Posted by : Suya Violet

 

📜 AVISO IMPORTANTE – CAPÍTULO ESPECIAL 📜

Este capítulo não é como os outros.

Ele é uma homenagem viva, imaginada e guiada pelas asas da águia branca: Kosmo King. 🌌🎲

Foi através da criatividade e paixão desse grande mestre de RPG que esta aventura em Olímpia ganhou vida — e que eu, Suya Violet, pude vivenciar momentos inesquecíveis.

💫 A você, aventureiro, que também deseja atravessar o véu da realidade e explorar Olímpia, fique atento: ao final deste capítulo, você encontrará a chave secreta para acessar o Portal de Olímpia. Que sua jornada seja tão intensa quanto a minha!

Pois eu certamente vivi cada instante com emoção e gratidão.

✨ Mergulhe de coração aberto, aproveite cada cena e cada escolha…

Com carinho, Suya Violet 🏹💜

Agora, sem mais delongas...

🌟 Preparem seus corações, afiem suas armas e abram a mente.

Vocês estão prestes a testemunhar uma jornada única.

Fiquem agora com este capítulo especial vivido em Olímpia.

Que a aventura comece!


A luz que envolvia Suya se dissipou como poeira dourada ao vento.

Ela caiu de joelhos sobre um chão firme e quente, o impacto leve demais para ser considerado queda — como se alguém tivesse suavizado sua chegada.

Suya respirou fundo, o ar era diferente, mais leve, mais puro.

Com um perfume suave de flores silvestres misturado ao aroma de pão recém-assado vindo de algum lugar distante.

Suya ergueu o rosto.

Acima dela, um céu claro e ensolarado se estendia, tão azul que doía nos olhos. Nenhum sinal das tempestades de energia, da fumaça ou das criaturas de Antyros.

Só a brisa quente correndo entre os campos.

Suya: — …O que…? — murmurou ela, ainda tonta.

Ao redor, colinas verdes ondulavam como mantos de seda, e não muito longe erguia-se uma pequena cidade murada.

Casas de pedra clara e telhados de madeira escura se alinhavam harmonicamente como em um conto antigo. Torres, bandeiras ao vento, e o som distante de sinos.

Uma típica cidade medieval.

Suya estreitou os olhos: — Lua? Luarina?! — chamou, girando sobre si mesma, nenhuma resposta.

Quando finalmente se viu por completo, levou a mão à própria roupa…suas vestes haviam mudado.

O tecido era fino, medieval, um traje azul profundo, com detalhes prateados nos ombros e nas mangas. A capa curta ondulava suavemente na brisa.

Seus cabelos — antes presos pela ação e pela urgência — agora caíam soltos, escorrendo pelos ombros em mechas longas e desgrenhadas pelo transporte dimensional.

Apenas o vento correndo pelos trigais e balançando as folhas de uma grande árvore atrás dela.

Foi quando ouviu um som.

Fwoosh

Penas brancas caíram ao seu lado — e, num piscar de olhos, a grande águia branca pousou no galho mais alto da árvore, encarando-a com olhos brilhantes e profundamente inteligentes.


Suya:— Você de novo… — Suya apertou o arco contra o peito. — Afinal, o que você é?

A águia inclinou a cabeça, e então… a voz soou, não vinda de cima, não vinda de nenhum lugar específico. Apenas… ecoando ao redor dela.

Aguia Branca:Arqueira de Grimor. Seja bem-vinda a Olímpia.

Suya deu um passo para trás, instintiva, olhos arregalados: — Quem está falando?!

A águia bateu as asas — mas não voou. Um brilho suave envolveu seu corpo, como pequenos fragmentos de estrelas deslizando por suas penas.

Aguia Branca:Não tema. — a voz continuou — Eu fui enviada para buscá-la, e pode me chamar de Kosmo..

Suya respirou profundamente, firme

Suya: — Buscar… para quê?

A águia abriu lentamente as asas. A águia completou: — Porque Olímpia está prestes a mudar.

Kosmo:E você, Suya Violet… tem um papel a cumprir.

Antes que Suya pudesse reagir, a águia deu um poderoso bater de asas e voou alto no céu azul, desaparecendo entre as nuvens — deixando-a com mais perguntas do que respostas.

Suya respirou fundo: — Certo… vamos por partes. — murmurou, ajeitando o arco nas costas.

Seguindo seu instinto de sobrevivência e a direção para onde a ave apontara, Suya começou a caminhar pelos campos verdes. A cada passo, sons de vida civilizada se tornavam mais claros — conversas distantes, marteladas, sinos.

Logo, imponentes muralhas de pedra surgiram diante dela.

E além delas, uma cidade medieval viva e colorida.

Ao se aproximar dos portões, avistou um senhor de vestes simples e barba prateada, carregando um saco de grãos. Ele a observou com curiosidade — talvez pela roupa incomum, ou pela poeira de viagem, ou… pela forma como ela parecia completamente perdida.

Suya respirou fundo e se aproximou.

Suya:Com licença… que lugar é este? — perguntou, tentando parecer o mais calma possível.

O homem ergueu uma sobrancelha e sorriu de forma gentil.

Campones:Você está na cidade de Valdoria, jovem.

Ele ajeitou o saco no ombro e acrescentou: — Um dos grandes centros do reino de Olímpia.

Ao ouvir o nome, o coração de Suya bateu mais forte.

Olimpia

Exatamente como a águia havia dito.

Mas antes que ela pudesse analisar melhor a situação, o chão tremeu.

Um estrondo ecoou dos céus, e uma fenda de luz e sombra se abriu sobre a cidade, lançando ventos cortantes e uma pressão mágica intensa. Os moradores começaram a correr em pânico…

Suya instintivamente levou a mão ao arco, seus olhos atentos ao caos que começava a se formar.

Suya: — O que... está acontecendo agora...? — murmurou, com o coração acelerado.

O lugar estava quase deserto, com poucas pessoas caminhando pelas ruas. De repente, as sombras que escapavam daquela fenda começaram a sugar a vitalidade e a magia dos transeuntes. Um a um, eles eram engolidos, e apenas alguns poucos conseguiram escapar. Após consumir uma quantidade considerável de pessoas, a sombra se dissipou e desapareceu. Suya assistiu a tudo, impotente — não houve tempo para reagir, pois quando percebeu, todos já haviam desaparecido.

Por perto, caminhava um bárbaro carregando um enorme espadão. Confuso com a situação, ele se aproximou de Suya.

Homem: Ei... você sabe o que aconteceu com esta cidade?

Suya: Não sei. Também acabei de chegar. Mas, se quisermos respostas, talvez seja melhor procurar uma taverna.

Homem: Entendi. A propósito, meu nome é Hakuh. E você, como se chama, senhorita?

Suya: Meu nome é Suya, muito prazer.

Hakuh: O prazer é meu. — disse ele, com um sorriso.

Suya: Já que estamos indo para a mesma direção, posso acompanhá-lo. Ainda não conheço bem a cidade.

Hakuh: Claro, vamos juntos.

Eles seguiram lado a lado até a taverna do Chifre Quebrado, conhecida por sua comida saborosa e bebida inigualável. Ao entrar, Suya pediu uma bebida e, em silêncio, tentou captar alguma conversa que pudesse lhe ser útil. Hakuh, por sua vez, logo se misturou aos frequentadores, puxando conversa aqui e ali. Pouco depois, Suya foi convidada a se sentar em uma mesa, onde um gnomo animado e peculiar veio servi-la com entusiasmo.

Ele se apresentou como Flopp, todo alegre e "flopástico". Flopp tinha a habilidade curiosa de transformar moedas de ouro em comida e bebida, o que tornava a estadia ali ainda mais interessante.

Após alguns momentos de conversa com aquele gnomo carismático, uma figura estranha entrou na taverna: uma mulher envolta em um capuz negro, com vestes sombrias e uma aura que claramente não era convidativa.

Com passos calmos e firmes, ela começou a se aproximar de Suya...


Maga: Olá, quero me juntar ao seu grupo.

Suya, sem entender o que estava acontecendo, respondeu: — E quem é você, primeiramente?

Daphine: Me chamo Daphine, e quero acompanhar vocês.

Suya (arqueando uma sobrancelha): — E quem disse que preciso de você?

Daphine: Todo grupo precisa de um especialista em magia.

Suya: Hmmm... Irei lhe dar uma chance de provar seu valor.

Em um instante inesperado, a atmosfera da taverna mudou. As luzes das lamparinas oscilaram e, das frestas das paredes e do chão, sombras negras começaram a se espalhar, tomando conta do lugar como uma maré sombria. Os clientes, antes entregues à bebida e às risadas, agora gritavam em desespero, à medida que aquelas entidades sugavam sua energia vital, deixando-os fracos e indefesos.

Uma das sombras avançou com velocidade e se lançou sobre Hakuh, envolvendo-o em tentáculos escuros que drenavam sua força. Ele lutava para se soltar, mas a escuridão o prendia cada vez mais. Nesse momento, Suya não hesitou: ergueu seu arco e, com firmeza, disparou uma flecha mágica. O projétil cortou o ar com brilho intenso, atingindo a sombra que prendia Hakuh e obrigando-a a recuar, libertando-o da escuridão.

As sombras, feridas pelo ataque de Suya, se agitaram em fúria. Com movimentos rápidos e grotescos, voltaram-se contra a arqueira, envolvendo-a como uma onda escura prestes a devorá-la. O ar ficou pesado, e uma sensação gélida percorreu sua pele — a ameaça era real e iminente.

Foi nesse instante que a maga, guiada pelo instinto e pela urgência do momento, ergueu as mãos e entoou palavras arcanas. Um feitiço poderoso se materializou diante de Suya, formando uma barreira luminosa que explodiu em energia mágica, repelindo as sombras. O impacto ressoou pela taverna, iluminando o salão por alguns segundos.

Naquele momento, entre o caos e o perigo, Daphine conquistou um pouco da confiança de Suya. O brilho do feitiço ainda se dissipava no ar quando a arqueira voltou o olhar para a maga, sentindo-se aliviada por ter alguém tão poderoso ao seu lado.

Suya: Obrigada. — disse em tom sincero, com um breve aceno de cabeça.

No canto da taverna, havia uma figura quase esquecida aos olhos de todos — exceto de seu empregador. Era uma loba negra, de corpo etéreo, como se fosse formada por nuvens densas. Seus olhos não podiam ser vistos, pois estavam ocultos sob duas asas angelicais que lhe cobriam o rosto. Seu nome, porém, soava como uma melodia suave: Meli.

Meli não passava de uma escrava naquelas paredes escuras, encarregada de limpar os corredores e os banheiros da taverna. Seu dono era um homem velho, rude e gordo, que gastava as noites afogando-se em canecas de vinho e, pela manhã, trabalhava bêbado, descontando nela sua brutalidade.

Mas naquela noite tudo mudou. Enquanto Suya, Daphine e Hakuh lutavam bravamente contra as sombras, o homem que mantinha Meli em cativeiro foi engolido pelas mesmas criaturas. Em um instante, ela se viu livre.

A loba, antes submissa, ergueu o olhar com uma curiosidade renovada. Intrigada com a coragem dos jovens que enfrentavam a escuridão, decidiu não revelar sua presença. Tornou-se invisível aos olhos deles e, como uma sombra silenciosa, passou a segui-los, interessada no destino que compartilhariam dali em diante.

Mas aquele não era momento para agradecimentos. Em um piscar de olhos, as sombras engoliram Flopp e saíram da taverna, deixando um rastro escuro e ameaçador. Agora, só restava a Suya e à maga seguir esse rastro até um rio negro, onde uma intensa concentração de energia maligna se fazia sentir.

Dona da taverna: Esperem! Vocês vão mesmo atrás daquela coisa?

Suya: Sim. Não posso ignorar que alguém foi levado. Eu vou atrás do Flopp.

Daphine: Eu vou com você, Suya.

Hakuh, por sua vez, permaneceu descansando na taverna. Momentaneamente abalado e enfraquecido pela batalha, não estava em condições de seguir.

Sem hesitar, Suya e Daphine saíram da taverna e começaram a seguir os rastros de magia escura deixados pelas criaturas. A trilha as levou até o rio.

A água era densa, como óleo, e sua superfície parecia viva. Rostos distorcidos gritavam em agonia, como se almas perdidas estivessem presas ali, condenadas a sofrer eternamente. O ar parecia vibrar com a dor e a energia negra que emanava do lugar.

Sem aviso, o rio se ergueu em um tsunami sombrio, ameaçando engolir tudo ao redor. Num reflexo rápido, Daphine lançou um feitiço de gelo, congelando instantaneamente a massa escura que avançava, criando uma barreira que impediu o desastre iminente.

Suya aproveitou o instante decisivo e lançou sua flecha com precisão absoluta. Ela atingiu o coração da muralha de gelo com um estrondo que reverberou pelo ar, e a parede congelada se despedaçou em um espetáculo devastador, lançando estilhaços negros que reluziam como vidro quebrado. Cada fragmento que caía se transformava em fumaça, como se a própria escuridão estivesse sendo dissolvida pelo poder da arqueira.

