Posted by : Suya Violet
Horas Antes da Chegada de Cain…
Na vastidão escura e silenciosa do oceano profundo, além do alcance dos radares e sensores da cidade aquática de Astrid, algo pulsava — vivo, metálico, monstruoso. Oculta entre fendas rochosas e formações vulcânicas instáveis, uma estrutura colossal repousava imóvel, como um predador à espreita. Suas linhas lembravam uma criatura abissal fossilizada, e sua superfície metálica parecia respirar, mesclando o artificial ao orgânico com perfeição inquietante.
Ali estava a base da Blooddragons — invisível às redes comuns, protegida por camuflagem eletromagnética avançada. Nada ali seguia os padrões normais de tecnologia. A estrutura pulsava em uma frequência própria, inaudita, indetectável... e letal.
No coração daquela estrutura, uma câmara circular vibrava em tons avermelhados. O ar era pesado com eletricidade e feromônios sintéticos. O som constante dos sistemas ativos compunha uma sinfonia mecânica — zumbidos, estalos, rangidos, sons abafados de vozes digitais e máquinas em operação.
Telões translúcidos flutuavam no ar, exibindo informações de múltiplas partes do mundo: movimentações militares, redes civis, clima político, fluxos de dados interceptados. Androides de porte militar cruzavam corredores metálicos com precisão fria. Técnicos humanos com implantes oculares e neurais operavam terminais sensíveis ao toque. Drones voavam em trajetórias calculadas. Nada ali era improvisado.
De repente, um terminal piscou. Um som grave ecoou como um trovão contido.
**— Ping — arquivo recebido. **
Uma das telas principais acendeu com uma luz carmesim intensa, fazendo as demais diminuírem automaticamente o brilho. Todos os olhos — humanos e sintéticos — se voltaram para a imagem.
Operador 6 inclinou-se sobre o console, sua voz firme cortando o ambiente: — Código FD-003 ativo. Transmissão recebida da unidade infiltrada. Confirmada: extração forçada de dados do agente Mirage.
A imagem projetada era crua e perturbadora. Em múltiplos espectros — térmico, ótico, sonoro — Mirage era exibida em estado crítico, sendo interrogada brutalmente. Seus gritos ecoavam digitalmente pela câmara, distorcidos pelas gravações, mas ainda assim reais o suficiente para causar impacto.
O silêncio se espalhou.
Uma unidade se adiantou — RTX-250, um androide de quarta geração. Seu corpo de liga negra parecia absorver a luz ambiente. Dotado de inteligência artificial avançada, leitura emocional e execução autônoma de estratégias em tempo real, RTX-250 inclinou levemente a cabeça enquanto processava o conteúdo.
Cabos de dados se acenderam como veias vivas. Um fluxo de informações criptografadas percorreu túneis suboceânicos, conectando-se às outras células da Blooddragons: uma sob a zona industrial de Zintria, disfarçada como sistema de manutenção subterrânea; outra, em Eteria, camuflada como uma empresa privada de segurança de elite.
O sistema havia sido ativado. Os olhos da organização se voltaram para Mirage. E, mais importante: para quem a capturou.
No painel central, duas janelas holográficas se abriram em sincronia, exibindo os líderes das bases associadas à Blooddragons.
À esquerda, em transmissão direta da base oculta sob Zintria, surgiu a imagem de uma mulher imponente. Cassandra Vale, uma comandante de operações com vasta experiência militar, mantinha-se em pé diante da câmera. Seus cabelos ruivos presos em um coque rígido contrastavam com os olhos de um azul cortante. Apesar de aparentar 26 anos, sua ficha operacional listava mais de uma década de campanhas táticas, incluindo missões de infiltração e neutralização em zonas de guerra híbrida.
Vestia um uniforme preto com ombreiras discretas e um emblema da Blooddragons no ombro esquerdo. O tom de sua voz era firme, sem traço de hesitação — o tipo de liderança que não tolera falhas.
A segunda imagem no painel se estabilizou. À direita, surgiu o holograma de Sythrax, um dos membros mais influentes do Conselho Sombrio da Blooddragons.
Cassandra Vale: — situação?
RTX-250 girou o pescoço lentamente em direção à imagem da comandante. Sua voz era mecânica, porém modulada com entonações humanas.
RTX-250: — Transmissão confirmada. A agente Mirage foi comprometida. Tortura registrada. Extração de dados sensíveis: provável. Origem da interceptação: unidade DRN-X71, gravou por cerca de 00:17:43, infiltrou-se nos tubos de ventilação, base militar de Astrid– Coordenadas aproximadas: 45.721N, 12.983W.
Cassandra Vale franziu o cenho ao observar as imagens de tortura projetadas no painel. Sua voz cortou o silêncio com firmeza:
Cassandra Vale: — Isso não foi um acidente. Mirage estava em uma missão silenciosa, com protocolos de sigilo absoluto.
Como ela falhou? O que aconteceu durante a operação?
RTX-250 moveu levemente a cabeça, ativando os registros internos. Seu visor brilhou com dados e gráficos projetados atrás dele.
RTX-250: — Análise completa. Durante o trajeto para infiltração no laboratório de Astrid, Mirage cruzou com três indivíduos. Um deles foi identificado como um ex-militar de alto desempenho: Cain. Os outros dois registros correspondem a uma civil e a uma cientista afiliada ao laboratório alvo.
(um vídeo surgiu brevemente no painel, exibindo a imagem de suya, Niele e cain)
RTX-250 (continuando): — Minutos antes de perdermos a conexão com Mirage, sensores do protocolo de emergência registraram um pulso eletromagnético de origem desconhecida. A emissão desativou todos os androides operacionais da unidade em questão de segundos, exceto por um androide de emergência de baixo consumo, que sobreviveu ao apagão e conseguiu transmitir os últimos dados visuais.
(o painel muda para a visão do pequeno androide — imagem tremida, gritos abafados, Mirage presa a uma mesa de aço, e Cain dando a ordem para torturar)
RTX-250: — O androide gravou o momento exato em que Mirage foi capturada e submetida à tortura por Cain.
Fim da gravação.
As luzes da sala piscaram brevemente. Cassandra olhava fixamente para o visor, a mandíbula cerrada.
Cassandra Vale: — Então foi ele... (pausa, respirando fundo).
— Quero a localização exata de Cain. Agora. E preparem uma equipe especial. Essa falha será corrigida com sangue.
Sythrax, que permanecia em silêncio, abriu um leve sorriso enquanto observava.
A reunião havia terminado.
As telas se apagaram, e a luz carmesim do centro de comando se dissolveu em tons mais escuros. Sythrax, com seu manto ondulando levemente a cada passo, caminhava lentamente pelos longos corredores de aço e vidro da base de Eteria.
Ele desceu dois níveis por um elevador blindado, atravessou um túnel revestido com ligas de titânio negro e entrou em uma ala restrita: o setor de comando executivo.
