A noite caía sobre a floresta quando Suya e Niele, após deixarem o lago para trás, seguiram mata adentro em busca de um local para descansar.
Suya: — Vamos montar acampamento aqui. Já está bem escuro e esse lugar parece seguro. Niele, procure por alguns galhos secos; eu vou acender a fogueira e preparar nossas camas improvisadas.
Niele soltou uma risadinha divertida.
Niele: — Suya, não precisamos improvisar. Eu trouxe algo para isso. Achei que poderia ser necessário caso ficássemos muito tempo fora.
Suya olhou curiosa para as mãos de Niele, que segurava dois pequenos cubos.
Suya: — E… o que seria isso?
Com um sorriso confiante, Niele jogou os cubos no chão. Em um piscar de olhos, duas barracas tecnológicas surgiram diante delas. Suya ficou surpresa e até um pouco assustada; nunca havia visto nada parecido.
Suya: — Como essas barracas couberam aí dentro?
Niele: — Tecnologia de nanorrobôs. Eles são microscópicos, mas extremamente resistentes. Como pesquisadora, precisei desenvolver um lugar prático para descansar, caso minhas pesquisas me levassem a lugares isolados. Sempre sonhei em usá-los em campo… e hoje vamos ter essa oportunidade. O melhor de tudo é que cada barraca tem um domo que mantém o interior aquecido e aconchegante durante a noite.
Suya estava impressionada.
Suya: — Que bela invenção, Niele! Isso teria sido muito útil na época de Grimor. Até mesmo exércitos inteiros poderiam se beneficiar.
Entrando em sua barraca, Suya encontrou iluminação suave, um saco de dormir já instalado e um espaço surpreendentemente confortável.
Ao deitar, mal podia acreditar que algo criado por nanorrobôs pudesse ser tão maleável e macio. Assim, as duas passaram a noite tranquilas. Suas roupas molhadas foram deixadas secando nas árvores próximas, e todos os pertences ficaram protegidos dentro das barracas.
Na manhã seguinte, Suya despertou primeiro. Pegou suas roupas já secas, vestiu-se e, com o arco em mãos, saiu para caçar sem acordar Niele. Seguindo rastros, montou uma armadilha, mas em vez da raposa que esperava, acabou capturando um tatu de tamanho mediano — suficiente para o café da manhã.
Quando retornou, encontrou Niele já acordada, cozinhando algo sobre uma pequena chama tecnológica.
Niele: — Bom dia, Suya! Achei que ainda estaria dormindo.
Suya: — Saí para caçar… mas que cheiro é esse?
Niele: — Fui até o lago e pesquei alguns peixes para nós. E você, o que trouxe aí?
Suya: — Um tatu… mas ainda bem que não o matei, já que você preparou nosso café. Vou soltá-lo, não há necessidade de desperdiçar uma vida.
Niele sorriu, aliviada.
Niele: — Que bom, salvei a vida de um pobre animalzinho. Confesso que não conseguiria comê-lo. Mas me diga, Suya, você sempre caçava sua própria comida?
Suya: — Sim. Desde que aprendi arco e flecha, também aprendi a sobreviver em situações precárias. Já provei de tudo: raposas, coelhos, esquilos, tatus, peixes… Mas a carne de veado… ah, essa sim é uma delícia, macia e suculenta.
Ela chegou a salivar ao lembrar.
Niele riu levemente.
Niele: — Você é mesmo uma caçadora nata. Mas aqui… precisamos respeitar os animais e evitar caçá-los.
Suya: — Evitar? Por quê?
Niele: — Muitos estão em risco de extinção. Algumas espécies são raríssimas, como o próprio tatu que você capturou.
Suya: — Eu não sabia… sinto muito. A partir de agora, só vou pescar.
Niele: — É melhor assim. Além disso, caçar em certas áreas pode ser crime. Mas não se preocupe, existem lugares onde a caça é permitida. Posso te mostrar um dia. Só que, antes de tudo, precisamos entender onde estamos.
Ela fez uma pausa, observando a paisagem.
Niele: — Pelo ambiente, acredito que estamos em Valyria.
Suya: — Valyria?
Niele: — Uma ilha onde existe uma única cidade, dividida em dois distritos: Tecris e Antyros.
Enquanto Niele explicava a estrutura social da ilha, as duas terminavam o café e recolhiam seus pertences.Logo seguiram pela floresta, os galhos estalando sob seus passos e o vento frio roçando entre as árvores altas. Suya mantinha o olhar atento, enquanto Niele caminhava ao seu lado, segurando firme sua bolsa de couro. O silêncio da mata foi rompido de repente por gritos distantes de horror, ecoando pelo ar e fazendo ambas pararem em alerta.
Acima delas, uma águia surgiu, voando em círculos, suas asas largas cortando o céu. O som poderoso ecoou pela floresta:
— Kiiiiiiiii-aaaaaaahhhh!
O grito da ave ressoou como um presságio, misturando-se aos gritos humanos que vinham de longe, aumentando a tensão no coração das duas viajantes.
Suya: — Algo está errado. Fique em alerta.
Com o arco em mãos, Suya seguiu cautelosa até que avistaram a estrada. Pessoas corriam em desespero. Uma mulher, desesperada, cambaleou até elas:
Mulher (ofegante, em desespero): — Por favor, ajudem! Criaturas horrendas surgiram na cidade! Antyros não é mais segura! Fujam… fujam por suas vidas, garotas!