O tsunami sombrio, que antes ameaçava engolir tudo ao redor, foi completamente destruído, abrindo passagem para Suya e Daphine. A tensão se dissipou, e, graças à coragem e à perfeita sintonia entre as duas, Flopp e todo o clã gnomo foram salvos.

Entre os resgatados, uma presença impressionante se fez notar: a Deusa Gnomo, envolta em uma aura dourada que iluminava o local com intensidade celestial. Seus olhos transmitiam uma sabedoria ancestral, capaz de perceber o valor e a coragem de quem a observava.

Com um gesto majestoso, a deusa ergueu as mãos, e uma energia dourada e pura envolveu Suya e Daphine. Uma bênção sagrada desceu sobre elas, como se reconhecesse cada ato de heroísmo e cada risco assumido. Naquele momento, não eram apenas salvadoras; eram verdadeiras heroínas, celebradas pela própria divindade do clã gnomo.

Flopp, radiante de felicidade, se juntou às duas aventureiras, prometendo acompanhá-las em sua jornada a partir daquele dia.

E assim, nas sombras de uma ameaça quase apocalíptica, nascia uma nova aliança

Convidadas para festejar na dimensão dos gnomos, Suya e a maga atravessaram o portal mágico. Do outro lado, foram recebidas por um cenário encantador: uma floresta mágica toda decorada com bandeirinhas coloridas, fogueiras crepitando e, ao fundo, uma trilha animada no estilo “gnômestino” — lembrando uma típica festa junina, só que com o toque peculiar do povo gnomo.

Uma longa mesa repleta de guloseimas, frutas exóticas, bebidas cintilantes e quitutes encantados ocupava o centro da clareira. A noite era clara, com estrelas dançando no céu e uma aura de celebração preenchendo o ar.

Suya, como sempre, não perdeu tempo. Correu direto para a mesa de doces, encantada com a variedade de sabores mágicos. Ao seu lado, a maga observava tudo com um misto de desconfiança e curiosidade… até que algo — ou melhor, alguém — chamou sua atenção.

Um homem de beleza exuberante surgiu entre os convidados, segurando uma garrafa de vinho púrpura que brilhava como uma nebulosa engarrafada. Com passos leves e sorriso encantador, ele se aproximou da maga.

Dionísio, o deus do vinho — disse ele, inclinando-se educadamente, com um brilho provocante no olhar.

A maga, pouco receptiva àquela abordagem, lançou-lhe um olhar mortal, tentando aplicar um feitiço sutil para sugar-lhe a essência.

Mas para sua surpresa... nada aconteceu.

Dionísio permaneceu ali, sorrindo com serenidade, imune à magia da feiticeira.

Frustrada, Daphine desviou o olhar, irritada com o fracasso. Ainda assim, Dionísio manteve sua gentileza e, com um gesto inesperado, tocou suavemente o rosto da maga, provocando um raro e leve corar em suas bochechas.

Foi então que Suya, com a boca cheia de doce e um copo de vinho na mão, notou a cena. Ao ver sua companheira sendo conduzida para um canto mais reservado, ergueu o copo no alto e gritou:

Vai nessa, amiga! — com um sorriso debochado e divertido.

A maga olhou de volta com irritação, seu olhar afiado como uma adaga mágica, mas Suya apenas riu, satisfeita consigo mesma.

A noite seguiu repleta de alegria e danças.

Suya e Flopp se jogaram na quadrilha, dançando entre risos e passos desajeitados com outros gnomos empolgados.

Mais tarde, Daphine e até mesmo Dionísio se juntaram à dança, surpreendendo a todos com sua leveza e elegância.


Naquele momento, não havia sombras nem batalhas — apenas luz, música e celebração.

Após a dança, uma pequena gnoma aproximou-se de Suya com um sorriso radiante. Nas mãos, segurava com carinho um desenho que retratava todos os gnomos, a arqueira e a maga juntos.

Suya recebeu o presente surpresa com ternura, sorriu e afagou os cabelos da garotinha, que saiu correndo de volta para a festa.

A arqueira então caminhou até uma árvore próxima e se recostou, observando de longe a celebração. Foi nesse momento que Daphine se aproximou, trazendo consigo uma atmosfera serena. Entre as duas nasceu um instante de união silenciosa, quase como se o destino tivesse preparado aquele encontro.

Maga: — Então, Suya... me conte sobre você — disse a maga em tom tímido, os olhos voltados para o chão.

Suya: — Bem... isso é uma longa história — respondeu a arqueira, desviando o olhar para o céu estrelado daquela noite.

Maga: — Temos tempo.

Suya respirou fundo antes de começar.

Suya: — Eu sou de outro tempo... de um lugar muito distante daqui. Cresci em um reino chamado Grimor, onde me tornei caçadora. Um dia, recebi uma missão do rei e da rainha: encontrar uma joia mística.

Por um instante, seus olhos se perderam em lembranças.

Suya: — Nessa jornada conheci pessoas incríveis. Uma delas se tornou uma grande amiga... — ela encarou Daphine com um meio sorriso — você me faz lembrar dela. O nome dela era Luarina. Mais tarde, Corey e Bryan também se juntaram a nós. Vivemos aventuras grandiosas até alcançarmos o destino final da missão.

Sua voz, antes firme, vacilou.

Suya: — Mas... eu e Lua não esperávamos ser traídas por um dos nossos companheiros. No último instante, fomos arrastadas por forças que não compreendíamos e acabamos teleportadas para o futuro... por obra de um mago do tempo chamado Maoucron.

Daphine: — E foi ele que te trouxe aqui? — perguntou Daphine, a curiosidade brilhando nos olhos da maga.

Suya: — Sim. — Suya assentiu e deu o último gole no vinho. O líquido a fez ceder: os músculos relaxaram, a cabeça tombou e ela adormeceu de imediato.

Daphine observou a amiga dormir por um instante, sorriu com ternura e recostou-se ao lado dela, fechando os olhos até cair em sono também.

Pela manhã, Flopp, sempre elétrico, apareceu rodopiando entre as tendas para acordá-las.

Flopp: — Vamos, suas dorminhocas! O dia já nasceu!

Suya esfregou os olhos e bocejou. Viu Daphine ainda aninhada em seu ombro e a cutucou com cuidado.

Suya: — Ei, acorda. Temos de partir..

Daphine bocejou, enrolou o cobertor no ombro e murmurou: — Já é manhã? Mais cinco minutos...

Suya cutucou com mais firmeza; a maga resmungou e levantou-se relutante. Reuniram equipamentos e suprimentos. Um gnomo guardião abriu um portal cintilante que as deixou aos pés da montanha neon.


Flopp se afastou do grupo por alguns instantes, desaparecendo entre as pedras, mas logo retornou equilibrando dois canecos fumegantes de leite de cabra.

Flopp:— Leite mágico — anunciou, com um sorriso torto, como se revelasse um grande segredo do universo.

Após beberem, Suya e Daphine sentiram uma vibração leve percorrer as pernas, como se pequenos relâmpagos corressem sob a pele. O cansaço evaporou. O trecho que levaria uma hora foi engolido em poucos minutos. Flopp passou a dançar pelo caminho, saltitando e rodopiando como alguém que tivesse bebido energia engarrafada em excesso, enquanto Suya o observava, divertida, balançando a cabeça.

Ao final da trilha, a paisagem se ergueu abrupta. A caminhada deu lugar à escalada.

Prudente e sagaz, Daphine analisou o paredão por um instante antes de se levantar com naturalidade. Num gesto simples, o corpo da maga se desprendeu do chão e ela voou até o topo, pousando com leveza, deixando Suya e Flopp lá embaixo.

Flopp: — Ei, maga fedorenta! — gritou Flopp, indignado. — Podia ao menos ter avisado antes de nos deixar pra trás!

Suya riu baixo.

Suya: — Não se preocupe, Flopp. Suba nas minhas costas. Eu levo a gente até o topo.

Com um movimento preciso, a arqueira cravou uma flecha encantada bem acima deles. No impacto, a arma se transformou numa corda luminosa, firme como aço e viva como magia. Flopp se enfiou nas costas de Suya, agarrando-se com força, enquanto ela começava a subir, confiante, enquanto a maga observava la do topo.

A subida era traiçoeira: pedras soltas, galhos úmidos, e um peso extra nas costas tornava tudo mais custoso. Flopp, sempre provocador, comentou alguma coisa sobre a força de Suya, arrancando dela um riso contido que aliviou a tensão. No meio da escalada, Suya viu  à direita uma serpente enroscada num galho; à esquerda, um ninho enorme com uma águia que os observava com olhos severos; acima, uma raiz retorcida que parecia velha, mas firme.

Sem hesitar, Suya alcançou a raiz e, com um impulso calculado, lançou-se para cima. A força a catapultou alguns metros além do bordo da montanha. No ar ela girou — um mortal perfeito — e caiu de pé, intacta, no topo. Daphine arregalou os olhos, maravilhada; Flopp, atordoado pela acrobacia, tropeçou para trás, tonto. Diante deles erguia-se uma enorme porta de pedra, com um rosto esculpido cuja boca permanecia aberta. Inscrições antigas cobriam a superfície; nenhum deles entendeu a língua. Suya examinou cada reentrância até que uma ideia lhe ocorreu.

Tirou uma moeda de ouro da pequena bolsa e, com cautela, a colocou na boca de pedra esculpida no centro da porta. O som metálico ecoou suavemente e, em seguida, um rangido profundo ressoou. A imensa estrutura se moveu lentamente, abrindo-se apenas uns trinta centímetros.

Suya: — Olha! — exclamou Suya, com brilho nos olhos, surpresa e animada. — A porta respondeu à moeda!

Daphine deu alguns passos à frente, observando cada detalhe da fenda que surgia. — Como você fez isso? — perguntou, intrigada.

Suya: — Coloquei uma moeda de ouro na boca — explicou Suya, embora sua expressão tivesse se tornado pensativa. Seus olhos se estreitaram, como se um pressentimento tivesse acabado de surgir. — Mas... tenho a sensação de que não é apenas riqueza que ela deseja... É como se pedisse algo de valor imensurável.

Suya respirou fundo, e então, como se uma centelha de clareza a atingisse, sua mão deslizou até a bolsa. De dentro dela, retirou o pequeno desenho que havia ganhado de uma garotinha gnomo, um presente simples, mas carregado de afeto. Com cuidado reverente, depositou-o na boca da porta.

O mecanismo reagiu instantaneamente. Um novo rangido soou, mais intenso, e a porta se abriu mais, cerca de sessenta centímetros desta vez — o bastante para que uma criança, ou alguém pequeno, pudesse atravessar.

Daphine pensou por um momento, os dedos coçando de impaciência. — Deve haver outra maneira. Flopp, vem cá.

Flopp: — O que você quer? Espero que não seja me enfiar na boca dessa porta. — Flopp cruzou os braços.

Num impulso brincalhão e sombrio, Daphine agarrou o pequeno gnomo tentando encaixá-lo na boca de pedra. Flopp, esperto, teleportou-se para trás no último segundo e, num contra-ataque igualmente surpreendente, reapareceu por trás da maga e empurrou-lhe a cabeça com um “ploc” cômico contra a pedra, deixando Daphine tão espantada quanto envergonhada.

Suya riu até perder o fôlego; no começo conseguiu apenas conter-se, mas a cena a venceu e saltou uma gargalhada franca que ecoou entre as rochas.

Flopp, magoado e indignado por ter servido de cobaia, virou-se e afastou-se a passos rápidos.

Suya: — Espere, Flopp — chamou Suya, a preocupação substituindo o riso. — Não vá.

Flopp: — Não vou ficar aqui para vocês me usarem de chave, hunf! — respondeu ele, sem olhar para trás.

Suya apertou os dentes, olhando para a amiga.

Daphine, ainda meio atordoada, já recuperava a compostura e disse, com voz fria e prática:

Daphine: — Ótimo. Agora podemos nos concentrar em abrir a porta. Quem precisa de um gnomo inútil quando se tem magia?

Após algum tempo afastado, Flopp surgiu correndo em desespero.

Flopp: — Corram! Rápido! Ela está vindo!


Antes que pudessem reagir, uma sombra colossal surgiu entre as árvores: uma serpente de duas cabeças, deslizando com fúria.

Suya não hesitou. Sacou o arco e disparou uma flecha revestida de ácido. O impacto fez a cabeça da esquerda derreter lentamente, soltando um rugido estridente.

Daphine ergueu o cajado e invocou sua magia Oriundo, tentando sugar a essência da criatura, mas a serpente resistiu. Num contra-ataque, a cabeça central lançou um jato venenoso direto nos olhos da maga.

Daphine: — Aaaaaaah! — gritou, levando as mãos ao rosto. — Maldita cobra! Eu... eu não enxergo!

Suya, tomada pela fúria, disparou outra flecha, desta vez envolta em chamas. A flecha cravou-se na cabeça central, que explodiu em fogo, incinerando o corpo da criatura até que não sobrassem mais do que cinzas.

