Uma semana havia se passado desde a movimentada noite de compras no centro de Zintria. O sol da manhã atravessava os grandes painéis de vidro do Hypercafé, espalhando luz sobre o ambiente moderno, repleto de mesas tecnológicas e atendentes robóticos. July, sempre atenta aos detalhes, estava atrás do balcão organizando os pedidos e conversando com alguns clientes habituais. Desde que Lua começara a ajudar no café, as coisas haviam melhorado ainda mais.
Lua — ou melhor***, Maga Ancestral***, como passou a ser conhecida no local — era agora a grande atração da casa. Todas as tardes, realizava pequenos shows de magia, encantando o público com sua habilidade de manipular luz, criando ilusões fascinantes, símbolos brilhantes no ar e criaturas cintilantes que dançavam entre as mesas. Em Zintria, onde a magia era quase extinta, aquilo era mais do que um espetáculo: era uma raridade viva.
A fama do Hypercafé se espalhou rapidamente. Visitantes de várias partes da ilha começaram a aparecer, curiosos para testemunhar a magia real. O lugar lotava como nunca, e July, embora sempre sorrindo, mal conseguia esconder o quanto estava feliz com os lucros crescentes.
Naquela tarde, o público já se acomodava com expectativa. Lua terminava de ajustar sua pulseira NeuroBrace, preparando-se para começar o espetáculo. Ela respirou fundo, esticou os braços e deixou que uma esfera de luz dourada começasse a girar entre suas mãos — quando, de repente, uma coruja metálica entrou voando pelas portas do Hypercafé.
Seu corpo era elegante e branco como porcelana reluzente, e suas asas de penas amarelas vibravam com um som sutil, quase musical. As pessoas se calaram, virando os olhos para a criatura tecnológica que cortava o ar com precisão. Ela sobrevoou as mesas, fez uma breve espiral no centro do salão e pousou suavemente no ombro de Lua.
O silêncio foi rompido por murmúrios:
Cliente 01: — “É parte do show?”
Cliente 02: — “Aquilo é um robô?”
Cliente 03: — “Será magia?”
Lua piscou surpresa, reconhecendo imediatamente a coruja. Era o modelo que Cédric havia prometido entregar a ela.
Lua observou a pequena coruja metálica em seu ombro com um brilho suave nos olhos. Ainda maravilhada com a conexão recém-estabelecida, ela sorriu com doçura e, com a voz serena, disse:
Lua: — "Bem-vinda à minha vida, Astra."
Enquanto dizia isso, sua mão se ergueu com delicadeza, os dedos roçando suavemente a cabeça da coruja, fazendo um leve carinho entre as penas metálicas amarelas. Astra respondeu com um leve tilintar eletrônico — um som suave, quase como um ronronar tecnológico, que denunciava seu contentamento.
Aplausos ainda ecoavam entre os clientes, alguns por acreditarem que tudo fazia parte da apresentação, outros simplesmente encantados com o vínculo entre Lua e a criatura mecânica. Lua, sentindo o calor daquela recepção, voltou-se para o público com um sorriso gentil e fez um gesto de agradecimento com uma breve reverência.
Lua: — "Agradeço pela recepção calorosa."
Então olhou de lado para sua nova companheira e perguntou com um tom leve e divertido:
Lua: — "Astra, consegue me acompanhar?"
A coruja imediatamente soltou um pio fofo e sutil, seu corpo metálico se preparando para o movimento. Seus olhos brilharam em sintonia com a luz que Lua manipulava, e ela alçou um pequeno voo para pairar ao lado da maga, batendo as asas com graça enquanto a observava atentamente.
Com Astra agora voando ao seu redor, Lua deu início ao seu espetáculo mágico — e o público, antes impressionado, agora estava totalmente cativado
Com um leve movimento de mãos e um brilho suave em seus olhos, ela fazia surgir figuras flutuantes no ar — imagens que se formavam com perfeição, como um holograma mágico que dançava diante dos olhos atentos da plateia.
As figuras iam tomando forma: castelos em colinas verdes, cidades com pontes de pedra sobre rios cristalinos, florestas com árvores de copas azuis e mercados cheios de seres mágicos. Eram projeções vívidas de lugares da sua época, recriados com tanto detalhe que o público mal piscava.
Enquanto isso, Astra, pousada em uma plataforma acima, interagia com as imagens como uma apresentadora experiente. Suas asas metálicas batiam de leve enquanto ela voava em torno das projeções, apontando com pequenos feixes de luz, explicando com sua voz suave e clara:
Astra: — “Esta é a antiga Torre de El’Mareth, onde magos treinavam ao pôr do sol.”
— “Aquela floresta? Chamavam-na de Vayrun, lar de elfos e felinos falantes…”
Era como se Lua e Astra tivessem ensaiado aquela apresentação mil vezes — seus gestos e falas se completavam em harmonia, deixando a todos fascinados.
Lua então ergueu a mão, fazendo com que uma das projeções ganhasse forma maior e mais detalhada. Com carinho e saudade na voz, ela anunciou:
Lua: — "Esta… era Grimor."
Um cliente mais velho, de olhos arregalados, se adiantou entre o público:
Cliente: — “Grimor? Já ouvi falar… é da lenda dos Heróis Valentes, não é?”
Lua (sorrindo): — "Sim, meu caro. Grimor era um reino que abrigava diversas espécies, todas vivendo em harmonia. Foi lá que conheci Suya, uma arqueira determinada com olhos de fogo. Reencontrei Bryan, sempre prático e valente, e Corey, com sua inteligência, guiava o grupo pelo melhor caminho, evitando monstro e armadilhas..."
Enquanto Lua narrava, as imagens reagiam: Suya aparecia atirando flechas em um campo nevado; Bryan afiando sua espada diante de uma fogueira; Corey sorrindo, segurando um estandarte antigo. Eram cenas que não estavam em nenhum livro, memórias vivas moldadas por luz e emoção.
Então, com um giro repentino, Astra mergulhou em uma das imagens, fazendo-a se desmanchar como fumaça. Lua deslizou suavemente para o lado, agora invocando sua magia da água. Correntes líquidas se ergueram do chão como cobras em uma dança hipnótica, serpenteando ao seu redor. Com movimentos lentos dos braços, as águas se moldaram em dragões majestosos, cujas escamas cintilavam com a luz mágica condensada nas gotas — cada uma brilhando como pequenos cristais suspensos.
A plateia soltou suspiros de espanto. Os dragões giravam em torno da maga, que agora dançava em meio às formas, transformando-as de criatura em criatura — de aves coloridas a baleias etéreas, de místicos grifos a felinos extintos. A cada nova forma, flores mágicas brotavam, iluminadas em tons delicados, como se nascessem de dentro da própria água.
