📜 AVISO IMPORTANTE – CAPÍTULO ESPECIAL 📜

Este capítulo não é como os outros.

Ele é uma homenagem viva, imaginada e guiada pelas asas da águia branca: Kosmo King. 🌌🎲

Foi através da criatividade e paixão desse grande mestre de RPG que esta aventura em Olímpia ganhou vida — e que eu, Suya Violet, pude vivenciar momentos inesquecíveis.

💫 A você, aventureiro, que também deseja atravessar o véu da realidade e explorar Olímpia, fique atento: ao final deste capítulo, você encontrará a chave secreta para acessar o Portal de Olímpia. Que sua jornada seja tão intensa quanto a minha!

Pois eu certamente vivi cada instante com emoção e gratidão.

✨ Mergulhe de coração aberto, aproveite cada cena e cada escolha…

Com carinho, Suya Violet 🏹💜

Agora, sem mais delongas...

🌟 Preparem seus corações, afiem suas armas e abram a mente.

Vocês estão prestes a testemunhar uma jornada única.

Fiquem agora com este capítulo especial vivido em Olímpia.

Que a aventura comece!

 A noite caía sobre a floresta quando Suya e Niele, após deixarem o lago para trás, seguiram mata adentro em busca de um local para descansar.

Suya: — Vamos montar acampamento aqui. Já está bem escuro e esse lugar parece seguro. Niele, procure por alguns galhos secos; eu vou acender a fogueira e preparar nossas camas improvisadas.

Niele soltou uma risadinha divertida.

Niele: — Suya, não precisamos improvisar. Eu trouxe algo para isso. Achei que poderia ser necessário caso ficássemos muito tempo fora.

Suya olhou curiosa para as mãos de Niele, que segurava dois pequenos cubos.

Suya: — E… o que seria isso?

Com um sorriso confiante, Niele jogou os cubos no chão. Em um piscar de olhos, duas barracas tecnológicas surgiram diante delas. Suya ficou surpresa e até um pouco assustada; nunca havia visto nada parecido.

Suya: — Como essas barracas couberam aí dentro?

Niele: — Tecnologia de nanorrobôs. Eles são microscópicos, mas extremamente resistentes. Como pesquisadora, precisei desenvolver um lugar prático para descansar, caso minhas pesquisas me levassem a lugares isolados. Sempre sonhei em usá-los em campo… e hoje vamos ter essa oportunidade. O melhor de tudo é que cada barraca tem um domo que mantém o interior aquecido e aconchegante durante a noite.

Suya estava impressionada.

Suya: — Que bela invenção, Niele! Isso teria sido muito útil na época de Grimor. Até mesmo exércitos inteiros poderiam se beneficiar.

Entrando em sua barraca, Suya encontrou iluminação suave, um saco de dormir já instalado e um espaço surpreendentemente confortável.

Ao deitar, mal podia acreditar que algo criado por nanorrobôs pudesse ser tão maleável e macio. Assim, as duas passaram a noite tranquilas. Suas roupas molhadas foram deixadas secando nas árvores próximas, e todos os pertences ficaram protegidos dentro das barracas.

Na manhã seguinte, Suya despertou primeiro. Pegou suas roupas já secas, vestiu-se e, com o arco em mãos, saiu para caçar sem acordar Niele. Seguindo rastros, montou uma armadilha, mas em vez da raposa que esperava, acabou capturando um tatu de tamanho mediano — suficiente para o café da manhã.

Quando retornou, encontrou Niele já acordada, cozinhando algo sobre uma pequena chama tecnológica.

Niele: — Bom dia, Suya! Achei que ainda estaria dormindo.

Suya: — Saí para caçar… mas que cheiro é esse?

Niele: — Fui até o lago e pesquei alguns peixes para nós. E você, o que trouxe aí?

Suya: — Um tatu… mas ainda bem que não o matei, já que você preparou nosso café. Vou soltá-lo, não há necessidade de desperdiçar uma vida.

Niele sorriu, aliviada.

Niele: — Que bom, salvei a vida de um pobre animalzinho. Confesso que não conseguiria comê-lo. Mas me diga, Suya, você sempre caçava sua própria comida?

Suya: — Sim. Desde que aprendi arco e flecha, também aprendi a sobreviver em situações precárias. Já provei de tudo: raposas, coelhos, esquilos, tatus, peixes… Mas a carne de veado… ah, essa sim é uma delícia, macia e suculenta.

Ela chegou a salivar ao lembrar.

Niele riu levemente.

Niele: — Você é mesmo uma caçadora nata. Mas aqui… precisamos respeitar os animais e evitar caçá-los.

Suya: — Evitar? Por quê?

Niele: — Muitos estão em risco de extinção. Algumas espécies são raríssimas, como o próprio tatu que você capturou.

Suya: — Eu não sabia… sinto muito. A partir de agora, só vou pescar.

Niele: — É melhor assim. Além disso, caçar em certas áreas pode ser crime. Mas não se preocupe, existem lugares onde a caça é permitida. Posso te mostrar um dia. Só que, antes de tudo, precisamos entender onde estamos.

Ela fez uma pausa, observando a paisagem.

Niele: — Pelo ambiente, acredito que estamos em Valyria.

Suya: — Valyria?

Niele: — Uma ilha onde existe uma única cidade, dividida em dois distritos: Tecris e Antyros.

Enquanto Niele explicava a estrutura social da ilha, as duas terminavam o café e recolhiam seus pertences.

Logo seguiram pela floresta, os galhos estalando sob seus passos e o vento frio roçando entre as árvores altas. Suya mantinha o olhar atento, enquanto Niele caminhava ao seu lado, segurando firme sua bolsa de couro. O silêncio da mata foi rompido de repente por gritos distantes de horror, ecoando pelo ar e fazendo ambas pararem em alerta.

Acima delas, uma águia surgiu, voando em círculos, suas asas largas cortando o céu. O som poderoso ecoou pela floresta:

Kiiiiiiiii-aaaaaaahhhh!


O grito da ave ressoou como um presságio, misturando-se aos gritos humanos que vinham de longe, aumentando a tensão no coração das duas viajantes.

Suya: — Algo está errado. Fique em alerta.

Com o arco em mãos, Suya seguiu cautelosa até que avistaram a estrada. Pessoas corriam em desespero. Uma mulher, desesperada, cambaleou até elas:

Mulher (ofegante, em desespero): — Por favor, ajudem! Criaturas horrendas surgiram na cidade! Antyros não é mais segura! Fujam… fujam por suas vidas, garotas!

Suya olhou na direção da cidade e apertou os olhos.

Suya: — Niele, eu quero ir até Antyros.

Niele: — O quê? Suya, é perigoso! Melhor deixar para as autoridades. Hoje temos tecnologia suficiente para lidar com qualquer ameaça.

Suya: — Pela descrição dela, não parece algo natural… talvez nem mesmo as máquinas consigam lidar.

Niele: — Mesmo sabendo do perigo… você vai correr em direção a ele?

Suya: — Sim. Se há pessoas em risco, não posso simplesmente fugir. E algo me diz que há magia envolvida. Talvez… Luarina esteja lá.

Niele suspirou, dividida entre razão e amizade.

Niele: — Tudo bem… vamos.

Suya: — Não. Acho melhor você procurar abrigo nas redondezas e ajudar quem passar por aqui. Não quero me preocupar em te proteger se a situação for grave.

Relutante, Niele concordou.

Niele: — Certo… mas mantenha contato comigo pelo NeuroBrace. Vou ampliar o alcance e ativar a transmissão ao vivo do que você ver. Assim vou me sentir mais tranquila.

Niele: — Pronto. Se apertar esse botão, ele transmitirá tudo ao vivo. Assim poderei te acompanhar.

Suya: — Obrigada, Niele. Se cuide. Antes de partir, Suya entregou-lhe uma flecha mágica e uma pulseira penas lilases.

Suya: — Essa flecha é única. Um assobio: ataque. Dois assobios: escudo. Três assobios: ela se tornará um localizador e virá até mim, mas só pode ser usada uma vez. Quando ela se reunir com meu arco, tanto a flecha quanto a pulseira desaparecerão. Entendeu?

Niele: — Sim. Usar o modo localizador só em último caso. Obrigada, Suya… e se cuide, minha amiga.

As duas se abraçaram. Em seguida, Suya correu em direção à cidade.

Ao chegar às ruas de Antyros, Suya ergueu seu arco sem hesitar. Flechas mágicas cortaram o ar, atingindo as criaturas que avançavam sobre os moradores. O som dos gritos misturava-se ao das construções sendo destruídas e ao barulho seco dos monstros caindo.

Ela se movia com agilidade, disparando uma sequência certeira para abrir caminho.

Suya (gritando): — Corram! Vão para um lugar seguro!

Uma mulher, trêmula, carregando uma criança nos braços, aproximou-se dela em meio ao pânico.

Mulher (desesperada): — Venha conosco!

Suya não perdeu o foco, puxando mais uma flecha magicas.

Suya: — Vão vocês! Eu ainda tenho que ajudar outras pessoas.

A mulher a fitou com olhos marejados, hesitante, mas logo assentiu.

Mulher: — Tudo bem… cuidado, moça! Assim que puder, siga por aquele caminho. O templo é o lugar mais seguro no momento.

Ela apontou rapidamente para uma rua ao norte. Suya lançou um olhar na direção indicada, memorizando o caminho.

Suya: — Obrigada! Agora corra!

A mulher desapareceu na multidão, protegendo o filho contra o peito enquanto corria em direção ao templo.

Suya inspirou fundo, fechou os olhos por um instante e concentrou-se. O cheiro de fumaça, o sangue, os gritos… todo o caos pulsava em volta dela. Mas ela não cederia ao medo. Seu arco brilhava levemente, reagindo à energia mágica presente no lugar.

Suya (em pensamento): — Isso não é obra de simples máquinas… há magia aqui.

De repente, três criaturas saltaram sobre ela — criaturas da sombra corpos que lembrava a fumaça, olhos vermelhos e malignos. Suya rolou para o lado, disparando duas flechas em sequência. Uma atingiu o peito de uma criatura, a outra perfurou a cabeça da segunda. A terceira avançou mais rápido, mas Suya girou o arco e golpeou-a com a extremidade, derrubando-a no chão antes de fincar uma flecha direto em seu coração.

O povo corria em todas as direções, e as ruas estavam cheias de destroços. Ao fundo, o sino do templo tocava sem parar, chamando os sobreviventes.

Suya ergueu os olhos na direção do templo, sentindo um arrepio. Uma aura estranha parecia irradiar daquela região, como se as próprias criaturas estivessem sendo atraídas para lá.

Suya (apertando o punho): — Luarina… será que você está aí?

Com passos firmes, ela avançou pelas ruas destruídas, protegendo todos que podia, enquanto seguia na direção do templo.

Enquanto o caos crescia do lado de fora, dentro do templo o clima era tenso. O pequeno mal-entendido entre Liush e Luarina havia ficado para trás — agora o que importava era sobreviver. Liush, empunhando suas espadas, aproximou-se de uma das janelas. Seus olhos percorreram o cenário lá fora: o pátio estava tomado pelas criaturas, devorando e atacando todos que não tinham conseguido alcançar o templo. Sem hesitar, ele abriu a janela e saltou para o pátio, caindo com leveza felina. Assim que seus pés tocaram o chão, já girava as lâminas, cortando as primeiras criaturas que avançaram sobre ele. Luarina e Hope se entreolharam em silêncio por um instante, e sem precisar de palavras souberam o que fazer.

Hope: — July, Ana! Tranque todas as janelas. Eu vou lançar uma barreira mágica em volta do templo, isso deve manter as criaturas longe por algum tempo.

Hope ergueu as mãos, e a energia azulada começou a se concentrar ao redor dela, pulsando como uma respiração viva. As paredes do templo tremeram levemente quando a barreira começou a se expandir.