Ainda assim, a maga permanecia em agonia.

Suya: — Daphine, calma! Nós vamos dar um jeito!

Daphine: — Meus olhos... ardem como fogo! Eu não vejo nada!

Sem perder tempo, Suya ordenou:

Suya: — Flopp, procure ervas medicinais! Raiz de cedro, erva-cidreira... qualquer coisa!

Enquanto o gnomo corria, Daphine lembrou-se de algo.

Daphine: — Não precisa... na minha bolsa... há uma poção feita por Dionísio.

Suya arqueou uma sobrancelha, surpresa.

Suya: — Dionísio? O deus do vinho?

Daphine: — Ele mesmo... — murmurou, com dificuldade.

A arqueira pegou o frasco e o levou aos lábios da maga. O líquido era amargo, e Daphine fez uma careta, mas engoliu até a última gota. Nesse instante, Flopp retornava com as ervas. Suya aproveitou para preparar uma pomada curativa, espalhando-a com delicadeza sobre os olhos da companheira.

A combinação da poção divina com o remédio improvisado surtiu efeito. A cegueira cedeu, e Daphine voltou a enxergar plenamente.

Suya: — Como está agora?

Daphine: — Estou vendo! — exclamou, aliviada.

Suya, porém, não deixou passar em branco.

Suya: — O que você tinha na cabeça, tentando usar Oriundo em uma serpente dessas? Da próxima vez, seja mais cuidadosa! — disse, dando um leve tapa na cabeça da maga.

A noite caiu pesada sobre a montanha, com esforço visível, Hakuh conseguiu acompanhar Suya, Daphine e Flopp, retornando pouco depois com a caça de um veado, o que garantiu o jantar. Acamparam juntos, e Suya e Daphine dividiram com ele a inquietação que as consumia: a porta de pedra permanecia entreaberta.

A conversa foi interrompida quando sombras se moveram ao redor do acampamento. Uma matilha surgiu, silenciosa e atenta. Não eram lobos comuns, mas lobos dos sonhos, cada um com uma pelagem de cor distinta. O alfa, enorme e de pelo verde, avançou para dialogar com Hakuh e Daphine.

Enquanto isso, um lobo cinzento de olhos azuis aproximou-se de Suya. — Posso… tocar você? — perguntou encantada, a voz mais suave que o crepitar das chamas.

O lobo inclinou levemente a cabeça, observando os cabelos violetas que dançavam com o vento.

Lobo — Desde que eu também possa tocar seus cabelos violetas — respondeu, com uma voz que parecia ecoar dentro de um sonho que ainda não havia terminado.


Suya corou, mas concordou. Acariciou o pelo macio e quente, sentindo a estranha conexão entre ambos. O lobo então lambeu sua bochecha, marcando-a com seu cheiro. Suya ficou vermelha como um tomate, surpresa com o gesto.

Akla:— Meu nome é Akla.

Suya :— Eu sou Suya Violet. — respondeu com um sorriso tímido, ainda encantada.

Nesse meio tempo, Daphine ergueu a voz e desafiou o alfa da matilha para um duelo. O grande lobo a fitou com olhos selvagens e, após um silêncio pesado, aceitou o desafio. Se ela vencesse, conquistaria o direito de comandar todos os lobos, podendo chamá-los a qualquer momento. Mas, se fosse derrotada, ele a levaria consigo, tornando-a parte de sua matilha para sempre.

A batalha espiritual teve início. O campo ao redor pareceu se dissolver em sombras e ecos distantes, como se apenas os dois existissem. O choque de vontades foi brutal: garras contra feitiços, uivos contra murmúrios arcanos. Daphine resistia com todas as forças, mas o alfa era imponente e dominador. No último instante, porém, a maga ergueu sua mão e invocou novamente o feitiço Oriundo.

Dessa vez, o poder respondeu plenamente ao seu chamado. As sombras que a envolviam se expandiram e, como um redemoinho faminto, sugaram o alfa para dentro do vazio sombrio que Daphine agora dominava.

O silêncio caiu. Quando abriu os olhos, Daphine sentiu: o vínculo estava selado. Os lobos dos sonhos, incluindo Akla, agora respondiam à sua voz.

Não demorou para que Akla, imponente e sereno, se aproximasse de Suya. Despediu-se com um olhar carregado de respeito, conduzindo o restante da matilha até a entrada da porta de pedra. Antes de desaparecer, inclinou a cabeça e declarou em tom firme:

Akla::— Não importa onde você estiver... eu irei caçá-la. Irei atrás de você, Suya. Nos veremos novamente, minha caçadora.

Suya ergueu o arco, um leve sorriso nos lábios. — Estarei esperando por você, Akla. Então venha... e me encontre de novo.

Um uivo poderoso ecoou, vibrando por todo o lugar:

Akla:— Auuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu!

Em resposta, os lobos dos sonhos atravessaram a porta de pedra, que rangeu e se abriu lentamente. O cenário ao redor já estava mergulhado na madrugada; o céu começava a clarear no horizonte.

Suya, Daphine, Hakuh e Flopp avançaram pela passagem. Lá dentro, um breu profundo os aguardava. A arqueira puxou uma flecha especial e, com firmeza, disparou-a contra uma das tochas fixadas na parede. O fogo branco crepitou, espalhando sua luz. Em sequência, como se uma rede invisível conectasse cada chama, as tochas ao redor foram se acendendo uma a uma, revelando o interior do lugar.

Era uma sala imensa... e coberta de espelhos. Cada espelho tinha acima de si um símbolo enigmático: um escudo, um lobo, uma serpente, uma lua e uma estrela.

Suya se aproximou do espelho marcado pelo lobo, enquanto a maga escolhia o espelho da serpente e Hakuh se dirigia ao espelho do escudo. Cada um deles, ao tocar seu reflexo, foi transportado para uma visão única.

Diante de Suya, surgiu a vida de um lobo. Primeiro, um filhote aprendendo a crescer e a caçar. A cena se dissolveu e deu lugar a um lobo cinzento, adulto, uivando sob a lua cheia, guiando sua matilha em uma disputa por território. Logo depois, a visão mudou para o presente: um jovem lobo se lançava em meio ao perigo, salvando uma loba em apuros.

Quando a última imagem se desfez, o espelho brilhou intensamente e, de sua superfície, surgiu um objeto. Um anel delicado e reluzente flutuou até Suya. Ela ergueu a mão direita, e a joia encaixou-se sozinha em seu dedo anelar. Era um anel-bússola, cujo ponteiro tremulava até se fixar, apontando firmemente para o noroeste.

A visão de Hakuh revelou um passado sombrio e tortuoso. As imagens se intensificaram a cada instante, pressionando sua mente e coração. Incapaz de suportar o peso daquilo que via, Hakuh caiu de joelhos. O espelho vibrou em um estalo profundo e, de sua superfície distorcida, uma mão espectral emergiu, agarrando-o com força. Antes que pudesse reagir, ele foi puxado para dentro, ficando aprisionado no reflexo eterno.

Enquanto isso, Daphine encarava sua própria visão. Ela se via novamente diante da serpente que jurara derrotar, buscando vingança. Mas aquela criatura refletida não era a mesma: era maior, mais aterradora, seu corpo coberto de escamas que reluziam como aço sob a escuridão. Mesmo assim, a maga não recuou. Quando a visão se dissipou, um anel-bússola semelhante ao de Suya emergiu do espelho, repousando suavemente sobre sua mão, enquanto seu ponteiro apontava para o Oeste

Nesse instante, o ar se tornou pesado. Um cheiro pútrido de morte se espalhou pelo lugar, enquanto uma presença maligna se erguia das sombras. Um espectro horrendo surgiu, sua face disforme oculta sob trapos que lembravam o próprio manto da morte. Sua voz gutural ecoou como um trovão: — Quem ousa tomar o que é meu? Quem ousa roubar meus tesouros?!


Suya, percebendo o perigo e desejando evitar o conflito, retirou o anel de seu dedo. Com calma, estendeu a mão aberta, oferecendo-o de volta: — Desculpe… não quero causar problemas. Tome-o de volta.

Mas, antes que o espectro pudesse tomar o objeto, Daphine avançou e arrancou o anel da palma da arqueira. Seus olhos brilharam em desafio, recusando-se a recuar. A criatura soltou um urro aterrador, tão poderoso que fez as paredes do salão tremerem. Ele avançou, distorcendo o ar ao redor, como se a própria morte se movesse para consumi-la.

Foi então que Daphine revelou seu último recurso. Com uma determinação sombria, evocou o poder de seu Oriundo. As sombras ao redor dela se abriram como uma fenda abissal, sugando o espectro em um redemoinho de trevas. O ser lutou, urrando, tentando escapar, mas foi arrastado para o vazio até que seu grito final se dissolveu no nada.

Não houve tempo para respirar. O salão começou a se despedaçar — paredes se quebravam como vidro, o teto desmoronava, e o chão se rachava em abismos. O próprio espaço parecia se desfazer, como se a realidade não suportasse o peso do que acabara de acontecer,

Uma porta escura e instável rasgou o ar diante deles, pulsando como uma ferida aberta na realidade. Sem tempo para dúvidas, Daphine avançou primeiro. Meli, que até então os acompanhava em sua forma invisível, seguiu logo atrás. Suya puxou Flopp pela mão, e juntos atravessaram o portal no instante exato em que o mundo às suas costas começava a ruir, engolido por estilhaços de luz e sombra.

o silêncio caiu pesado. Por um instante suspenso, eles lamentaram a perda de Hakuh, acreditando que a ruína o havia levado para sempre.

Durante a travessia do portal, algo inesperado aconteceu. Três objetos se desprenderam do vazio luminoso e voaram em direção ao grupo, como se obedecessem a um chamado antigo.

Flopp foi o primeiro a ser alcançado. Uma pena de joão-de-barro pousou em sua mão, leve e quente, como se ainda guardasse o sopro de um ninho recém-feito. Ele piscou, confuso, mas sentiu um conforto estranho se espalhar pelo peito.

Em seguida, um colar de bronze deslizou até Suya, fechando-se sozinho em torno de seu pescoço. O metal vibrou suavemente, e um brilho branco começou a emanar dele, intenso o suficiente para apagar o mundo ao redor.

Meli, por sua vez, recebeu uma joia em forma de besouro ciano, que cintilou com tons líquidos de azul-esverdeado antes de se fixar junto a ela, como se sempre lhe tivesse pertencido.

Quando a luz cessou, Suya percebeu que já não estava mais no mesmo lugar.

Ela se via agora em uma dimensão que lembrava uma imensa biblioteca. O ar tinha o perfume inconfundível de livros novos, páginas ainda intocadas pelo tempo. Prateleiras invisíveis pareciam se estender ao infinito, e a luz ali não vinha de tochas nem janelas, mas do próprio conhecimento suspenso no ar.

Ao seu lado estavam Meli, Flopp e Daphine, igualmente atônitos.

À frente deles, erguiam-se três livros colossais, tão grandes que pareciam portas. Não repousavam em estantes; mantinham-se de pé, como guardiões silenciosos. O da esquerda era verde, pulsando com uma energia viva. O da direita era azul, profundo e sereno como um oceano antigo. No centro, um livro branco, cuja capa refletia a luz de forma quase dolorosa aos olhos.

Suya e Meli trocaram olhares, ponderando em silêncio qual portal escolher. Havia algo solene naquele momento, como se cada decisão pudesse redesenhar o destino.

Mas Flopp, impaciente como sempre, já avançava.: — Ué, livro também tem maçaneta? — murmurou, esticando a mão.

Antes que alguém pudesse detê-lo, seus dedos tocaram a maçaneta invisível. O livro se abriu com um estalo profundo, e uma força avassaladora os puxou para frente. Em um piscar de olhos, todos foram sugados para dentro das páginas, enquanto a biblioteca desaparecia atrás deles, engolida pelo virar de uma história que acabara de começar.

Então, o mundo se transformou.

Diante deles abriu-se um jardim de esplendor quase irreal. Árvores frondosas, carregadas de frutos cintilantes, erguiam-se como colunas de luz viva. Em seus troncos, folhas e pétalas, letras antigas e notas musicais estavam gravadas, não como inscrições mortas, mas como símbolos vivos, pulsando suavemente, respirando em harmonia com o próprio espaço.

Um riacho serpenteava entre pedras polidas, e em suas águas cristalinas flutuavam signos sonoros que tilintavam ao menor movimento, lembrando sinos distantes chamados pelo vento.

E, no entanto, havia algo de desconcertante. As notas que preenchiam o jardim estavam embaralhadas. Nem melodia, nem harmonia… apenas fragmentos desconexos, que pairavam no ar sem formar sentido. Até mesmo o céu, antes sublime, exibia constelações de notas soltas e caóticas, como uma partitura quebrada em meio à eternidade.

Aquele lugar era ao mesmo tempo um santuário divino e um enigma insondável. A beleza era arrebatadora, mas a desordem oculta das notas deixava no ar uma sensação de que algo fundamental havia se perdido.