Era um espetáculo de tirar o fôlego.
Painéis de água foram se erguendo ao redor, suspensos como espelhos flutuantes. Neles, Lua projetava cenas do passado, lembranças vívidas como sonhos vítreos, enquanto Astra narrava pequenas histórias que davam vida àquelas imagens — e como mágica, os personagens pareciam sair dos espelhos, ganhando forma em um quase 3D sem necessidade de óculos.
Ao fim da apresentação, Lua desacelerou os movimentos. Pequenas luzes começaram a surgir no ar — vaga-lumes de magia, estrelas flutuantes — que, uma a uma, se transformavam em flores de luz, espalhando-se pelo ambiente. A água começou a evaporar lentamente, formando uma névoa brilhante. As flores, ao contato com essa névoa, iam desaparecendo aos poucos, como pétalas dissolvidas no vento.
E assim, com o salão inteiro silencioso de encantamento, o show chegava ao fim. Um segundo de puro silêncio… e então:
Aplausos. Muitos aplausos. Assovios, gritos de "bravo!", mãos batendo nas mesas.
A magia — real e antiga — havia tocado os corações de todos ali.
Lua, ofegante, mas sorridente, olhou para Astra, que girou no ar com um pio alegre.
A lenda da maga ancestral e sua coruja Astra acabava de nascer naquela cidade onde a magia, até então, era apenas uma lembrança distante.
Na manhã seguinte, no apartamento de July, a luz do sol atravessava as cortinas semiabertas, iluminando suavemente o ambiente moderno, mas aconchegante. A mesa da cozinha estava posta com duas canecas fumegantes de café, acompanhadas de pães aquecidos e algumas frutas típicas de Velyria
July e Lua estavam sentadas à mesa, ambas ainda com roupas leves e o cabelo levemente desalinhado pela preguiça da manhã. A atmosfera era tranquila, marcada pelo aroma do café fresco e o som distante da cidade acordando lá fora.
July, com um sorriso satisfeito, mexia sua caneca enquanto comentava animada:
— "O show de ontem foi um sucesso! Agora a lenda dos Heróis Valentes vai ser ainda mais comentada... e não só isso — o título de 'A Maga Ancestral' também vai ecoar por toda Velyria! Isso se não chegar rápido até Etéria."
Lua, ao ouvir aquilo, soltou uma risadinha leve e levou a caneca aos lábios antes de responder:
Lua: — "Obrigada, mas… não precisa exagerar." — Disse com um sorriso tímido, rindo do entusiasmo de July.
July (determinada): — "Não é exagero, acredite em mim. Aqui as informações voam. O Hypercafé vai ficar lotado, ainda mais depois do que vocês mostraram ontem. Astra até ganhou fã-clube, viu?"
As duas riram juntas, compartilhando aquele momento de leveza após dias tão intensos.
Depois de um gole em seu café, July apoiou os cotovelos na mesa e olhou para Lua com um brilho no olhar:
— "Mas hoje é final de semana… Tá a fim de ir até Antyros? Podemos continuar a busca pelos seus amigos por lá. Tenho uns contatos e talvez a gente descubra alguma coisa útil."
Lua pousou a caneca suavemente na mesa, o sorriso agora mais sereno. O convite fazia seus pensamentos voltarem a Bryan, Suya e Corey — e com a presença de July ao seu lado, sentia que estava no caminho certo.
Lua: — Vai ser ótimo, vamos. Espero que encontremos algo. Quem sabe não acabamos tendo.. uma pequena aventura? – diz com motivação e logo gratidão no olhar — Obrigada novamente July, por tudo, graças a você conheci e aprendi muitas coisas. Quero poder lhe apresentar aos meus amigos, eles irão adorar você. – dando uma pequena pausa e com um grande sorriso continua — Bem, então vamos nos arrumar.
Após terminarem o café da manhã e trocarem algumas últimas palavras descontraídas, Lua e July não perderam tempo. Recolheram o que precisavam para o dia — documentos, chips de acesso, mantimentos leves e, claro, os itens mágicos de Lua — e saíram do apartamento prontas para a próxima etapa da jornada.
Astra, sempre atenta, alçou voo do parapeito da janela, pousando brevemente no ombro de Lua antes de bater suas asas metálicas com suavidade e acompanhá-las pelo céu, como uma sentinela silenciosa.
O transporte até Antyros não demorou muito, mas conforme se aproximavam da cidade, Lua já percebia a mudança no ar. Ao atravessarem o portal de entrada do distrito, uma atmosfera completamente diferente as envolveu — quase como se tivessem viajado no tempo.
O contraste com Thecris era nítido.
Ali não havia o mesmo excesso de tecnologia cintilante, nem os robôs circulando em cada esquina. Antyros era um distrito que preservava as raízes do passado, com construções de madeira escura e pedra esculpida, lanternas penduradas nas ruas e incensos queimando nas esquinas. O aroma doce das ervas flutuava no ar, misturado ao som suave de sinos tocados pelo vento.
Lua observava tudo com curiosidade. As mulheres trajavam yukatas coloridas, com tecidos bordados à mão, e os homens também usavam vestes tradicionais, algumas com símbolos espirituais estampados nas costas. A cidade pulsava com uma energia ancestral e espiritual, que Lua conseguia sentir em sua pele como um sussurro do tempo.
Havia lojas de antiguidades por todo o distrito, algumas vendendo relíquias da era mágica, outras dedicadas a artefatos espirituais, pergaminhos antigos, amuletos de proteção e cristais encantados. Em uma esquina, um velho tocava um instrumento de cordas, e as notas se misturavam ao som das fontes d’água e às vozes suaves dos comerciantes conversando com viajantes.
Assim que July e Lua desembarcaram no centro de Antyros, foram recebidas por uma brisa suave carregada com o cheiro de madeira queimada e ervas aromáticas. Astra voava em círculos lentos acima das duas, emitindo sons leves enquanto acompanhava os passos da dupla. July, mais acostumada com a cidade, caminhava com tranquilidade, enquanto Lua observava cada detalhe com fascínio: as lojas decoradas com lanternas de papel, símbolos antigos gravados nas portas, e pequenos santuários em quase toda esquina, com oferendas simples de flores, frutas e pedras brilhantes. Enquanto andavam, passaram por uma praça circular, rodeada por bancos de madeira escura e árvores de folhas largas. No centro, um pequeno grupo de moradores estava reunido, conversando em tom baixo, alguns com expressão solene, outros com brilho nos olhos. Lua diminuiu o passo, atenta às palavras que escapavam dos cochichos.