Luarina colocou a mão no ombro da irmã e falou com firmeza:

Luarina: — Então eu irei ajudar na luta. Conto com você, mana, para manter todos seguros aqui dentro.

Hope assentiu, embora seu olhar estivesse carregado de preocupação.

Hope: — Tenha cuidado, Luarina…

Sem mais delongas, Luarina correu até a mesma janela por onde Liush havia saltado e, com a luz mágica se acendendo em suas mãos, lançou-se para o pátio. Ela caiu ao lado de Liush, invocando esferas de luz que explodiram contra as criaturas, queimando-as como se fossem tochas vivas.

Enquanto a batalha acontecia lá fora, dentro do templo o clima era de tensão. As pessoas oravam, outras choravam em desespero. Foi então que os portões se abriram, e uma mulher entrou aos tropeços, carregando um bebê contra o peito, ofegante e quase sem forças.

Mulher (desesperada): — Alguém… alguém me ajude, por favor!

Uma das jovens servas do templo correu até ela, amparando-a e conduzindo-a para dentro. Serva: — Você está segura agora. Respire fundo… me diga, como está a situação lá fora?

A mulher, ainda ofegante, respondeu com lágrimas escorrendo pelo rosto: Mulher: — Está… está um caos! Eu e meu filho quase não saímos vivos. Mas… mas há alguém lá fora lutando contra as criaturas!

A serva franziu o cenho, confusa. Serva: — Alguém? Quem?

Mulher: — Uma garota! Os deuses devem ter mandado ela… estava segurando um arco, disparando flechas contra os monstros, abrindo caminho para nós escaparmos.

Ao ouvir isso, Luarina, que estava já no pátio em meio à luta, voltou o olhar rapidamente em direção ao portão. Seu coração disparou e sua respiração falhou por um instante.

Luarina (sussurrando, incrédula):Suya

O nome escapou de seus lábios como uma prece.

Lua ergueu a mão em direção à sua pequena companheira, a coruja Astra, a voz firme, mas com uma ponta de dúvida que escapava entre suas palavras:

Astra, vou te pedir um favor, mas tome cuidado. Sobrevoe e me informe como está a situação mais adiante, e se ver uma arqueira de cabelos roxos me avise.

A ave inclinou a cabeça, soltando um breve piu antes de abrir as asas e ganhar altura, desaparecendo entre as sombras e luzes caóticas que tomavam o céu.

Por um instante, o pensamento atravessou a mente da maga: Será mesmo ela? — o coração acelerou, mas não havia tempo para se perder.

Respirando fundo, Luarina voltou a se concentrar na batalha. As Chamas Etéreas se manifestaram em sua palma, um fogo azul-celeste cintilante que não queimava matéria, mas consumia o que fosse corrompido e espiritual.

Com um gesto firme, disparou esferas dessas chamas contra os inimigos mais próximos, abrindo caminho para que mais pessoas conseguissem escapar.

De onde vieram? O que são essas coisas? — pensava enquanto mais figuras sombrias emergiam do caos.

E então, a visão que apertou seu peito: algumas crianças caíam pelo caminho, esgotadas, feridas, prestes a serem alcançadas. Luarina não hesitou.

Ergueu ambas as mãos e invocou a Aurora das Marés. Um véu semelhante a uma aurora boreal desceu, mesclando a magia da luz com as águas das fontes ao redor.

A cortina luminosa drenou a força vital dos inimigos próximos, ao mesmo tempo em que revitalizava e energizava as crianças, impedindo que sucumbissem ali.

Mas a luta estava longe de terminar. Tentando intensificar sua defesa, a maga invocou a Luz Purificadora, porém, diante da antiguidade e resistência daqueles seres, o feitiço não produziu o efeito esperado. Sentindo o peso do cansaço por já ter lançado múltiplos encantos, ela adaptou sua estratégia.

Com um gesto firme e a voz carregada de poder, conjurou o Escudo Solar. Uma barreira translúcida de pura luz surgiu em torno das vítimas, resplandecendo como um sol sereno. O escudo não apenas protegia, mas drenava a energia dos inimigos que ousassem tocá-lo, repelindo-os com cada tentativa de avanço.

Mesmo exausta, Luarina permanecia erguida, a aura azul-celeste tremeluzindo ao redor de seu corpo, sustentando a proteção enquanto seu olhar se voltava novamente ao horizonte, na expectativa do retorno de Astra e da resposta à dúvida que lhe corroía o coração.

O clangor da batalha ecoava pelo templo em meio aos gritos de desespero e ao estalar da barreira de luz sustentada por Luarina. A maga estava visivelmente exausta, gotas de suor escorriam por sua testa enquanto sua aura vacilava, e seus joelhos tremiam pelo esforço contínuo de manter as crianças e refugiados vivos.

Foi então que Liush a notou. Seus olhos se estreitaram, e sem hesitar — sem dar importância ao mal-entendido de antes ou ao caos que se desenrolava — ele avançou. A espada em mãos abria caminho, cada golpe ceifando um monstro que ousava se interpor em sua corrida até a maga.


Ao chegar ao lado dela, sua voz soou firme, quase ríspida, mas carregada de determinação:

Ei, bruxa. Mantenha o foco em proteger aquelas pessoas com sua magia e mantenha seu escudo ativo para se proteger em último caso. Deixa o resto comigo. Vou limpar esse templo de uma vez. Em seguida, avise sua irmã para expandir o escudo até os muros do portão.

Sem esperar resposta, Liush cravou sua espada no chão diante de Luarina. A lâmina vibrou com energia, e num instante, sua mana se expandiu como uma onda elétrica por todo o templo. Pequenos raios estáticos começaram a dançar em volta do corpo de cada aliado, uma marca de sua conexão com o poder dele.

(Pronto. Assim consigo controlar a direção e precisão do meu ataque. Mas mesmo assim… vou evitar usar toda a velocidade que tenho. Preciso ter certeza de atingir apenas as criaturas.) — pensou consigo, cerrando os punhos.

Num piscar de olhos, Liush desapareceu diante dos olhos cansados de Luarina. O ar vibrou — e então veio o clarão. Um raio percorreu todo o templo, riscando a escuridão com luz e fúria. As criaturas caíam uma após a outra, dilaceradas por uma velocidade impossível de acompanhar. Sempre que uma delas ousava se aproximar demais da maga, Liush surgia ao lado dela, espada cravada no chão, decapitando ou atravessando o inimigo com um único golpe. Num instante, ele sumia outra vez — dissolvido em feixes de luz, deixando para trás apenas o som do trovão ecoando nas paredes do templo.

Por um minuto inteiro, o espetáculo se repetiu: relâmpagos cortando o ar, trovões respondendo como tambores de guerra, e monstros tombando sem sequer entender o que os atingira.

Quando o silêncio finalmente caiu, Liush reapareceu ao lado da maga, arfante. O suor descia pelo rosto, seus músculos pulsavam sob a tensão, e a respiração pesada revelava o custo daquilo. Com um gesto firme, ele puxou a espada do solo e apontou para o portão do templo — agora tomado por sombras e movimento.

Bruxa, agora! Pede pra ela expandir a barreira — rápido! — ordenou, o olhar fixo, frio, sem um traço de hesitação.

E sem desviar os olhos do perigo, acrescentou com um tom grave, a voz carregada da experiência de quem já viveu guerras demais:

Depois, foquem em manter o caminho para o templo livre. Eu vou cuidar do que sobrou lá fora. Sei que vocês duas são fortes, mas também sei que são as únicas com poder defensivo e de cura. Não desperdicem suas forças em combates diretos. Deixem essa parte comigo. Mantenham a defesa. Curem os feridos. Essa é a missão de vocês.

(Bruxa?... Tsc. Acho que esse rapaz nunca viu um elfo, muito menos uma maga.)

pensou Luarina por um breve instante, antes de deixar o pensamento de lado e se concentrar em cada detalhe do plano.

(É um bom plano... mas, desse jeito, quem vai se exaurir é você. Isso não é loucura? Não sei se devo te chamar de corajoso... ou simplesmente de louco. Talvez um pouco dos dois.)

Enquanto o embate se intensificava no templo, Astra, a coruja robô de Luarina, sobrevoava os céus da cidade. Suas asas metálicas cortavam o ar com suavidade, enquanto os sensores ópticos vasculhavam cada rua e cada ruína tomada pelo caos em busca de sobreviventes.

Abaixo dela, o caos reinava: gritos, explosões, criaturas emergindo das fendas como sombras vivas. As ruas de Zintria — outrora brilhantes — estavam agora em chamas e escuridão. No meio do tumulto, os olhos de Astra detectaram algo: uma figura solitária resistindo à horda.

Era uma mulher de cabelos roxos, empunhando um arco reluzente. Sua postura era firme, seu olhar, implacável. Cada movimento era preciso — flechas encantadas voavam em sequência, explodindo em clarões de energia pura. Num gesto majestoso, ela ergueu o arco ao céu e conjurou uma chuva de flechas mágicas que despencou sobre as criaturas, devastando dezenas delas num único instante.

Reconhecendo a importância da cena, Astra soltou um som metálico e agudo:

"Tiiiii–piu!"

O som foi transmitido diretamente ao bracelete de Luarina, que imediatamente apitou:

"BIP-BIP-BIP!"

Surpresa, a maga olhou para o pulso. Ao tocar o bracelete, uma imagem holográfica se projetou diante de seus olhos — o campo de visão de Astra. Lá estava ela: a arqueira de cabelos roxos, Suya, lutando com a mesma elegância feroz de sempre. Cada flecha era uma sentença de morte. Cada clarão, uma dança entre luz e destruição.

Sem perder tempo, Luarina estendeu a mão e ativou o Escudo Aegis — uma avançada tecnologia de nanorrobôs.

Em segundos, o escudo se expandiu, formando uma cúpula luminosa que envolveu todo o templo. As criaturas tentaram atravessá-la, mas foram repelidas pela barreira, que pulsava em tons azul.

Era exatamente o que ela precisava.

Com a proteção garantida, Luarina concentrou sua energia mágica. Runas começaram a brilhar ao redor de seus pés. O ar se distorceu — e um pequeno portal se abriu, tremulando em luz azulada.

Agora que ela sabia onde Suya estava, podia trazê-la de volta.

Lá fora, em meio ao caos, Suya percebeu o portal se abrindo atrás de si.

Sem hesitar, correu em sua direção e atravessou-o.

Quando a luz se dissipou, ela estava dentro do templo.

Lua?! — exclamou, surpresa, um alívio sincero em sua voz.

O templo agora estava em silêncio, protegido sob o brilho suave da barreira energética. O eco distante das explosões e trovões lá fora contrastava com a calma repentina do interior.

Suya respirou fundo, ainda com o arco em mãos, e se virou para Luarina. Um leve sorriso cruzou seu rosto — um misto de alívio e exaustão.

Finalmente te encontrei, garota. — disse, a voz firme, mas carregada de emoção. — Que bom que está bem!

Suya… é mesmo você. — respondeu Lua, o alívio evidente no tom. — Digo o mesmo, fico feliz em vê-la bem.

O rosto da maga suavizou-se em um sorriso sincero.

Encontrou os meninos?

Mais ou menos… — respondeu Suya, desviando o olhar.

Lua suspirou, compreensiva. — Depois colocamos tudo em dia.

Ela então levou a mão ao colar que trazia no pescoço, concentrando-se. Um brilho azul emanou da joia — a conexão com Hope fora restabelecida.

Hope, como estão as coisas aí? As pessoas estão bem? — perguntou Lua, a voz trêmula pela preocupação.

A resposta veio quase de imediato, acompanhada por uma leve interferência mágica:

Eu estava prestes a te contactar, Lua. Sim, estão todos bem — na medida do possível. Há feridos, mas estamos cuidando disso. — Hope fez uma breve pausa. — E vocês? Ana está preocupada com o amigo dela… e eu, com você. Devem estar exaustos. Vou tentar enviar um pouco de energia para ajudá-los.