Suya olhou na direção da cidade e apertou os olhos.
Suya: — Niele, eu quero ir até Antyros.
Niele: — O quê? Suya, é perigoso! Melhor deixar para as autoridades. Hoje temos tecnologia suficiente para lidar com qualquer ameaça.
Suya: — Pela descrição dela, não parece algo natural… talvez nem mesmo as máquinas consigam lidar.
Niele: — Mesmo sabendo do perigo… você vai correr em direção a ele?
Suya: — Sim. Se há pessoas em risco, não posso simplesmente fugir. E algo me diz que há magia envolvida. Talvez… Luarina esteja lá.
Niele suspirou, dividida entre razão e amizade.
Niele: — Tudo bem… vamos.
Suya: — Não. Acho melhor você procurar abrigo nas redondezas e ajudar quem passar por aqui. Não quero me preocupar em te proteger se a situação for grave.
Relutante, Niele concordou.
Niele: — Certo… mas mantenha contato comigo pelo NeuroBrace. Vou ampliar o alcance e ativar a transmissão ao vivo do que você ver. Assim vou me sentir mais tranquila.
Niele: — Pronto. Se apertar esse botão, ele transmitirá tudo ao vivo. Assim poderei te acompanhar.
Suya: — Obrigada, Niele. Se cuide. Antes de partir, Suya entregou-lhe uma flecha mágica e uma pulseira penas lilases.
Suya: — Essa flecha é única. Um assobio: ataque. Dois assobios: escudo. Três assobios: ela se tornará um localizador e virá até mim, mas só pode ser usada uma vez. Quando ela se reunir com meu arco, tanto a flecha quanto a pulseira desaparecerão. Entendeu?
Niele: — Sim. Usar o modo localizador só em último caso. Obrigada, Suya… e se cuide, minha amiga.
As duas se abraçaram. Em seguida, Suya correu em direção à cidade.
Ao chegar às ruas de Antyros, Suya ergueu seu arco sem hesitar. Flechas mágicas cortaram o ar, atingindo as criaturas que avançavam sobre os moradores. O som dos gritos misturava-se ao das construções sendo destruídas e ao barulho seco dos monstros caindo.
Ela se movia com agilidade, disparando uma sequência certeira para abrir caminho.
Suya (gritando): — Corram! Vão para um lugar seguro!
Uma mulher, trêmula, carregando uma criança nos braços, aproximou-se dela em meio ao pânico.
Mulher (desesperada): — Venha conosco!
Suya não perdeu o foco, puxando mais uma flecha magicas.
Suya: — Vão vocês! Eu ainda tenho que ajudar outras pessoas.
A mulher a fitou com olhos marejados, hesitante, mas logo assentiu.
Mulher: — Tudo bem… cuidado, moça! Assim que puder, siga por aquele caminho. O templo é o lugar mais seguro no momento.
Ela apontou rapidamente para uma rua ao norte. Suya lançou um olhar na direção indicada, memorizando o caminho.
Suya: — Obrigada! Agora corra!
A mulher desapareceu na multidão, protegendo o filho contra o peito enquanto corria em direção ao templo.
Suya inspirou fundo, fechou os olhos por um instante e concentrou-se. O cheiro de fumaça, o sangue, os gritos… todo o caos pulsava em volta dela. Mas ela não cederia ao medo. Seu arco brilhava levemente, reagindo à energia mágica presente no lugar.
Suya (em pensamento): — Isso não é obra de simples máquinas… há magia aqui.
De repente, três criaturas saltaram sobre ela — criaturas da sombra corpos que lembrava a fumaça, olhos vermelhos e malignos. Suya rolou para o lado, disparando duas flechas em sequência. Uma atingiu o peito de uma criatura, a outra perfurou a cabeça da segunda. A terceira avançou mais rápido, mas Suya girou o arco e golpeou-a com a extremidade, derrubando-a no chão antes de fincar uma flecha direto em seu coração.
O povo corria em todas as direções, e as ruas estavam cheias de destroços. Ao fundo, o sino do templo tocava sem parar, chamando os sobreviventes.
Suya ergueu os olhos na direção do templo, sentindo um arrepio. Uma aura estranha parecia irradiar daquela região, como se as próprias criaturas estivessem sendo atraídas para lá.
Suya (apertando o punho): — Luarina… será que você está aí?
Com passos firmes, ela avançou pelas ruas destruídas, protegendo todos que podia, enquanto seguia na direção do templo.
Enquanto o caos crescia do lado de fora, dentro do templo o clima era tenso. O pequeno mal-entendido entre Liush e Luarina havia ficado para trás — agora o que importava era sobreviver. Liush, empunhando suas espadas, aproximou-se de uma das janelas. Seus olhos percorreram o cenário lá fora: o pátio estava tomado pelas criaturas, devorando e atacando todos que não tinham conseguido alcançar o templo. Sem hesitar, ele abriu a janela e saltou para o pátio, caindo com leveza felina. Assim que seus pés tocaram o chão, já girava as lâminas, cortando as primeiras criaturas que avançaram sobre ele. Luarina e Hope se entreolharam em silêncio por um instante, e sem precisar de palavras souberam o que fazer.