— “… ele passou, por aqui há poucos meses…” — “… ninguém esquece o brilho daquele olhar… como se visse além do tempo…” — “… desde então, o templo nunca mais ficou vazio…”
Curiosa, Lua parou para escutar melhor. Eles falavam sobre o templo do Deus Liush, uma figura misteriosa e reverenciada em Antyros. Comentavam sobre a breve, mas marcante, passagem dele pela cidade — um momento que, segundo diziam, deixou uma energia tão poderosa que podia ser sentida até hoje. — “A garota… a que se tornou sacerdote do tempo…” — sussurrou uma mulher mais velha, gesticulando discretamente. — “… ela mantém tudo limpo, cuida do altar como se fosse sagrado. Nunca vi alguém com tanto zelo.” July se aproximou de Lua e disse em voz baixa:
July: — “Esse templo virou um lugar especial desde que Liush apareceu por aqui. Muita gente acredita que ele era mais do que um homem… talvez uma entidade do tempo.” Lua, com o olhar fixo na direção apontada pelos moradores, sentiu um leve arrepio percorrer sua pele. O fluxo de magia era realmente diferente ali — mais estável, mais profundo. Talvez fosse ali que encontraria alguma pista. Então, sem tirar os olhos do movimento ao redor, virou-se levemente para July e, com um tom de curiosidade sincera, perguntou:
Lua: — *“Como você sabe de tudo isso?”*July, que observava os arredores com as mãos nos bolsos e uma expressão tranquila, sorriu de canto e respondeu com um tom leve, mas cheio de certeza: July: — “Eu te disse… as notícias aqui na ilha voam.”
Ela fez uma breve pausa, encarando Lua com um olhar mais sério antes de continuar:
— “Não faz muito tempo, um fenômeno aconteceu aqui em Antyros. Um homem… caiu do céu.”
— “Ele estava desorientado, confuso, sem saber onde estava. Foi acolhido pela família Ling, uma das mais tradicionais do distrito. Mais especificamente, pela filha deles… Ana.”
Lua franziu levemente a testa, interessada.
July: — “Hoje ela é a sacerdotisa do templo do Deus Liush. Mas antes da aparição dele, houve outra garota que também passou por aqui. Ninguém sabia exatamente de onde ela veio, mas dizem que foi ela quem começou a construção do templo… porque estava buscando esse mesmo deus.”
Lua arqueou as sobrancelhas, surpresa. July prosseguiu, agora com a voz mais baixa, como se contasse um segredo:
— “Ela contava histórias sobre Liush, ela disse que tinha se separado dele, e deste então o buscava… Mas depois de alguns meses… simplesmente desapareceu. Ninguém sabe se ela foi embora, … ou se o tempo a levou, ela ficou conhecida como a Deusa prateada, pois seus cabelos eram brancos, mas à luz do sol refletia como prata, e seus olhos eram belos como se fosse a própria lua, bem é o que dizem.
Lua permanecia de pé, o olhar perdido por um momento, como se as palavras brotassem diretamente de seus pensamentos. Seus olhos cintilavam com um misto de confusão e fascínio, refletindo a avalanche de perguntas que escapavam de seus lábios sem pausa.
— Será que... o mesmo que ocorreu comigo e meus amigos pode ter acontecido com eles dois? Será que essa moça dos cabelos dourados achou um jeito de voltar de onde ela veio? — começou a divagar em voz alta, os dedos tocando o colar em seu pescoço num gesto inconsciente. — E ele... esse ser, Liush... poderia ser um ser com magia, como eu? Porém não sinto magia élfica... mas sua magia é realmente poderosa, a ponto de deixar, tipo... rastro no ar...
Sua voz acelerava, embalad pelas próprias deduções.
— Talvez um mago? Há muitas magias de magos diferentes, até usadas para o tempo. Mas que eu saiba... apenas magos ancestrais possuem a capacidade de deixar rastros tão presentes assim... — Ela fez uma breve pausa, inspirando fundo, como se tentasse organizar seus pensamentos. Mas a enxurrada de ideias era mais forte do que seu próprio controle. — Essa moça... a sacerdotisa Ana... será que viu meus amigos passarem por aqui? Talvez tenham ido ao templo buscar informações... O que você acha, July? Você já foi lá? Já viu a sacerdotisa?
A enxurrada de perguntas vinha sem espaço para respostas, revelando o quanto a jovem maga estava imersa em sua curiosidade. Lua não percebia que falava tudo de uma vez, quase como se estivesse pensando em voz alta. Sua mente conectava fatos, nomes, possibilidades, enquanto seu corpo ainda carregava o arrepio da energia sentida momentos antes
July piscou algumas vezes, tentando acompanhar o turbilhão de perguntas que saía da boca de Lua como uma tempestade verbal. Seus olhos seguiram os gestos e expressões da maga, visivelmente impressionada com a intensidade de suas emoções e pensamentos. A cada nova dúvida lançada, July parecia ficar mais zonza, como se estivesse tentando decifrar um enigma enquanto era arrastada por uma correnteza de palavras.
Ela levou a mão à testa, rindo baixinho, num gesto leve, mas revelador.
— Calma, Lua... — disse com um sorriso gentil, tentando recuperar o fôlego. — Você faz tantas perguntas ao mesmo tempo que fiquei até tonta...
July se aproximou, pousando a mão com delicadeza no ombro da maga, tentando trazê-la de volta ao momento presente.
— Por que não fazemos o seguinte? — continuou ela, agora com o tom mais calmo e firme. — Vamos até o templo do deus Liush. Talvez a sacerdotisa Ana possa nos dar alguma resposta. Se seus amigos passaram por aqui, é bem provável que tenham buscado ajuda lá também.
Lua ainda estava com os pensamentos embaralhados, a mente fervilhando de dúvidas e suposições. Em meio à confusão, ela se deu conta de que estava falando demais, talvez até alto demais. Com um pequeno sobressalto, levou a mão à boca e riu de si mesma, num gesto tímido mas sincero.
— Ah... desculpe, achei que algumas perguntas estavam só em minha mente, então eu não parei de falar um segundo — disse Lua, com as bochechas coradas, tampando rapidamente a boca com a mão e soltando um leve riso. Então, tentando disfarçar o embaraço, completou com um sorriso — Vamos, adorei sua ideia, July. Confesso que além de estar buscando respostas sobre meus amigos, fiquei um pouco curiosa para ver o lugar.
July sorriu com naturalidade, parecendo feliz por ver Lua animada novamente.
— Ótimo — respondeu de forma direta, mas acolhedora. Sem perder tempo, ela se virou e fez um gesto com a cabeça, indicando o caminho
O sol atravessava as estruturas metálicas e tradicionais de Atyros enquanto July e Luarina caminhavam pelas ruas até o templo do deus Liush.