Lua sorriu, mesmo com o corpo pesado de fadiga.

Estamos bem, dentro do possível. — soltou uma risada breve, tentando aliviar a tensão. — Fique tranquila. Uma amiga veio nos ajudar.

Houve um breve silêncio antes que Lua acrescentasse, curiosa:

Consegue sentir a presença de uma arqueira conosco?

— …Sim, consigo. — respondeu Hope após um instante.

Lua respirou fundo. — Um pouco de energia será o bastante. Obrigada, irmã.

Encerrando a conexão, tocou o colar — o brilho azul se apagou lentamente.

Poucos segundos depois, uma onda de energia esmeralda preencheu o interior do templo. O fluxo espiritual se dividiu em três feixes luminosos, envolvendo Lua, Liush e Suya, restaurando parte de suas forças. O ar ficou mais leve, o cansaço diminuiu — um breve instante de alívio em meio ao caos.

Suya foi a primeira a quebrar o silêncio:

Pode me explicar o que está acontecendo? — perguntou, agora com o tom mais sério. — Que criaturas são essas… e de onde vieram?

Lua respondeu, ainda ofegante:

Não sei de onde surgiram. Elas apareceram logo depois que aquele garoto chegou. Talvez Ana e Hope possam explicar melhor. Venha, vou apresentá-las.

Enquanto isso, do lado de fora, Liush avançava em meio à destruição. Seu corpo emanava um campo elétrico em larga escala, permitindo-lhe localizar sobreviventes e eliminar as criaturas no caminho.

Enquanto combatia, refletia consigo mesmo:

Isso não faz sentido. Essas coisas não param de aparecer… Devem estar vindo de algum lugar, talvez várias fendas. Mas não posso perder tempo procurando por elas enquanto ainda há pessoas em perigo.

Ele suspirou, irritado.

Talvez aquela bruxa… ou a irmã dela… pudessem me ajudar. Mas como vou falar com elas?

Liush parou por um instante, frustrado.

Droga… Se eu tivesse deixado minha espada lá, poderia abrir um salto rápido de volta. Agora já é tarde.

De repente, algo brilhou no céu. Uma silhueta metálica sobrevoava a cidade.

Um pássaro? — murmurou, franzindo o cenho. — Estranho… tem a mesma energia daquela maga.

Uma ideia atravessou sua mente. Ele cortou um pequeno pedaço de madeira, talhou apressadamente a frase “Precisamos conversar”.

Com precisão, lançou sua espada em direção à ave, teleportando-se logo em seguida. Apareceu a tempo de agarrar o pássaro nos braços.

Haha! Te peguei, pombo-correio! — disse, amarrando a mensagem. — Agora seja útil e leve isso pra sua dona, vai.

O pássaro apenas o encarou, imóvel.

Sério? — Liush bufou. — Se não sair voando em cinco segundos, juro que corto essas suas asas!

Antes que ele terminasse a ameaça, a ave emitiu um som eletrônico agudo.

“Alerta: linguagem hostil detectada.”

Liush arregalou os olhos ao ouvir uma voz feminina e metálica responder:

Não sou um pombo-correio, garoto. Sou Astra — unidade de vigilância aérea, modelo único, conectada à rede de Luarina. Inteligência superior de classe Sigma. Entendido?

Ele piscou, confuso.

Você… fala?

Falo, analiso, corrijo e, aparentemente, tenho mais paciência que você. — respondeu a coruja robótica com ironia. — Agora, me solte antes que eu reconfigure seu campo elétrico pra “modo doméstico”.

Liush soltou uma risada breve e a deixou livre.

Heh. Tudo bem, Astra. Diga pra sua dona que estou grato. A energia dela acabou de me alcançar.

Enquanto dizia isso, seu corpo brilhou em tom esmeralda — a onda enviada por Hope o atingira, restaurando suas forças.

Hah… bruxas e suas manias. — murmurou, sorrindo, antes de empunhar as espadas e avançar novamente.

De volta ao templo, Luarina conduziu Suya até um cômodo onde Hope e Ana cuidavam dos feridos. Em cada sala, havia pessoas assustadas, feridas e em choque com o ataque das criaturas. O olhar de Suya percorria cada rosto — dor, medo e incerteza estampados em todos.

Ao chegarem, Lua apresentou-as: — Suya, esta é minha irmã, Hope.

Suya sorriu, encantada. — Ouvi muito sobre você, Hope. Sua irmã sempre falava sobre o quanto eram unidas, mesmo após seguirem caminhos diferentes.

Hope retribuiu o sorriso. — E continuo sendo o elo dela, mesmo à distância. Ela tem o coração inquieto, mas o espírito mais puro que já conheci. — disse com ternura.

Em seguida, Luarina apresentou Ana, a sacerdotisa do templo de Liush. Suya fez um leve aceno de respeito antes de retomar o tom sério:

Pode me explicar o que está acontecendo? — perguntou novamente. — Que criaturas são essas… e de onde vieram?

Hope e Ana trocaram olhares breves. Hope foi a primeira a falar:

Tudo começou quando o garoto chegou. Sua energia é diferente

Quando seu poder colidiu com o meu, abriu-se uma brecha… e delas surgiram essas criaturas.

Suya franziu o cenho, preocupada. — Então elas estão ligadas a ele… e talvez a você também, por causa da liberação mágica.

Hope assentiu, impressionada com o raciocínio da arqueira. — Duas forças da natureza de mundos distintos colidiram — e isso trouxe à superfície horrores que estavam adormecidos nas profundezas.

Ela suspirou, o olhar ficando mais grave. — Precisamos localizar a fenda principal e fechá-la antes que consuma tudo. Mas… infelizmente, não posso ajudá-las no combate. Essas criaturas são mortas, corroem a energia vital. São tóxicas para mim.

Hope então uniu as mãos, e um brilho em tons de verde-água emanou entre seus dedos. Quando as abriu, revelou uma pequena semente mágica.

Aqui. — disse, entregando-a a Luarina. — Assim que plantada, esta semente crescerá e se tornará uma grande árvore-portal. Atravessem-na… e me encontrem.

Ela então tocou o colar no pescoço da irmã e completou com voz suave:

Minha amada irmã… nosso elo será mais forte do que nunca. Saberei onde você está — e você sentirá minha presença. Poderemos até conversar através dele.

Hope sorriu uma última vez. O livro que antes invocará brilhou intensamente, e sua imagem começou a se desfazer em partículas de luz.

Que a luz guie o caminho de vocês.

E, em um sopro de energia, Hope desapareceu, deixando Suya, Ana e Luarina sozinhas no cômodo — com a semente mágica brilhando nas mãos da maga.

Do lado de fora, no entanto, o inferno continuava.

A cidade estava em ruínas, e a fenda se expandia sem controle, alcançando até Antyros.

Toda a ilha de Velyria agora estava tomada pelas criaturas.

Era apenas uma questão de tempo até que o caos alcançasse Astrid, a cidade subaquática… e Eteria, a capital.

No templo Suya lançou um olhar preocupado para Luarina.

— Tudo isso é muito estranho… — suspirou a arqueira. — Como vamos derrotar essas criaturas?

As duas ficaram em silêncio, imersas nos próprios pensamentos, até que Ana, após verificar os feridos, se aproximou devagar de Suya e Luarina.

— Liush não é uma pessoa ruim… — disse ela, com a voz baixa.

Lua e Suya voltaram o olhar para Ana, aguardando que continuasse. Ana respirou fundo, visivelmente desconfortável.

— Me desculpe, Luarina, pelo que aconteceu antes. Pareci hostil, eu sei… mas eu garanto que ele não é uma má pessoa.

Suya estreitou os olhos.

— E como você sabe disso?

Ana soltou um longo suspiro antes de começar a explicar:

— Alguns anos atrás… eu estava com a minha mãe no centro, comprando algumas coisas para nossa casa. O céu clareou de repente, de um jeito que eu nunca tinha visto. Um feixe de energia caiu no meio da rua. Quando a luz finalmente se dissipou, ele estava lá. Liush. Desorientado, confuso… mal conseguia ficar de pé. Ele chegou a desmaiar, então o levamos para nossa casa.

Ela fez uma pausa, lembrando-se da cena.

— Aquilo foi um fenômeno sobrenatural. Todos em Antyros ficaram em choque, alguns até achando que era obra de uma divindade. Os rumores se espalharam rápido. Nós não sabíamos quem ele era até que, alguns dias depois, ele acordou. Foi quando disse seu nome: Liush. E então… percebemos que ele carregava o mesmo nome do deus deste templo.

Ana olhou para o chão por um instante, antes de continuar:

— Ele veio aqui em busca de respostas. E não era a primeira vez que algo assim acontecia. Cerca de nove meses antes, uma garota chamada Agatha apareceu da mesma forma. Só que era noite. Ela era linda… e ninguém sabia de onde veio. Com o tempo, Agatha construiu este templo, acreditando que Liush viria. Ela o esperou por meses. E então, em certa noite, simplesmente desapareceu. Ninguém sabe o que aconteceu.

Ana ergueu os olhos para Luarina e Suya.

— O templo ficou vazio desde então… até o dia em que Liush finalmente chegou. Eu prometi a ele que cuidaria deste lugar enquanto ele buscava respostas. E desde então… tenho feito o possível para cumprir essa promessa.

Suya lançou um olhar para Luarina, franzindo a testa.

— Isso tudo parece… familiar. Será que tem a ver com ele?

Ana, confusa, inclinou a cabeça.: — Com quem?

Luarina respirou fundo.: — MaouCron. Ele trouxe eu e Suya para esta época. Como eu disse antes… estou procurando Corey e Bryan.

— Sobre isso, Lua… — murmurou Suya.

Luarina virou-se imediatamente para a amiga. A arqueira estendeu a mão, revelando uma joia azul brilhante, embora apagada de energia.

— Essa é a Pedra do Despertar — explicou Suya. — Encontrei em Astrid com uma amiga. Ela está em um lugar seguro, mas assistindo tudo através do meu bracelete. O nome dela é Niele. Vocês duas se dariam muito bem…

Suya suspirou, um pouco sem graça.

— Mas… essa pedra está sem magia. Eu acabei absorvendo tudo sem querer.

Luarina pegou a pedra com delicadeza. Sua expressão mudou, concentrada. Ela canalizou um pouco de sua magia, que percorreu seus dedos como um fio de luz. A joia azul reagiu imediatamente — um brilho suave percorreu sua superfície — e então algo mais aconteceu.

Na bolsa de Luarina, a pedra vermelha começou a pulsar. Ela a retirou rapidamente, segurando ambas nas mãos. As duas joias vibraram ao mesmo tempo, emitindo ondas de luz que se entrelaçavam, reagindo uma à outra como se despertassem de um longo sono.

Foi então que os olhos de Luarina brilharam em tons dourados — e a visão a tomou.

A VISÃO DE LUARINA

Ela se viu em meio a uma cidade completamente devastada. Arranha-céus partidos ao meio; estradas rachadas; carros queimados. Havia fumaça preta cobrindo o céu como um véu espesso.

Explosões ecoavam ao longe. Torres metálicas — semelhantes a sentinelas robóticas — caminhavam entre os prédios em ruínas, disparando luzes vermelhas que varriam o chão.

Pessoas corriam desesperadas entre os escombros.

E então, um homem surgiu na visão, coberto de poeira, o rosto cortado. Ele gritava algo para um grupo que fugia:

Rápido! Para o bunker! Corram! Eles estão vindo!

Ao fundo, uma sombra colossal ergueu-se — uma máquina gigantesca, com olhos incandescentes, avançando sobre a cidade como se nada pudesse detê-la.

O ar vibrava com o rugido dos motores. O chão tremia. E então, tudo foi consumido por uma luz branca.


A visão se dissipou. Luarina piscou, ofegante. Os olhos dourados perderam o brilho lentamente.

Suya segurou seu ombro, preocupada.

