fundo.
— Olímpia não será esquecida.
E atravessou.
O portal se fechou em silêncio.
Do outro lado, o fluxo de CRONOS aguardava.
A aventura em Olímpia chegava ao fim.
Mas as estrelas sabem: fins são apenas portas com outro nome.
Nos vemos em Cronos....
(Continua)
Instagram dos jogadores:
Mestre da Mesa: @space.olimpia
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Soso: @sozo_ohayo

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