A arquitetura do templo mesclava traços modernos com elementos sagrados e antigos, como se o tempo ali tivesse escolhido não seguir regras. Subindo os degraus de pedra clara, elas chegaram ao pátio. Havia um ambiente sereno — algumas pessoas estavam ajoelhadas em oração, outras conversavam suavemente entre si, e algumas carregavam cestos ou varriam o chão de mármore com tranquilidade, auxiliando nas tarefas do templo.
July guiou o passo com segurança e se aproximou de uma jovem que organizava velas perto de uma pequena fonte ornamentada. — Com licença, estamos procurando a sacerdotisa Ana — disse July, com sua voz gentil e firme. A garota, com um sorriso educado, apontou em direção ao prédio interno do templo. — Ela está lá dentro. — Obrigada — respondeu July, com um aceno de cabeça. Ela e Luarina seguiram com calma até a entrada. Com respeito pelo local sagrado, bateram levemente na porta de madeira ornamentada. Poucos segundos depois, a porta deslizou para o lado, revelando uma jovem de beleza calma e marcante — cabelos castanhos lisos que iam até os ombros e olhos verdes profundos, que transmitiam empatia e sabedoria.
— Olá, em que posso ajudar vocês? — disse a jovem com gentileza.
— Estamos procurando a sacerdotisa... você é Ana? — perguntou July.
Ana: — Sim, sou eu. Por favor, entrem.
As três se acomodaram em uma sala decorada com tapeçarias, velas suaves e prateleiras com relíquias espirituais. O ambiente era acolhedor e silencioso.
— Em que posso ajudar vocês? — perguntou Ana, olhando de uma para a outra.
July fez uma breve pausa, olhou para Luarina com cumplicidade, depois voltou-se para Ana:
— É que minha amiga aqui está procurando uma pessoa. Você saberia dizer se viu algo estranho pela cidade, ou alguém incomum que tenha chegado em Atyros?
Ana cruzou as mãos no colo e esboçou um leve sorriso.
— Bem... por aqui algumas coisas aconteceram sim, já faz alguns meses...
Com um tom reflexivo, Ana começou a narrar os estranhos acontecimentos do passado recente — o aparecimento de Liush, um homem que surgiu do céu, confuso, e da garota chamada Agatha, que havia sido vista antes disso. Sua voz transmitia um misto de fascínio e mistério, enquanto Luarina e July escutavam com total atenção.
Assim que Ana terminou sua história, Luarina inclinou-se levemente para a frente, retirando um pequeno jornal dobrado de sua bolsa. O papel estava levemente amassado, mas a manchete ainda era visível: "Heróis Valentes: Mitos ou Lembranças?". Ela entregou o jornal nas mãos de Ana.
— Estou procurando minha amiga Suya Violet... e também Corey e Bryan Kirby — disse Lua, com firmeza e um toque de saudade na voz.
Ana arregalou os olhos, surpresa.: — Você está procurando... personagens de uma história?
July respondeu de imediato: — Não são personagens. São pessoas reais. E, aliás, diante de você está a própria Maga Luarina.
Ana olhou de Lua para July, visivelmente confusa, quase duvidando do que ouvia.
— Você está dizendo que seu nome é... Luarina Olivën? A maga lendária que, junto com Suya, Bryan e Corey, salvou uma vila de caçadores na era antiga?
— Essa mesma — afirmou July com convicção.
Ana franziu a testa, ainda sem saber se acreditava ou não.
— Mas... os contos dizem que a Maga Luarina era uma elfa... não uma humana.
July sorriu de canto, e com um olhar cúmplice disse: — Bem... ela é uma elfa. Lua, mostre a ela.
Lua respirou fundo, concentrando sua energia, e murmurou algumas palavras em voz baixa — a magia sutil que aprendera com seu pai brilhou levemente ao redor de sua cabeça, como um véu sendo erguido, e então suas delicadas orelhas élficas tornaram-se visíveis. Eram finas, graciosamente pontiagudas e ligeiramente inclinadas para trás, reluzindo sob a luz suave do templo.
Com um sorriso sereno, ela disse:
— Elas sempre estão aqui, só não visíveis. — Olhou para Ana com gentileza e continuou — Quando acabei por vir parar aqui, escolhi utilizar esta magia que as fazem “desaparecer”. Como eu não conhecia nada ao meu redor, essa escolha acabou sendo involuntária naquele momento, por proteção... sabe? Para não chamar atenção, até eu descobrir mais sobre esse lugar, e se eu estava ou não em perigo por tudo o que ocorreu.
Lua soltou um pequeno suspiro, seus olhos vagando brevemente pelas memórias confusas de sua chegada, e completou com uma leve pausa:
— E... bem... até o momento não vi nenhum outro elfo. Então acabei por estender a magia por mais tempo, desta vez conscientemente. Por tudo isso, ainda não as deixo aparentes por muito tempo...
Nesse momento de revelação, os olhos de Ana brilharam intensamente. Era como se o próprio coração da jovem sacerdotisa pulasse de alegria — o sonho dela de conhecer uma elfa estava ali, se realizando diante de seus olhos. A garota mal podia acreditar no que via. Seu sorriso cresceu, quase infantil, de tão genuíno, e ela deu um passo à frente com os olhos fixos nas orelhas de Luarina.
— Elas são de verdade? — disse Ana, com voz encantada — Eu posso... eu posso tocar? — perguntou com um brilho nos olhos, cheia de expectativa, como se estivesse diante de algo sagrado e mágico ao mesmo tempo.
Lua sorriu suavemente com a empolgação nos olhos de Ana e respondeu com doçura:
— Claro, pode tocar sim.
Com cuidado, quase como se estivesse manuseando algo sagrado, Ana esticou a mão trêmula e encostou suavemente nas orelhas de Lua. Seus dedos deslizaram com delicadeza sobre a pele fina e pontiaguda. A sacerdotisa prendeu a respiração por um instante, maravilhada com a realidade do toque. Seus olhos verdes brilharam ainda mais, e um sorriso leve se formou em seus lábios, como se tivesse acabado de tocar um fragmento de um conto de fadas tornado real.
Enquanto Ana ainda absorvia aquele momento mágico, Lua fez uma breve pausa, observando a reação da jovem à sua frente. Seus olhos percorreram o rosto de Ana e, por um instante, viu ali um reflexo de si mesma: curiosa, cheia de sonhos e perguntas.
— Você deve estar cheia de perguntas, eu sei... Eu também fiquei, — disse com um risinho contido, antes de continuar, sua voz calma e envolvente. — Meu nome é Lua Karina Olivën. Nasci no reino de Oryon. Fui morar com minha tia em Grimor quando era mais jovem. Foi lá que conheci minha amiga Suya, enquanto eu fazia entrega de poções para meu tio.