— Lua…? O que você viu?

Luarina respirou fundo, ainda abalada. Então levantou o olhar para Suya e Ana.

— Eu… — sua voz tremia, mas firme — vi uma cidade destruída… vi máquinas caçando pessoas. E alguém mandando todos correrem para um bunker. Isso… isso não é do nosso tempo. É algo que ainda vai acontecer. Ou já está acontecendo em algum lugar.

Ela apertou as duas pedras entre os dedos, que agora pulsavam fracas, como corações sincronizados.

E tenho certeza… que isso tem ligação com Corey e Bryan.

Suya apertou o bracelete no pulso, olhando para Luarina com seriedade.

— Sobre o Corey… MaouCron me deu esse bracelete para encontrar essas joias. E quando eu toquei nele pela primeira vez… eu vi Corey.

Luarina ergueu o rosto, surpresa. Ana, em silêncio, inclinou-se um pouco para ouvir.

— Ele estava ajoelhado no chão — continuou Suya, a voz carregada de lembrança — em um lugar escuro, cercado por uma tecnologia estranha. Feixes de luz vermelha cortavam o ar. A visão começou a mudar… e então fui lançada para outra cena, muito mais nítida.

Suya respirou fundo antes de prosseguir:

— Eu o vi em meio a um campo devastado… um deserto coberto por destroços metálicos, poeira e fumaça. No céu, naves robóticas se moviam devagar, como abutres procurando restos. Sirenes ecoavam ao longe, um som que parecia vir de todos os lados ao mesmo tempo…

Ela engoliu seco.

— Corey vestia trajes de combate desgastados. Segurava a espada com força, mesmo exausto. Ele estava cercado por robôs deformados… soldados mecânicos, todos com um símbolo de dragão verde pulsando nas latarias. Mas Corey… Corey estava firme. De pé como um verdadeiro guerreiro. O rosto dele estava sujo, com alguns cortes… mas os olhos… — Suya sorriu, apesar da preocupação — os olhos dele ainda brilhavam. Determinados. Ele não havia desistido.

Luarina tocou as próprias joias, pensativa, enquanto a arqueira concluía:

— Foi muito intenso… tão real… — Suya então olhou para a amiga. — Será que o homem da sua visão… era Corey? Ou Bryan?

Luarina balançou a cabeça lentamente.

— Eu… não sei. O rosto estava distorcido. Como se algo estivesse escondendo ele de propósito. Um borrão… como se a visão estivesse sendo bloqueada.

Ana, que escutava tudo em absoluto silêncio, deu um passo para trás. Seus olhos estavam arregalados, a expressão assustada e ao mesmo tempo fascinada.

— Vocês… vocês estão falando de magia, portais, visões… e pessoas sendo jogadas em tempos diferentes… — murmurou ela, levando a mão à boca. — Meu Deus… isso é muito maior do que eu imaginava. Essas pessoas… seus amigos… eles realmente estão lutando por suas vidas…

Havia temor na voz de Ana, mas também algo mais: respeito.

Suya apertou os punhos.

— Essas joias definitivamente têm ligação com eles. E nós precisamos continuar procurando. Mas antes…

Ela olhou ao redor, para as fendas que ainda se abriam pela cidade, rasgando o chão. Criaturas grotescas surgiam das rachaduras como se o mundo estivesse prestes a ruir.

— …temos que pensar em um jeito de ajudar esta cidade. Essas coisas… — apontou para as criaturas que se espalhavam por Antyros — estão aparecendo rápido demais. Se não fizermos nada, tudo isso aqui vai desaparecer.

O ar pesou. Luarina sentiu as joias vibrarem em suas mãos, como se ecoassem a mesma urgência.

E a sensação de que o tempo estava acabando tomou todas elas.

Suya pousou a mão no ombro de Ana, firme e decidida:

Ana, preciso de um favor.

Cuide das pessoas aqui no templo. Eu e Luarina vamos atrás desse tal Liush.

Se ele está mesmo do nosso lado… então juntos encontraremos um jeito de salvar esta cidade e acabar com essas criaturas.

Ana respirou fundo, tentando esconder o tremor nas mãos, e assentiu.

Eu… vou fazer o que puder. Boa sorte para vocês duas.

Luarina então retirou a luva tecnológica — o tecido flexível de nanorrobôs que projetava o escudo Aegis-X7 — e a entregou a Ana.

Tome. Isso vai manter você e todos aqui dentro protegidos até voltarmos.

Assim que a luva deixou a mão de Luarina, o escudo ao redor do templo vacilou, tremulando como vidro sob impacto. A barreira desapareceu por um breve e tenso segundo.

Suya imediatamente avançou até o pátio, puxando o arco.

Duas criaturas surgiram da névoa espessa e correram em direção à entrada.

Nem pensem nisso. — murmurou ela.

Três flechas mágicas atravessaram o ar em um clarão azul, acertando as criaturas antes que chegassem perto.

Enquanto Suya contia a investida, Luarina guiou Ana a calçar a luva.

— É assim que ativa… — ela explicou, tocando o centro da palma.

Ana fez o mesmo — e o escudo reativou-se, erguendo-se ao redor do templo como uma cúpula cintilante.

A jovem sacerdotisa abriu a boca, maravilhada.

Eu… eu nunca toquei em nada assim — ela admitiu, a voz embargada pela mistura de medo e fascínio.

— Pensei que tecnologia fosse só… histórias dos Techris. Mas isso… isso reage ao meu toque.

— Reage à sua vontade — corrigiu Luarina, oferecendo-lhe um sorriso suave. — Confie em si mesma. Você consegue.

Ana respirou fundo e finalmente sorriu — pequeno, mas verdadeiro.

Voltem vivas, por favor.

— É o plano — respondeu Suya, já se aproximando.

Com a barreira novamente estável, Suya e Luarina deixaram o templo, descendo os degraus e entrando nas ruas tomadas por caos.

As duas avançavam lado a lado, derrubando criaturas que surgiam das fendas próximas — magia e flechas dançando juntas no escuro.

Foi então que um som cortou o ar.

KIAAAAAH!

O grito ecoou como um trovão.

A arqueira ergueu o olhar. No céu, entre fumaça e pedaços de energia retorcida, a mesma águia branca da floresta surgiu — imensa, luminosa, suas penas cintilando como fragmentos de lua.

Você de novo… — murmurou Suya, surpresa.

A águia mergulhou.


O ar vibrou.

O chão tremeu.

E antes que Luarina pudesse conjurar uma defesa, o animal atravessou Suya como um cometa prateado.

Um feixe de luz explodiu.

O mundo brilhou.

E, num único piscar de olhos…

Suya não estava mais ali.

SUYA! — gritou Luarina, correndo para onde a amiga estivera segundos antes.

Mas apenas a poeira cintilante da luz restava, espalhando-se no ar.

A águia desaparecera.

A arqueira também.

E o destino de Suya, agora seguia para....


CONTINUA EM.... OLIMPIA

 Uma semana havia se passado desde a movimentada noite de compras no centro de Zintria. O sol da manhã atravessava os grandes painéis de vidro do Hypercafé, espalhando luz sobre o ambiente moderno, repleto de mesas tecnológicas e atendentes robóticos. July, sempre atenta aos detalhes, estava atrás do balcão organizando os pedidos e conversando com alguns clientes habituais. Desde que Lua começara a ajudar no café, as coisas haviam melhorado ainda mais.

Lua — ou melhor***, Maga Ancestral***, como passou a ser conhecida no local — era agora a grande atração da casa. Todas as tardes, realizava pequenos shows de magia, encantando o público com sua habilidade de manipular luz, criando ilusões fascinantes, símbolos brilhantes no ar e criaturas cintilantes que dançavam entre as mesas. Em Zintria, onde a magia era quase extinta, aquilo era mais do que um espetáculo: era uma raridade viva.

A fama do Hypercafé se espalhou rapidamente. Visitantes de várias partes da ilha começaram a aparecer, curiosos para testemunhar a magia real. O lugar lotava como nunca, e July, embora sempre sorrindo, mal conseguia esconder o quanto estava feliz com os lucros crescentes.

Naquela tarde, o público já se acomodava com expectativa. Lua terminava de ajustar sua pulseira NeuroBrace, preparando-se para começar o espetáculo. Ela respirou fundo, esticou os braços e deixou que uma esfera de luz dourada começasse a girar entre suas mãos — quando, de repente, uma coruja metálica entrou voando pelas portas do Hypercafé.

Seu corpo era elegante e branco como porcelana reluzente, e suas asas de penas amarelas vibravam com um som sutil, quase musical. As pessoas se calaram, virando os olhos para a criatura tecnológica que cortava o ar com precisão. Ela sobrevoou as mesas, fez uma breve espiral no centro do salão e pousou suavemente no ombro de Lua.

O silêncio foi rompido por murmúrios:

Cliente 01: — “É parte do show?”

Cliente 02: — “Aquilo é um robô?”

Cliente 03: — “Será magia?”

Lua piscou surpresa, reconhecendo imediatamente a coruja. Era o modelo que Cédric havia prometido entregar a ela.

Lua observou a pequena coruja metálica em seu ombro com um brilho suave nos olhos. Ainda maravilhada com a conexão recém-estabelecida, ela sorriu com doçura e, com a voz serena, disse:

Lua:"Bem-vinda à minha vida, Astra."

Enquanto dizia isso, sua mão se ergueu com delicadeza, os dedos roçando suavemente a cabeça da coruja, fazendo um leve carinho entre as penas metálicas amarelas. Astra respondeu com um leve tilintar eletrônico — um som suave, quase como um ronronar tecnológico, que denunciava seu contentamento.

Aplausos ainda ecoavam entre os clientes, alguns por acreditarem que tudo fazia parte da apresentação, outros simplesmente encantados com o vínculo entre Lua e a criatura mecânica. Lua, sentindo o calor daquela recepção, voltou-se para o público com um sorriso gentil e fez um gesto de agradecimento com uma breve reverência.

Lua:"Agradeço pela recepção calorosa."

Então olhou de lado para sua nova companheira e perguntou com um tom leve e divertido:

Lua:"Astra, consegue me acompanhar?"

A coruja imediatamente soltou um pio fofo e sutil, seu corpo metálico se preparando para o movimento. Seus olhos brilharam em sintonia com a luz que Lua manipulava, e ela alçou um pequeno voo para pairar ao lado da maga, batendo as asas com graça enquanto a observava atentamente.

Com Astra agora voando ao seu redor, Lua deu início ao seu espetáculo mágico — e o público, antes impressionado, agora estava totalmente cativado


Com um leve movimento de mãos e um brilho suave em seus olhos, ela fazia surgir figuras flutuantes no ar — imagens que se formavam com perfeição, como um holograma mágico que dançava diante dos olhos atentos da plateia.

As figuras iam tomando forma: castelos em colinas verdes, cidades com pontes de pedra sobre rios cristalinos, florestas com árvores de copas azuis e mercados cheios de seres mágicos. Eram projeções vívidas de lugares da sua época, recriados com tanto detalhe que o público mal piscava.

Enquanto isso, Astra, pousada em uma plataforma acima, interagia com as imagens como uma apresentadora experiente. Suas asas metálicas batiam de leve enquanto ela voava em torno das projeções, apontando com pequenos feixes de luz, explicando com sua voz suave e clara:

Astra:  “Esta é a antiga Torre de El’Mareth, onde magos treinavam ao pôr do sol.”

“Aquela floresta? Chamavam-na de Vayrun, lar de elfos e felinos falantes…”

Era como se Lua e Astra tivessem ensaiado aquela apresentação mil vezes — seus gestos e falas se completavam em harmonia, deixando a todos fascinados.

Lua então ergueu a mão, fazendo com que uma das projeções ganhasse forma maior e mais detalhada. Com carinho e saudade na voz, ela anunciou:

Lua:"Esta… era Grimor."