Hope: — July, Ana! Tranque todas as janelas. Eu vou lançar uma barreira mágica em volta do templo, isso deve manter as criaturas longe por algum tempo.
Hope ergueu as mãos, e a energia azulada começou a se concentrar ao redor dela, pulsando como uma respiração viva. As paredes do templo tremeram levemente quando a barreira começou a se expandir.
Luarina colocou a mão no ombro da irmã e falou com firmeza:
Luarina: — Então eu irei ajudar na luta. Conto com você, mana, para manter todos seguros aqui dentro.
Hope assentiu, embora seu olhar estivesse carregado de preocupação.
Hope: — Tenha cuidado, Luarina…
Sem mais delongas, Luarina correu até a mesma janela por onde Liush havia saltado e, com a luz mágica se acendendo em suas mãos, lançou-se para o pátio. Ela caiu ao lado de Liush, invocando esferas de luz que explodiram contra as criaturas, queimando-as como se fossem tochas vivas.
Enquanto a batalha acontecia lá fora, dentro do templo o clima era de tensão. As pessoas oravam, outras choravam em desespero. Foi então que os portões se abriram, e uma mulher entrou aos tropeços, carregando um bebê contra o peito, ofegante e quase sem forças.
Mulher (desesperada): — Alguém… alguém me ajude, por favor!
Uma das jovens servas do templo correu até ela, amparando-a e conduzindo-a para dentro. Serva: — Você está segura agora. Respire fundo… me diga, como está a situação lá fora?
A mulher, ainda ofegante, respondeu com lágrimas escorrendo pelo rosto: Mulher: — Está… está um caos! Eu e meu filho quase não saímos vivos. Mas… mas há alguém lá fora lutando contra as criaturas!
A serva franziu o cenho, confusa. Serva: — Alguém? Quem?
Mulher: — Uma garota! Os deuses devem ter mandado ela… estava segurando um arco, disparando flechas contra os monstros, abrindo caminho para nós escaparmos.
Ao ouvir isso, Luarina, que estava já no pátio em meio à luta, voltou o olhar rapidamente em direção ao portão. Seu coração disparou e sua respiração falhou por um instante.
Luarina (sussurrando, incrédula): — Suya…
O nome escapou de seus lábios como uma prece.
Lua ergueu a mão em direção à sua pequena companheira, a coruja Astra, a voz firme, mas com uma ponta de dúvida que escapava entre suas palavras:
— Astra, vou te pedir um favor, mas tome cuidado. Sobrevoe e me informe como está a situação mais adiante, e se ver uma arqueira de cabelos roxos me avise.
A ave inclinou a cabeça, soltando um breve piu antes de abrir as asas e ganhar altura, desaparecendo entre as sombras e luzes caóticas que tomavam o céu.
Por um instante, o pensamento atravessou a mente da maga: Será mesmo ela? — o coração acelerou, mas não havia tempo para se perder.
Respirando fundo, Luarina voltou a se concentrar na batalha. As Chamas Etéreas se manifestaram em sua palma, um fogo azul-celeste cintilante que não queimava matéria, mas consumia o que fosse corrompido e espiritual.
Com um gesto firme, disparou esferas dessas chamas contra os inimigos mais próximos, abrindo caminho para que mais pessoas conseguissem escapar.
De onde vieram? O que são essas coisas? — pensava enquanto mais figuras sombrias emergiam do caos.
E então, a visão que apertou seu peito: algumas crianças caíam pelo caminho, esgotadas, feridas, prestes a serem alcançadas. Luarina não hesitou.
Ergueu ambas as mãos e invocou a Aurora das Marés. Um véu semelhante a uma aurora boreal desceu, mesclando a magia da luz com as águas das fontes ao redor.
A cortina luminosa drenou a força vital dos inimigos próximos, ao mesmo tempo em que revitalizava e energizava as crianças, impedindo que sucumbissem ali.
Mas a luta estava longe de terminar. Tentando intensificar sua defesa, a maga invocou a Luz Purificadora, porém, diante da antiguidade e resistência daqueles seres, o feitiço não produziu o efeito esperado. Sentindo o peso do cansaço por já ter lançado múltiplos encantos, ela adaptou sua estratégia.
Com um gesto firme e a voz carregada de poder, conjurou o Escudo Solar. Uma barreira translúcida de pura luz surgiu em torno das vítimas, resplandecendo como um sol sereno. O escudo não apenas protegia, mas drenava a energia dos inimigos que ousassem tocá-lo, repelindo-os com cada tentativa de avanço.
Mesmo exausta, Luarina permanecia erguida, a aura azul-celeste tremeluzindo ao redor de seu corpo, sustentando a proteção enquanto seu olhar se voltava novamente ao horizonte, na expectativa do retorno de Astra e da resposta à dúvida que lhe corroía o coração.
O clangor da batalha ecoava pelo templo em meio aos gritos de desespero e ao estalar da barreira de luz sustentada por Luarina. A maga estava visivelmente exausta, gotas de suor escorriam por sua testa enquanto sua aura vacilava, e seus joelhos tremiam pelo esforço contínuo de manter as crianças e refugiados vivos.