Lá, após escaneamento ocular, uma porta se abriu suavemente. Dentro do escritório, o Líder Supremo da Blooddragons estava sentado diante de um painel de comunicação, seus olhos mergulhados em linhas de código.
Sythrax curvou levemente a cabeça.
— Confirmamos que Mirage falhou em sua missão por conta de um evento desconhecido, e foi capturada por um ex-soldado, seu nome é Cain, ele a torturou em busca de informações sobre nossa organização, mas mirage permaneceu fiel até o fim não revelando nada.
O Líder ergueu os olhos lentamente.
— Localizem-no. E traga-o para mim, quero respostas…
MOMENTO ATUAL.
Cain, com os pulsos algemados por ligas de contenção e uma venda negra tapando os olhos, era conduzido por dois androides sentinelas de escolta.
As portas da Sala do Conselho Inferior se abriram com um chiado agudo.
Era um salão amplo, circular, com iluminação baixa e atmosfera opressora. Ao centro, apenas uma cadeira metálica, para o interrogado. À frente, cinco tronos de comando, embora apenas quatro estivessem ocupados naquela noite.
Cain foi empurrado até a cadeira. Algemado, vendado, e agora cercado pelas presenças mais temidas da Blooddragons.
Na cadeira central estava Nexus — um homem de fala mansa, porém olhos frios como aço líquido. Especialista em manipulação psíquica e interrogatórios psicológicos.
Ao seu lado, de braços cruzados, estava V1RUX, o mais gentil dos membros, com feições jovens e olhos que carregavam uma tristeza antiga, quase empática.
À esquerda, recostado, Kryon, um brutamontes com cicatrizes por todo o corpo, emanava um desejo silencioso por violência. E, na ponta direita, Darkbyte, sorria com os dentes à mostra, olhos brilhando com prazer sádico — sua fama de torturador era lendária.
Nexus foi o primeiro a falar, com um tom suave e educado que contrastava com o momento.
Nexus: — Bem-vindo, Cain. Ou devo dizer... assassino...? Cain permaneceu calado.
Darkbyte se inclinou para frente, a voz quase cantada: — Tsc... nem um boa noite? E eu estava tão animado com a sua chegada.
Kryon soltou um grunhido baixo. — Se não falar, eu mesmo faço questão de abrir a garganta dele até as palavras saírem.
V1RUX ergueu a mão, tentando manter a calma no ambiente. — Não vamos começar assim. Ele está vendado e algemado. Vamos ouvir antes de julgar.
Nexus se levantou, deu alguns passos suaves até ficar bem próximo de Cain. Sua voz tornou-se mais fria.
Nexus: — Você cruzou uma linha ao interferir em uma operação da Blooddragons. Mirage... era valiosa. E você... matou um ativo classificado. (pausa) — Acha que isso ficará sem consequência?
Cain, ainda vendado, apenas respirava fundo. Sua postura era firme, mesmo naquela situação. Ele sussurrou, finalmente quebrando o silêncio:
Cain: — Eu fiz somente o que era necessário (pausa) — Ela não devia estar ali.
Darkbyte começou a rir, um riso agudo e descontrolado. — Aaaah! Ele acha que isso é sobre certo ou errado! Que gracinha!
Kryon: — Chega de conversa. Corta a língua e vê o que sobra da moral dele.
V1RUX olhou para Nexus, esperando um comando. Nexus, por sua vez, sorriu.
Nexus se inclinou, saboreando o momento como um predador prestes a dilacerar sua presa.
Nexus: — Calma, Kryon. Vamos brincar do meu jeito primeiro. (voltando-se a Cain) — Você matou Mirage, uma das nossas melhores. Silenciosa, letal… (ele se aproxima do rosto de Cain, quase sussurrando) — Mas mesmo ela não resistiu a um erro. Sorte sua. Ou azar.
Ele removeu a venda metálica dos olhos de Cain com movimentos lentos e calculados. A visão de Cain se ajustou rapidamente à sala — o ambiente semicircular escuro, as cadeiras elevadas, as figuras sinistras observando-o como juízes de um tribunal infernal.
Luzes oscilavam, ora vermelhas, ora azuladas, conforme os sistemas do conselho funcionavam em segundo plano. V1RUX, do outro lado, ativou uma câmera suspensa no teto com um simples comando gestual. Uma luz verde brilhou.
V1RUX: — Transmissão ativa. Arquivando Interrogatório 1490-C. Sujeito: Cain, ex-soldado de guerra. — Iniciando protocolo de extração psicológica.
Kryon então avançou, rugindo de prazer perverso. Ele segurava um bastão condutor, que começou a emitir faíscas elétricas com um zumbido ameaçador. Sem hesitar, Kryon cravou o bastão nas pernas de Cain — a dor foi imediata, e seu corpo estremeceu violentamente. Os gritos de dor ecoaram na sala, abafados apenas pelo zumbido das descargas. Nexus continuava observando friamente, impassível
Nexus: — Não é pelas informações... (pausa, observando Cain contorcendo-se) — É pela justiça. Pela ordem. Pela vingança. Você nos tirou uma peça valiosa... e agora, cada nervo seu vai pagar por isso.
Cain, ensanguentado, dentes cerrados, suava intensamente. A respiração pesada e trêmula indicava que sua resistência estava cedendo. Ele cuspiu no chão, mas não disse nada.
Kryon, com um sorriso animalesco, ergueu o bastão mais uma vez.
— Mais um pouco, só mais um pouco…
Mas naquele instante — a porta principal da sala se abriu com um som metálico profundo.
Um silêncio sepulcral tomou conta do ambiente.
Os quatro membros do conselho se voltaram imediatamente, as expressões de sadismo e fúria deram lugar a seriedade e... respeito.
Ele entrou.
Alto, presença dominante, cabelos curtos e verdes como folhas molhadas, olhos de esmeralda brilhantes que pareciam atravessar até a alma. Seu braço direito era completamente robótico, com partes expostas pulsando energia verdeada Usava um sobretudo escuro com símbolos sutis da Blooddragons estampados no ombro.
Cada passo que dava ecoava com autoridade.
Green havia chegado.Os membros do conselho se levantaram quase em uníssono, inclinando levemente a cabeça em sinal de reverência.
V1RUX foi o primeiro a falar:
V1RUX: — Senhor Green. Aguardávamos sua presença...
Kryon, com o bastão ainda na mão, abaixou o olhar em sinal de respeito.
Nexus se afastou de Cain e recuou, com a voz suavemente reverente:
Nexus: — O interrogatório estava... em progresso, mas sua chegada é sempre prioridade.
Darkbyte, ainda com um leve sorriso torto, murmurou:
Darkbyte: — Finalmente... o verdadeiro mestre da orquestra chegou.
Green permaneceu em silêncio por um momento, encarando Cain. O silêncio pesou como concreto sobre todos. Então, ele falou, com voz firme, sem alterar o tom:
Green: — Ele... está vivo. Isso já é mais do que eu esperava de vocês.
Os membros do conselho permaneceram quietos.
Green então se aproximou de Cain, agachando-se diante do ex-soldado.