Um cliente mais velho, de olhos arregalados, se adiantou entre o público:

Cliente:“Grimor? Já ouvi falar… é da lenda dos Heróis Valentes, não é?”

Lua (sorrindo):"Sim, meu caro. Grimor era um reino que abrigava diversas espécies, todas vivendo em harmonia. Foi lá que conheci Suya, uma arqueira determinada com olhos de fogo. Reencontrei Bryan, sempre prático e valente, e Corey, com sua inteligência, guiava o grupo pelo melhor caminho, evitando monstro e armadilhas..."

Enquanto Lua narrava, as imagens reagiam: Suya aparecia atirando flechas em um campo nevado; Bryan afiando sua espada diante de uma fogueira; Corey sorrindo, segurando um estandarte antigo. Eram cenas que não estavam em nenhum livro, memórias vivas moldadas por luz e emoção.

Então, com um giro repentino, Astra mergulhou em uma das imagens, fazendo-a se desmanchar como fumaça. Lua deslizou suavemente para o lado, agora invocando sua magia da água. Correntes líquidas se ergueram do chão como cobras em uma dança hipnótica, serpenteando ao seu redor. Com movimentos lentos dos braços, as águas se moldaram em dragões majestosos, cujas escamas cintilavam com a luz mágica condensada nas gotas — cada uma brilhando como pequenos cristais suspensos.

A plateia soltou suspiros de espanto. Os dragões giravam em torno da maga, que agora dançava em meio às formas, transformando-as de criatura em criatura — de aves coloridas a baleias etéreas, de místicos grifos a felinos extintos. A cada nova forma, flores mágicas brotavam, iluminadas em tons delicados, como se nascessem de dentro da própria água.

Era um espetáculo de tirar o fôlego.

Painéis de água foram se erguendo ao redor, suspensos como espelhos flutuantes. Neles, Lua projetava cenas do passado, lembranças vívidas como sonhos vítreos, enquanto Astra narrava pequenas histórias que davam vida àquelas imagens — e como mágica, os personagens pareciam sair dos espelhos, ganhando forma em um quase 3D sem necessidade de óculos.

Ao fim da apresentação, Lua desacelerou os movimentos. Pequenas luzes começaram a surgir no ar — vaga-lumes de magia, estrelas flutuantes — que, uma a uma, se transformavam em flores de luz, espalhando-se pelo ambiente. A água começou a evaporar lentamente, formando uma névoa brilhante. As flores, ao contato com essa névoa, iam desaparecendo aos poucos, como pétalas dissolvidas no vento.

E assim, com o salão inteiro silencioso de encantamento, o show chegava ao fim. Um segundo de puro silêncio… e então:

Aplausos. Muitos aplausos. Assovios, gritos de "bravo!", mãos batendo nas mesas.

A magia — real e antiga — havia tocado os corações de todos ali.

Lua, ofegante, mas sorridente, olhou para Astra, que girou no ar com um pio alegre.

A lenda da maga ancestral e sua coruja Astra acabava de nascer naquela cidade onde a magia, até então, era apenas uma lembrança distante.

Na manhã seguinte, no apartamento de July, a luz do sol atravessava as cortinas semiabertas, iluminando suavemente o ambiente moderno, mas aconchegante. A mesa da cozinha estava posta com duas canecas fumegantes de café, acompanhadas de pães aquecidos e algumas frutas típicas de Velyria

July e Lua estavam sentadas à mesa, ambas ainda com roupas leves e o cabelo levemente desalinhado pela preguiça da manhã. A atmosfera era tranquila, marcada pelo aroma do café fresco e o som distante da cidade acordando lá fora.

July, com um sorriso satisfeito, mexia sua caneca enquanto comentava animada:

"O show de ontem foi um sucesso! Agora a lenda dos Heróis Valentes vai ser ainda mais comentada... e não só isso — o título de 'A Maga Ancestral' também vai ecoar por toda Velyria! Isso se não chegar rápido até Etéria."

Lua, ao ouvir aquilo, soltou uma risadinha leve e levou a caneca aos lábios antes de responder:

Lua:"Obrigada, mas… não precisa exagerar." — Disse com um sorriso tímido, rindo do entusiasmo de July.

July (determinada):"Não é exagero, acredite em mim. Aqui as informações voam. O Hypercafé vai ficar lotado, ainda mais depois do que vocês mostraram ontem. Astra até ganhou fã-clube, viu?"

As duas riram juntas, compartilhando aquele momento de leveza após dias tão intensos.

Depois de um gole em seu café, July apoiou os cotovelos na mesa e olhou para Lua com um brilho no olhar:

"Mas hoje é final de semana… Tá a fim de ir até Antyros? Podemos continuar a busca pelos seus amigos por lá. Tenho uns contatos e talvez a gente descubra alguma coisa útil."

Lua pousou a caneca suavemente na mesa, o sorriso agora mais sereno. O convite fazia seus pensamentos voltarem a Bryan, Suya e Corey — e com a presença de July ao seu lado, sentia que estava no caminho certo.

Lua: — Vai ser ótimo, vamos. Espero que encontremos algo. Quem sabe não acabamos tendo.. uma pequena aventura? – diz com motivação e logo gratidão no olhar — Obrigada novamente July, por tudo, graças a você conheci e aprendi muitas coisas. Quero poder lhe apresentar aos meus amigos, eles irão adorar você. – dando uma pequena pausa e com um grande sorriso continua — Bem, então vamos nos arrumar.

Após terminarem o café da manhã e trocarem algumas últimas palavras descontraídas, Lua e July não perderam tempo. Recolheram o que precisavam para o dia — documentos, chips de acesso, mantimentos leves e, claro, os itens mágicos de Lua — e saíram do apartamento prontas para a próxima etapa da jornada.

Astra, sempre atenta, alçou voo do parapeito da janela, pousando brevemente no ombro de Lua antes de bater suas asas metálicas com suavidade e acompanhá-las pelo céu, como uma sentinela silenciosa.

O transporte até Antyros não demorou muito, mas conforme se aproximavam da cidade, Lua já percebia a mudança no ar. Ao atravessarem o portal de entrada do distrito, uma atmosfera completamente diferente as envolveu — quase como se tivessem viajado no tempo.

O contraste com Thecris era nítido.

Ali não havia o mesmo excesso de tecnologia cintilante, nem os robôs circulando em cada esquina. Antyros era um distrito que preservava as raízes do passado, com construções de madeira escura e pedra esculpida, lanternas penduradas nas ruas e incensos queimando nas esquinas. O aroma doce das ervas flutuava no ar, misturado ao som suave de sinos tocados pelo vento.

Lua observava tudo com curiosidade. As mulheres trajavam yukatas coloridas, com tecidos bordados à mão, e os homens também usavam vestes tradicionais, algumas com símbolos espirituais estampados nas costas. A cidade pulsava com uma energia ancestral e espiritual, que Lua conseguia sentir em sua pele como um sussurro do tempo.

Havia lojas de antiguidades por todo o distrito, algumas vendendo relíquias da era mágica, outras dedicadas a artefatos espirituais, pergaminhos antigos, amuletos de proteção e cristais encantados. Em uma esquina, um velho tocava um instrumento de cordas, e as notas se misturavam ao som das fontes d’água e às vozes suaves dos comerciantes conversando com viajantes.

Assim que July e Lua desembarcaram no centro de Antyros, foram recebidas por uma brisa suave carregada com o cheiro de madeira queimada e ervas aromáticas. Astra voava em círculos lentos acima das duas, emitindo sons leves enquanto acompanhava os passos da dupla. July, mais acostumada com a cidade, caminhava com tranquilidade, enquanto Lua observava cada detalhe com fascínio: as lojas decoradas com lanternas de papel, símbolos antigos gravados nas portas, e pequenos santuários em quase toda esquina, com oferendas simples de flores, frutas e pedras brilhantes. Enquanto andavam, passaram por uma praça circular, rodeada por bancos de madeira escura e árvores de folhas largas. No centro, um pequeno grupo de moradores estava reunido, conversando em tom baixo, alguns com expressão solene, outros com brilho nos olhos. Lua diminuiu o passo, atenta às palavras que escapavam dos cochichos.

“… ele passou, por aqui há poucos meses…”“… ninguém esquece o brilho daquele olhar… como se visse além do tempo…”“… desde então, o templo nunca mais ficou vazio…”

Curiosa, Lua parou para escutar melhor. Eles falavam sobre o templo do Deus Liush, uma figura misteriosa e reverenciada em Antyros. Comentavam sobre a breve, mas marcante, passagem dele pela cidade — um momento que, segundo diziam, deixou uma energia tão poderosa que podia ser sentida até hoje. — “A garota… a que se tornou sacerdote do tempo…” — sussurrou uma mulher mais velha, gesticulando discretamente. — “… ela mantém tudo limpo, cuida do altar como se fosse sagrado. Nunca vi alguém com tanto zelo.” July se aproximou de Lua e disse em voz baixa:

July:“Esse templo virou um lugar especial desde que Liush apareceu por aqui. Muita gente acredita que ele era mais do que um homem… talvez uma entidade do tempo.” Lua, com o olhar fixo na direção apontada pelos moradores, sentiu um leve arrepio percorrer sua pele. O fluxo de magia era realmente diferente ali — mais estável, mais profundo. Talvez fosse ali que encontraria alguma pista. Então, sem tirar os olhos do movimento ao redor, virou-se levemente para July e, com um tom de curiosidade sincera, perguntou:

Lua: — *“Como você sabe de tudo isso?”*July, que observava os arredores com as mãos nos bolsos e uma expressão tranquila, sorriu de canto e respondeu com um tom leve, mas cheio de certeza: July:“Eu te disse… as notícias aqui na ilha voam.”

Ela fez uma breve pausa, encarando Lua com um olhar mais sério antes de continuar:

“Não faz muito tempo, um fenômeno aconteceu aqui em Antyros. Um homem… caiu do céu.”

“Ele estava desorientado, confuso, sem saber onde estava. Foi acolhido pela família Ling, uma das mais tradicionais do distrito. Mais especificamente, pela filha deles… Ana.”

Lua franziu levemente a testa, interessada.

July:“Hoje ela é a sacerdotisa do templo do Deus Liush. Mas antes da aparição dele, houve outra garota que também passou por aqui. Ninguém sabia exatamente de onde ela veio, mas dizem que foi ela quem começou a construção do templo… porque estava buscando esse mesmo deus.”

Lua arqueou as sobrancelhas, surpresa. July prosseguiu, agora com a voz mais baixa, como se contasse um segredo:

“Ela contava histórias sobre Liush, ela disse que tinha se separado dele, e deste então o buscava… Mas depois de alguns meses… simplesmente desapareceu. Ninguém sabe se ela foi embora, … ou se o tempo a levou, ela ficou conhecida como a Deusa prateada, pois seus cabelos eram brancos, mas à luz do sol refletia como prata, e seus olhos eram belos como se fosse a própria lua, bem é o que dizem.

Lua permanecia de pé, o olhar perdido por um momento, como se as palavras brotassem diretamente de seus pensamentos. Seus olhos cintilavam com um misto de confusão e fascínio, refletindo a avalanche de perguntas que escapavam de seus lábios sem pausa.

Será que... o mesmo que ocorreu comigo e meus amigos pode ter acontecido com eles dois? Será que essa moça dos cabelos dourados achou um jeito de voltar de onde ela veio? — começou a divagar em voz alta, os dedos tocando o colar em seu pescoço num gesto inconsciente. — E ele... esse ser, Liush... poderia ser um ser com magia, como eu? Porém não sinto magia élfica... mas sua magia é realmente poderosa, a ponto de deixar, tipo... rastro no ar...

Sua voz acelerava, embalad pelas próprias deduções.