Foi então que Liush a notou. Seus olhos se estreitaram, e sem hesitar — sem dar importância ao mal-entendido de antes ou ao caos que se desenrolava — ele avançou. A espada em mãos abria caminho, cada golpe ceifando um monstro que ousava se interpor em sua corrida até a maga.
Ao chegar ao lado dela, sua voz soou firme, quase ríspida, mas carregada de determinação:
— Ei, bruxa. Mantenha o foco em proteger aquelas pessoas com sua magia e mantenha seu escudo ativo para se proteger em último caso. Deixa o resto comigo. Vou limpar esse templo de uma vez. Em seguida, avise sua irmã para expandir o escudo até os muros do portão.
Sem esperar resposta, Liush cravou sua espada no chão diante de Luarina. A lâmina vibrou com energia, e num instante, sua mana se expandiu como uma onda elétrica por todo o templo. Pequenos raios estáticos começaram a dançar em volta do corpo de cada aliado, uma marca de sua conexão com o poder dele.
(Pronto. Assim consigo controlar a direção e precisão do meu ataque. Mas mesmo assim… vou evitar usar toda a velocidade que tenho. Preciso ter certeza de atingir apenas as criaturas.) — pensou consigo, cerrando os punhos.
Num piscar de olhos, Liush desapareceu diante dos olhos cansados de Luarina. O ar vibrou — e então veio o clarão. Um raio percorreu todo o templo, riscando a escuridão com luz e fúria. As criaturas caíam uma após a outra, dilaceradas por uma velocidade impossível de acompanhar. Sempre que uma delas ousava se aproximar demais da maga, Liush surgia ao lado dela, espada cravada no chão, decapitando ou atravessando o inimigo com um único golpe. Num instante, ele sumia outra vez — dissolvido em feixes de luz, deixando para trás apenas o som do trovão ecoando nas paredes do templo.
Por um minuto inteiro, o espetáculo se repetiu: relâmpagos cortando o ar, trovões respondendo como tambores de guerra, e monstros tombando sem sequer entender o que os atingira.
Quando o silêncio finalmente caiu, Liush reapareceu ao lado da maga, arfante. O suor descia pelo rosto, seus músculos pulsavam sob a tensão, e a respiração pesada revelava o custo daquilo. Com um gesto firme, ele puxou a espada do solo e apontou para o portão do templo — agora tomado por sombras e movimento.
— Bruxa, agora! Pede pra ela expandir a barreira — rápido! — ordenou, o olhar fixo, frio, sem um traço de hesitação.
E sem desviar os olhos do perigo, acrescentou com um tom grave, a voz carregada da experiência de quem já viveu guerras demais:
— Depois, foquem em manter o caminho para o templo livre. Eu vou cuidar do que sobrou lá fora. Sei que vocês duas são fortes, mas também sei que são as únicas com poder defensivo e de cura. Não desperdicem suas forças em combates diretos. Deixem essa parte comigo. Mantenham a defesa. Curem os feridos. Essa é a missão de vocês.
(Bruxa?... Tsc. Acho que esse rapaz nunca viu um elfo, muito menos uma maga.)
pensou Luarina por um breve instante, antes de deixar o pensamento de lado e se concentrar em cada detalhe do plano.
(É um bom plano... mas, desse jeito, quem vai se exaurir é você. Isso não é loucura? Não sei se devo te chamar de corajoso... ou simplesmente de louco. Talvez um pouco dos dois.)
Enquanto o embate se intensificava no templo, Astra, a coruja robô de Luarina, sobrevoava os céus da cidade. Suas asas metálicas cortavam o ar com suavidade, enquanto os sensores ópticos vasculhavam cada rua e cada ruína tomada pelo caos em busca de sobreviventes.
Abaixo dela, o caos reinava: gritos, explosões, criaturas emergindo das fendas como sombras vivas. As ruas de Zintria — outrora brilhantes — estavam agora em chamas e escuridão. No meio do tumulto, os olhos de Astra detectaram algo: uma figura solitária resistindo à horda.
Era uma mulher de cabelos roxos, empunhando um arco reluzente. Sua postura era firme, seu olhar, implacável. Cada movimento era preciso — flechas encantadas voavam em sequência, explodindo em clarões de energia pura. Num gesto majestoso, ela ergueu o arco ao céu e conjurou uma chuva de flechas mágicas que despencou sobre as criaturas, devastando dezenas delas num único instante.
Reconhecendo a importância da cena, Astra soltou um som metálico e agudo:
— "Tiiiii–piu!"
O som foi transmitido diretamente ao bracelete de Luarina, que imediatamente apitou:
— "BIP-BIP-BIP!"
Surpresa, a maga olhou para o pulso. Ao tocar o bracelete, uma imagem holográfica se projetou diante de seus olhos — o campo de visão de Astra. Lá estava ela: a arqueira de cabelos roxos, Suya, lutando com a mesma elegância feroz de sempre. Cada flecha era uma sentença de morte. Cada clarão, uma dança entre luz e destruição.
Sem perder tempo, Luarina estendeu a mão e ativou o Escudo Aegis — uma avançada tecnologia de nanorrobôs.
Em segundos, o escudo se expandiu, formando uma cúpula luminosa que envolveu todo o templo. As criaturas tentaram atravessá-la, mas foram repelidas pela barreira, que pulsava em tons azul.
Era exatamente o que ela precisava.