Green: — Você tem algo que eu quero. E ao contrário deles... eu não preciso da dor para conseguir.
Cain, mesmo enfraquecido, ergueu o olhar, encarando-o.
Cain (ofegante): — Quem... diabos... é você?
Green sorriu, mas não havia gentileza naquele sorriso.
Green: — Eu sou o que vem depois da dor. (pausa) — E você, Cain... acabou de se tornar o homem mais importante dessa guerra.
A ordem de Green foi clara e sem espaço para contestação. Ele sequer olhou para os demais membros do conselho ao pronunciá-la.
Green (frio, incisivo):
— Levem-no para a Sala de Extração. Vamos torná-lo nosso...
Dois androides de escolta — modelos táticos da série DRX — se aproximaram de Cain, agora caído de joelhos, com o corpo marcado por feridas, suor e sangue. Eles o ergueram sem cuidado, segurando-o pelos braços, arrastando-o pelos corredores metálicos da base subterrânea. O som dos passos ecoava entre as luzes foscas e as sirenes distantes.
Cain mal conseguia reagir. Sua visão oscilava, e sua mente girava entre lapsos de consciência e dor. Seus músculos queimavam, e cada batida do coração parecia uma pancada final antes do fim.
A porta da sala de extração se abriu com um som abafado e pesado — pshhhhhht — revelando um ambiente estéril, iluminado por luz branca intensa.
No centro, uma cápsula vertical, translúcida, feita de uma liga metálica reforçada, com cabos serpenteando como veias mecânicas por todo o chão, ligados a um enorme painel de controle na lateral. Tela após tela exibia gráficos vitais, dados cibernéticos e projeções neurológicas em tempo real.
Os androides despiram Cain parcialmente, deixando-o semi-nu, expondo o tórax e membros superiores. Conectores metálicos foram cravados em pontos estratégicos do corpo — na espinha, têmporas, pulsos e peito — e fios surgiram como serpentes, ligando-se diretamente aos nervos e à base de sua coluna.
Ele tentou lutar, mas seu corpo já não respondia.
Cain foi colocado dentro da cápsula. Assim que os lacres se fecharam com um som hermético e abafado — pshh-clack! — o ar pareceu desaparecer por um instante.
Do lado de fora, Green aproximou-se do vidro, ficando a poucos centímetros do ex-soldado.
Green, com um sorriso frio, encarou-o nos olhos:
— Você será meu... a partir de agora.
(pausa)
— Um soldado leal. Sem falhas. Sem vontades.
(ele sorriu, seco e irônico)
— Melhor do que era antes.
Sem dizer mais nada, Green fez um pequeno aceno com a cabeça. Imediatamente, o operador do sistema ativou a sequência de transformação.
Painéis acenderam em vermelho. O processo começou.
— Iniciando protocolo: Reconversão de Unidade Humana 0049-A —
Cain gritou.
—AAAAAAARRRGHHH!!
(voz rasgada pela dor)
—O QUE... VOCÊS ESTÃO FAZENDO COMIGO?!
—TIREM ISSO DE MIM!
Seus olhos se arregalaram em puro desespero quando os sistemas começaram a alterar seu corpo. Os membros inferiores tremeram violentamente antes de serem removidos cirurgicamente — lâminas robóticas desceram, e os gritos foram abafados pelo som das brocas, das pinças e do plasma queimando a carne.
(grita mais alto conforme os membros são removidos)
—ME MATA LOGO, MALDITOS!
(grunhido de dor seguido de gemido sufocado)
—EU NÃO SOU DE VOCÊS!! EU... EU... AAAGGHHH!!
—NNNGHHHH—AAARRRGHHHHH!!
(pausas entre gritos, respiração pesada, soluços)
—GREEN!!! SEU DESGRAÇADO!! EU VOU... EU VOU TE...!!
Partes humanas começaram a ser substituídas por próteses de titânio negro com reforço de carbono. Os braços foram convertidos em peças modulares, adaptáveis a combate pesado. Cada articulação reconstruída emitia um som metálico abafado.
(os gritos se tornaram mais fracos, misturados ao som metálico da cirurgia e às ondas sonoras do chip sendo implantado. Por fim, um último rugido abafado ecoa...)
— NOOOOOOOOO—!!
(até que sua voz se apaga, suprimida pela programação e pela dor que rompeu sua vontade)
No cérebro, um chip de controle neural da Blooddragons foi inserido direto no sistema límbico. Ele brilhava em tons verdes, começando a emitir ondas que suprimiam memórias, vontades e emoções — substituindo tudo por lealdade programada, obediência, e um único propósito: servir a Blooddragons.
Green observava em silêncio, como um escultor satisfeito com sua criação torturante.
Aos poucos, os gritos de Cain cessaram.
Sua cabeça pendia para frente, olhos agora vazios... mas ainda vivos.
Do console, uma voz artificial anunciou:
— Conversão em 89%... Instalação de diretrizes de conduta... Upload de banco tático...
Green se virou e caminhou lentamente para fora da sala, deixando apenas uma frase no ar:
Green: — Bem-vindo de volta ao exército, Cain.
Em Astrid Niele e Suya saíram pelas passagens pressurizadas que levavam à cidade subaquática de Astrid. Suya vestia um traje completo de mergulho que lhe permitia se mover com facilidade sob a água, enquanto Niele, acostumada com o ambiente aquático, nadava ao seu lado com graça e naturalidade.
Atravessaram as vias principais da cidade, onde a arquitetura translúcida de cúpulas e túneis iluminados revelava o cotidiano pacífico dos habitantes.
Robôs aquáticos e membros da raça Krinis flutuavam suavemente entre as estruturas, dando breves acenos de cabeça às duas visitantes. Suya seguia com os olhos atentos, o coração pulsando com expectativa — havia algo de misterioso e antigo naquela cidade que a fazia sentir que estavam prestes a descobrir algo importante.
Após alguns minutos de nado pelos corredores submersos, chegaram ao majestoso Salão das Memórias, uma construção de vidro reforçado e pedra azulada,ornamentada com símbolos ancestrais.
Suya precisou ajustar o visor de seu capacete para enxergar com mais clareza os detalhes da entrada: dois robos aquáticos faziam a segurança do local, mas permitiram sua entrada após o reconhecimento de Niele.
Dentro, o salão era silencioso e solene, com registros armazenados em cubos de luz que flutuavam no ar, cintilando suavemente. No centro, sentado diante de uma mesa semicircular feita de coral esculpido, o Arquivista — um ancião Krinis de olhos brancos como a névoa e tentáculos curtos no queixo — aguardava calmamente.
Niele tomou a dianteira:
— Viemos saber mais sobre Filipe Ferreira e a Pedra do Despertar... Precisamos entender o que ele fez com ela.
O Arquivista inclinou a cabeça, seu olhar se estreitando como se varresse as camadas do tempo.
— Filipe Ferreira... esse nome está ligado a uma das memórias mais ocultas de Astrid. Se ele realmente teve posse da Pedra do Despertar, então o que vocês procuram está escondido nas profundezas da história esquecida. Vamos consultar os registros secretos...