Lua fez uma pausa breve, deixando que Ana e July absorvessem as palavras. Havia algo mágico em cada frase, como se estivessem ouvindo uma crônica antiga sendo contada pela própria protagonista.
— Eu realmente tenho uma irmã gêmea. Sou filha de uma maga dos mares e de um elfo das florestas — como dizem nas histórias... — ela sorriu ao ver a expressão encantada de Ana — Meu apelido é Luarina. Bem... para os amigos também é Lua.
Houve um silêncio respeitoso por um momento, até que Lua retomou com um tom mais pensativo:
— Ainda não sei como vim parar aqui. E não tenho certeza se isso também aconteceu com meus amigos... Mas, pelo que vi nas histórias, ultimamente acredito que sim. Então, estou à procura deles.
Seus olhos então se voltaram para July, e ela disse com um tom mais descontraído:
— Isso realmente parece loucura, inacreditável... ou até como aquelas histórias chamadas "fantasia" que você me mostrou.
Voltando a encarar Ana, Lua deixou a voz suavizar novamente:
— Mas é o que aconteceu comigo... e, sinceramente, eu ainda me surpreenderia com isso, se não tivesse olhado para a minha própria imagem nesse papel envelhecido... aquele que encontramos naquela biblioteca tão diferente da que conheço, onde livros contam histórias que não são reais... — Lua segurou o papel, os olhos refletindo uma nostalgia curiosa — Na minha época, histórias eram as do passado. E os livros falavam de magia, poções, curas, coisas da floresta... apenas isso. Nunca imaginei que um dia...
Fez uma pausa, com os olhos fixos no papel, antes de completar em voz baixa, quase como um pensamento em voz alta:
— ...nunca imaginei que eu seria a história para uma geração...
July, que até então escutava em silêncio com uma expressão de admiração profunda, sorriu com carinho e respondeu com emoção:
— Então que bom que você está aqui, né, Lua? Poder ver os frutos que você e seus amigos deixaram... Nos dando esperança, nos fazendo fantasiar, imaginar, reviver cada uma das suas histórias... Isso é incrível, sabe?
Com os olhos ainda brilhando de encantamento após ter tocado nas orelhas élficas de Lua, Ana deu um pequeno passo para trás, mas não desviou o olhar nem por um segundo. Era como se quisesse gravar cada detalhe daquela jovem maga em sua memória. A luz suave do templo refletia nos olhos verdes da sacerdotisa, acentuando o fascínio e a expectativa em sua expressão.
Com a voz doce, quase como um sussurro para não quebrar o encanto que pairava no ar, Ana perguntou:
— Como é a sua irmã gêmea? — fez uma breve pausa, e seu tom ficou ainda mais baixo — Ela também é uma maga como você?
O sorriso de Lua surgiu com naturalidade, mas havia nele uma sombra de saudade. Seus olhos se perderam por um instante, como se a pergunta de Ana tivesse aberto uma porta para lembranças guardadas com carinho. O brilho em seu olhar agora não era mágico, mas profundamente humano — carregado de afeto e nostalgia.
Ela cruzou os braços com suavidade sobre o peito, respirou fundo e respondeu com ternura:
— Ela é... única. — um pequeno riso escapou-lhe pelos lábios. — Fisicamente somos idênticas, mas nossas almas têm cores bem diferentes.
Lua deixou o olhar se desviar, como se tentasse capturar a imagem de sua irmã no ar, e continuou:
— Ela é como um dia ensolarado, com cabelos loiros quase dourados. Essa é a nossa única diferença física. Sim, ela também é maga, mas suas habilidades élficas são mais predominantes que as minhas. — a maga deixou um breve sorriso aquecer seu rosto. — Vocês iriam adorá-la. Ela é doce, gentil e muito extrovertida, adora fazer amizades, ama os animais e... — com um leve suspiro — como eu sinto a falta dela...
Houve um instante de silêncio carregado de emoção antes que Lua retomasse, num tom mais baixo, quase como uma confissão:
— Éramos inseparáveis. Mesmo quando ela ouviu o chamado da floresta e partiu para segui-lo, ou quando eu me aventurava com meus amigos, trocávamos mensagens pelos nossos colares todos os dias.
Ao perceber que Ana e July a olhavam com expressões tristes, sentindo o peso daquela saudade, Lua ajeitou-se, erguendo o queixo com leveza.
— Não fiquem tristes. — disse, tentando quebrar a melancolia com um sorriso. — Com tudo o que aconteceu, ainda tenho esperanças de vê-la novamente. Sabe, não é impossível dadas as circunstâncias.
E, para suavizar o clima, ela completou com uma pequena careta alegre, arrancando um leve riso das duas.
Ana ouvia cada palavra de Lua com atenção absoluta, os olhos verdes fixos no rosto da jovem maga élfica. Quando a história sobre a irmã terminou, um sorriso suave iluminou seu semblante.
— Você tem razão em não perder as esperanças. — disse, com a voz carregada de ternura. — E, ouvindo mais sobre sua irmã, agora eu quero conhecê-la.
Havia uma mistura de encanto e determinação no olhar de Ana, como se já estivesse imaginando o dia em que conheceria a outra metade daquela história.
July, que observava as duas, deixou escapar alguns risinhos, claramente tocada pela esperança confiante de Lua. Seus olhos brilhavam de curiosidade quando perguntou:
— Mas... como vocês se comunicavam utilizando um colar?
Lua ajeitou-se levemente, tocando de forma instintiva o pingente que descansava sobre seu peito. Havia algo na pergunta que a levou direto a um redemoinho de lembranças, e um ar de nostalgia se instalou em seu semblante.
— No dia em que nascemos, esses dois colares gêmeos foram criados através da energia do momento do nosso nascimento. — começou, sua voz agora carregada de um tom mais suave, quase reverente. — Isso é uma tradição muito antiga que seres naturais praticavam. Normalmente, o clã inteiro se reunia em volta do chalé onde ocorria o parto e utilizava as energias da natureza elemental em conjunto com a energia do nascer para criar algo como presente para a nova vida que estava por vir.
Fez uma pausa curta, como se revivesse mentalmente aquela história que ouvira tantas vezes quando criança, antes de prosseguir:
— No nosso caso, meus pais, minha tia e meu avô decidiram praticar a tradição apenas os quatro. Eles sabiam que, por serem poucos, não conseguiriam criar algo grande ou mais de um item. Então escolheram criar um colar, que depois poderia ser transformado em duas pulseiras.