Com a proteção garantida, Luarina concentrou sua energia mágica. Runas começaram a brilhar ao redor de seus pés. O ar se distorceu — e um pequeno portal se abriu, tremulando em luz azulada.
Agora que ela sabia onde Suya estava, podia trazê-la de volta.
Lá fora, em meio ao caos, Suya percebeu o portal se abrindo atrás de si.
Sem hesitar, correu em sua direção e atravessou-o.
Quando a luz se dissipou, ela estava dentro do templo.
— Lua?! — exclamou, surpresa, um alívio sincero em sua voz.
O templo agora estava em silêncio, protegido sob o brilho suave da barreira energética. O eco distante das explosões e trovões lá fora contrastava com a calma repentina do interior.
Suya respirou fundo, ainda com o arco em mãos, e se virou para Luarina. Um leve sorriso cruzou seu rosto — um misto de alívio e exaustão.
— Finalmente te encontrei, garota. — disse, a voz firme, mas carregada de emoção. — Que bom que está bem!
— Suya… é mesmo você. — respondeu Lua, o alívio evidente no tom. — Digo o mesmo, fico feliz em vê-la bem.
O rosto da maga suavizou-se em um sorriso sincero.
— Encontrou os meninos?
— Mais ou menos… — respondeu Suya, desviando o olhar.
Lua suspirou, compreensiva. — Depois colocamos tudo em dia.
Ela então levou a mão ao colar que trazia no pescoço, concentrando-se. Um brilho azul emanou da joia — a conexão com Hope fora restabelecida.
— Hope, como estão as coisas aí? As pessoas estão bem? — perguntou Lua, a voz trêmula pela preocupação.
A resposta veio quase de imediato, acompanhada por uma leve interferência mágica:
— Eu estava prestes a te contactar, Lua. Sim, estão todos bem — na medida do possível. Há feridos, mas estamos cuidando disso. — Hope fez uma breve pausa. — E vocês? Ana está preocupada com o amigo dela… e eu, com você. Devem estar exaustos. Vou tentar enviar um pouco de energia para ajudá-los.
Lua sorriu, mesmo com o corpo pesado de fadiga.
— Estamos bem, dentro do possível. — soltou uma risada breve, tentando aliviar a tensão. — Fique tranquila. Uma amiga veio nos ajudar.
Houve um breve silêncio antes que Lua acrescentasse, curiosa:
— Consegue sentir a presença de uma arqueira conosco?
— …Sim, consigo. — respondeu Hope após um instante.
Lua respirou fundo. — Um pouco de energia será o bastante. Obrigada, irmã.
Encerrando a conexão, tocou o colar — o brilho azul se apagou lentamente.
Poucos segundos depois, uma onda de energia esmeralda preencheu o interior do templo. O fluxo espiritual se dividiu em três feixes luminosos, envolvendo Lua, Liush e Suya, restaurando parte de suas forças. O ar ficou mais leve, o cansaço diminuiu — um breve instante de alívio em meio ao caos.
Suya foi a primeira a quebrar o silêncio:
— Pode me explicar o que está acontecendo? — perguntou, agora com o tom mais sério. — Que criaturas são essas… e de onde vieram?
Lua respondeu, ainda ofegante:
— Não sei de onde surgiram. Elas apareceram logo depois que aquele garoto chegou. Talvez Ana e Hope possam explicar melhor. Venha, vou apresentá-las.
Enquanto isso, do lado de fora, Liush avançava em meio à destruição. Seu corpo emanava um campo elétrico em larga escala, permitindo-lhe localizar sobreviventes e eliminar as criaturas no caminho.
Enquanto combatia, refletia consigo mesmo:
— Isso não faz sentido. Essas coisas não param de aparecer… Devem estar vindo de algum lugar, talvez várias fendas. Mas não posso perder tempo procurando por elas enquanto ainda há pessoas em perigo.
Ele suspirou, irritado.
— Talvez aquela bruxa… ou a irmã dela… pudessem me ajudar. Mas como vou falar com elas?
Liush parou por um instante, frustrado.
— Droga… Se eu tivesse deixado minha espada lá, poderia abrir um salto rápido de volta. Agora já é tarde.
De repente, algo brilhou no céu. Uma silhueta metálica sobrevoava a cidade.
— Um pássaro? — murmurou, franzindo o cenho. — Estranho… tem a mesma energia daquela maga.
Uma ideia atravessou sua mente. Ele cortou um pequeno pedaço de madeira, talhou apressadamente a frase “Precisamos conversar”.
Com precisão, lançou sua espada em direção à ave, teleportando-se logo em seguida. Apareceu a tempo de agarrar o pássaro nos braços.
— Haha! Te peguei, pombo-correio! — disse, amarrando a mensagem. — Agora seja útil e leve isso pra sua dona, vai.
O pássaro apenas o encarou, imóvel.
— Sério? — Liush bufou. — Se não sair voando em cinco segundos, juro que corto essas suas asas!
Antes que ele terminasse a ameaça, a ave emitiu um som eletrônico agudo.
— “Alerta: linguagem hostil detectada.”
Liush arregalou os olhos ao ouvir uma voz feminina e metálica responder:
— Não sou um pombo-correio, garoto. Sou Astra — unidade de vigilância aérea, modelo único, conectada à rede de Luarina. Inteligência superior de classe Sigma. Entendido?