Suya manteve-se atenta, sentindo a tensão crescer. Talvez estivessem mais perto do que nunca de descobrir a verdade sobre o passado de Filipe — e os perigos que aquela pedra ainda poderia representar.
O Arquivista, com movimentos lentos e solenes, guiou Suya e Niele através de um corredor curvado, até uma seção afastada e antiga do Salão das Memórias. As luzes ali eram mais suaves, e o silêncio era profundo, como se o tempo tivesse desacelerado dentro daquele espaço sagrado.
As paredes ao redor exibiam inscrições desgastadas pelo tempo, e no centro, repousando em suportes de cristal polido, estavam três cubos de memória envoltos por um brilho tênue.
O Arquivista se aproximou do primeiro com reverência e fez um gesto com as mãos, ativando sua projeção.
— Estas são as memórias de Filipe Ferreira, — disse ele com voz baixa, mas firme. — Fragmentos do passado que conseguimos preservar.
O primeiro cubo brilhou intensamente, revelando uma imagem nítida de um homem de olhar determinado e corpo atlético, movendo-se com agilidade debaixo d’água.
Filipe Ferreira, um nadador habilidoso, mergulhava até 20 metros de profundidade quando encontrou uma gema cintilante repousando entre rochas antigas. Ele a segurou nas mãos e a chamou de Pedra do Despertar.
No instante em que seus dedos tocaram a joia, um brilho intenso percorreu seu corpo, como se a magia estivesse viva. O campo de energia se espalhou em todas as direções, envolvendo cerca de 200 metros ao redor. A vegetação aquática floresceu, as águas tornaram-se calmas e cristalinas — ali nasceu Astrid. Imagens mostravam os que estavam com ele também tocando a pedra, recebendo o dom milagroso de respirar debaixo d’água entre outros.
O cubo seguinte flutuou suavemente para o centro.
O segundo cubo apresentou uma memória mais turva. A imagem tremia levemente, como se estivesse danificada pelo tempo, e o áudio vinha entrecortado. Era possível ver Filipe reunido com outros fundadores da cidade, em uma câmara circular de pedra.
As vozes soavam abafadas, mas uma breve discussão podia ser ouvida, com palavras como “poder”, “risco” e “esconder” emergindo entre ruídos e ecos. A tensão entre eles era visível, sugerindo que a Pedra do Despertar causava preocupação entre os fundadores.
O terceiro cubo surgiu e, ao ser ativado, revelou cenas profundas e misteriosas. Filipe estava em um local sombrio e ancestral — as antigas ruínas de Astrid, conhecidas como o Véu Profundo.
A imagem era surpreendentemente clara. Ele caminhava entre colunas partidas e símbolos antigos, carregando um mapa rudimentar. Em silêncio, Filipe começou a gravar inscrições em pedras e paredes: pistas enigmáticas sobre a Pedra do Despertar.
Com determinação, ele construiu um labirinto submerso — paredes altas, armadilhas e corredores ocultos. A memória o mostrava, por fim, colocando a joia mágica dentro de uma pequena caixa de madeira ornamentada com entalhes runicos, no centro do labirinto. Depois, tudo foi lacrado com selos antigos e esquecidos pelo tempo.
Silêncio.
Suya quebrou o clima, observando atentamente as imagens enquanto o cubo se apagava:
— Então Filipe fez uma câmara para esconder a pedra... inteligente ele. — Ela cruzou os braços, refletindo. — Mas quais serão os desafios que ele deixou? Precisamos ir até o Véu Profundo para verificar.
Niele assentiu com os olhos arregalados, visivelmente empolgada e um pouco nervosa.
— É arriscado, mas se alguém pode fazer isso... somos nós.
O Arquivista fechou os olhos lentamente, como quem ponderava a responsabilidade que havia acabado de entregar às duas.
— Sigam as pistas. Mas lembrem-se: nem todas as armadilhas são feitas de pedra e metal. Algumas dormem nos corações daqueles que esquecem por que começaram.
Após absorverem o peso das revelações, Suya e Niele se curvaram levemente em agradecimento ao Arquivista, que os observava com um olhar grave, como se soubesse que aquela memória as levaria a um destino incerto. Sem dizer mais nada, ambas se afastaram silenciosamente do Salão das Memórias, nadando de volta pelos túneis luminosos de Astrid.
Ao chegarem no laboratório central, Niele rapidamente assumiu o comando, seus olhos brilhando com determinação. Ela digitou comandos em painéis flutuantes e acionou o compartimento de armazenamento. De lá, emergiu um submarino leve de exploração, pintado com tons discretos de azul e cinza, resistente à pressão abissal.
— Preparei este veículo para você, Suya. É o melhor que temos, não se preocupe ele tem piloto atomatico alem disso levarei dois dos meus assistentes conosco para operar o submarino, enquanto exploramos — disse Niele enquanto ajustava a estrutura externa do submarino. — Tanques de oxigênio extras estão acoplados, junto com mantimentos selados e o propulsor de emergência. Não sabemos quanto tempo vai durar essa missão.
Suya conferiu o seu arco e colocou preso às costas, colocou seu punhal a cintura, checou o visor do capacete e testou os comandos internos do submarino antes de assentir.
— Pronta.
Com Niele nadando ao lado, ágil como um peixe, o submarino começou a deslizar silenciosamente pelas estruturas da cidade. À medida que avançavam, a luz se tornava escassa, e os prédios de Astrid davam lugar a formações rochosas cobertas de algas escuras e esculturas partidas pelo tempo.
Por fim, após descerem por um desfiladeiro subaquático, chegaram ao local envolto por penumbra e frio cortante: o temido Véu Profundo.
O solo era irregular, coberto por escombros e colunas inclinadas. Estruturas de uma era passada ainda se erguiam, retorcidas, como se sussurrassem histórias antigas. Suya saiu do submarino, seu traje pesado emitindo estalos de compressão ao se adaptar à pressão intensa da região.
Niele nadou até ela, preocupada:
— Está tudo bem? A pressão aqui é forte… pode causar desorientação.
Suya fechou os olhos por um instante, respirando lentamente, então assentiu com firmeza.
— Estou bem. Vamos em frente.
Elas nadaram por uma antiga passagem de pedra quebrada, onde o tempo parecia suspenso. Logo, chegaram a uma parede adornada com inscrições antigas.
No topo, brilhando em dourado, surgiu a primeira pista do desafio, entalhada em uma língua antiga que o NeuroBrace de Niele traduziu em tempo real:
"Três caminhos guardam a verdade. Três provas testarão o espírito. Escolha seguir — ou volte às sombras. O primeiro vigia. O segundo julga. O terceiro não perdoa.”
Ambas se entreolharam. Niele engoliu seco, sentindo o peso da mensagem.
Suya, com os olhos fixos nas ruínas à frente, respondeu em voz baixa:
— Então estamos no caminho certo... Vamos descobrir o que mais Filipe escondeu aqui.