O olhar de Lua se aprofundou, e um leve sorriso nostálgico apareceu enquanto continuava:
— Mas... quando o colar estava tomando forma, de alguma maneira ele se duplicou sozinho. Ainda utilizou um pouco da essência minha e da minha irmã, algo extremamente raro. Nunca se ouviu falar que isso fosse possível. O que era para ser um, acabou se tornando dois... como se fossem espelhos um do outro.
Seus dedos deslizaram suavemente sobre o colar enquanto ela explicava:
— Com isso, éramos capazes de nos comunicar e até sentir a presença uma da outra. Mas... quando cheguei aqui, só consegui sentir a minha própria essência. Então, quando a July me mostrou os lugares, me falou sobre tecnologia e sobre o tempo em que estávamos, eu finalmente entendi o motivo de não sentir a Hoperin... — Lua fez uma breve pausa, olhando para as duas com um ar melancólico, porém firme — Eu não estava mais no tempo que chamávamos de nosso.
Ana, com um sorriso de encantamento ainda estampado no rosto, comentou com sinceridade:
— Elfos são incríveis... Sempre ouvi histórias sobre a sua espécie. — Seus olhos brilharam ainda mais quando, de repente, ela pareceu se lembrar de algo. — Ah, espere... eu tenho algo para você.
Virou-se rapidamente e caminhou até uma estante de madeira escura no canto da sala. Seus dedos percorreram a fileira de livros até que pararam em um volume antigo, de capa grossa, adornada com símbolos dourados e gravuras levemente desgastadas pelo tempo.
— Aqui. — disse, retornando para perto de Lua. — Minha avó me contava essa história quando eu era criança e eu me apaixonei por ela. Sempre quis conhecer uma elfa de verdade.
Ela então entregou o livro à jovem maga. Na capa lia-se A Lenda da Guardiã de Yaraheim. Ao abri-lo, o cheiro de páginas antigas tomou o ar. O texto narrava a história de um clã ancestral, guardião das forças vitais da natureza.
“O Clã Yaraheim, unido por laços sagrados com as florestas e rios, vivia para proteger e preservar o equilíbrio natural. Sua líder era uma guardiã lendária, uma elfa de beleza quase mística. Alguns relatos diziam que seus olhos eram azuis como o céu límpido e que seus longos cabelos brancos lembravam a neve. Outros, porém, afirmavam que seus fios dourados brilhavam como ouro sob a luz do sol.”
Ana, olhando para Lua com atenção, comentou com voz suave:
— É uma lenda antiga… Meus avós costumavam me contar quando eu era menina. Diziam que, naquela época, as florestas eram exuberantes, e os rios transbordavam vida. — Ela fez uma breve pausa, a expressão distante, como se ouvisse a voz de sua avó novamente.
Depois, voltou a sorrir:
— Veja... Você descrevendo a sua irmã me lembrou muito essa elfa guardiã.
Virou o livro para Lua, mostrando a ilustração — uma figura etérea, com traços delicados, vestes leves, e um olhar sereno que parecia atravessar a alma.
Lua, ao ver a imagem, sentiu seu coração apertar. Instintivamente, passou os dedos pela página, acompanhando o contorno da figura desenhada. Sua outra mão repousava sobre o colar no peito. Ela não percebeu, mas ao pensar em sua irmã Holpe
algo começou a acontecer.
O desenho no livro começou a emitir um brilho suave. Aos poucos, a ilustração pareceu se mover, como se fosse feita de luz e vento. As cores ganharam vida, e a imagem se expandiu, tomando forma diante delas. Era como se um portal estivesse se abrindo no meio do ar.
Um arrepio percorreu o ambiente. Um vento súbito atravessou a sala, fechando com força todas as janelas. As velas acesas tremularam até se apagarem, mergulhando o local em uma penumbra densa. Uma neblina espessa e fria se espalhou rapidamente, cobrindo o chão e envolvendo os pés das três.
Foi então que uma voz ecoou, suave e e etérea, parecendo vir de todos os lados ao mesmo tempo. O colar de Luarina brilhou com uma intensidade jamais vista antes, pulsando como se respondesse a um chamado antigo e profundo
A voz que ecoava no ambiente, embora misteriosa, tinha um tom suave, quase acolhedor, como o murmúrio de uma canção antiga. Ela parecia deslizar pela neblina, envolvendo cada canto da sala.
Antes que a névoa começasse a se dissipar, as velas apagadas acenderam-se sozinhas, uma a uma, suas chamas tremeluzindo como se respondessem a uma presença maior. A luz amarelada e quente recortou a silhueta de uma figura feminina no centro do cômodo.
Seus longos cabelos caíam em ondas até a cintura, brilhando à luz das velas como fios banhados por luar. As delicadas orelhas pontudas, marcando sua herança élfica, sobressaíam por entre as mechas. A neblina, lenta e preguiçosa, começou a se afastar de seus pés, revelando-a por completo — uma figura imponente e serena, trajando vestes que pareciam costuradas com fragmentos da própria floresta e da luz do amanhecer.
Luarina ficou imóvel, como se o tempo tivesse parado ao seu redor. O coração bateu forte em seu peito, e seus olhos se arregalaram diante da figura que emergia da dissipação da névoa. A respiração lhe faltava, mas ainda assim um sussurro, quase incrédulo, escapou de seus lábios:
— Hoperin...?
A elfa diante delas, agora completamente visível, franziu levemente o cenho, a expressão tomada por confusão. Seus olhos, límpidos e brilhantes, refletiam mais dúvidas do que respostas.
Antes que Lua conseguisse reagir, July avançou um passo, olhando da amiga para a recém-aparecida. Sua voz carregava nervosismo e incredulidade:
— Quem é você? — perguntou, tentando quebrar o silêncio denso. — Espera... o que acabou de acontecer?
A elfa piscou algumas vezes, respirou fundo e levou a mão ao peito, como se tentasse se situar. Sua voz soou hesitante, carregada de incerteza:
— Hã... onde estou?
Ela olhou ao redor, absorvendo o cenário à sua volta: as paredes do templo, os vitrais escuros, o cheiro das velas queimando — nada daquilo lembrava a floresta de onde vinha.
O silêncio voltou a se alongar, até que, percebendo os olhares fixos e atônitos das três garotas à sua frente, a elfa recuou levemente, surpresa.
— E vocês...? Quem são? — perguntou, a desconfiança e a curiosidade mescladas em seu tom.
O silêncio pesado foi quebrado apenas pelas apresentações iniciais.
— Meu nome é July — disse a garota, ainda observando cada detalhe daquela elfa que parecia ter saído das páginas do livro.
Logo em seguida, Ana sorriu nervosa, mas encantada, e também se apresentou.