Talvez um mago? Há muitas magias de magos diferentes, até usadas para o tempo. Mas que eu saiba... apenas magos ancestrais possuem a capacidade de deixar rastros tão presentes assim... — Ela fez uma breve pausa, inspirando fundo, como se tentasse organizar seus pensamentos. Mas a enxurrada de ideias era mais forte do que seu próprio controle. — Essa moça... a sacerdotisa Ana... será que viu meus amigos passarem por aqui? Talvez tenham ido ao templo buscar informações... O que você acha, July? Você já foi lá? Já viu a sacerdotisa?

A enxurrada de perguntas vinha sem espaço para respostas, revelando o quanto a jovem maga estava imersa em sua curiosidade. Lua não percebia que falava tudo de uma vez, quase como se estivesse pensando em voz alta. Sua mente conectava fatos, nomes, possibilidades, enquanto seu corpo ainda carregava o arrepio da energia sentida momentos antes

July piscou algumas vezes, tentando acompanhar o turbilhão de perguntas que saía da boca de Lua como uma tempestade verbal. Seus olhos seguiram os gestos e expressões da maga, visivelmente impressionada com a intensidade de suas emoções e pensamentos. A cada nova dúvida lançada, July parecia ficar mais zonza, como se estivesse tentando decifrar um enigma enquanto era arrastada por uma correnteza de palavras.

Ela levou a mão à testa, rindo baixinho, num gesto leve, mas revelador.

Calma, Lua... — disse com um sorriso gentil, tentando recuperar o fôlego. — Você faz tantas perguntas ao mesmo tempo que fiquei até tonta...

July se aproximou, pousando a mão com delicadeza no ombro da maga, tentando trazê-la de volta ao momento presente.

Por que não fazemos o seguinte? — continuou ela, agora com o tom mais calmo e firme. — Vamos até o templo do deus Liush. Talvez a sacerdotisa Ana possa nos dar alguma resposta. Se seus amigos passaram por aqui, é bem provável que tenham buscado ajuda lá também.

Lua ainda estava com os pensamentos embaralhados, a mente fervilhando de dúvidas e suposições. Em meio à confusão, ela se deu conta de que estava falando demais, talvez até alto demais. Com um pequeno sobressalto, levou a mão à boca e riu de si mesma, num gesto tímido mas sincero.

— Ah... desculpe, achei que algumas perguntas estavam só em minha mente, então eu não parei de falar um segundo — disse Lua, com as bochechas coradas, tampando rapidamente a boca com a mão e soltando um leve riso. Então, tentando disfarçar o embaraço, completou com um sorriso — Vamos, adorei sua ideia, July. Confesso que além de estar buscando respostas sobre meus amigos, fiquei um pouco curiosa para ver o lugar.

July sorriu com naturalidade, parecendo feliz por ver Lua animada novamente.

— Ótimo — respondeu de forma direta, mas acolhedora. Sem perder tempo, ela se virou e fez um gesto com a cabeça, indicando o caminho

O sol atravessava as estruturas metálicas e tradicionais de Atyros enquanto July e Luarina caminhavam pelas ruas até o templo do deus Liush. 

A arquitetura do templo mesclava traços modernos com elementos sagrados e antigos, como se o tempo ali tivesse escolhido não seguir regras. Subindo os degraus de pedra clara, elas chegaram ao pátio. Havia um ambiente sereno — algumas pessoas estavam ajoelhadas em oração, outras conversavam suavemente entre si, e algumas carregavam cestos ou varriam o chão de mármore com tranquilidade, auxiliando nas tarefas do templo. 

July guiou o passo com segurança e se aproximou de uma jovem que organizava velas perto de uma pequena fonte ornamentada. — Com licença, estamos procurando a sacerdotisa Ana — disse July, com sua voz gentil e firme. A garota, com um sorriso educado, apontou em direção ao prédio interno do templo. — Ela está lá dentro. — Obrigada — respondeu July, com um aceno de cabeça. Ela e Luarina seguiram com calma até a entrada. Com respeito pelo local sagrado, bateram levemente na porta de madeira ornamentada. Poucos segundos depois, a porta deslizou para o lado, revelando uma jovem de beleza calma e marcante — cabelos castanhos lisos que iam até os ombros e olhos verdes profundos, que transmitiam empatia e sabedoria.

— Olá, em que posso ajudar vocês? — disse a jovem com gentileza.

— Estamos procurando a sacerdotisa... você é Ana? — perguntou July.

Ana: — Sim, sou eu. Por favor, entrem.

As três se acomodaram em uma sala decorada com tapeçarias, velas suaves e prateleiras com relíquias espirituais. O ambiente era acolhedor e silencioso.

— Em que posso ajudar vocês? — perguntou Ana, olhando de uma para a outra.

July fez uma breve pausa, olhou para Luarina com cumplicidade, depois voltou-se para Ana:

— É que minha amiga aqui está procurando uma pessoa. Você saberia dizer se viu algo estranho pela cidade, ou alguém incomum que tenha chegado em Atyros?

Ana cruzou as mãos no colo e esboçou um leve sorriso.

— Bem... por aqui algumas coisas aconteceram sim, já faz alguns meses...

Com um tom reflexivo, Ana começou a narrar os estranhos acontecimentos do passado recente — o aparecimento de Liush, um homem que surgiu do céu, confuso, e da garota chamada Agatha, que havia sido vista antes disso. Sua voz transmitia um misto de fascínio e mistério, enquanto Luarina e July escutavam com total atenção.

Assim que Ana terminou sua história, Luarina inclinou-se levemente para a frente, retirando um pequeno jornal dobrado de sua bolsa. O papel estava levemente amassado, mas a manchete ainda era visível: "Heróis Valentes: Mitos ou Lembranças?". Ela entregou o jornal nas mãos de Ana.

— Estou procurando minha amiga Suya Violet... e também Corey e Bryan Kirby — disse Lua, com firmeza e um toque de saudade na voz.

Ana arregalou os olhos, surpresa.: — Você está procurando... personagens de uma história?

July respondeu de imediato: — Não são personagens. São pessoas reais. E, aliás, diante de você está a própria Maga Luarina.

Ana olhou de Lua para July, visivelmente confusa, quase duvidando do que ouvia.

— Você está dizendo que seu nome é... Luarina Olivën? A maga lendária que, junto com Suya, Bryan e Corey, salvou uma vila de caçadores na era antiga?

— Essa mesma — afirmou July com convicção.

Ana franziu a testa, ainda sem saber se acreditava ou não.

— Mas... os contos dizem que a Maga Luarina era uma elfa... não uma humana.

July sorriu de canto, e com um olhar cúmplice disse: — Bem... ela é uma elfa. Lua, mostre a ela.

Lua respirou fundo, concentrando sua energia, e murmurou algumas palavras em voz baixa — a magia sutil que aprendera com seu pai brilhou levemente ao redor de sua cabeça, como um véu sendo erguido, e então suas delicadas orelhas élficas tornaram-se visíveis. Eram finas, graciosamente pontiagudas e ligeiramente inclinadas para trás, reluzindo sob a luz suave do templo.

Com um sorriso sereno, ela disse:

Elas sempre estão aqui, só não visíveis. — Olhou para Ana com gentileza e continuou — Quando acabei por vir parar aqui, escolhi utilizar esta magia que as fazem “desaparecer”. Como eu não conhecia nada ao meu redor, essa escolha acabou sendo involuntária naquele momento, por proteção... sabe? Para não chamar atenção, até eu descobrir mais sobre esse lugar, e se eu estava ou não em perigo por tudo o que ocorreu.

Lua soltou um pequeno suspiro, seus olhos vagando brevemente pelas memórias confusas de sua chegada, e completou com uma leve pausa:

E... bem... até o momento não vi nenhum outro elfo. Então acabei por estender a magia por mais tempo, desta vez conscientemente. Por tudo isso, ainda não as deixo aparentes por muito tempo...

Nesse momento de revelação, os olhos de Ana brilharam intensamente. Era como se o próprio coração da jovem sacerdotisa pulasse de alegria — o sonho dela de conhecer uma elfa estava ali, se realizando diante de seus olhos. A garota mal podia acreditar no que via. Seu sorriso cresceu, quase infantil, de tão genuíno, e ela deu um passo à frente com os olhos fixos nas orelhas de Luarina.

Elas são de verdade? — disse Ana, com voz encantada — Eu posso... eu posso tocar? — perguntou com um brilho nos olhos, cheia de expectativa, como se estivesse diante de algo sagrado e mágico ao mesmo tempo.

Lua sorriu suavemente com a empolgação nos olhos de Ana e respondeu com doçura:

Claro, pode tocar sim.

Com cuidado, quase como se estivesse manuseando algo sagrado, Ana esticou a mão trêmula e encostou suavemente nas orelhas de Lua. Seus dedos deslizaram com delicadeza sobre a pele fina e pontiaguda. A sacerdotisa prendeu a respiração por um instante, maravilhada com a realidade do toque. Seus olhos verdes brilharam ainda mais, e um sorriso leve se formou em seus lábios, como se tivesse acabado de tocar um fragmento de um conto de fadas tornado real.

Enquanto Ana ainda absorvia aquele momento mágico, Lua fez uma breve pausa, observando a reação da jovem à sua frente. Seus olhos percorreram o rosto de Ana e, por um instante, viu ali um reflexo de si mesma: curiosa, cheia de sonhos e perguntas.

Você deve estar cheia de perguntas, eu sei... Eu também fiquei, — disse com um risinho contido, antes de continuar, sua voz calma e envolvente. — Meu nome é Lua Karina Olivën. Nasci no reino de Oryon. Fui morar com minha tia em Grimor quando era mais jovem. Foi lá que conheci minha amiga Suya, enquanto eu fazia entrega de poções para meu tio.

Lua fez uma pausa breve, deixando que Ana e July absorvessem as palavras. Havia algo mágico em cada frase, como se estivessem ouvindo uma crônica antiga sendo contada pela própria protagonista.

Eu realmente tenho uma irmã gêmea. Sou filha de uma maga dos mares e de um elfo das florestas — como dizem nas histórias... — ela sorriu ao ver a expressão encantada de Ana — Meu apelido é Luarina. Bem... para os amigos também é Lua.

Houve um silêncio respeitoso por um momento, até que Lua retomou com um tom mais pensativo:

Ainda não sei como vim parar aqui. E não tenho certeza se isso também aconteceu com meus amigos... Mas, pelo que vi nas histórias, ultimamente acredito que sim. Então, estou à procura deles.

Seus olhos então se voltaram para July, e ela disse com um tom mais descontraído:

Isso realmente parece loucura, inacreditável... ou até como aquelas histórias chamadas "fantasia" que você me mostrou.

Voltando a encarar Ana, Lua deixou a voz suavizar novamente:

Mas é o que aconteceu comigo... e, sinceramente, eu ainda me surpreenderia com isso, se não tivesse olhado para a minha própria imagem nesse papel envelhecido... aquele que encontramos naquela biblioteca tão diferente da que conheço, onde livros contam histórias que não são reais... — Lua segurou o papel, os olhos refletindo uma nostalgia curiosa — Na minha época, histórias eram as do passado. E os livros falavam de magia, poções, curas, coisas da floresta... apenas isso. Nunca imaginei que um dia...

Fez uma pausa, com os olhos fixos no papel, antes de completar em voz baixa, quase como um pensamento em voz alta:

...nunca imaginei que eu seria a história para uma geração...

July, que até então escutava em silêncio com uma expressão de admiração profunda, sorriu com carinho e respondeu com emoção:

Então que bom que você está aqui, né, Lua? Poder ver os frutos que você e seus amigos deixaram... Nos dando esperança, nos fazendo fantasiar, imaginar, reviver cada uma das suas histórias... Isso é incrível, sabe?

Com os olhos ainda brilhando de encantamento após ter tocado nas orelhas élficas de Lua, Ana deu um pequeno passo para trás, mas não desviou o olhar nem por um segundo. Era como se quisesse gravar cada detalhe daquela jovem maga em sua memória. A luz suave do templo refletia nos olhos verdes da sacerdotisa, acentuando o fascínio e a expectativa em sua expressão.