Poucos metros depois, a entrada do templo se abriu à frente, ladeada por colunas caídas e estátuas rachadas. Mas então, algo se moveu. Um enorme polvo de oito tentáculos emergiu lentamente da escuridão, posicionando-se diante do portão como um guardião ancestral. Seus olhos brilharam em um tom âmbar, e ele não atacou — apenas bloqueou o caminho.
Suya parou imediatamente, instintivamente levando a mão ao punhal preso ao traje.
— E agora? Como vamos passar por isso?
Niele observou o polvo por alguns segundos, notando a ausência de agressividade. Um brilho de ideia surgiu em seus olhos.
— Acho que tenho uma ideia… me dá um segundo.
Com movimentos calmos, ela se aproximou do polvo, abrindo os braços levemente para mostrar que não representava ameaça. A criatura a observou com seus olhos atentos, os tentáculos ondulando suavemente com as correntes.
Niele falou, sua voz transmitida por microfrequência aquática:
— Guardião das portas, não viemos tomar o que é sagrado. Buscamos conhecimento. Permita nossa passagem… ou nos diga o que devemos provar.
Niele manteve-se imóvel diante do polvo, sentindo a tensão no ambiente aumentar. Os tentáculos da criatura se agitaram suavemente, como se lessem o fluxo da água — ou os pensamentos dela. Foi então que uma presença invadiu sua mente. Não era invasiva, mas profunda, como um eco antigo que ressoava em sua consciência.
A voz era grave, lenta e ancestral, como se viesse das profundezas do tempo:
“Antes de entrar… prove o seu valor.”
Os olhos de Niele se arregalaram. Ela não estava ouvindo com os ouvidos — era sua mente que captava cada palavra, como se o próprio oceano estivesse sussurrando dentro dela.
“O caminho a seguir não é para os fracos… Não para os impacientes… Não para os egoístas.”
O polvo ergueu dois de seus tentáculos com lentidão solene, como se fizesse um gesto ritualístico. A água ao redor parecia vibrar.
“Sacrifique… o que você tem de mais valioso.”
O silêncio que se seguiu foi denso e absoluto. Suya, que observava à distância, não havia escutado nada, mas percebeu a mudança na expressão de Niele.
Niele sentiu o peso das palavras reverberarem em seu peito. Ela sabia que não era uma metáfora qualquer. Algo real seria exigido. O guardião não se moveria até que a condição fosse cumprida.
Ela virou-se para Suya, com o semblante grave.
— Ele quer… um sacrifício. O que tenho de mais valioso.
Suya se aproximou um pouco mais, confusa.
— Como assim? Ele falou com você?
Niele assentiu lentamente.
— Não com palavras. Com a mente. E ele foi claro…
Fez uma pausa, engolindo em seco.
— quer que a gente sacrifique o que tem mais valor… só assim ele vai nos deixar passar.
Suya, até então calada, desviou o olhar para baixo por um momento. A hesitação em seu semblante era evidente. Ela apertou os lábios, como se lutasse contra um turbilhão interno.
— Talvez… talvez eu tenha algo… — disse em voz baixa, sua voz abafada pelo comunicador do traje. — Espero que seja o suficiente para ele nos deixar passar.
Com dedos trêmulos, Suya levou a mão até o zíper do traje, logo abaixo do capacete, na região do pescoço. Cuidadosamente, o abriu apenas o bastante para alcançar um pequeno objeto preso por uma corrente fina. Seus dedos puxaram com delicadeza o medalhão prateado, agora tremeluzindo sob a luz azulada das profundezas.
Era uma peça antiga, mas bem cuidada. No metal suavemente corroído pelo tempo, estava gravado um único nome: "Violet."
Suya fitou o medalhão por um instante, os olhos marejando. A lembrança de seu pai surgiu forte — a despedida silenciosa, a mão dele segurando o medalhão, o gesto final antes de ela partir em nome do rei e da rainha de Grimor. Aquilo não era só um acessório. Era tudo que ela tinha dele. Seu passado, sua raiz.
Sem dizer mais nada, Suya nadou devagar até o polvo guardião, os movimentos cuidadosos, respeitosos. A criatura não se moveu, apenas observava, como se compreendesse a profundidade do momento.
Ao se aproximar de um dos tentáculos, Suya estendeu o braço, abrindo a mão com delicadeza. O medalhão repousava ali, cintilando suavemente. Ela o colocou com reverência sobre o tentáculo curvado da criatura.
— Aqui está… algo que carrego comigo desde o início. Algo que nunca pensei em deixar para trás. — sua voz quase falhou. — Se é isso que precisa… então leve.
O tentáculo do polvo se fechou lentamente em volta do medalhão, como uma flor aquática se recolhendo. Um brilho tênue dourado percorreu o corpo do guardião, e por um momento, as inscrições na parede atrás dele pulsaram em resposta.
Em seguida, um som grave e profundo ecoou pela água — um ressonar ancestral, como o ruído de portas colossais se abrindo apos o guardião lhes dar apassagem.
Antes de se moverem, Niele sentiu novamente a presença na mente. A voz do polvo soou uma última vez, com o peso de um aviso e a dignidade de quem cumpre um juramento:
“Tomem cuidado… o caminho à frente não será fácil. Boa sorte.”
Então o silêncio se instalou. A conexão se rompeu.
Suya lançou um último olhar para o guardião, seu coração ainda apertado pela perda do medalhão. Niele assentiu para ela com determinação, e juntas, as duas nadaram com cautela pela entrada recém-aberta.
Logo foram envolvidas por um corredor amplo, onde colunas de pedra se estendiam dos dois lados. Entre elas, estátuas imponentes e desgastadas se alinhavam em silêncio: figuras altas, vestidas com mantos esculpidos, com mãos erguidas em gestos solenes.
— São os fundadores… — murmurou Niele, observando os olhos vazados das estátuas.
A água ao redor parecia mais densa, carregada de memórias esquecidas. Os rostos das esculturas, embora gastos pelo tempo, ainda emanavam autoridade. Algumas estavam rachadas, outras cobertas por limo.
Ao final do corredor, uma grande porta de pedra curva, adornada por inscrições antigas e musgo submerso.
Niele passou a mão por uma das inscrições, e com um leve estalo, a porta se abriu, rangendo como se despertasse de um sono milenar.
Diante delas, revelou-se uma visão deslumbrante.
Entraram em uma câmara imensa, esculpida dentro da rocha com arquitetura antiga, e imediatamente foram envolvidas por uma luz suave e dançante. Por toda a parte, cristais bioluminescentes brotavam das paredes, do teto e até do chão. Alguns flutuavam soltos na água, como pequenas estrelas submersas, emitindo tons de azul, verde e roxo.
A luz que emanavam não só iluminava, mas parecia viva, pulsando em um ritmo sereno, quase como um coração respirando.
Suya ficou imóvel por um momento, seus olhos arregalados sob o visor do capacete. — É... lindo demais pra ser real... — murmurou, a voz quase se perdendo entre os ecos da água.