Suya contemplou o cenário diante dela com um misto de encanto e perplexidade, então colar de Suya ressoou de repente, liberando um som numa frequência tão fina que fazia os olhos tremerem dentro das órbitas. A vibração atravessou o ar como uma nota sustentada demais. As páginas ao redor estremeceram, e as escritas saltaram das folhas, desprendendo-se como insetos luminosos, rodopiando em desordem.

Ao seu lado, Flopp não conteve a animação: correu pelo jardim, subiu em uma das árvores e colheu um fruto cintilante. deu uma mordida generosa. No instante em que engoliu, seus olhos brilharam. O conhecimento daquela história inteira se derramou dentro dele, como um livro lido em um único suspiro. O gnomo soltou uma risada divertida e, entre palavras que mais pareciam melodia, saiu cantarolando pelo jardim.

Suya: — Ei! Não come isso, menino! — a voz ecoou, mas não era só a voz.

O colar de Suya vibrou junto com suas palavras, amplificando o som até que símbolos e inscrições começaram a girar ao seu redor, orbitando-a de forma caótica, como se respondessem à autoridade involuntária que emanava dela.

Suya levou a mão ao peito, confusa.

— O que está acontecendo? — perguntou, sentindo o mundo oscilar. — O que é isso?

Foi nesse instante que Meli, a loba-nuvem, que até então permanecera oculta, revelou-se diante de Suya. Sua presença era etérea, quase celestial, e sua voz suave carregava um tom acolhedor ao se apresentar. A arqueira ficou surpresa, mas respondeu com gentileza, reconhecendo naquela criatura uma aliada.

Daphine, por outro lado, manteve-se distante, pois já sabia da presença oculta de Meli durante a viagem. Por isso, não achou necessário se apresentar à loba-nuvem, já que não a via como uma ameaça. Aproximou-se de uma árvore marcada por símbolos musicais e pousou a mão sobre eles. No mesmo momento, o tronco vibrou e liberou o som de uma nota. Mas o som estava errado, distorcido, como se fosse tocado ao contrário. Fria e meticulosa, a maga começou a analisar aquele fenômeno.

A arqueira, porém, não se deixou levar por muito tempo. A serenidade cedeu lugar ao foco. Seus olhos atentos percorreram o jardim inteiro, das flores que vibravam em tons sonoros até o céu amplo e as nuvens suspensas, todas impregnadas de notas dispersas, embaralhadas como versos que haviam perdido a ordem.

Não era apenas beleza. Era um enigma vivo.

Suya compreendeu então que aquele lugar não se abriria pela força nem pela pressa. Para escapar dali, seria preciso decifrar a canção oculta, recolher cada fragmento de som espalhado pelo jardim e devolvê-lo ao mundo em perfeita harmonia.

Enquanto Suya observava, calculava e escutava o silêncio entre as notas, Meli fechava os olhos. O corpo relaxou, e ela se deixou conduzir não pelo raciocínio, mas pela escuta profunda, ela sentiu a natureza ao redor despertar. As folhas se ergueram sob seus pés, como se a reconhecessem. As árvores próximas inclinaram seus galhos, e acima de sua cabeça, o céu se abriu em um azul profundo, com nuvens vivas, pulsantes.

Então, ela ouviu.

Não com os ouvidos, mas com algo mais antigo dentro de si.

As nuvens sussurravam: — Aquele que cantar a mais bela canção terá o poder de mudar as cores da dimensão.

Perto dali, Flopp resmungava, alheio à solenidade do momento, as mãos passando pelo próprio corpo coberto de inscrições móveis. — Calma aí, princesinha… tô resolvendo meus B.O.s aqui.

Ele girava, tentando ler as escritas que surgiam e se rearranjavam em sua pele, franzindo o cenho como quem tenta decifrar um manual escrito por um lunático.

Meli abriu os olhos lentamente. O murmúrio das nuvens voltou, agora mais claro, quase um cochicho dirigido apenas a ela: — Aquele de belo coração que cantar as cores das nuvens… poderá mudá-las.

O vento soprou suave, como se aguardasse a primeira nota.

Antes que Meli pudesse compartilhar essa descoberta com o grupo, uma névoa sombria começou a rastejar pelo chão. Sua presença era corruptora: tudo o que tocava — flores, frutos, até a própria relva — apodrecia e morria em questão de segundos. O jardim, que antes pulsava vida, agora se desfazia em silêncio fúnebre.

Daphine, concentrada em suas análises, pressionou a mão contra os símbolos. Uma sequência de notas invertidas ecoou pelo jardim, espalhando-se como um chamado distorcido que chegou até Suya e Meli. A arqueira compreendeu o risco: não havia tempo a perder. O jardim já estava 20% tomado pela escuridão.

Suya voltou-se para Meli: — Nós… precisamos cantar, meli.

Meli:—Eu quero tentar uma canção. Suya: — Otimo, comece…

Meli respirou fundo. O mundo ao redor pareceu prender o fôlego junto com ela. Em algum lugar distante da memória, uma canção antiga despertou, daquelas que seu povo entoava para embalar o sono das crianças, quando o céu era promessa e não ameaça.

Sua voz surgiu baixa no início, quase um sussurro, mas carregada de ternura.

Lá no céu bem estrelado, vivia um pontinho dourado. Era a Estrelinha Sonhadora, brilhava feliz a toda hora.

Enquanto cantava, as nuvens acima começaram a pulsar em tons suaves de dourado.

Ela sonhava em passear, pelas nuvens, pelo mar. Mas sua função era iluminar, e o céu inteiro clarear.

O ar se aqueceu. As letras flutuantes desaceleraram, como se quisessem ouvir melhor.

— “Mamãe, posso descer só um pouquinho? Ver a flor, o rio, o passarinho?” A mamãe estrela sorriu e falou: — “Com cuidado, vá, meu amor.”

As cores da dimensão se moveram, azuis se misturando a violetas delicados.

A estrelinha então desceu devagar, pousou na ponta de um lindo pomar. Viu borboletas dançando no chão, e um sapo tocando seu violão.

Folhas giraram ao redor de Meli, e pequenas luzes dançaram como borboletas feitas de som.

Brincou com o vento, subiu no balão, fez cócegas nas nuvens com muita diversão. Até que a lua, com voz de carinho, disse: — “Pequena, volte pro seu cantinho.”

A lua no céu inclinou-se levemente, banhada por um brilho prateado mais intenso.

A estrelinha sorriu, olhou pro céu, deu tchau pro mundo e fez um papel: “Quando for noite e você me olhar... vou brilhar forte só pra te ninar.”

As nuvens começaram a se recolorir, passando do branco ao dourado, do dourado ao azul profundo.

Subiu rapidinho, voltou a brilhar, e todo o céu ficou a cantar. Que a estrelinha sonhadora, agora dorme, mas volta toda hora.

Boa noite, durma bem…

Com estrelas velando sonhos além.

A voz suave de meli se elevou no ar, e os símbolos ao seu redor começaram a se alinhar, organizando-se em uma melodia verdadeira. Ainda assim, algo estava faltando.

Enquanto Meli entoava um cantico, uma voz alegre chamou atenção da arqueira:

Flopp: — SUYAAAA! AQUIII! — gritou Flopp, acenando com energia.

Suya olhou para o amigo, que estava próximo ao riacho, chamando sua atenção com urgência.

Suya: — O que foi, Flopp? — perguntou ela, com a voz firme, mas o coração acelerado diante da escuridão que avançava.

Flopp:Veja! Tem algo brilhando no fundo do rio! — exclamou Flopp, apontando com empolgação.

Suya se aproximou da margem e tentou alcançar, mas a luz estava muito abaixo da superfície. Franziu o cenho e voltou-se ao gnomo: — Flopp, tente você. É mais ágil, pode conseguir.

Sem hesitar, o pequeno mergulhou nas águas cristalinas. O brilho aumentou até que, após alguns instantes, ele emergiu, ofegante mas triunfante. Nas mãos, segurava um objeto raro e magnífico: uma ocarina que irradiava as cores do arco-íris.

Flopp:Encontrei também uma porta lá embaixo, bem perto da ocarina. Acho que pode ser a saída! — anunciou ele, com os olhos brilhando de entusiasmo.

Suya estendeu a mão com urgência: — Flopp, não há tempo para brincadeiras. Me dê isso agora.

Mas o gnomo, sempre travesso, abraçou o instrumento ao peito e respondeu entre risadas: — Só entrego se você prometer que depois vai me deixar tocar também!

Suya suspirou, impaciente, enquanto a névoa sombria já consumia parte do jardim.

Suya:Está bem, eu prometo. Agora passe para cá!

Convencido, Flopp entregou a ocarina. Suya a levou aos lábios e, ao soprar a primeira nota, o efeito foi imediato, junto com a canção de meli o som se espalhou como ondas de luz, puro e celestial. Todo o jardim vibrou em ressonância com a melodia: árvores balançaram, flores se abriram em sincronia, e até as letras e notas que pairavam no ar começaram a se reorganizar.

O céu reagiu. Das nuvens embaralhadas brotaram raios de luz purificadores, que caíram sobre o solo consumido. Onde tocavam, as sombras eram dilaceradas e expulsas, como se jamais tivessem existido.

Quando o último acorde ecoou, o silêncio caiu sobre o jardim. A escuridão havia sido derrotada, mas não sem consequências: quase trinta por cento daquele paraíso fora comprometido. Árvores murchas, flores apagadas e trechos de solo estéril marcavam as cicatrizes deixadas pelo avanço sombrio.

Ainda assim, havia esperança. O que restou vibrava em vida renovada, e talvez, com o tempo — um século, ou mais — o jardim pudesse florescer novamente em toda sua glória.

Após concluir a melodia que purificara o jardim, Suya devolveu a ocarina a Flopp. O gnomo a abraçou como um tesouro e começou a soprar alegremente, cada nota saindo desajeitada mas carregada de felicidade.

Suya: — Ei, Daphine, venha aqui! — chamou Suya, acenando para a maga. — Encontramos uma porta.

Daphine aproximou-se da arqueira, que estava à beira do riacho.

Daphine: — O que foi, Suya? — perguntou, séria.

Suya: — Flopp descobriu uma saída. Mas teremos que mergulhar. Venha, está na hora de irmos.

Meli voltou-se para o grupo, o olhar firme: — Eu vou ficar, Suya. Sinto que este é o meu lugar agora. Além disso, parte do jardim foi tocada pelas sombras… quero ajudar a curá-lo. Quando conseguir, encontrarei um modo de me reunir com vocês outra vez.

Houve um breve silêncio, carregado de tudo o que não precisava ser dito. Daphine apenas deu de ombros, respeitando a decisão, embora seus olhos denunciassem a despedida. Flopp foi o primeiro a se aproximar, envolvendo Meli em um abraço apertado, como se quisesse gravar aquele momento na memória. Suya veio em seguida, segurando-lhe as mãos por um instante a mais do que o necessário.

Então, sem olhar para trás, Daphine, Suya e Flopp correram juntos e se lançaram na água. O mergulho quebrou a superfície em ondas cintilantes, enquanto Meli permanecia à margem do jardim, observando-os desaparecer, certa de que aquele não era um adeus, mas apenas um desvio no caminho.

Os tres mergulharam juntos, descendo até o fundo do rio. Ali, ocultada pela correnteza, havia uma porta estanque de metal, com um volante circular no centro, claramente projetada para suportar a pressão das águas. Tentaram girá-lo, mas o mecanismo estava emperrado. Foi preciso a força conjunta dos três para, com grande esforço, finalmente destravá-lo.

Por fim, com um estalo metálico, a porta cedeu um redemoinho se formou, sugando a água para dentro, arrastando-os imediatamente. Em segundos, foram cuspidos do outro lado, expelidos por uma grande cachoeira.

Em segundos, foram cuspidos do outro lado, expelidos por uma grande cachoeira.

Caíram nas águas turbulentas abaixo e, entre respingos e ondas, nadaram até a margem. Suya emergiu primeiro, ofegante: — Vocês estão bem? Cof… cof…

Flopp tossiu, escorrendo água pelo rosto, mas abriu um sorriso: — Cof… cof… e-eu… estou bem!

Daphine foi a última a sair da água. Com passos firmes, ajeitou os cabelos encharcados e, com um gesto elegante, invocou sua magia. Uma brisa quente envolveu a si mesma, Suya e Flopp, secando-os por completo em instantes.

Nesse momento, os aneis-bússola começaram a brilhar. O de Suya pulsava com intensidade, apontando para o noroeste, enquanto o de Daphine indicava o oeste. As duas se entreolharam em silêncio, compreendendo o que aquilo significava.

Daphine: — Parece que é aqui que nos separamos… — disse Daphine, fitando a direção indicada. — O meu caminho segue para o oeste.

Suya respirou fundo, observando a amiga: — E o meu continua para o noroeste… Tome cuidado, maga. Até o nosso reencontro.

As duas se abraçaram em um gesto sincero, carregado de respeito e amizade.