Ele piscou, confuso.
— Você… fala?
— Falo, analiso, corrijo e, aparentemente, tenho mais paciência que você. — respondeu a coruja robótica com ironia. — Agora, me solte antes que eu reconfigure seu campo elétrico pra “modo doméstico”.
Liush soltou uma risada breve e a deixou livre.
— Heh. Tudo bem, Astra. Diga pra sua dona que estou grato. A energia dela acabou de me alcançar.
Enquanto dizia isso, seu corpo brilhou em tom esmeralda — a onda enviada por Hope o atingira, restaurando suas forças.
— Hah… bruxas e suas manias. — murmurou, sorrindo, antes de empunhar as espadas e avançar novamente.
De volta ao templo, Luarina conduziu Suya até um cômodo onde Hope e Ana cuidavam dos feridos. Em cada sala, havia pessoas assustadas, feridas e em choque com o ataque das criaturas. O olhar de Suya percorria cada rosto — dor, medo e incerteza estampados em todos.
Ao chegarem, Lua apresentou-as: — Suya, esta é minha irmã, Hope.
Suya sorriu, encantada. — Ouvi muito sobre você, Hope. Sua irmã sempre falava sobre o quanto eram unidas, mesmo após seguirem caminhos diferentes.
Hope retribuiu o sorriso. — E continuo sendo o elo dela, mesmo à distância. Ela tem o coração inquieto, mas o espírito mais puro que já conheci. — disse com ternura.
Em seguida, Luarina apresentou Ana, a sacerdotisa do templo de Liush. Suya fez um leve aceno de respeito antes de retomar o tom sério:
— Pode me explicar o que está acontecendo? — perguntou novamente. — Que criaturas são essas… e de onde vieram?
Hope e Ana trocaram olhares breves. Hope foi a primeira a falar:
— Tudo começou quando o garoto chegou. Sua energia é diferente
Quando seu poder colidiu com o meu, abriu-se uma brecha… e delas surgiram essas criaturas.
Suya franziu o cenho, preocupada. — Então elas estão ligadas a ele… e talvez a você também, por causa da liberação mágica.
Hope assentiu, impressionada com o raciocínio da arqueira. — Duas forças da natureza de mundos distintos colidiram — e isso trouxe à superfície horrores que estavam adormecidos nas profundezas.
Ela suspirou, o olhar ficando mais grave. — Precisamos localizar a fenda principal e fechá-la antes que consuma tudo. Mas… infelizmente, não posso ajudá-las no combate. Essas criaturas são mortas, corroem a energia vital. São tóxicas para mim.
Hope então uniu as mãos, e um brilho em tons de verde-água emanou entre seus dedos. Quando as abriu, revelou uma pequena semente mágica.
— Aqui. — disse, entregando-a a Luarina. — Assim que plantada, esta semente crescerá e se tornará uma grande árvore-portal. Atravessem-na… e me encontrem.
Ela então tocou o colar no pescoço da irmã e completou com voz suave:
— Minha amada irmã… nosso elo será mais forte do que nunca. Saberei onde você está — e você sentirá minha presença. Poderemos até conversar através dele.
Hope sorriu uma última vez. O livro que antes invocará brilhou intensamente, e sua imagem começou a se desfazer em partículas de luz.
— Que a luz guie o caminho de vocês.
E, em um sopro de energia, Hope desapareceu, deixando Suya, Ana e Luarina sozinhas no cômodo — com a semente mágica brilhando nas mãos da maga.
Do lado de fora, no entanto, o inferno continuava.
A cidade estava em ruínas, e a fenda se expandia sem controle, alcançando até Antyros.
Toda a ilha de Velyria agora estava tomada pelas criaturas.
Era apenas uma questão de tempo até que o caos alcançasse Astrid, a cidade subaquática… e Eteria, a capital.
No templo Suya lançou um olhar preocupado para Luarina.
— Tudo isso é muito estranho… — suspirou a arqueira. — Como vamos derrotar essas criaturas?
As duas ficaram em silêncio, imersas nos próprios pensamentos, até que Ana, após verificar os feridos, se aproximou devagar de Suya e Luarina.
— Liush não é uma pessoa ruim… — disse ela, com a voz baixa.
Lua e Suya voltaram o olhar para Ana, aguardando que continuasse. Ana respirou fundo, visivelmente desconfortável.
— Me desculpe, Luarina, pelo que aconteceu antes. Pareci hostil, eu sei… mas eu garanto que ele não é uma má pessoa.
Suya estreitou os olhos.
— E como você sabe disso?
Ana soltou um longo suspiro antes de começar a explicar:
— Alguns anos atrás… eu estava com a minha mãe no centro, comprando algumas coisas para nossa casa. O céu clareou de repente, de um jeito que eu nunca tinha visto. Um feixe de energia caiu no meio da rua. Quando a luz finalmente se dissipou, ele estava lá. Liush. Desorientado, confuso… mal conseguia ficar de pé. Ele chegou a desmaiar, então o levamos para nossa casa.
Ela fez uma pausa, lembrando-se da cena.
— Aquilo foi um fenômeno sobrenatural. Todos em Antyros ficaram em choque, alguns até achando que era obra de uma divindade. Os rumores se espalharam rápido. Nós não sabíamos quem ele era até que, alguns dias depois, ele acordou. Foi quando disse seu nome: Liush. E então… percebemos que ele carregava o mesmo nome do deus deste templo.