Com a voz doce, quase como um sussurro para não quebrar o encanto que pairava no ar, Ana perguntou:

Como é a sua irmã gêmea? — fez uma breve pausa, e seu tom ficou ainda mais baixo — Ela também é uma maga como você?

O sorriso de Lua surgiu com naturalidade, mas havia nele uma sombra de saudade. Seus olhos se perderam por um instante, como se a pergunta de Ana tivesse aberto uma porta para lembranças guardadas com carinho. O brilho em seu olhar agora não era mágico, mas profundamente humano — carregado de afeto e nostalgia.

Ela cruzou os braços com suavidade sobre o peito, respirou fundo e respondeu com ternura:

Ela é... única. — um pequeno riso escapou-lhe pelos lábios. — Fisicamente somos idênticas, mas nossas almas têm cores bem diferentes.

Lua deixou o olhar se desviar, como se tentasse capturar a imagem de sua irmã no ar, e continuou:

Ela é como um dia ensolarado, com cabelos loiros quase dourados. Essa é a nossa única diferença física. Sim, ela também é maga, mas suas habilidades élficas são mais predominantes que as minhas. — a maga deixou um breve sorriso aquecer seu rosto. — Vocês iriam adorá-la. Ela é doce, gentil e muito extrovertida, adora fazer amizades, ama os animais e... — com um leve suspiro — como eu sinto a falta dela...

Houve um instante de silêncio carregado de emoção antes que Lua retomasse, num tom mais baixo, quase como uma confissão:

Éramos inseparáveis. Mesmo quando ela ouviu o chamado da floresta e partiu para segui-lo, ou quando eu me aventurava com meus amigos, trocávamos mensagens pelos nossos colares todos os dias.

Ao perceber que Ana e July a olhavam com expressões tristes, sentindo o peso daquela saudade, Lua ajeitou-se, erguendo o queixo com leveza.

Não fiquem tristes. — disse, tentando quebrar a melancolia com um sorriso. — Com tudo o que aconteceu, ainda tenho esperanças de vê-la novamente. Sabe, não é impossível dadas as circunstâncias.

E, para suavizar o clima, ela completou com uma pequena careta alegre, arrancando um leve riso das duas.

Ana ouvia cada palavra de Lua com atenção absoluta, os olhos verdes fixos no rosto da jovem maga élfica. Quando a história sobre a irmã terminou, um sorriso suave iluminou seu semblante.

Você tem razão em não perder as esperanças. — disse, com a voz carregada de ternura. — E, ouvindo mais sobre sua irmã, agora eu quero conhecê-la.

Havia uma mistura de encanto e determinação no olhar de Ana, como se já estivesse imaginando o dia em que conheceria a outra metade daquela história.

July, que observava as duas, deixou escapar alguns risinhos, claramente tocada pela esperança confiante de Lua. Seus olhos brilhavam de curiosidade quando perguntou:

Mas... como vocês se comunicavam utilizando um colar?

Lua ajeitou-se levemente, tocando de forma instintiva o pingente que descansava sobre seu peito. Havia algo na pergunta que a levou direto a um redemoinho de lembranças, e um ar de nostalgia se instalou em seu semblante.

No dia em que nascemos, esses dois colares gêmeos foram criados através da energia do momento do nosso nascimento. — começou, sua voz agora carregada de um tom mais suave, quase reverente. — Isso é uma tradição muito antiga que seres naturais praticavam. Normalmente, o clã inteiro se reunia em volta do chalé onde ocorria o parto e utilizava as energias da natureza elemental em conjunto com a energia do nascer para criar algo como presente para a nova vida que estava por vir.

Fez uma pausa curta, como se revivesse mentalmente aquela história que ouvira tantas vezes quando criança, antes de prosseguir:

No nosso caso, meus pais, minha tia e meu avô decidiram praticar a tradição apenas os quatro. Eles sabiam que, por serem poucos, não conseguiriam criar algo grande ou mais de um item. Então escolheram criar um colar, que depois poderia ser transformado em duas pulseiras.

O olhar de Lua se aprofundou, e um leve sorriso nostálgico apareceu enquanto continuava:

Mas... quando o colar estava tomando forma, de alguma maneira ele se duplicou sozinho. Ainda utilizou um pouco da essência minha e da minha irmã, algo extremamente raro. Nunca se ouviu falar que isso fosse possível. O que era para ser um, acabou se tornando dois... como se fossem espelhos um do outro.

Seus dedos deslizaram suavemente sobre o colar enquanto ela explicava:

Com isso, éramos capazes de nos comunicar e até sentir a presença uma da outra. Mas... quando cheguei aqui, só consegui sentir a minha própria essência. Então, quando a July me mostrou os lugares, me falou sobre tecnologia e sobre o tempo em que estávamos, eu finalmente entendi o motivo de não sentir a Hoperin... — Lua fez uma breve pausa, olhando para as duas com um ar melancólico, porém firme — Eu não estava mais no tempo que chamávamos de nosso.

Ana, com um sorriso de encantamento ainda estampado no rosto, comentou com sinceridade:

Elfos são incríveis... Sempre ouvi histórias sobre a sua espécie. — Seus olhos brilharam ainda mais quando, de repente, ela pareceu se lembrar de algo. — Ah, espere... eu tenho algo para você.

Virou-se rapidamente e caminhou até uma estante de madeira escura no canto da sala. Seus dedos percorreram a fileira de livros até que pararam em um volume antigo, de capa grossa, adornada com símbolos dourados e gravuras levemente desgastadas pelo tempo.

Aqui. — disse, retornando para perto de Lua. — Minha avó me contava essa história quando eu era criança e eu me apaixonei por ela. Sempre quis conhecer uma elfa de verdade.

Ela então entregou o livro à jovem maga. Na capa lia-se A Lenda da Guardiã de Yaraheim. Ao abri-lo, o cheiro de páginas antigas tomou o ar. O texto narrava a história de um clã ancestral, guardião das forças vitais da natureza.

“O Clã Yaraheim, unido por laços sagrados com as florestas e rios, vivia para proteger e preservar o equilíbrio natural. Sua líder era uma guardiã lendária, uma elfa de beleza quase mística. Alguns relatos diziam que seus olhos eram azuis como o céu límpido e que seus longos cabelos brancos lembravam a neve. Outros, porém, afirmavam que seus fios dourados brilhavam como ouro sob a luz do sol.”

Ana, olhando para Lua com atenção, comentou com voz suave:

É uma lenda antiga… Meus avós costumavam me contar quando eu era menina. Diziam que, naquela época, as florestas eram exuberantes, e os rios transbordavam vida. — Ela fez uma breve pausa, a expressão distante, como se ouvisse a voz de sua avó novamente.

Depois, voltou a sorrir:

Veja... Você descrevendo a sua irmã me lembrou muito essa elfa guardiã.

Virou o livro para Lua, mostrando a ilustração — uma figura etérea, com traços delicados, vestes leves, e um olhar sereno que parecia atravessar a alma.

Lua, ao ver a imagem, sentiu seu coração apertar. Instintivamente, passou os dedos pela página, acompanhando o contorno da figura desenhada. Sua outra mão repousava sobre o colar no peito. Ela não percebeu, mas ao pensar em sua irmã Holpe

algo começou a acontecer.

O desenho no livro começou a emitir um brilho suave. Aos poucos, a ilustração pareceu se mover, como se fosse feita de luz e vento. As cores ganharam vida, e a imagem se expandiu, tomando forma diante delas. Era como se um portal estivesse se abrindo no meio do ar.

Um arrepio percorreu o ambiente. Um vento súbito atravessou a sala, fechando com força todas as janelas. As velas acesas tremularam até se apagarem, mergulhando o local em uma penumbra densa. Uma neblina espessa e fria se espalhou rapidamente, cobrindo o chão e envolvendo os pés das três.

Foi então que uma voz ecoou, suave e e etérea, parecendo vir de todos os lados ao mesmo tempo. O colar de Luarina brilhou com uma intensidade jamais vista antes, pulsando como se respondesse a um chamado antigo e profundo

A voz que ecoava no ambiente, embora misteriosa, tinha um tom suave, quase acolhedor, como o murmúrio de uma canção antiga. Ela parecia deslizar pela neblina, envolvendo cada canto da sala.

Antes que a névoa começasse a se dissipar, as velas apagadas acenderam-se sozinhas, uma a uma, suas chamas tremeluzindo como se respondessem a uma presença maior. A luz amarelada e quente recortou a silhueta de uma figura feminina no centro do cômodo.

Seus longos cabelos caíam em ondas até a cintura, brilhando à luz das velas como fios banhados por luar. As delicadas orelhas pontudas, marcando sua herança élfica, sobressaíam por entre as mechas. A neblina, lenta e preguiçosa, começou a se afastar de seus pés, revelando-a por completo — uma figura imponente e serena, trajando vestes que pareciam costuradas com fragmentos da própria floresta e da luz do amanhecer.

Luarina ficou imóvel, como se o tempo tivesse parado ao seu redor. O coração bateu forte em seu peito, e seus olhos se arregalaram diante da figura que emergia da dissipação da névoa. A respiração lhe faltava, mas ainda assim um sussurro, quase incrédulo, escapou de seus lábios:

Hoperin...?

A elfa diante delas, agora completamente visível, franziu levemente o cenho, a expressão tomada por confusão. Seus olhos, límpidos e brilhantes, refletiam mais dúvidas do que respostas.


Antes que Lua conseguisse reagir, July avançou um passo, olhando da amiga para a recém-aparecida. Sua voz carregava nervosismo e incredulidade:

Quem é você? — perguntou, tentando quebrar o silêncio denso. — Espera... o que acabou de acontecer?

A elfa piscou algumas vezes, respirou fundo e levou a mão ao peito, como se tentasse se situar. Sua voz soou hesitante, carregada de incerteza:

Hã... onde estou?

Ela olhou ao redor, absorvendo o cenário à sua volta: as paredes do templo, os vitrais escuros, o cheiro das velas queimando — nada daquilo lembrava a floresta de onde vinha.

O silêncio voltou a se alongar, até que, percebendo os olhares fixos e atônitos das três garotas à sua frente, a elfa recuou levemente, surpresa.

E vocês...? Quem são? — perguntou, a desconfiança e a curiosidade mescladas em seu tom.

O silêncio pesado foi quebrado apenas pelas apresentações iniciais.

Meu nome é July — disse a garota, ainda observando cada detalhe daquela elfa que parecia ter saído das páginas do livro.

Logo em seguida, Ana sorriu nervosa, mas encantada, e também se apresentou.

Mas quando chegou a vez de Lua, suas palavras demoraram a sair. Seus olhos, fixos e marejados, estavam completamente presos à figura diante dela. Finalmente, com a voz clara, firme, mas cheia de emoção, deixou escapar:

Hoperin...?

A elfa à frente delas piscou, surpresa. Seus lábios se entreabriram em incredulidade.

— Há quanto tempo... não escuto esse apelido — respondeu com a voz embargada. Seus olhos se fixaram na jovem maga, percorrendo-a de cima a baixo, como quem tenta decifrar um mistério. A expressão de confusão se suavizou, dando lugar a uma centelha de reconhecimento. — Você... é idêntica a... Luarin.

Luarin? — Lua repetiu ao mesmo tempo, quase num reflexo.

— É você... mas como? — disse Hope, a surpresa agora se transformando em pura emoção.

— Então a guardiã da história... é sua irmã, Lua? — perguntou July, chocada, olhando de uma para outra.

Hope começou a caminhar lentamente em direção a Lua. Seus olhos marejados brilhavam a cada passo, como se a distância entre elas fosse diminuindo junto com os anos de saudade. Quando finalmente a alcançou, não hesitou. A abraçou forte, como se temesse que fosse apenas uma ilusão prestes a desaparecer.