Flopp, no entanto, não deixou passar a oportunidade de provocar:

Flopp: — Maga fedorenta… já pode ir embora.

Daphine lançou um olhar mortal para Flopp, tão frio que o pequeno gnomo sentiu a espinha gelar. Ele se escondeu atrás de Suya. — B-b-brincadeira! — disse ele, quase engasgando de nervoso.

Mas era inútil: a maga ergueu a mão e, com um gesto firme, abriu uma fenda escura no ar. As sombras surgiram como tentáculos vivos, envolvendo o gnomo e puxando-o sem piedade.

Flopp: — Nãããão! Eu retiro o que disse! Maga cheirosa, maga lindaaaa! — gritava Flopp, desesperado, enquanto era sugado para dentro.

O eco de sua voz desapareceu dentro do vazio, e por um instante, o silêncio pesado fez Suya franzir o cenho. Suya: — Daphine… isso foi mesmo necessário? — murmurou ela, séria.

A maga suspirou e virou o rosto, fingindo indiferença. Mas antes que a tensão pudesse pesar ainda mais, uma voz abafada veio de dentro da fenda, carregada de drama exagerado: — Suyaaa, não me deixa aquiii! Tem eco nesse lugar! E cheiro de chulé!

Suya não conseguiu segurar a risada, levando a mão à boca. Daphine, por outro lado, manteve a postura firme, mas um leve sorriso de canto denunciava que, no fundo, ela também se divertia com a situação.

O sorriso de Suya, no entanto, logo se desfez. Ela encarou a maga, mudando o tom da voz para algo mais sério: — Solte ele agora, Daphine.

O olhar da maga se tornou gélido, cortante como lâmina.

Daphine: — Não vou soltá-lo. — sua voz soou baixa, carregada de poder. — Agora ele faz parte de mim. Se não quiser ter o mesmo destino, é melhor não me questionar.

O silêncio se alongou entre as duas, pesado como ferro. Suya apertou os punhos, sentindo a raiva e a dor se misturarem, mas sabia que insistir seria inútil… ou até perigoso. Com o coração apertado, aceitou a perda. Flopp, levado por alguém em quem confiava.

Ela suspirou fundo, deixando escapar um sopro de resignação. Sem mais palavras, virou-se e seguiu o caminho apontado por seu anel, rumo ao noroeste. Seus passos eram firmes, mas cada um deles pesava.

Antes de desaparecer entre as árvores, ainda olhou por cima do ombro. Viu Daphine caminhando na direção oposta, rumo ao oeste, a sombra de sua aura envolvendo-a como um véu. Por um instante, as duas permaneceram em silêncio, separadas não apenas pela bússola de seus anéis, mas agora também pela escolha que as dividia.

Suya caminhou até alcançar uma cidade movimentada, cujas casas lembravam a arquitetura exótica

com cúpulas coloridas e varandas ornamentadas. O burburinho das ruas era intenso: comerciantes chamando clientes, animais circulando entre as pessoas, crianças correndo e rindo. Para a jovem arqueira, tudo parecia estranho e fascinante ao mesmo tempo; cada detalhe era uma novidade que a deixava curiosa.

Enquanto observava, notou um canteiro de obras onde algumas casas estavam sendo reformadas. Andaimes de madeira se erguiam em diferentes pontos, e trabalhadores se esforçavam para carregar blocos de pedra. Foi então que um som seco cortou o ar: uma corda se rompeu. Uma carga pesada de pedras começou a despencar, e, logo abaixo, uma criança atravessava distraída.

Os olhos de Suya se arregalaram. Sem pensar duas vezes, ela ergueu seu arco e, num movimento ágil, conjurou uma flecha imbuída de magia. O disparo foi certeiro: a flecha atingiu a carga em queda, e, no instante seguinte, as pedras se despedaçaram em uma nuvem de poeira cintilante antes de tocarem o chão.

A criança congelou de susto, mas logo foi envolvida pelo silêncio que se seguiu. Suya correu até ela e se ajoelhou, olhando nos olhos do pequeno.

Suya: — Você está bem? — perguntou suavemente.

Menino: — O-obrigado, moça… — respondeu o menino, ainda trêmulo e com lágrimas nos olhos.

Com um sorriso acolhedor, Suya passou a mão em seus cabelos, afagando-os com carinho.

Suya: — Ei, já passou… está tudo bem agora, viu? Só tome mais cuidado da próxima vez.

A criança fungou e assentiu, sentindo-se um pouco mais segura diante da jovem arqueira que o havia salvado.

Um dos trabalhadores da obra, ainda boquiaberto com o que havia testemunhado, aproximou-se de Suya.

Homem: — Obrigado por salvar aquela criança… e que tiro incrível! — disse ele, ainda com os olhos arregalados de admiração. — Você tem a visão de uma águia. Um arqueiro comum jamais conseguiria disparar com tamanha precisão daquela distância. É realmente impressionante.

Suya abaixou o arco, um leve rubor tingindo suas bochechas diante do elogio inesperado.

Suya: — Não foi nada… só fiz o que precisava ser feito — respondeu, tentando disfarçar a modéstia em sua voz.

O homem sorriu, ainda ofegante pela tensão que pairava no ar, mas agora tomado por um sincero alívio.

Homem: — Você é nova por aqui, não é? Como forma de agradecimento, permita-me mostrar a cidade — disse, fazendo um gesto convidativo em direção a avenida, onde os telhados coloridos reluziam sob o sol. — Bem-vinda a Mahavana, o coração dourado do vale.

Suya sorriu de volta, aliviando a tensão que ainda pairava no ar, e assentiu gentilmente.

Suya:— Sim, sou nova. E seria de grande ajuda ter um guia — respondeu, guardando o arco às costas.

A criança, agora mais calma e com um brilho de curiosidade nos olhos, deu um passo à frente e ergueu a mão com entusiasmo.

Menino: — Eu quero ir junto! — exclamou, sorrindo de orelha a orelha, como se o medo de antes tivesse desaparecido por completo.

O homem soltou uma breve risada diante da empolgação do pequeno e, lembrando-se de que ainda não havia se apresentado, colocou a mão sobre o peito em um gesto cordial.

Rajan: — Ah, onde estão meus modos? — disse, um pouco envergonhado. — Meu nome é Rajan, sou um dos mestres de obra aqui em Mahavana.

Ele então fez um leve aceno com a cabeça.

Rajan:E você, forasteira de pontaria divina, é uma convidada de honra agora. Vamos, há muito o que ver — completou, apontando para as ruelas movimentadas da cidade, onde o som de tambores e o aroma de especiarias começavam a envolver o ar.

De repente, o som de um sino ecoou pela cidade, estridente e desesperado. As ruas, antes cheias, se transformaram em um mar de portas e janelas sendo fechadas às pressas. Os olhares dos moradores transbordavam medo.

Suya se virou, confusa: — O que está acontecendo?

O trabalhador empalideceu, segurando o braço dela com força.

Rajan: — É o toque de recolher… rápido, esconda-se! Ele está vindo…

Antes que Suya pudesse questionar, a criança agarrou sua mão com força.

Menino: — Vamos, tia! Depressa, por aqui! — disse, puxando-a para dentro de um estreito beco.

Suya, ainda perdida, cochichou enquanto se agachavam atrás de caixotes.

Suya: — Mas o que está acontecendo? Por que precisamos nos esconder?

O menino levou o dedo aos lábios, assustado: — Shhh… não faça barulho, tia. Se ele ouvir, estamos perdidos.

O coração da arqueira acelerou:— Ele?…

Então, o chão tremeu. Passos pesados ecoaram pela cidade, cada um soando como um trovão. Um rugido ensurdecedor sacudiu as paredes, reverberando por cada canto. O grito de uma criança, cortando o silêncio mortal, fez o sangue de Suya gelar.

Sem pensar, ela deixou o esconderijo e correu para a rua. Seus olhos se fixaram na cena: uma criatura colossal segurava uma criança com uma de suas mãos descomunais. A besta era grotesca, uma aberração dos pesadelos: cabeça de minotauro com chifres curvados, torso musculoso que lembrava o de um cavalo e pés pesados


O rugido da criatura fez o ar vibrar, mas Suya não vacilou. Ela ergueu o arco, seus olhos estreitados, a respiração firme. A magia concentrou-se na ponta da flecha, faiscando com energia pura.

Suya: — Largue-o! — bradou, soltando a corda.

O disparo rasgou o ar e atingiu a mão da criatura com força devastadora. O monstro rugiu de dor e soltou a criança, que caiu no chão com segurança.

Suya: — Corra! — gritou Suya, sem tirar os olhos do inimigo. — Rápido!

A criança disparou em direção às casas, enquanto o olhar vermelho e furioso da besta se fixava na arqueira.

O Minotauro, tomado pela fúria, ergueu a cabeça e soltou um rugido que fez as paredes da cidade tremerem. Suas narinas inflaram quando ele inalou o ar, farejando o perfume de Suya como um predador caçando sua presa. Com brutalidade, avançou contra ela.

Suya se moveu com agilidade, desviando do impacto que rachou o chão atrás dela. Correndo pelas ruas estreitas, ela atraiu a criatura para longe dos civis, conduzindo-o com inteligência. O Minotauro não era apenas forte, mas implacável, cada passo seu fazia o solo vibrar como um tambor de guerra.

Quando a besta ergueu o braço para esmagá-la, Suya rolou pelo chão, girou sobre um joelho e armou seu arco. Seus olhos estavam frios e certeiros. Suya: — É aqui que acaba.

Ela disparou uma flecha envolta em chamas diretamente contra o ponto mais vulnerável do monstro. O projétil acertou em cheio, e o corpo da criatura foi tomado pelo fogo. O Minotauro urrava em agonia, sua voz ecoando como trovões.

Minotauro: — Maldita humana… — bramou, cambaleando. — Isso não ficará assim… vou contar para minha mãe…

E, envolto em chamas o monstro recuou desajeitado, até desaparecer entre as colinas ao redor da cidade,deixando atrás de si apenas o cheiro de queimado e o silêncio.

A criança que antes correra perigo assistiu à cena e levantou os braços, vibrando em comemoração: — Estamos livres! Ela derrotou o monstro!

As portas e janelas da cidade se abriram uma a uma, e os moradores, ainda incrédulos, começaram a aplaudir. Um alívio coletivo se espalhou pelo povo, como se a escuridão tivesse se afastado por um instante. Pela primeira vez em muito tempo, havia esperança.

De entre a multidão, um homem de túnica clara e olhar profundo quase enigmáticos aproximou-se. A barba longa e os colares com símbolos antigos. Todos o chamavam de Guru.

Guru:— Minha jovem — disse ele, inclinando a cabeça com respeito — obrigado por nos livrar daquela monstruosidade. Mas temo que esta luta esteja apenas começando.

Suya, ainda ofegante, guardou seu arco e o encarou.: — Que criatura era aquela? — perguntou com seriedade.

O velho pousou a mão sobre o ombro dela, o olhar carregado de preocupação. Antes de responder à pergunta de Suya sobre a criatura, o homem ergueu a mão, pedindo calma.

Guru: — Venha comigo, jovem arqueira. A resposta não deve ser dada aqui, mas em um lugar protegido.

Conduziu-a até o templo, um santuário sagrado para aquele povo. A arquitetura era majestosa, com colunas brancas adornadas por padrões azuis e dourados que refletiam a luz das tochas como se fossem vivas. O ar ali parecia mais leve, impregnado de incenso e cânticos distantes.

No interior, ele serviu a Suya uma delicada xícara de chá de lótus branco. O aroma era suave, quase celestial, e ela aceitou de bom grado, bebendo um gole que lhe trouxe uma calma inesperada.

Guru: — Pode me chamar de Guru — disse ele, sua voz ecoando com uma autoridade tranquila. — E você, como se chama, jovem?

Suya: Me chamo Suya Violet — respondeu, inclinando levemente a cabeça em respeito.

O olhar do homem percorreu suas roupas de viajante e suas armas. Guru: — Está apenas de passagem, não é?

Suya: — Sim — confirmou ela. — Mas me diga, senhor Guru… que criatura era aquela?

Ela levou mais um gole do chá, aguardando a resposta. O ancião apoiou as mãos sobre o colo e fechou os olhos por um instante, como se buscasse em sua memória um fardo antigo. Quando voltou a falar, sua voz carregava a gravidade dos séculos.

Guru: — Aquele ser… é fruto de uma antiga deusa.

Suya: — Uma deusa? — arqueou as sobrancelhas, surpresa.

Guru:— Sim. Há muito tempo, existia uma deusa da união, uma entidade que consagrava os matrimônios e unia os corações. Para muitos, era como uma casamenteira divina. — Ele suspirou. — Mas foi traída pelo próprio amante. Seu coração, outrora puro, se obscureceu, tomado pelo ódio e pelo ressentimento.

Suya estreitou os olhos.: — E o que aconteceu com ela?