Mas quando chegou a vez de Lua, suas palavras demoraram a sair. Seus olhos, fixos e marejados, estavam completamente presos à figura diante dela. Finalmente, com a voz clara, firme, mas cheia de emoção, deixou escapar:
— Hoperin...?
A elfa à frente delas piscou, surpresa. Seus lábios se entreabriram em incredulidade.
— Há quanto tempo... não escuto esse apelido — respondeu com a voz embargada. Seus olhos se fixaram na jovem maga, percorrendo-a de cima a baixo, como quem tenta decifrar um mistério. A expressão de confusão se suavizou, dando lugar a uma centelha de reconhecimento. — Você... é idêntica a... Luarin.
— Luarin? — Lua repetiu ao mesmo tempo, quase num reflexo.
— É você... mas como? — disse Hope, a surpresa agora se transformando em pura emoção.
— Então a guardiã da história... é sua irmã, Lua? — perguntou July, chocada, olhando de uma para outra.
Hope começou a caminhar lentamente em direção a Lua. Seus olhos marejados brilhavam a cada passo, como se a distância entre elas fosse diminuindo junto com os anos de saudade. Quando finalmente a alcançou, não hesitou. A abraçou forte, como se temesse que fosse apenas uma ilusão prestes a desaparecer.
— É mesmo você — sussurrou, sentindo o abraço ser retribuído, e então as lágrimas escorreram. — Minha irmã mais velha... minha melhor amiga. Por onde você esteve? Nunca deixamos de procurar por você.
Um brilho intenso floresceu entre as duas irmãs, envolvendo-as por completo. A luz parecia viva, pulsando com o reencontro, até lentamente se dissipar.
— É uma longa história... — respondeu Lua, emocionada, ao desfazer o abraço. — Senti tanto a sua falta, Hoperin.
Hope, rindo suavemente entre as lágrimas, comentou:
— Como é possível você ter mudado tão pouco? Parece até que é você a mais nova agora.
July, que observava o momento com os olhos marejados, não conseguiu conter o comentário:
— Olha, depois de tudo que já passamos juntas, eu achei que nada mais me surpreenderia... mas vocês duas acabaram de provar o contrário.
As duas irmãs riram juntas ao perceberem que falaram quase ao mesmo tempo, o que tornou o momento ainda mais especial.
— Ainda não entendi exatamente como e o que aconteceu aqui... — disse Hope, respirando fundo, tentando recuperar a calma. — Mas, perdoem meus modos. Deixem-me apresentar-me devidamente: sou Hope Solarin Olivën. Muito prazer.
Ela fez um leve aceno, cheio de graça e gentileza, antes de voltar os olhos para Lua.
— Tenho muito a contar... mas antes, diga-me, minha doce irmã, como conseguiu me chamar?
Ana, com um sorriso radiante que mal conseguia conter, tomou a frente. A empolgação era tanta que precisou pigarrear para não deixar a voz falhar:
— Cof, cof... com licença, Hope. Talvez eu possa responder isso.
Ela pegou o livro da lenda e o mostrou à guardiã. Hope o analisou com atenção, passando os dedos pelas páginas, e suspirou.
— Entendo... embora este seja apenas um conto pequeno sobre mim, ainda seria necessária uma magia poderosa para invocar o espírito de uma guardiã. Mas... não esperaria menos da minha irmã gêmea. Ela sempre foi muito talentosa.
July completou, sorrindo: — Acho que a saudade também teve parte nisso. A Lua sempre falou de você, Hope. E no momento em que ela tocou o livro, estava segurando o colar...
Hope ergueu os olhos e então fixou-os no colar de Lua. — Esse colar... não é apenas um simples objeto. — Ela retirou o próprio colar e o mostrou às três. O brilho era intenso, vivo, pulsante. — Quando você o segurou, sua alma desejou profundamente me reencontrar. Esse desejo ecoou, e foi ele que me trouxe até aqui. Veja... o meu ainda brilha tanto quanto o seu.
Ela sorriu, emocionada, e abraçou Lua novamente. Desta vez, Lua não conteve as lágrimas, um sorriso largo iluminando seu rosto. No instante em que os colares se tocaram, as orelhas élficas de Luarina reapareceram sozinhas, como se jamais tivessem estado ocultas.
Um clarão forte emanou das duas irmãs ao mesmo tempo, a magia fluindo em ondas poderosas. Era como se uma antiga ligação tivesse sido restaurada, uma ponte entre duas almas idênticas, mas únicas.
A energia explodiu em pura magia, expandindo-se além da sala e reverberando por toda a cidade, fazendo o fluxo mágico vibrar mais forte do que há séculos.
A explosão mágica reverberou como uma onda invisível, percorrendo cada rua, cada beco e cada pedra da cidade. Ana e July, ainda de olhos fechados, sentiram a energia passar por seus corpos como uma corrente quente e vibrante, despertando nelas um poder que parecia adormecido.
Para os praticantes de magia, o efeito foi imediato: o fluxo que antes parecia estático e lento agora corria vivo, intenso, como um rio em plena enchente. Era como se toda a cidade tivesse se tornado um grande receptáculo de mana.
Enquanto isso, os cidadãos comuns seguiam sua rotina, completamente alheios ao acontecimento. Comerciantes chamavam clientes, crianças brincavam nas ruas e viajantes cruzavam os portões, sem a mínima noção da mudança colossal que havia se instaurado no tecido mágico ao redor.
Já na floresta, não muito longe dali, Liush interrompeu seu treinamento. O suor ainda escorria pelo rosto, sua respiração ofegante pela sequência de golpes que praticava, mas tudo parou quando a onda mágica o atingiu
Ele ergueu a cabeça, seus olhos se estreitaram, e o corpo estremeceu ao sentir a energia percorrer-lhe as veias.
— Esse fluxo… — murmurou, erguendo a mão, observando faíscas sutis de mana dançando em seus dedos.
O boato daquela mulher misteriosa que ele tanto buscava voltou a ecoar em sua mente.
Liush rapidamente saltou para o topo de uma árvore, fixando o olhar em direção ao epicentro da onda de mana.
— Este poder... está vindo do templo. E sinto traços da minha energia por lá... deve ser a Ana, que ainda carrega resquícios da minha mana pelo tempo que esteve próxima a mim...
Aflito, ele apertou com força a empunhadura de suas espadas enquanto observava a distância entre a floresta e o templo.
— Tem algo errado... se for alguém ou algo ruim com esse nível de poder... a Ana e toda aquela cidade estão em perigo.
O receio aumentava a cada pensamento que lhe atravessava a mente.
— Se eu for correndo normalmente, vou levar um dia inteiro para chegar... e se for algo ruim, chegarei tarde demais... não tenho tempo para pensar muito, vou ter que usar isso...