É mesmo você — sussurrou, sentindo o abraço ser retribuído, e então as lágrimas escorreram. — Minha irmã mais velha... minha melhor amiga. Por onde você esteve? Nunca deixamos de procurar por você.

Um brilho intenso floresceu entre as duas irmãs, envolvendo-as por completo. A luz parecia viva, pulsando com o reencontro, até lentamente se dissipar.

— É uma longa história... — respondeu Lua, emocionada, ao desfazer o abraço. — Senti tanto a sua falta, Hoperin.

Hope, rindo suavemente entre as lágrimas, comentou:

— Como é possível você ter mudado tão pouco? Parece até que é você a mais nova agora.

July, que observava o momento com os olhos marejados, não conseguiu conter o comentário:

— Olha, depois de tudo que já passamos juntas, eu achei que nada mais me surpreenderia... mas vocês duas acabaram de provar o contrário.

As duas irmãs riram juntas ao perceberem que falaram quase ao mesmo tempo, o que tornou o momento ainda mais especial.

— Ainda não entendi exatamente como e o que aconteceu aqui... — disse Hope, respirando fundo, tentando recuperar a calma. — Mas, perdoem meus modos. Deixem-me apresentar-me devidamente: sou Hope Solarin Olivën. Muito prazer.

Ela fez um leve aceno, cheio de graça e gentileza, antes de voltar os olhos para Lua.

— Tenho muito a contar... mas antes, diga-me, minha doce irmã, como conseguiu me chamar?

Ana, com um sorriso radiante que mal conseguia conter, tomou a frente. A empolgação era tanta que precisou pigarrear para não deixar a voz falhar:

— Cof, cof... com licença, Hope. Talvez eu possa responder isso.

Ela pegou o livro da lenda e o mostrou à guardiã. Hope o analisou com atenção, passando os dedos pelas páginas, e suspirou.

— Entendo... embora este seja apenas um conto pequeno sobre mim, ainda seria necessária uma magia poderosa para invocar o espírito de uma guardiã. Mas... não esperaria menos da minha irmã gêmea. Ela sempre foi muito talentosa.

July completou, sorrindo: — Acho que a saudade também teve parte nisso. A Lua sempre falou de você, Hope. E no momento em que ela tocou o livro, estava segurando o colar...

Hope ergueu os olhos e então fixou-os no colar de Lua. — Esse colar... não é apenas um simples objeto. — Ela retirou o próprio colar e o mostrou às três. O brilho era intenso, vivo, pulsante. — Quando você o segurou, sua alma desejou profundamente me reencontrar. Esse desejo ecoou, e foi ele que me trouxe até aqui. Veja... o meu ainda brilha tanto quanto o seu.

Ela sorriu, emocionada, e abraçou Lua novamente. Desta vez, Lua não conteve as lágrimas, um sorriso largo iluminando seu rosto. No instante em que os colares se tocaram, as orelhas élficas de Luarina reapareceram sozinhas, como se jamais tivessem estado ocultas.

Um clarão forte emanou das duas irmãs ao mesmo tempo, a magia fluindo em ondas poderosas. Era como se uma antiga ligação tivesse sido restaurada, uma ponte entre duas almas idênticas, mas únicas.

A energia explodiu em pura magia, expandindo-se além da sala e reverberando por toda a cidade, fazendo o fluxo mágico vibrar mais forte do que há séculos.

A explosão mágica reverberou como uma onda invisível, percorrendo cada rua, cada beco e cada pedra da cidade. Ana e July, ainda de olhos fechados, sentiram a energia passar por seus corpos como uma corrente quente e vibrante, despertando nelas um poder que parecia adormecido.

Para os praticantes de magia, o efeito foi imediato: o fluxo que antes parecia estático e lento agora corria vivo, intenso, como um rio em plena enchente. Era como se toda a cidade tivesse se tornado um grande receptáculo de mana.

Enquanto isso, os cidadãos comuns seguiam sua rotina, completamente alheios ao acontecimento. Comerciantes chamavam clientes, crianças brincavam nas ruas e viajantes cruzavam os portões, sem a mínima noção da mudança colossal que havia se instaurado no tecido mágico ao redor.

Já na floresta, não muito longe dali, Liush interrompeu seu treinamento. O suor ainda escorria pelo rosto, sua respiração ofegante pela sequência de golpes que praticava, mas tudo parou quando a onda mágica o atingiu

Ele ergueu a cabeça, seus olhos se estreitaram, e o corpo estremeceu ao sentir a energia percorrer-lhe as veias.

— Esse fluxo… — murmurou, erguendo a mão, observando faíscas sutis de mana dançando em seus dedos.

O boato daquela mulher misteriosa que ele tanto buscava voltou a ecoar em sua mente.

Liush rapidamente saltou para o topo de uma árvore, fixando o olhar em direção ao epicentro da onda de mana.

Este poder... está vindo do templo. E sinto traços da minha energia por lá... deve ser a Ana, que ainda carrega resquícios da minha mana pelo tempo que esteve próxima a mim...

Aflito, ele apertou com força a empunhadura de suas espadas enquanto observava a distância entre a floresta e o templo.

Tem algo errado... se for alguém ou algo ruim com esse nível de poder... a Ana e toda aquela cidade estão em perigo.

O receio aumentava a cada pensamento que lhe atravessava a mente.

Se eu for correndo normalmente, vou levar um dia inteiro para chegar... e se for algo ruim, chegarei tarde demais... não tenho tempo para pensar muito, vou ter que usar isso...

Liush guardou uma de suas espadas, empunhando a outra com as duas mãos. Fechou os olhos, respirou fundo e liberou parte de seu poder. Um fluxo imenso de energia tomou conta do ambiente, correspondendo à onda de mana. A espada agora estava envolvida por raios, e o mesmo fluxo elétrico cobria seu corpo. Liush estava em plena conexão com a lâmina.

Me disseram que os elfos que eu procurava eram extremamente rápidos. Treinei isso por muito tempo para conseguir acompanhá-los caso os encontrasse... espero que isso sirva agora.

Ele assumiu posição para arremessar sua espada, fechou os olhos e se concentrou na localização da mana que sentia. Em seguida, lançou a lâmina com toda a força. As árvores no caminho estremeceram diante do deslocamento brutal de ar. A espada seguiu como um raio em direção ao alvo, enquanto Liush permanecia com os olhos fechados, em posição de avanço, segurando firme a outra espada e mantendo a conexão com a arma arremessada.

No templo, Luarina percebeu de imediato o poder imenso que surgia de fora da cidade. No instante em que notou algo se aproximando, já era tarde. A espada atravessou a janela, passando perigosamente perto de seu rosto e se cravando na parede alguns metros atrás dela.

Todos voltaram os olhos para a lâmina fincada na pedra. No exato momento em que isso ocorreu, Liush abriu os olhos e avançou. Um clarão tomou conta do templo, seguido pelo estrondo de um trovão. Quando a visão de todos retornou, lá estava Liush, com a espada próxima ao pescoço de Lua.


Ignorando a presença de todos, ele dirigiu-se apenas a Ana:

— Ana, está tudo bem... ou devo eliminar essas duas? — disse com firmeza, encarando Luarina e Hope.

Ele firmou o punho da espada, aguardando a resposta de Ana. Lua tentou dizer algo, mas foi interrompida por sua voz fria:

— Eu não perguntei nada a você. As duas, apenas não se mexam até que ela responda minha pergunta.

Antes que Ana pudesse se pronunciar, Luarina canalizou a energia recém-libertada e lançou uma rajada de poder. O impacto atingiu Liush em cheio, arremessando-o bruscamente contra a parede atrás dele. A força foi tamanha que ele soltou a espada, batendo a cabeça e as costas com violência.

Ana, ao ver aquela cena, sentiu o coração disparar e gritou com toda a força de sua voz:

PAREEEE, Luarina! Há um mal-entendido aqui!

Rapidamente, ela correu até Liush, ignorando o choque que tomava conta de todos no templo. Ajoelhou-se ao lado dele, segurando-o pelos ombros e perguntando com preocupação:

Você está bem?

Lua, ao perceber a reação de Ana, sentiu um peso de culpa. Seus olhos se arregalaram e a insegurança em sua voz denunciava o arrependimento imediato:

— M-me desculpe... ele se machucou? — ela gaguejou, desviando o olhar por um instante, antes de voltar a encarar Ana e Liush. — Não era para ser tão forte a ponto de arremessá-lo... eu só queria afastá-lo um pouco.

Enquanto isso, Hope e July permaneciam paradas, olhando fixamente para Ana e Liush, sem entenderem totalmente o que estava acontecendo.

No mesmo instante em que a cena se desenrolava no templo, algo muito maior acontecia em Antyros.

O poder liberado por Liush, que correspondeu à onda de mana anterior, colidiu de forma violenta com aquela energia misteriosa. O choque entre ambas criou um desequilíbrio colossal, e a terra inteira estremeceu.

Um terremoto súbito sacudiu cada rua, cada casa e cada pedra da cidade. As construções tremeram, janelas se estilhaçaram, e o chão se abriu em enormes fendas que cruzavam as praças e os becos. Todos em Antyros sentiram o impacto, fossem humanos, krinis ou mesmo os poucos praticantes de magia que viviam ali.

Do fundo dessas fendas, criaturas antigas, há muito esquecidas no tempo, começaram a emergir. Seus corpos deformados e olhos brilhantes exalavam uma fome insaciável. Eram seres de eras remotas, mantidos adormecidos sob a terra, agora despertos pela explosão de poder.

Elas se ergueram lentamente, liberando rugidos que ecoavam pela cidade. Famintas por energia, atacaram sem distinção. Qualquer pessoa à vista era alvo — comerciantes tentando proteger suas bancas, crianças correndo em desespero, guerreiros que mal tinham tempo de erguer suas armas. As criaturas sugavam não apenas a vitalidade, mas também a essência mágica de quem tocavam.

O caos se instaurou em Antyros. As ruas, antes agitadas pela vida comum, agora eram tomadas por gritos, correria e pelo som aterrorizante das bestas ancestrais, anunciando que a simples colisão de duas forças havia despertado um pesadelo há muito enterrado.

A comoção não demorou a alcançar o templo. O eco dos gritos desesperados tomou conta das ruas de Antyros, subindo até os portões sagrados. Do lado de fora, pessoas corriam em pânico, algumas sangrando, outras carregando familiares feridos, todas implorando por socorro.

“Socorroooo! Elas estão vindo!” — gritava um homem, tropeçando ao tentar subir as escadas do templo.

“Não deixem que elas cheguem até aqui!” — clamava uma mulher, carregando a filha nos braços.

“Ajudem! Pelo amor dos deuses, nos ajudem!” — bradava outro, enquanto olhava para trás, vendo a sombra das criaturas se aproximando.

O som de passos pesados e garras arranhando a pedra ecoava cada vez mais próximo. As criaturas, atraídas pelo fluxo intenso de mana que emanava do templo, subiam as escadarias com voracidade. Seus rugidos misturavam-se ao clamor humano, criando uma cena de puro terror.

Quando alcançaram o pátio, não hesitaram. Saltaram sobre aqueles que ainda tentavam buscar refúgio, rasgando roupas e carne, devorando a energia vital das vítimas em segundos. O pátio sagrado, que deveria ser um lugar de paz e oração, transformou-se em um campo de massacre.

“Nãooo! Eles me pegaram, socorr—!!” — o grito de um jovem foi interrompido bruscamente quando uma das criaturas o agarrou e o consumiu diante dos olhos de todos.

“Corram, corram para dentro do templo!!!” — gritou um guardião, tentando empunhar sua lança, mas logo foi derrubado e arrastado para a escuridão pelas garras afiadas.

O ar estava denso, carregado pelo cheiro de sangue e de energia sendo drenada. Do interior do templo, todos puderam ouvir com clareza os lamentos e clamores por ajuda, seguidos do horror das vidas sendo brutalmente ceifadas à porta de um lugar que até então era considerado sagrado e seguro.



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