Niele girou lentamente no centro da câmara, observando tudo com fascinação.
— Este lugar... não foi feito apenas com pedra. Tem magia aqui. Magia antiga. Como se a própria natureza tivesse ajudado a construir isso.
Pequenos peixes transparentes passavam entre os cristais, cintilando como fragmentos de luz viva. E ao centro da sala, elevando-se do chão como uma flor cristalina, havia uma plataforma circular, coberta por símbolos rúnicos parcialmente apagados pelo tempo.
Quando Suya e Niele se aproximaram da plataforma circular no centro da câmara, os cristais ao redor pulsaram com mais força, como se despertassem. A água ficou mais quente, e o chão sob seus pés tremeu levemente.
Rachaduras suaves se abriram no centro da plataforma, e dela emergiu, lentamente, uma tartaruga antiga, de tamanho normal, com o casco marcado por séculos de inscrições rúnicas. Seus olhos brilhavam com uma luz profunda, quase onírica, como se contivessem memórias do mundo desde sua origem.
Ela ergueu lentamente a cabeça e falou, com uma voz serena que se espalhava diretamente nas mentes de Suya e Niele, suave como correnteza calma, mas firme como pedra ancestral:
"Vocês chegaram ao segundo nível… Aqui, serão testadas não pela força ou astúcia, mas pela essência de suas almas. O desejo é o reflexo do coração, e muitos se perdem ao segui-lo sem equilíbrio."
Com isso, a tartaruga fez um movimento suave com sua nadadeira, e dois portais de água se abriram diante de Suya e Niele. Eles surgiram com um som suave de correnteza mágica, espiralando de baixo para cima como colunas líquidas envoltas em luz azulada.
As águas dentro dos portais giravam devagar, como se mostrassem vislumbres do que havia além: memórias, rostos, fragmentos de desejos... e algo mais, algo incerto.
A voz da tartaruga soou uma última vez, grave e serena, ecoando apenas em suas mentes:
"Cada uma de vocês enfrentará o reflexo de seu desejo. Se saírem, terão vencido. Se caírem, estarão presas... e aqui se encerrará a sua jornada."
Sem dizer mais nada, a tartaruga se virou lentamente e mergulhou novamente entre os cristais, sumindo como a primeira vez.
Suya e Niele se entreolharam. Os rostos estavam sérios, mas os olhos, cheios de confiança mútua.
Suya respirou fundo, o som abafado por dentro do capacete do traje.
— Boa sorte, Niele... — disse ela com um meio sorriso. — Nos vemos logo, sim?
Niele assentiu, com um brilho determinado nos olhos.
— Boa sorte, Suya... nos vemos do outro lado.
Elas acenaram levemente com a cabeça uma para a outra.
Então, em sincronia, ambas avançaram — cada uma em direção ao seu portal.
Assim que Suya e Niele atravessaram o véu líquido, os portais fecharam-se atrás delas com um redemoinho de luz, como se os tivesse engolido.
VISÃO DE NIELE
Assim que atravessou o portal de água, Niele emergiu em uma sala envolta por cristais com brilho suaves, como se estivesse entre o presente e um sonho. No centro, um espelho alto de moldura dourada, parecia chamá-la com uma leve vibração no ar.
Curiosa e cautelosa, Niele se aproximou. Quando sua mão tocou a superfície fria do espelho, uma luz intensa explodiu diante dela — não ofuscante, mas acolhedora — revelando uma visão tão vívida que parecia real.
Ela se viu em um gigantesco laboratório, repleto de tecnologias de ponta, livros raros e artefatos mágicos. Pesquisadores a aplaudiam enquanto uma figura solene a coroava com o título de "A maior estudiosa da história de Eteria". Havia reconhecimento, poder, respeito... e, acima de tudo, um enorme retrato de Niel e Mia Semon estampado na parede do laboratório — seus antepassados, descobertos, honrados.
Niele sorriu, emocionada, os olhos marejados.
Então, o espelho falou com uma voz aveludada e sedutora, que vibrava direto em sua mente:
"Você pode ter tudo isso, Niele... Posso fazer esse seu desejo se realizar. Basta tocar a superfície e dizer: 'realize meu desejo'. Você nunca mais terá que perder noites de sono com pesquisas ou se preocupar com financiamentos. Terá conhecimento, influência, tudo ao seu alcance... basta apenas dizer."
Niele hesitou. Seu coração batia forte. Aquilo era o que ela mais queria… E então ela perguntou, com os olhos fixos no reflexo:
— E a Suya? O que acontecerá com ela?
A voz do espelho respondeu quase instantaneamente, com um tom tranquilizador:
"Ela ficará bem. Você a verá novamente… e poderá ajudá-la a reencontrar os amigos dela ainda mais rápido. Pense nisso como uma forma de ajudá-la também."
A dúvida queimava dentro de Niele. A tentação era real. Lentamente, ela estendeu a mão e tocou o espelho…
— Eu...
No mesmo instante — VISÃO DE SUYA
Ao atravessar o portal, Suya foi envolvida por uma sensação morna e familiar. Quando abriu os olhos, estava em uma floresta serena, banhada pela luz suave do dia. O canto dos pássaros era reconfortante, e uma brisa leve balançava as folhas.
Mais adiante, vozes conhecidas.
Ela seguiu o som com passos apressados… e então os viu: Lua, Bryan e Corey, sentados ao redor de uma fogueira improvisada, sorrindo e conversando como nos velhos tempos. Quando Lua notou a presença de Suya, abriu um largo sorriso.
— Suya! Vem, senta com a gente!
Sem pensar, Suya correu e se sentou entre eles. A paz era tão palpável que parecia eterna. A noite chegou devagar, com as estrelas brilhando acima. Um a um, seus amigos foram dormir em suas tendas.
No segundo dia, Suya acordou… e tudo se repetiu. Mesmo céu, mesma fogueira, mesmas palavras.
Na manhã seguinte, novamente.
Foi aí que ela percebeu: aquilo não era real. Não era o agora — era uma cópia da sua lembrança mais feliz.
Ainda naquele ambiente de floresta ilusória, o vento soprou, mas com um sussurro estranho:
"Você pode viver aqui para sempre. Será como se nunca tivessem se separado."
E enquanto o vento falava, as memórias de Suya com seus amigos passaram diante de seus olhos: risos, aventuras, batalhas vencidas, os laços que os uniam.
A voz continuou, doce e tentadora:
"Você não precisa ir longe. Posso levá-la até eles… agora mesmo."
Mas Suya, tomada por uma angústia profunda, gritou:
— CHEGA!
O cenário se dissolveu em fragmentos, como vidro quebrado.
Agora, Suya estava em um vazio profundo, uma extensão escura dentro de sua própria mente.
Ela ficou em silêncio… depois, murmurou:
— Eu não quero viver no passado. Por mais que eu sinta falta deles… por mais que eu queira voltar ao que era antes...
Sua voz se fortaleceu, tomada pela firmeza da decisão.