Ana olhou para o chão por um instante, antes de continuar:
— Ele veio aqui em busca de respostas. E não era a primeira vez que algo assim acontecia. Cerca de nove meses antes, uma garota chamada Agatha apareceu da mesma forma. Só que era noite. Ela era linda… e ninguém sabia de onde veio. Com o tempo, Agatha construiu este templo, acreditando que Liush viria. Ela o esperou por meses. E então, em certa noite, simplesmente desapareceu. Ninguém sabe o que aconteceu.
Ana ergueu os olhos para Luarina e Suya.
— O templo ficou vazio desde então… até o dia em que Liush finalmente chegou. Eu prometi a ele que cuidaria deste lugar enquanto ele buscava respostas. E desde então… tenho feito o possível para cumprir essa promessa.
Suya lançou um olhar para Luarina, franzindo a testa.
— Isso tudo parece… familiar. Será que tem a ver com ele?
Ana, confusa, inclinou a cabeça.: — Com quem?
Luarina respirou fundo.: — MaouCron. Ele trouxe eu e Suya para esta época. Como eu disse antes… estou procurando Corey e Bryan.
— Sobre isso, Lua… — murmurou Suya.
Luarina virou-se imediatamente para a amiga. A arqueira estendeu a mão, revelando uma joia azul brilhante, embora apagada de energia.
— Essa é a Pedra do Despertar — explicou Suya. — Encontrei em Astrid com uma amiga. Ela está em um lugar seguro, mas assistindo tudo através do meu bracelete. O nome dela é Niele. Vocês duas se dariam muito bem…
Suya suspirou, um pouco sem graça.
— Mas… essa pedra está sem magia. Eu acabei absorvendo tudo sem querer.
Luarina pegou a pedra com delicadeza. Sua expressão mudou, concentrada. Ela canalizou um pouco de sua magia, que percorreu seus dedos como um fio de luz. A joia azul reagiu imediatamente — um brilho suave percorreu sua superfície — e então algo mais aconteceu.
Na bolsa de Luarina, a pedra vermelha começou a pulsar. Ela a retirou rapidamente, segurando ambas nas mãos. As duas joias vibraram ao mesmo tempo, emitindo ondas de luz que se entrelaçavam, reagindo uma à outra como se despertassem de um longo sono.
Foi então que os olhos de Luarina brilharam em tons dourados — e a visão a tomou.
A VISÃO DE LUARINA
Ela se viu em meio a uma cidade completamente devastada. Arranha-céus partidos ao meio; estradas rachadas; carros queimados. Havia fumaça preta cobrindo o céu como um véu espesso.
Explosões ecoavam ao longe. Torres metálicas — semelhantes a sentinelas robóticas — caminhavam entre os prédios em ruínas, disparando luzes vermelhas que varriam o chão.
Pessoas corriam desesperadas entre os escombros.
E então, um homem surgiu na visão, coberto de poeira, o rosto cortado. Ele gritava algo para um grupo que fugia:
— Rápido! Para o bunker! Corram! Eles estão vindo!
Ao fundo, uma sombra colossal ergueu-se — uma máquina gigantesca, com olhos incandescentes, avançando sobre a cidade como se nada pudesse detê-la.
O ar vibrava com o rugido dos motores. O chão tremia. E então, tudo foi consumido por uma luz branca.
A visão se dissipou. Luarina piscou, ofegante. Os olhos dourados perderam o brilho lentamente.
Suya segurou seu ombro, preocupada.
— Lua…? O que você viu?
Luarina respirou fundo, ainda abalada. Então levantou o olhar para Suya e Ana.
— Eu… — sua voz tremia, mas firme — vi uma cidade destruída… vi máquinas caçando pessoas. E alguém mandando todos correrem para um bunker. Isso… isso não é do nosso tempo. É algo que ainda vai acontecer. Ou já está acontecendo em algum lugar.
Ela apertou as duas pedras entre os dedos, que agora pulsavam fracas, como corações sincronizados.
— E tenho certeza… que isso tem ligação com Corey e Bryan.
Suya apertou o bracelete no pulso, olhando para Luarina com seriedade.
— Sobre o Corey… MaouCron me deu esse bracelete para encontrar essas joias. E quando eu toquei nele pela primeira vez… eu vi Corey.
Luarina ergueu o rosto, surpresa. Ana, em silêncio, inclinou-se um pouco para ouvir.
— Ele estava ajoelhado no chão — continuou Suya, a voz carregada de lembrança — em um lugar escuro, cercado por uma tecnologia estranha. Feixes de luz vermelha cortavam o ar. A visão começou a mudar… e então fui lançada para outra cena, muito mais nítida.
Suya respirou fundo antes de prosseguir:
— Eu o vi em meio a um campo devastado… um deserto coberto por destroços metálicos, poeira e fumaça. No céu, naves robóticas se moviam devagar, como abutres procurando restos. Sirenes ecoavam ao longe, um som que parecia vir de todos os lados ao mesmo tempo…
Ela engoliu seco.