Liush guardou uma de suas espadas, empunhando a outra com as duas mãos. Fechou os olhos, respirou fundo e liberou parte de seu poder. Um fluxo imenso de energia tomou conta do ambiente, correspondendo à onda de mana. A espada agora estava envolvida por raios, e o mesmo fluxo elétrico cobria seu corpo. Liush estava em plena conexão com a lâmina.
— Me disseram que os elfos que eu procurava eram extremamente rápidos. Treinei isso por muito tempo para conseguir acompanhá-los caso os encontrasse... espero que isso sirva agora.
Ele assumiu posição para arremessar sua espada, fechou os olhos e se concentrou na localização da mana que sentia. Em seguida, lançou a lâmina com toda a força. As árvores no caminho estremeceram diante do deslocamento brutal de ar. A espada seguiu como um raio em direção ao alvo, enquanto Liush permanecia com os olhos fechados, em posição de avanço, segurando firme a outra espada e mantendo a conexão com a arma arremessada.
No templo, Luarina percebeu de imediato o poder imenso que surgia de fora da cidade. No instante em que notou algo se aproximando, já era tarde. A espada atravessou a janela, passando perigosamente perto de seu rosto e se cravando na parede alguns metros atrás dela.
Todos voltaram os olhos para a lâmina fincada na pedra. No exato momento em que isso ocorreu, Liush abriu os olhos e avançou. Um clarão tomou conta do templo, seguido pelo estrondo de um trovão. Quando a visão de todos retornou, lá estava Liush, com a espada próxima ao pescoço de Lua.
Ignorando a presença de todos, ele dirigiu-se apenas a Ana:
— Ana, está tudo bem... ou devo eliminar essas duas? — disse com firmeza, encarando Luarina e Hope.
Ele firmou o punho da espada, aguardando a resposta de Ana. Lua tentou dizer algo, mas foi interrompida por sua voz fria:
— Eu não perguntei nada a você. As duas, apenas não se mexam até que ela responda minha pergunta.
Antes que Ana pudesse se pronunciar, Luarina canalizou a energia recém-libertada e lançou uma rajada de poder. O impacto atingiu Liush em cheio, arremessando-o bruscamente contra a parede atrás dele. A força foi tamanha que ele soltou a espada, batendo a cabeça e as costas com violência.
Ana, ao ver aquela cena, sentiu o coração disparar e gritou com toda a força de sua voz:
— PAREEEE, Luarina! Há um mal-entendido aqui!
Rapidamente, ela correu até Liush, ignorando o choque que tomava conta de todos no templo. Ajoelhou-se ao lado dele, segurando-o pelos ombros e perguntando com preocupação:
— Você está bem?
Lua, ao perceber a reação de Ana, sentiu um peso de culpa. Seus olhos se arregalaram e a insegurança em sua voz denunciava o arrependimento imediato:
— M-me desculpe... ele se machucou? — ela gaguejou, desviando o olhar por um instante, antes de voltar a encarar Ana e Liush. — Não era para ser tão forte a ponto de arremessá-lo... eu só queria afastá-lo um pouco.
Enquanto isso, Hope e July permaneciam paradas, olhando fixamente para Ana e Liush, sem entenderem totalmente o que estava acontecendo.
No mesmo instante em que a cena se desenrolava no templo, algo muito maior acontecia em Antyros.
O poder liberado por Liush, que correspondeu à onda de mana anterior, colidiu de forma violenta com aquela energia misteriosa. O choque entre ambas criou um desequilíbrio colossal, e a terra inteira estremeceu.
Um terremoto súbito sacudiu cada rua, cada casa e cada pedra da cidade. As construções tremeram, janelas se estilhaçaram, e o chão se abriu em enormes fendas que cruzavam as praças e os becos. Todos em Antyros sentiram o impacto, fossem humanos, krinis ou mesmo os poucos praticantes de magia que viviam ali.
Do fundo dessas fendas, criaturas antigas, há muito esquecidas no tempo, começaram a emergir. Seus corpos deformados e olhos brilhantes exalavam uma fome insaciável. Eram seres de eras remotas, mantidos adormecidos sob a terra, agora despertos pela explosão de poder.
Elas se ergueram lentamente, liberando rugidos que ecoavam pela cidade. Famintas por energia, atacaram sem distinção. Qualquer pessoa à vista era alvo — comerciantes tentando proteger suas bancas, crianças correndo em desespero, guerreiros que mal tinham tempo de erguer suas armas. As criaturas sugavam não apenas a vitalidade, mas também a essência mágica de quem tocavam.
O caos se instaurou em Antyros. As ruas, antes agitadas pela vida comum, agora eram tomadas por gritos, correria e pelo som aterrorizante das bestas ancestrais, anunciando que a simples colisão de duas forças havia despertado um pesadelo há muito enterrado.
A comoção não demorou a alcançar o templo. O eco dos gritos desesperados tomou conta das ruas de Antyros, subindo até os portões sagrados. Do lado de fora, pessoas corriam em pânico, algumas sangrando, outras carregando familiares feridos, todas implorando por socorro.
— “Socorroooo! Elas estão vindo!” — gritava um homem, tropeçando ao tentar subir as escadas do templo.
— “Não deixem que elas cheguem até aqui!” — clamava uma mulher, carregando a filha nos braços.
— “Ajudem! Pelo amor dos deuses, nos ajudem!” — bradava outro, enquanto olhava para trás, vendo a sombra das criaturas se aproximando.
O som de passos pesados e garras arranhando a pedra ecoava cada vez mais próximo. As criaturas, atraídas pelo fluxo intenso de mana que emanava do templo, subiam as escadarias com voracidade. Seus rugidos misturavam-se ao clamor humano, criando uma cena de puro terror.
Quando alcançaram o pátio, não hesitaram. Saltaram sobre aqueles que ainda tentavam buscar refúgio, rasgando roupas e carne, devorando a energia vital das vítimas em segundos. O pátio sagrado, que deveria ser um lugar de paz e oração, transformou-se em um campo de massacre.
— “Nãooo! Eles me pegaram, socorr—!!” — o grito de um jovem foi interrompido bruscamente quando uma das criaturas o agarrou e o consumiu diante dos olhos de todos.
— “Corram, corram para dentro do templo!!!” — gritou um guardião, tentando empunhar sua lança, mas logo foi derrubado e arrastado para a escuridão pelas garras afiadas.
O ar estava denso, carregado pelo cheiro de sangue e de energia sendo drenada. Do interior do templo, todos puderam ouvir com clareza os lamentos e clamores por ajuda, seguidos do horror das vidas sendo brutalmente ceifadas à porta de um lugar que até então era considerado sagrado e seguro.