Guru:— Transformou-se em algo terrível. — A voz do Guru baixou, quase em sussurro. — Ao invés de unir, passou a separar. Onde havia amor, plantava discórdia. Onde havia casamento, semeava a ruína. Mas desse rancor nasceu algo ainda pior: um filho, uma criatura deformada, que vaga em busca de uma companheira. Obcecado por encontrar amor e consumar sua existência, ele caça homens e mulheres, não para amar… mas para possuir e devorar como presas.

Suya sentiu um calafrio percorrer sua espinha.— Que horror…

Guru: — E não é só isso. — O Guru inclinou-se para frente. — Deve ter percebido os muros ao redor da cidade. Ruas idênticas, passagens que se repetem, como um labirinto. Essa cidade foi moldada assim para confundir a criatura, e ainda assim ela retorna, atraída por seus desejos insaciáveis.

Ele respirou fundo e encarou Suya com seriedade.

Guru: — Sua vitória contra ele foi apenas um fragmento da luta. Pois ao feri-lo, você despertou a fúria de quem o gerou. A deusa outrora chamada Casamenteira… hoje tem um novo título: a Mãe de Todos os Monstros.

O silêncio pairou como um peso no ar, e Suya apertou os dedos em torno da xícara de chá, já fria.

Guru: — Tome cuidado, jovem Violet. — A voz do Guru era quase um presságio. — Pois agora, ela sabe quem você é.

Ao ouvir do Guru a revelação de que havia enfrentado o próprio fruto de uma deusa casamenteira — agora corrompida e conhecida como a mãe de todos os monstros.

Suya sentiu o chão sumir sob seus pés., Um arrepio percorreu sua espinha. O choque foi imediato, seguido por uma inquietação crescente. Estava sozinha naquela cidade estranha, cercada por pessoas que mal conhecia, e agora havia atraído a fúria de uma divindade.

Seus pensamentos giravam como uma tempestade. Como vou lidar com isso? — questionava-se, o coração acelerado.

O Guru, percebendo sua apreensão, pousou a mão em seu ombro e falou com voz calma, quase paternal:

Guru: — Venha comigo, minha jovem. Quero lhe mostrar algo…

Suya respirou fundo, tentando conter a ansiedade, e seguiu seus passos. Enquanto caminhava pelas ruas estreitas, suas mãos não desgrudavam do arco. A mente da arqueira trabalhava sem parar, ensaiando possíveis estratégias: emboscadas, flechas encantadas, truques de camuflagem… mas nada parecia suficiente contra uma deusa.

Por fim, não resistiu e deixou escapar em tom hesitante:

Suya: — Senhor Guru… existe algo que eu possa usar para enfrentá-la? Alguma arma, algum artefato… qualquer coisa que me dê uma chance?

Ela caminhava ao lado do Guru, envolta por um silêncio quase ritual. Seus passos ecoavam suavemente no piso de pedra até que, de repente, o cenário se abriu em um jardim deslumbrante. No centro, uma fonte de mármore branco jorrava água cristalina, espalhando reflexos de luz que dançavam entre as flores coloridas.

Perto dali, sentada na grama, uma criança com orelhas de coelha desenhava concentrada em seu caderno. Quando ergueu os olhos e viu o Guru, correu animada até eles, segurando os lápis nas mãos.

Criança: — Ei, tio Guru! Tem mais lápis e folhas?

O Guru sorriu calorosamente antes de responder:

Guru: — Pequena, temos uma convidada hoje. Esta é Suya Violet, a arqueira que derrotou a criatura.

A menina arregalou os olhos vermelhos, que brilhavam de entusiasmo, e abriu um sorriso largo, quase frenético.

Soso: — Oii! Eu me chamo Soso, a coelha!

Suya não conseguiu conter um sorriso diante da energia da pequena.

Suya: — Muito prazer, pequena. Então você gosta de desenhar?

Soso balançou a cabeça com empolgação.

Soso: — Sim! Quer ver?

Suya: — Claro que sim.


A garotinha virou o caderno e mostrou um desenho delicado: era a própria fonte do jardim, e ao lado dela estavam o Guru e Suya conversando, tal como naquele exato momento.

Suya piscou, surpresa, reconhecendo a cena que vivia diante dos olhos.

O Guru então completou, em tom sereno e respeitoso:

Guru: — A pequena Soso é muito mais do que uma talentosa desenhista. Ela possui pequenas visões do futuro e as traduz em seus cadernos. Quando o desenho é concluído, ele se torna realidade.

Suya ficou maravilhada. O coração acelerou diante daquela revelação. Uma criança capaz de registrar o futuro e moldá-lo com traços coloridos — aquilo parecia mais mágico do que qualquer encantamento que já tinha presenciado.

O Guru então se inclinou para Soso e falou com ternura:

Guru: — Soso, a partir de hoje, você terá algo especial. Dali trouxe um novo caderno e pincéis de três cores encantadas. Vá até ela e receba este presente.

Atrás da fonte, surgiu Dali, uma mulher serena, trajando vestes claras bordadas em dourado. Além de servir no templo, era conhecida como uma das maiores curandeiras do lugar.

Dali: — Pequena Soso, o templo guardava isto para você.

Com cuidado, desfez o tecido e revelou três lápis de cera, um vermelho, um azul e um preto, cada um com brilho discreto, como se guardasse uma essência própria.

Os olhos de Soso brilharam, e suas orelhas de coelha se ergueram, empolgadas.

Soso: — São tão lindos!

Guru: — Esses lápis são especiais. Vermelho para dar vida e emoção aos seus traços. Azul para trazer clareza às suas visões. Preto para revelar os caminhos ocultos, aqueles que poucos têm coragem de ver. Eles ajudarão a tornar seus dons mais fortes.

Soso abraçou o caderno contra o peito e sorriu, quase saltitando de alegria.

Suya observava em silêncio, impressionada com o respeito que todos demonstravam pela pequena. Havia ali uma força inocente, mas poderosa, algo que poderia mudar destinos.

Suya (pensando): “Se essa criança é capaz de prever e tornar realidade o que desenha, talvez ela seja a chave para enfrentar a tal deusa casamenteira...”

O Guru voltou-se para Suya, sua voz carregada de calma e sabedoria:

Guru: — Jovem, você ainda não teve tempo para repousar. Por que não permanece no templo esta noite? — Dali providenciará roupas novas, um banho revigorante e uma boa refeição. Considere isso um pequeno gesto de gratidão pela sua coragem contra a criatura mais cedo.

Suya, exausta mas agradecida, inclinou a cabeça em sinal de respeito.

Suya: — Obrigada, senhor Guru. Aceitarei sua hospitalidade.

Ela seguiu com Dali pelos corredores sagrados, sentindo pela primeira vez desde sua chegada que podia respirar em paz.

Enquanto isso, no Oeste, Daphine trilhava seu próprio destino. A maga atravessou vielas sombrias até alcançar o porto da cidade. O cheiro de maresia se misturava ao da madeira molhada, e as gaivotas gritavam contra o vento que já anunciava uma tempestade próxima.

Entre os barcos comuns, seus olhos se fixaram em uma embarcação refinada, com velas bordadas em ouro e entalhes nobres no casco: era claramente uma embarcação real.

Daphine caminhou até a beira da doca, sua capa balançando com a brisa pesada, e chamou:

Daphine: — Olá! Há alguém a bordo?

Das sombras da cabine surgiu um homem elegante, trajando roupas finas de veludo escuro e uma echarpe bordada em azul. Ele caminhou até a proa com postura altiva, revelando-se um bardo real, conhecido por conduzir viagens do rei e da rainha.

Ele a observou com desconfiança, mas com um toque de cortesia.

Bardo Real: — Boa noite, senhorita. O que deseja de mim?

Daphine: — Preciso que me leve a um lugar... longe daqui.

O homem arqueou as sobrancelhas, mantendo a compostura.

Bardo Real: — Desculpe-me, mas este navio serve apenas ao rei e à rainha. Não transportamos passageiros comuns. Além disso... — ele ergueu o olhar para o céu carregado de nuvens — uma tempestade se aproxima. Seria insensato zarpar agora.

Daphine estreitou os olhos, impaciente, e cruzou os braços. A recusa não parecia ser algo que ela aceitaria tão facilmente.

Com a recusa do bardo real, Daphine não aceitou esperar. Teimosa como sempre, ergueu seu cajado sobre as águas agitadas do porto. O frio da sua magia se espalhou pelo oceano, congelando a superfície em placas de gelo que a sustentavam.

Daphine: — Se não me levará, eu mesma irei! — murmurou, determinada, avançando mar adentro como se fosse dona das marés.


Mas a maga ignorou o aviso do bardo. Do horizonte, a tempestade rugia como uma fera indomada. Relâmpagos cortaram os céus, e logo ondas colossais se ergueram, despedaçando o gelo sob seus pés. Um estrondo ensurdecedor, água por todos os lados... Daphine foi engolida pelo oceano, afundando na escuridão gelada.

No último instante, uma mão forte a puxou para fora.

Quando abriu os olhos, já era manhã. A maga estava deitada em uma cama confortável, o corpo envolto apenas por um lençol. Ao perceber-se nua sob o tecido, arregalou os olhos.

Daphine: — Mas o quê...?! — murmurou, indignada.

Ela saltou da cama e, ainda coberta, saiu da cabine com fúria nos olhos. No convés, encontrou o bardo real observando o horizonte.

Daphine: — SEU SAFADOOOO! — gritou ela, apontando o dedo. — COMO OUSA, SEU TARADO!

Antes que ele entendesse, Daphine já tinha lhe desferido uma sonora bofetada. O bardo, atordoado, ergueu as mãos em defesa quando percebeu que outra vinha em seguida.

Bardo Real: — PARE, SUA LOUCA! — disse, segurando o braço dela. — Eu salvei a sua vida!

Ele a olhou nos olhos, mas não resistiu a deixar o olhar escapar por um instante, percorrendo de relance a figura da maga enrolada no lençol. Seu rosto ficou rubro imediatamente; ele se afastou, tossindo de nervoso.

Bardo Real: — Você deveria me agradecer... não me acusar. Se não fosse por mim, estaria no fundo do mar.

Daphine estreitou os olhos, ainda furiosa, e respondeu com sarcasmo:

Daphine: — E precisava me deixar nua pela manhã?!

Bardo Real: — Eu tirei suas roupas porque você estava completamente ensopada. Elas estão ali.

Ele apontou discretamente para um varal improvisado, onde Daphine poderia ver suas roupas secando ao sol.

Nesse momento, dois guardas reais surgiram, trazendo dois prisioneiros algemados entre eles.

Guarda Real 1: — Ei, bardo! O rei precisa que levemos esses prisioneiros imediatamente.

O segundo guarda percebeu a situação no convés: Daphine ainda enrolada no lençol, encarando o bardo com uma mistura de raiva e ironia. Ele trocou olhares com o bardo três vezes, cada vez mais divertido, antes de comentar com uma voz arrastada:

Guarda Real 2:— Ah, é assim, hein? Achei que você não se divertisse desse jeito, bardo…

Os prisioneiros, percebendo o clima, não perderam a oportunidade de provocar:

Prisioneiro Diogo: — Ah, é assim mesmo, hein… — disse com um sorriso malicioso.

Prisioneiro Carlos: — Para, idiota! Quer piorar ainda mais a situação?

O bardo corou instantaneamente, balançando as mãos em sinal de negação:

Bardo Real: — Não é nada do que vocês estão imaginando! — disse, a voz trêmula e embaraçada.

Aproveitando a distração geral, Daphine pegou rapidamente suas roupas secas do varal. Com a rapidez e agilidade que lhe eram costumeiras, entrou na cabine e se vestiu, deixando todos — bardo, guardas e prisioneiros — ainda mais atônitos.

Daphine saiu da cabine vestida e recomposta, mas ainda com a expressão irritada. Ao voltar para o convés, percebeu o bardo conversando com o guarda real sobre a entrega dos prisioneiros. Um leve incômodo cresceu dentro dela — talvez curiosidade, talvez desconfiança.

Ela se aproximou devagar, observando os dois guardas distraídos.

“Se eu puder controlar ao menos um deles, talvez consiga uma carona sem perguntas…” pensou, enquanto seus olhos brilhavam em um tom carmesim.

Ergueu a mão discretamente e sussurrou o encantamento: — Oriundo.

Mas a magia falhou. Uma onda de energia instável escapou de seus olhos e ricocheteou pelo ar, revelando seu intento antes que pudesse recuar.

Guarda Real 1: — O que foi isso?! — gritou, empunhando a espada.

O bardo tentou intervir: — Esperem! Ela não é uma criminosa, apenas se confundiu! —

Mas os guardas não o ouviram.

Enquanto isso, os prisioneiros, percebendo o caos, aproveitaram a chance.

Prisioneiro Diogo se lançou sobre um guarda, empurrando-o contra o mastro. Prisioneiro Carlos conseguiu agarrar as chaves e libertar as algemas. O convés se transformou em um tumulto de gritos, aço e sangue.

Daphine, caída, pressionava o ferimento enquanto o mundo girava em volta dela.

Daphine:Droga… não posso morrer aqui… — sussurrou, a respiração ofegante.