— Corey vestia trajes de combate desgastados. Segurava a espada com força, mesmo exausto. Ele estava cercado por robôs deformados… soldados mecânicos, todos com um símbolo de dragão verde pulsando nas latarias. Mas Corey… Corey estava firme. De pé como um verdadeiro guerreiro. O rosto dele estava sujo, com alguns cortes… mas os olhos… — Suya sorriu, apesar da preocupação — os olhos dele ainda brilhavam. Determinados. Ele não havia desistido.
Luarina tocou as próprias joias, pensativa, enquanto a arqueira concluía:
— Foi muito intenso… tão real… — Suya então olhou para a amiga. — Será que o homem da sua visão… era Corey? Ou Bryan?
Luarina balançou a cabeça lentamente.
— Eu… não sei. O rosto estava distorcido. Como se algo estivesse escondendo ele de propósito. Um borrão… como se a visão estivesse sendo bloqueada.
Ana, que escutava tudo em absoluto silêncio, deu um passo para trás. Seus olhos estavam arregalados, a expressão assustada e ao mesmo tempo fascinada.
— Vocês… vocês estão falando de magia, portais, visões… e pessoas sendo jogadas em tempos diferentes… — murmurou ela, levando a mão à boca. — Meu Deus… isso é muito maior do que eu imaginava. Essas pessoas… seus amigos… eles realmente estão lutando por suas vidas…
Havia temor na voz de Ana, mas também algo mais: respeito.
Suya apertou os punhos.
— Essas joias definitivamente têm ligação com eles. E nós precisamos continuar procurando. Mas antes…
Ela olhou ao redor, para as fendas que ainda se abriam pela cidade, rasgando o chão. Criaturas grotescas surgiam das rachaduras como se o mundo estivesse prestes a ruir.
— …temos que pensar em um jeito de ajudar esta cidade. Essas coisas… — apontou para as criaturas que se espalhavam por Antyros — estão aparecendo rápido demais. Se não fizermos nada, tudo isso aqui vai desaparecer.
O ar pesou. Luarina sentiu as joias vibrarem em suas mãos, como se ecoassem a mesma urgência.
E a sensação de que o tempo estava acabando tomou todas elas.
Suya pousou a mão no ombro de Ana, firme e decidida:
— Ana, preciso de um favor.
Cuide das pessoas aqui no templo. Eu e Luarina vamos atrás desse tal Liush.
Se ele está mesmo do nosso lado… então juntos encontraremos um jeito de salvar esta cidade e acabar com essas criaturas.
Ana respirou fundo, tentando esconder o tremor nas mãos, e assentiu.
— Eu… vou fazer o que puder. Boa sorte para vocês duas.
Luarina então retirou a luva tecnológica — o tecido flexível de nanorrobôs que projetava o escudo Aegis-X7 — e a entregou a Ana.
— Tome. Isso vai manter você e todos aqui dentro protegidos até voltarmos.
Assim que a luva deixou a mão de Luarina, o escudo ao redor do templo vacilou, tremulando como vidro sob impacto. A barreira desapareceu por um breve e tenso segundo.
Suya imediatamente avançou até o pátio, puxando o arco.
Duas criaturas surgiram da névoa espessa e correram em direção à entrada.
— Nem pensem nisso. — murmurou ela.
Três flechas mágicas atravessaram o ar em um clarão azul, acertando as criaturas antes que chegassem perto.
Enquanto Suya contia a investida, Luarina guiou Ana a calçar a luva.
— É assim que ativa… — ela explicou, tocando o centro da palma.
Ana fez o mesmo — e o escudo reativou-se, erguendo-se ao redor do templo como uma cúpula cintilante.
A jovem sacerdotisa abriu a boca, maravilhada.
— Eu… eu nunca toquei em nada assim — ela admitiu, a voz embargada pela mistura de medo e fascínio.
— Pensei que tecnologia fosse só… histórias dos Techris. Mas isso… isso reage ao meu toque.
— Reage à sua vontade — corrigiu Luarina, oferecendo-lhe um sorriso suave. — Confie em si mesma. Você consegue.
Ana respirou fundo e finalmente sorriu — pequeno, mas verdadeiro.
— Voltem vivas, por favor.
— É o plano — respondeu Suya, já se aproximando.
Com a barreira novamente estável, Suya e Luarina deixaram o templo, descendo os degraus e entrando nas ruas tomadas por caos.
As duas avançavam lado a lado, derrubando criaturas que surgiam das fendas próximas — magia e flechas dançando juntas no escuro.
Foi então que um som cortou o ar.
— KIAAAAAH!
O grito ecoou como um trovão.
A arqueira ergueu o olhar. No céu, entre fumaça e pedaços de energia retorcida, a mesma águia branca da floresta surgiu — imensa, luminosa, suas penas cintilando como fragmentos de lua.
— Você de novo… — murmurou Suya, surpresa.
A águia mergulhou.
O ar vibrou.
O chão tremeu.
E antes que Luarina pudesse conjurar uma defesa, o animal atravessou Suya como um cometa prateado.
Um feixe de luz explodiu.
O mundo brilhou.
E, num único piscar de olhos…
Suya não estava mais ali.
— SUYA! — gritou Luarina, correndo para onde a amiga estivera segundos antes.
Mas apenas a poeira cintilante da luz restava, espalhando-se no ar.
A águia desaparecera.
A arqueira também.
E o destino de Suya, agora seguia para....






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