— Eu não sei o que o futuro me reserva… mas sei que, lá fora, em algum lugar, eles estão me esperando. Meus amigos de verdade… e minha esperança de revê-los é maior do que qualquer ilusão. Eu escolho continuar... porque eu acredito neles… e eles acreditam em mim!
Assim que terminou de falar, uma luz surgiu diante de Suya. O vazio sumiu, e ela se viu de volta à câmara dos cristais.
A plataforma brilhava suavemente, e os cristais pulsavam em tom calmo.
Ela havia passado.
Mas, ao olhar ao redor, percebeu… Niele ainda não estava lá.
O alívio por sua própria vitória foi rapidamente substituído por uma inquietação crescente.
Algo estava errado.
DE VOLTA A VISÃO DE NIELE
No mesmo instante, o brilho do espelho se intensificou, envolvendo Niele em uma luz dourada e cálida. A energia parecia acariciar sua pele, como um sussurro doce que prometia tudo que ela sempre sonhara. Seu coração batia rápido, a ponta dos dedos pressionando o espelho mágico. A voz sedutora ecoava com mais força, envolvente, quase maternal:
"Diga... e tudo será seu. Conhecimento sem limites. Reconhecimento eterno. Um legado imortal..."
Niele fechou os olhos por um instante. As imagens em sua mente eram vívidas: ela de jaleco, discursos emocionados, sua foto em livros de história, crianças estudando sobre suas descobertas. O laboratório perfeito...
Ela abriu os olhos — E então, algo incomodou. A expressão no reflexo parecia... vazia. O sorriso era triunfante, mas os olhos não carregavam alegria genuína. Eram olhos frios. Solitários.
Niele retirou a mão do espelho, hesitando, com a respiração acelerada.
— Se tudo me for dado... quem eu serei no fim? — murmurou.
O espelho vibrou levemente, como irritado.
"Você será completa. Terá tudo! Por que hesitar? Suya não precisa de você fraca, precisa de você poderosa!"
Mas Niele franziu a testa. Ela olhou para as mãos, lembrou-se das noites em claro estudando, do som animado de Suya rindo durante as viagens, da forma como ambas se apoiaram até ali.
— Não... — disse com firmeza, dando um passo para trás. — Se eu não lutar por isso, se não viver cada passo... então não é real. E Suya não precisa de uma sombra de mim.
O espelho estalou. As bordas trincaram com um som agudo. A imagem dourada começou a distorcer.
"Você... está recusando... tudo?"
— Estou escolhendo o verdadeiro caminho, — afirmou Niele, virando-se.
No mesmo instante, uma luz suave a envolveu, e o espelho explodiu em fragmentos líquidos que flutuaram como bolhas e desapareceram no ar. O chão brilhou sob seus pés, formando um caminho de volta à câmara principal.
Niele respirou fundo. Estava ofegante, o coração acelerado, mas firme.
— Espero que Suya também esteja bem... — murmurou.
E assim, com passos decididos, ela seguiu adiante, tendo vencido a provação.
Após vencer a provação, Niele emergiu da passagem mágica de volta à câmara de cristais. A luz suave a envolveu, e os cristais ao seu redor ainda pulsavam em tons tranquilos. Ela olhou ao redor, ofegante, até que avistou Suya à frente, olhando para ela com os olhos arregalados de preocupação.
— Você tá bem? — perguntou Suya, nadando rapidamente até ela.
Niele sorriu, cansada mas firme, e tocou o ombro da amiga.
— Estou bem... consegui. E, com um olhar cúmplice, acrescentou: — E você?
Suya assentiu, embora seus olhos denunciassem a intensidade do que vivera. Não era necessário explicar. Ambas haviam enfrentado algo profundo, pessoal... e venceram.
De repente, os cristais da câmara começaram a brilhar intensamente, seus tons se alternando em espirais de luz que se uniram ao redor delas. O solo sob seus pés pareceu sumir, e a água tremeu com uma vibração mágica.
Num piscar de olhos, ambas foram teletransportadas para o próximo local.
Agora, Suya e Niele estavam em pleno mar aberto, cercadas por um azul profundo e imenso. A correnteza era suave, mas havia algo no ar — ou melhor, na água — que deixava a respiração pesada, o coração alerta.
À frente, elas avistaram um enorme navio afundado, parcialmente coberto por corais e plantas marinhas. O casco estava rachado, e fragmentos de madeira flutuavam ao redor.
Mas o que realmente chamou a atenção foi o que cercava o navio: cerca de cinquenta tubarões, nadando em círculos. Alguns eram espécies comuns — tubarões brancos, tigres, martelo — mas apenas três deles era completamente estranhos.
Niele e Suya se entreolharam.
— O último desafio... — murmurou Niele.
— Um teste de coragem, — completou Suya, com a voz firme, mas os olhos atentos.
Não havia caminho ao redor. A única passagem era atravessar o campo dos tubarões e alcançar o navio afundado.
Ao longe, um leve brilho dourado podia ser visto entre os destroços do navio — sinal claro de que algo importante os aguardava lá dentro.
O silêncio foi interrompido apenas pelo som da água ao redor... e os sussurros do medo, que tentavam infiltrar-se em seus corações.
A prova final havia começado.
Suya retirou o arco das costas, a tensão do momento se refletia em seus olhos estreitos. Ela segurou firme, posicionando-se levemente à frente, como uma protetora instintiva.
Virou-se para Niele e perguntou em voz baixa, porém firme:
— Pronta?
Niele respirou fundo, tentando manter o foco. A imagem dos tubarões circulando lentamente ainda era assustadora, mas ela sabia que hesitar agora significava fracasso. Ela assentiu com convicção.
— Vamos.
As duas começaram a nadar com cautela, em sincronia. Movimentos suaves, quase como se tentassem não perturbar a água ao redor. Os olhos atentos de Suya analisavam cada metro do campo à frente, e então ela viu uma brecha.
Com precisão, Suya puxou uma flecha encantada, envolta em um brilho suave e atirou para o lado oposto do navio afundado. A flecha voou silenciosa e certeira, mergulhando no fundo marinho e liberando uma leve descarga de luz e vibração.
Imediatamente, cerca de 48 tubarões comuns — brancos, martelo e tigres — reagiram à energia da flecha mágica e nadaram em disparada em sua direção, como predadores atraídos por uma presa em fuga.
O que restou foram três tubarões distintos., eles tinham um brilho nos olhos e uma forma que os tornava nitidamente distintos: eram maiores, mais antigos, suas escamas tinham um brilho rúnico fraco, com inscrições esquecidas pelo tempo.
Eles não reagiram à flecha.
Niele e Suya nadaram lentamente até a frente deles, elevando uma mão num gesto calmo. Seus lábios não se moveram, mas sua mente emitiu sinais — uma linguagem aquática antiga, aprendida nos textos de Astrid.
“Pedimos passagem. Viemos para cumprir a última provação.”
Os tubarões ancestrais cessaram o movimento e encararam Niele e Suya . Seus olhos brilharam. Uma resposta ecoou diretamente na mente delas, em um tom zombeteiro e arrogante.