Com as últimas forças, ela ergueu sua mão ensanguentada, invocando sua chave portal. Um círculo de luz negra se abriu sob ela, o vento mágico arrastando fragmentos do convés.

O bardo tentou alcançá-la: — Daphine, espere! Você está ferida!

Mas já era tarde. O portal a engoliu por completo — e, num lampejo, dois vultos o atravessaram logo atrás: os prisioneiros em fuga.

A escuridão se dissipou, dando lugar à luz dourada que preenchia o salão sagrado do Templo de Lótus. Daphine surgiu cambaleante e desabou nos braços de Suya, o corpo ensopado de sangue.

Assustada, a arqueira correu e a amparou antes que tocasse o chão.

Suya: — Daphine?! — exclamou, incrédula. — O que aconteceu com você? Está sangrando!

O sangue escorria pela perna da maga, formando pequenas poças que manchavam o piso de mármore. Suya, com o coração acelerado, ergueu os olhos para o velho mestre.

Suya: — Guru, por favor... ajude minha amiga!

O ancião se aproximou com calma e voz serena:

Guru: — Deixe-a comigo. Venha… vamos levá-la às fontes curandeiras. Lá ela encontrará alívio.

Sem hesitar, Suya a ergueu nos braços novamente e, junto ao guru, correu pelos corredores de pedra do templo. As tochas iluminavam o caminho com uma luz trêmula, refletindo na pele pálida de Daphine. O som apressado dos passos ecoava entre os pilares até que chegaram a uma ampla sala banhada por uma névoa suave e o som constante de água corrente.

No centro da sala, Dali, a curandeira do templo estava trabalhando, quando avistou o guru e suya entrando com uma garota que estava sangrando.

Dali: — Coloquem-na aqui — disse Dali, sua voz calma e melodiosa, indicando uma cama feita de linho e folhas medicinais.

Assim que Daphine foi deitada, Dali uniu as mãos diante do peito e começou a entoar cânticos em um idioma antigo. Símbolos místicos começaram a brilhar em torno dela, e o ar ficou perfumado com incenso e ervas curativas. Uma aura dourada emanou de suas mãos, envolvendo a ferida de Daphine, estancando o sangue e purificando o ferimento.

Suya observava, aflita, com as mãos trêmulas.

O guru pousou uma mão em seu ombro e disse em tom sereno: — Tenha fé, jovem arqueira. As bênçãos de Dali e das águas sagradas deste templo já salvaram vidas em situações piores.

Aos poucos, a respiração de Daphine se acalmou, e o brilho dourado se dissipou suavemente, deixando apenas o som tranquilo da água e o aroma das flores sagradas no ar

Enquanto o tratamento prosseguia e daphine descansava, Suya foi conduzida pelo guru até um jardim secreto dentro do templo — um lugar onde o ar parecia mais leve e o som da água trazia paz à alma. No centro, havia uma fonte cristalina cercada por flores de lótus que flutuavam serenamente sobre a superfície. Cada uma brilhava com um tom distinto e uma energia única.

Enquanto caminhavam entre as pétalas coloridas, o guru começou a falar com voz calma:

Guru: — Estas são as Lótus Sagradas do templo. Cada cor representa uma virtude que todo guerreiro espiritual deve cultivar.

Ele apontou para uma flor de tonalidade azulada que refletia o céu sobre as águas.

Guru:A Lótus Azul simboliza o triunfo do espírito sobre os sentidos… representa a sabedoria e o conhecimento.

Depois indicou uma flor rubra, cujas pétalas pareciam pulsar como um coração vivo.

Guru:A Lótus Vermelha fala das virtudes do coração: o amor, a paixão e a compaixão.

Por fim, ele se inclinou e colheu uma Lótus Branca, tão pura que parecia feita de luz.

Guru: — E esta, a Lótus Branca, é a perfeição da mente e do espírito… a pureza em sua forma mais elevada.

O guru então estendeu a flor para Suya: — Tome, jovem arqueira. Esta flor escolheu você.

Assim que a garota a recebeu, um brilho branco e suave emanou da flor, envolvendo seu corpo em uma aura cintilante. Suya sentiu a energia fluir por suas veias, como um vento calmo que dissipava toda dúvida e medo.

Guru: — De hoje em diante — disse o guru — você carregará a Habilidade da Mente Serena. Mesmo em meio ao caos, encontrará uma solução. Que sua mente jamais se turve diante do perigo.

Suya abaixou a cabeça em respeito, tocada pelas palavras do mestre.

Pouco depois, Daphine, já recuperada de seus ferimentos, surgiu à entrada do jardim. O som de seus passos leves ecoou entre as flores e o murmúrio suave da fonte.

Daphine: — Suya... — chamou, a voz calma, mas ainda carregada de cansaço.

Suya se virou, e um sorriso de alívio iluminou seu rosto ao ver a amiga de pé novamente. Antes que ela pudesse falar algo, o guru levantou uma das mãos e a interrompeu com serenidade.

Guru:Minha jovem, aproxime-se. Junte-se a nós — disse o mestre com um tom que soava quase hipnótico.

Daphine olhou para ele, intrigada, e depois voltou-se para Suya, baixando o tom de voz:— Quem é esse homem?

Suya:— Esse é o Guru do Templo das Lótus, — respondeu Suya, gentilmente. — Foi graças a ele e a dali a curandeira do templo que você conseguiu se recuperar.

Daphine assentiu em silêncio, estudando o homem à sua frente. O guru, por sua vez, observava-a com olhos que pareciam enxergar muito além do que o físico permitia. Sua expressão era serena, mas o olhar carregava o peso de quem compreendia segredos profundos da alma.

Guru:Em você, criança das chamas, — disse ele, dando um passo à frente — vejo um turbilhão que tenta te engolir. Carrega dentro de si remorso, ódio e sede de vingança. Sua energia é como um rio escuro que luta contra sua própria corrente.

Daphine baixou o olhar, sem negar. Havia verdade demais nas palavras do velho.

O guru, então, voltou-se à fonte sagrada. Suas mãos mergulharam lentamente na água cristalina, e de lá ele retirou uma Lótus Negra. Diferente das outras, essa flor não refletia a luz — ela a devorava. Suas pétalas exalavam uma beleza sombria e misteriosa.

Com delicadeza, ele depositou a flor nas mãos da maga.

Guru:Esta é a mais rara de todas. A Lótus Negra é o espelho da alma. Ela representa o desafio da transformação. Um caminho obscuro te persegue, mas o destino ainda pode ser reescrito.


Daphine ergueu os olhos, confusa: — E o que devo fazer com ela...?

O guru sorriu, um sorriso que parecia carregar eras de sabedoria.

Guru:Faça-a florescer em branco. Só então você será livre do que te atormenta.

Sem compreender por completo as palavras, Daphine apertou a flor entre as mãos. No instante seguinte, um brilho profundo e denso emanou das pétalas, envolvendo-a num véu de energia escura que se fundiu com seu corpo. O vento soprou, e por um breve momento o jardim pareceu suspirar como se a própria natureza tivesse sentido a mudança.

O guru observou em silêncio, e quando a luz se dissipou, ele completou com voz grave e solene: — Para mudar o destino, primeiro é preciso mudar a mente... e o coração.

Daphine permaneceu imóvel, olhando para a flor que agora pulsava suavemente em sua palma. Suya a observava com um misto de preocupação e esperança, sem saber que aquele presente marcaria o início de uma nova jornada — uma que colocaria as duas amigas frente a frente com suas próprias sombras.

Daphine agradeceu ao guru ao lado de Suya. As duas saíram do templo e caminharam pela cidade, ainda envoltas pelo perfume de incenso que escapava pelas portas abertas enquanto conversavam sobre o que havia acontecido.

Suya olhou para Daphine com os olhos brilhando de preocupação

Suya: — Primeiro, quero que me conte o que aconteceu com você. Por que apareceu daquela forma, coberta de sangue?

Daphine: — Tudo começou quando fui para o Oeste seguindo o anel-bússola, depois que nos despedimos daquela vez — contou Daphine, cruzando os braços. — Acabei indo parar no porto de uma cidade do Reino de Asterion. O ar cheirava a maresia e tempestade, e lá, ancorado próximo ao cais, vi um navio real — elegante, com velas bordadas em fios de ouro que brilhavam sob o sol poente.

Daphine— Havia um homem a bordo, um bardo real. Pedi que me levasse, mas ele recusou — disse que o navio era exclusivo da realeza e que uma tempestade estava se formando. Eu… não aceitei muito bem. — Ela riu sem humor, cruzando os braços. — Usei magia para congelar o mar e tentei seguir sozinha, caminhando sobre o gelo.

Suya arregalou os olhos, incrédula: — Você o quê?!

Daphine: — A tempestade veio forte demais, o gelo se partiu e… eu fui levada. Tudo ficou escuro. Quando acordei, estava dentro do navio, coberta apenas por um lençol, e o bardo dizendo que tinha me salvado.

Suya ergueu uma sobrancelha. — Imagino a confusão.

Daphine suspirou. — Eu quase o matei. Dei um tapa na cara dele achando que ele tinha se aproveitado de mim… mas ele só tinha tirado minhas roupas porque estavam ensopadas. — Um leve rubor subiu ao seu rosto. — Enfim, foi constrangedor.

Ela desviou o olhar, mas logo retomou o tom sério.

Daphine: — Pouco depois, chegaram guardas reais trazendo dois prisioneiros. Quando vi a chance, tentei usar Oriundo em um  dos guardas. Só que… a magia falhou.

Daphine: — Os guardas perceberam quando tentei controlar a mente de um deles com meu feitiço. Em um instante, ergueram as espadas e avançaram contra mim — contou Daphine, a voz carregada de tensão. — Tudo virou um caos. Os prisioneiros aproveitaram a confusão e se revoltaram, atacando os guardas. A batalha tomou conta de todo o conves. Minha única saída foi usar a chave de portal… eu só pensava em voltar para você, Suya. — Ela baixou o olhar, a voz suavizando num tom arrependido. — Eu não devia ter me separado de você… nem seguido sozinha o caminho indicado pelo meu anel-bússola.

Por um momento, o som do vento foi a única coisa entre as duas. Suya olhou para ela, os olhos carregando uma mistura de preocupação e incredulidade.

Suya: — Então foi assim que apareceu ensanguentada… — murmurou a arqueira. — Daphine, um dia essa sua teimosia ainda vai te matar.

Suya: — Enquanto você estava sendo imprudente, eu acabei me envolvendo em uma situação terrível... e agora não sei o que fazer. Daphine: — O que aconteceu? Suya: — Quando cheguei aqui em Mahavana, fui atacada por um minotauro. Lutei com tudo que tinha… no fim, O guru me contou depois que há uma deusa casamenteira corrompida, e o monstro era seu filho. Ele transformou a cidade em um labirinto para caçar mulheres… dizia que buscava o “amor perfeito”.

Suya: — Eu o derrotei, o expulsei em chamas. enquanto ele fugiar, gritava por sua mãe… e agora sei que ela virá. Enfrentar uma deusa não é algo para o qual eu esteja preparada.

Daphine deu um leve sorriso, tentando animá-la.

Daphine: — Então vamos dar um jeito juntas. Não se preocupa, Suya. Se uma deusa aparecer, a gente faz ela se arrepender!

Suya: — (rindo) Admiro seu otimismo... ou você só não tem medo de morrer mesmo?

As duas riram, e o clima pesado se desfez por alguns segundos, trazendo de volta a sensação de que, enquanto estivessem juntas, poderiam enfrentar qualquer coisa.

Enquanto Suya e Daphine arquitetavam um plano contra a deusa, a noite caía sobre a cidade de Mahavana. As ruas, iluminadas por lamparinas douradas, pulsavam com vida e música. Risos, tambores e o som suave de cítaras ecoavam entre becos estreitos e coloridos, onde o perfume de especiarias se misturava ao aroma doce do incenso.

Em um dos recantos mais animados da cidade, havia uma Taverna muito suspeita, — um ambiente exótico, envolto em cortinas de seda vermelha e dourada, almofadas espalhadas pelo chão e mesas baixas onde os visitantes se recostavam para beber e assistir às dançarinas.

Foi ali que se encontravam os dois prisioneiros que haviam atravessado o portal ao lado de Daphine. Livres e despreocupados, pareciam ter esquecido completamente o caos que haviam deixado para trás. Entre gargalhadas e copos que nunca pareciam esvaziar, eles celebravam a liberdade recém-conquistada.

De repente, uma mulher entrou em cena — sua presença fez o salão inteiro silenciar por um breve instante. Ela era de uma beleza arrebatadora: cabelos negros como a noite, pele clara e cintilante sob a luz das lamparinas, e um corpo curvilíneo que se movia com a graça. Havia algo em seu olhar — profundo, quase hipnótico — que prendia a atenção de todos ao redor.

Ela se aproximou de Diogo e Carlos com um sorriso suave, e o tilintar de suas joias soou como o chamado de um feitiço. Bastou um toque em seus ombros, um olhar mais demorado, e toda a resistência se desfez. Os prisioneiros sorriram, subjugados por um encanto que não compreendiam, e a seguiram para um canto mais reservado do salão. A música voltou a crescer, abafando as vozes, e o riso das dançarinas se misturou ao som das cítara.

Enquanto os clientes desfrutavam das bebidas e da música suave que ecoava pela taverna, os dois prisioneiros permaneciam encantados pela beleza hipnótica da mulher misteriosa. Seus sorrisos embriagados não percebiam o perigo que se aproximava.

Do teto, finas teias começaram a se mover discretamente, até que, num instante, se lançaram sobre um deles, envolvendo-o por completo. O outro, ao perceber o ataque, reagiu instintivamente — sacou sua lâmina e avançou contra a mulher.

Mas antes que pudesse acertá-la, o belo rosto dela se distorceu, revelando sua verdadeira forma: uma gigantesca aranha de olhos múltiplos e presas reluzentes. As pernas negras romperam o chão de madeira, rachando as paredes e fazendo as mesas voarem. O salão mergulhou em caos.

Os clientes gritaram e fugiram em desespero enquanto o prisioneiro chamado Carlos lutava em vão contra as teias que o prendiam. Diogo, o outro, usou suas habilidades de ninja das sombras para desaparecer na penumbra e tentar libertá-lo.

A mulher-monstro, agora fundida à própria estrutura da taverna, ria com um som gorgolejante — sua voz ecoava pelas paredes, como se o local inteiro estivesse vivo.


Enquanto isso, nas ruas de Mahavana, Suya e Daphine caminhavam sob as luzes das lamparinas, discutindo o plano contra a deusa. De repente, ouviram os gritos de pânico e o som de algo desmoronando ao longe.

Suya:Isso veio da direção da taverna! — exclamou Suya, já correndo.

Ao chegar, a arqueira viu o caos — teias cobriam a entrada e pessoas tentavam escapar. Sem hesitar, ela empunhou seu arco, conjurando uma flecha flamejante e disparando-a com precisão. A flecha atingiu as teias que prendiam Carlos e Diogo, incendiando-as e libertando os homens.

Do interior, um rugido ecoou. Das chamas, emergiu a criatura em sua forma completa — a deusa casamenteira, corrompida e tomada pela loucura. Sua pele reluzia com uma coloração escura e viva, e seu corpo cresceu até ultrapassar os telhados da cidade. Quatro braços se estendiam, seguidos de três pares de pernas, e seus cabelos desgrenhados se moviam como serpentes.

A deusa urrou e começou a correr, destruindo tudo em seu caminho.

Suya, sem pensar duas vezes, partiu em perseguição. Daphine, vendo a amiga se lançar sozinha ao perigo, murmurou um encantamento e elevou-se no ar com magia de voo, alcançando-a rapidamente.

As duas avançaram juntas pelos céus noturnos, em direção à colossal criatura. Lá embaixo, uma menina-coelha que passava pela rua foi agarrada por uma das mãos monstruosas da deusa.

Suya:Não! — gritou Suya, preparando outra flecha flamejante.

Antes que pudesse disparar, a deusa lançou um jato de ácido que cortou o ar em sua direção. Daphine reagiu a tempo, conjurando um escudo mágico que se expandiu diante delas — o impacto fez o ar vibrar, espalhando fagulhas e fumaça verde.

A maga então olhou para Suya e, com um gesto rápido, canalizou um feitiço de propulsão.

Daphine: — Agora, Suya!

O corpo da arqueira foi lançado pelo ar, girando em meio ao vento. Ela esticou o arco, invocou uma nova flecha flamejante e a disparou em meio à queda. O disparo iluminou o céu noturno — um traço de fogo cortando a escuridão em direção à deusa corrompida.

Enquanto isso, Carlos e Diogo vinham logo atrás, tentando acompanhar a perseguição frenética pelos telhados e vielas de Mahavana. Acima deles, a deusa casamenteira corrompida avançava em fúria, lançando teias ácidas contra Suya e Daphine, que se desviavam no ar por pouco, com faíscas mágicas cruzando o céu noturno.

Presas nas mãos da criatura, Soso — a pequena menina-coelha — lutava para se libertar. Apesar do medo, ela tentou dialogar, gritando entre os rugidos da deusa:

Soso: — Ei! Você não vai querer me devorar! Eu não sou um bom aperitivo!

A deusa apenas riu, um som distorcido e gorgolejante que ecoou por toda a cidade. Mas Soso, em meio ao pânico, teve uma ideia. Com dificuldade, puxou de sua bolsinha um pequeno caderno de desenhos e um carvão quebrado. Mesmo pendurada, começou a rabiscar com rapidez — traçando uma imagem de si mesma livre, em segurança, sobre o chão.

Quando terminou, o desenho brilhou intensamente, emanando uma luz mágica que envolveu seu corpo. Em um piscar de olhos, o desenho tornou-se realidade — e Soso caiu suavemente no chão, ilesa.

Daphine, percebendo o feito da menina, sorriu aliviada e estendeu a mão.

Daphine:Suba! Eu te levo conosco!

Com um gesto, a maga conjurou outro feitiço de voo, envolvendo Soso em uma aura dourada. A menina subiu aos céus, voando ao lado das duas guerreiras.

A deusa, confusa com o que havia acontecido, rugiu de raiva e disparou novas teias ácidas para atrasá-las. O ar silvava com o som das substâncias cortando o vento e corroendo tudo o que tocavam.

Suya ergueu o arco e gritou: — Rápido! Ela está escapando!

Soso, olhando adiante, apontou para o horizonte, onde o céu se tingia de vermelho.

Soso: — Ela está indo para o vulcão! Vamos atrás dela!

Daphine:Vou acelerar o ritmo! — disse Daphine, concentrando energia nas mãos. Um brilho azulado envolveu o trio, e elas dispararam pelo ar como flechas de luz.

A perseguição as levou até a entrada de uma imensa caverna no coração da montanha. Mas o caminho estava repleto de armadilhas mágicas que se ativavam à medida que avançavam. Lâminas de energia, jatos de fogo e estalagmites que surgiam do nada ameaçavam detê-las.

Suya, com reflexos precisos, atirava flechas encantadas que destruíam as armadilhas antes que as atingissem, enquanto Daphine desviava no ar com feitiços de propulsão.

De repente, uma parede de raios se ergueu diante delas, bloqueando a passagem. O ar vibrou com força, emitindo faíscas que cortavam o espaço ao redor.

Daphine:Atenção! — gritou Daphine, tentando frear o voo.

Mas antes que o impacto as atingisse, Soso abriu seu caderno novamente e desenhou com pressa um grande círculo em volta das três. Assim que o traço se completou, uma barreira luminosa tomou forma — um escudo mágico que as envolveu e dissipou a energia dos raios.

O brilho do escudo reluziu pela caverna, revelando a silhueta colossal da deusa casamenteira adentrando as profundezas do vulcão.

Dessa forma, o grupo finalmente alcançou um espaço amplo e incandescente nas profundezas do vulcão. O chão tremia sob seus pés, e rios de lava cruzavam o ambiente, iluminando tudo com um brilho vermelho e ameaçador.

No centro daquela câmara colossal, a deusa casamenteira rugiu em fúria. Seu corpo se distorceu novamente, tomado por um ódio indescritível. Pela segunda vez, ela se transformou — sua forma tornou-se ainda mais demoníaca: seis braços se ergueram em convulsão, sua pele adquiriu tons carmesins, e de seu peito e ombros brotavam chifres curvados como lanças. Seus olhos, agora múltiplos, queimavam como braseiros vivos.

Nesse instante, Carlos e Diogo — os dois prisioneiros que haviam ficado para trás — conseguiram alcançar Suya, Daphine e Soso.

A luta começou com violência. Cada um utilizava suas habilidades da melhor forma que podia: Daphine conjurava feitiços de energia e barreiras mágicas; Soso criava desenhos que ganhavam vida, atacando e defendendo o grupo; Carlos lutava com sua força bruta, enquanto Diogo usava a agilidade sombria de um ninja para atingir os pontos cegos da deusa.

Mas o poder dela era imenso. A cada golpe, a criatura rugia, lançando teias incandescentes e rajadas de energia que faziam as pedras da caverna desabar. O calor se tornava insuportável.

Suya, ofegante, sentia sua mana se esvair. O arco tremia em suas mãos. Daphine também mal conseguia manter-se de pé. Carlos e Diogo sangravam, feridos; Soso, já sem carvão suficiente, tinha o caderno manchado de fuligem e suor.

Mesmo assim, ninguém recuou.

Quando tudo parecia perdido, um olhar entre eles reacendeu a chama da esperança.

Suya: — Uma última chance... — murmurou Suya.

Ela ergueu o arco, reunindo suas últimas forças para conjurar uma flecha de fogo. Daphine, quase sem mana, colocou a mão sobre o ombro da amiga e canalizou o que restava de sua energia mágica, amplificando o feitiço.

Carlos e Diogo se posicionaram atrás delas, unindo suas forças — um restaurando a vitalidade de Suya, o outro transmitindo parte de sua energia espiritual.

O ar vibrou. Uma luz dourada começou a brilhar na ponta da flecha


Soso: — A Flecha da Esperança... — sussurrou Soso, com os olhos marejados.

Suya respirou fundo e disparou.

O projétil cortou o ar como um raio de fogo e luz, atravessando o peito da deusa. O impacto ecoou como um trovão, e uma explosão de energia envolveu toda a caverna. A criatura soltou um grito ensurdecedor antes de ser consumida pelas chamas e tragada de volta às profundezas do inferno.

O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo som da lava borbulhando.

Pouco adiante, um baú antigo emergia entre as rochas derretidas, brilhando como um prêmio tentador. Carlos e Diogo trocaram olhares — a ganância cintilava em seus olhos.

Mas Suya, ainda arfando, ergueu a voz: — Não! Temos que sair daqui agora! O vulcão vai desabar!

O chão começou a tremer. Pedras caíam do teto, e rachaduras se espalhavam pelas paredes. Mesmo assim, os prisioneiros hesitaram, tentados a abrir o baú.

Foi então que Soso, sem pensar duas vezes, abriu seu caderno e desenhou um portal com linhas rápidas e firmes. Assim que o traço se completou, uma luz intensa envolveu todos os presentes — inclusive os dois gananciosos.

Num piscar de olhos, o grupo inteiro foi transportado para fora do vulcão, segundos antes que tudo desmoronasse em uma erupção colossal.

Salvos, observaram ao longe a montanha cuspir fogo e cinzas contra o céu. Suya abaixou o arco, exausta, mas com um leve sorriso: — Conseguimos!.

Ao retornarem à cidade, foram recebidos com aplausos e gritos de alegria. As ruas de Mahavana se encheram de luz e música — os sinos dos templos ecoavam, e pétalas de flores eram lançadas do alto das varandas. O povo celebrava com lágrimas nos olhos o fim da opressão que os havia aprisionado por tanto tempo.

Os heróis foram cercados por uma multidão eufórica. Crianças corriam ao redor, enquanto alguns moradores levantavam Carlos e Diogo sobre os ombros, carregando-os em meio à festa. O nome de Suya, Soso e Daphine era repetido com gratidão e reverência — símbolos da esperança que havia renascido.


No meio da celebração, o velho guru se aproximou com um sorriso sereno, o olhar cheio de orgulho.

Guru: — Venham, minhas jovens. Vamos ao templo. Tenho algo para todos vocês. — disse, com a voz firme e gentil.

Seguindo-o, o grupo adentrou o Templo de Lótus, agora iluminado por centenas de lamparinas. O ar estava leve, perfumado com incenso e flores frescas. O ambiente transmitia paz — um contraste absoluto com o caos que haviam enfrentado.

Suya e Daphine foram levadas até um quarto compartilhado, preparado especialmente para o descanso das duas. Assim que entraram, sentiram o peso da exaustão cair sobre seus corpos.

Suya decidiu tomar um longo banho. A água morna deslizava por sua pele, lavando não apenas o cansaço físico, mas também a tensão e o medo acumulados nos últimos dias. Há muito tempo ela não sentia uma sensação tão simples e reconfortante de paz.

Daphine, por outro lado, mal teve forças para chegar à cama. Exausta, deixou-se cair sobre os lençóis, sem se preocupar em tirar mais do que o essencial da roupa de viagem. Em poucos segundos, adormeceu profundamente, com o semblante tranquilo — um raro descanso depois de tantas batalhas e perigos.

Suya, ao sair do banho, olhou para a amiga dormindo e sorriu. Por fim, também se deitou, permitindo-se o luxo de fechar os olhos sem medo, sabendo que, ao menos por agora, Mahavana estava em paz.

(Fim do primeiro Arco)……

Em Agradecimentos aos participantes do primeiro arco:
Instagram dos jogadores:

Mestre da Mesa: @space.olimpia 
Suya Violet: @suyaviolet
Daphine: @pampa_biten
Soso: @sozo_ohayo
Meli: @peyword

continuaremos no arco dois com alguns deles e novos integrantes, te vejo la ^^

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