— Passagem? Hah! Vocês acham que podem simplesmente chegar aqui e pedir, ahhhahahh.
Outro tubarão girou ao redor de Niele e Suya, lento e ameaçador, sua voz igualmente escorregadia:
— Aqui, apenas os verdadeiros corajosos sobrevivem. E coragem não se prova com palavras... se prova com sangue.
O terceiro, mais velho, aproximou-se ainda mais e murmurou:
— Mostre - nos do que são feitas, Ou afunde para sempre neste cemitério de heróis.
Niele sentiu um calafrio percorrer sua espinha. As palavras dos tubarões ecoavam com força em sua mente, reverberando como correntes invisíveis tentando prendê-la ao fundo daquele mar silencioso. O olhar deles era penetrante, desafiador — como se pudessem ver através de sua alma, de sua história, de suas dúvidas.
Ela sabia que não bastava pedir. Ali, coragem era uma ação. Uma escolha.
Niele fechou os olhos por um breve instante. Pensou em Suya. Pensou nos Heróis Valentes.
Lembrou-se de como quase cedeu ao espelho na provação anterior. Ela não queria falhar agora.
Abriu os olhos. Nadou lentamente para mais perto dos tubarões. Eles rosnaram em silêncio, atentos, mas não atacaram.
— Eu não tenho força bruta como vocês, disse Niele em sua mente, com firmeza. Mas tenho algo mais. Tenho fé. E tenho companheiros que confiam em mim. Mesmo com medo, eu escolho continuar. Se tiverem que me devorar por isso, que assim seja. Mas não recuarei.
Logo após a fala decidida de Niele, um dos tubarões ancestrais, sem aviso, avançou com velocidade absurda e escancarou a mandíbula, engolindo Niele inteira num só movimento. O som abafado da água sendo deslocada e o estalo da boca fechando ecoaram como trovões silenciosos no fundo do mar.
Suya congelou. Seus olhos se arregalaram, seu coração disparou. — Niele...? — murmurou, incrédula. — Não... NÃO!
O segundo tubarão, com um ar arrogante e desafiador, circulou em volta dela e murmurou com uma voz gutural, ecoando direto em sua mente:
— Prove sua coragem, menina... ou junte-se aos fracos.
Suya trincou os dentes, sua mão tremeu ao empunhar o arco, mas seu olhar ganhava foco. A flecha mágica brilhou com um roxo firme.
la a preparou com precisão, mirando no tubarão que havia engolido Niele.
— Se for coragem que vocês querem... — ela murmurou com a voz firme — então encarem o peso da minha vontade!
Antes que ela pudesse soltar a flecha, o terceiro tubarão deslizou como um raio pela lateral, veloz e silencioso como uma sombra viva. Suya apenas teve tempo de virar o rosto antes de ser engolida por completo.
Silêncio. Escuridão.
Suya sentia seu corpo leve, como se flutuasse num vazio. Estava com os olhos fechados. Achava que havia morrido.
— Suya... Suya, abra os olhos. Estamos vivas...
A voz familiar quebrou o vazio. Suya abriu os olhos num sobressalto e viu Niele ali, ilesa, flutuando ao seu lado.
— Niele! Você... — Suya a abraçou com força, tremendo. — Você está bem! Mas... como?!
Niele, ainda meio confusa, sorriu, mesmo ofegante.
— Não sei. Acho que... passamos. Isso tudo foi o teste. Um desafio de coragem até o último segundo.
Ambas então olharam ao redor. Estavam em um lugar completamente diferente: uma biblioteca submersa, um salão magnífico com fileiras e fileiras de estantes antigas de pedra e coral, repletas de livros protegidos magicamente contra a água. Cristais azuis brilhavam fracamente entre os móveis, e no centro da sala havia uma grande mesa de mármore branco.
— Esse lugar… — sussurrou Niele. — Foi criado por Filipe... o mesmo dos registros antigos. Aqui ele guardava seu conhecimento.
Sobre a mesa, repousava uma pequena caixa de madeira ornamentada com entalhes rúnicos. Suya se aproximou, mas percebeu que estava trancada.
— Precisamos da chave. — disse ela.
Sem perder tempo, ambas começaram a procurar entre os livros. Nadavam de uma estante a outra, vasculhando cada canto, puxando volumes com cuidado. Niele, ao abrir um tomo antigo de capa marrom dourada, parou de nadar por um momento.
— Suya... olha isso! — Ela mostrou o título do livro:
"Ningen to Myūtanto – Humanos e Mutantes"
— Foi escrito por Filipe...
Dentro do livro, cuidadosamente guardada entre as páginas centrais, estava a chave.
— Achei! — disse Niele, empolgada. — Mas vou levar esse livro também… ele parece facinante, quem sabe entre as paginas não tenha algum segredo de Filipe.
Suya olhou para Niele e disse: — não parece ser esse tipo de livro, parece mais ser apenas uma historia ficticia criada por ele, mas se te interessou leve.
Enquanto Niele folheava as paginas perdida na história,
Suya pegou a chave, voltou à mesa e abriu a caixa. Dentro dela repousava a Pedra do Despertar, emanando um brilho fraco em tom azul, como um coração adormecido.
— Uau… — disse Suya, fascinada, estendendo a mão.
— Suya, espera! — gritou Niele. — Essa pedra… ela é mágica! Tem que tomar cuidado!
Mas era tarde.
Assim que Suya tocou a pedra, uma onda de energia percorreu seu corpo, envolvendo-a em luz azulada por um instante. Seus olhos brilharam, e ela sentiu uma sensação estranha, como se algo tivesse sido ativado dentro dela.
— NÃO!! — gritou Niele, nadando até ela. — Você usou a magia… Suya, essa era a Pedra que deu origem aos Krinis! Ela só pode ser tocada por um Krini para não liberar sua energia!
Suya arregalou os olhos. A pedra agora estava sem brilho, apenas um cristal azul comum.
— Eu… eu esqueci... — murmurou ela, segurando a pedra nas mãos.
— Tudo bem… já aconteceu. Talvez essa energia agora faça parte de você. — respondeu Niele,
Suya riu levemente, mesmo abalada. Prendeu o cristal sem energia ao seu bracelete, — se encontrar-mos Luarina , talvez ela possa reenergizar o cristal com a magia dela.
— Otima ideia, espero que ela consiga, respondeu Niele.
Ambas começaram a procurar a saída.
Atrás de uma estante parcialmente tombada, havia uma passagem entre as rochas. Nadaram por ela e, do outro lado, a água começou a ficar mais clara… mais leve… até que emergiram.
Quebraram a superfície de um lago sereno, no meio de uma floresta coberta pela névoa da noite. A luz da lua refletia sobre as árvores e as águas calmas.
**Estavam de volta ao mundo real, mas onde exatamente?
Continua….**
Related Posts :
- Back to Home »
- capítulo Cronos »
- Desafios nas ruínas submersas. CP.12.







