Em Astrid, o clima era de pura tensão. Niele, Suya e Cain corriam pela saída de emergência do laboratório, seus passos apressados ecoando pelos corredores metálicos, saindo pelas comportas de acesso ao mar profundo, os três ativaram seus trajes de mergulho e mergulharam rumo à zona segura da cidade.
A água tremia ao redor deles, enquanto nadavam com pressa, seus corpos ágeis cortando as correntes em direção ao centro de segurança da cidade, sabiam que não tinham tempo a perder—o laboratório onde estiveram era uma armadilha mortal, e agora precisavam alertar as autoridades antes que fosse tarde demais.
Mas a travessia não foi tranquila. Quando já se aproximavam dos domos iluminados da unidade subaquática, foram interceptados por uma patrulha de robôs mergulhadores. Silenciosos e ameaçadores, suas luzes vermelhas cortavam a escuridão do fundo do mar. À frente deles, estava uma figura imponente: uma mulher de expressão fria, cabelos negros longos amarrados em um rabo de cavalo firme, e olhos azuis penetrantes como gelo.
Ela mantinha o controle total da situação por meio de um bracelete tecnológico acoplado ao braço — um dispositivo militar de última geração, extremamente avançado. Com simples gestos e comandos, ela coordenava os movimentos dos robôs ao seu redor, como se fossem extensões de sua vontade. A água vibrava com a tensão iminente do confronto.
— Vocês não vão mais além — disse ela com firmeza, sua voz amplificada pelo comunicador embutido no capacete. — Entreguem os dados e ninguém se machuca.
Suya, Cain e Niele pararam de imediato. A ameaça era clara, e o tom da mulher não deixava margem para negociação. Com um olhar rápido entre si, calcularam suas chances. Fugir era impossível. Render-se, impensável.
Suya moveu a mão discretamente até seu arco, os dedos roçando a empunhadura com naturalidade. Cain cerrou os punhos, os músculos se retesando sob o traje de mergulho, pronto para o combate. Mas antes que qualquer um pudesse reagir, um som retumbante rasgou o silêncio do oceano.
Um estrondo brutal, um pulso sonoro de origem desconhecida, reverberou pelas águas como um trovão aprisionado em um mundo líquido. O impacto foi imediato.
Os robôs mergulhadores começaram a estremecer. Suas carcaças metálicas tremeram, circuitos falhando em cascata. Luzes piscavam freneticamente em seus olhos artificiais, antes de se apagarem uma a uma. Como marionetes com os fios cortados, tombaram, afundando lentamente rumo à escuridão abissal.
O trio observou em choque o súbito colapso dos inimigos. A ameaça inicial permanecia ali, mas agora havia algo mais em jogo — alguém, ou algo, interveio de forma devastadora.
— O que foi isso...? — murmurou Cain, os olhos varrendo a escuridão ao redor.
A mulher observava incrédula enquanto seus robôs mergulhadores, um a um, falhavam e afundavam lentamente, no fundo, escuro do oceano. Seu controle sobre a situação ruía diante de seus olhos. Em um impulso de desespero, ela levou a mão ao coldre preso à lateral do traje e puxou uma pistola laser, girando o corpo com agilidade para apontar em direção ao grupo. Estava em desvantagem, sozinha agora, mas ainda disposta a lutar.
Sem hesitar, ela disparou — um feixe de energia cortou a água em direção a Suya.
Mas antes que o raio pudesse atingir seu alvo, Niele reagiu instintivamente. Ela apertou um botão no bracelete preso ao pulso e, com um zumbido agudo, um escudo translúcido de energia se projetou à frente do grupo. O disparo colidiu contra a barreira com uma explosão cintilante, dissipando-se sem causar danos.
Percebendo que a situação havia virado contra ela, a mulher girou o corpo e iniciou uma fuga rápida, nadando com vigor em direção à escuridão, como se conhecesse bem o caminho.
Cain não hesitou. Impulsionando-se com força, nadou atrás dela com uma determinação feroz. Em sua mão, ativou o chicote de energia — uma arma de luz vibrante que se estendeu como uma serpente luminosa através da água. Com precisão, ele o lançou e agarrou o tornozelo da fugitiva. A energia pulsou ao redor do chicote, imobilizando a mulher que se contorceu inutilmente, agora capturada.
Enquanto Cain a trazia de volta, Suya e Niele se aproximaram, ainda tentando compreender o que acabara de acontecer — o colapso dos robôs, o ataque repentino e agora, a mulher rendida.
Sem perder tempo, o grupo se reagrupou com Cain, que segurava firmemente a prisioneira, e juntos começaram a nadar em direção à base de segurança de Astrid.
O caminho até a base de segurança de Astrid foi tenso e silencioso, exceto pelo som abafado das bolhas e o zumbido distante das correntes submarinas. A estrutura da base, iluminada por luzes azuladas, emergiu da penumbra conforme o grupo se aproximava — um enorme domo de vidro reforçado e aço, ancorado no leito oceânico, com torres de vigilância e drones aquáticos circulando ao redor.
Assim que chegaram à entrada principal, um scanner os identificou e abriu as comportas externas. A água foi drenada rapidamente e, em segundos, eles estavam em uma câmara de transição onde puderam respirar o ar seco e fresco da base. Guardas armados os aguardavam, surpreendendo-se ao ver a prisioneira algemada que Cain arrastava pelo braço.
— Temos uma invasora, possivelmente ligada a uma rede de espionagem tecnológica, — disse Cain com firmeza, entregando a mulher aos seguranças.
Ela apenas sorriu de canto, apesar da situação. "Vocês não fazem ideia do que estão enfrentando..." Cain não respondeu, apenas a observou ser levada para dentro.
Suya ainda ofegava, olhando ao redor, tentando processar o que tinham vivido. — Aqueles robôs... eles estavam sob controle dela. Mas o que causou o colapso de todos ao mesmo tempo?
Niele, franziu o cenho. — Não fui eu. Meu escudo é defensivo. Aquela onda sonora... deve ter vindo de outra fonte. Talvez alguém — ou algo — esteja observando a movimentação no oceano. E interferiu.
Eles foram guiados por um dos oficiais até uma sala de briefing, onde puderam repousar brevemente. A prisioneira, sob forte vigilância, seria interrogada em uma cela protegida.
Uma tela acendeu na sala, revelando a imagem do Coronel Lucien Thorn, responsável pela segurança de Astrid. Seu rosto estava carregado de tensão.
— Recebemos o sinal da interferência sônica ao mesmo tempo que vocês. Estamos rastreando a origem, mas ainda é incerta.
A atmosfera na sala de comando da base de segurança de Astrid era carregada de tensão e importância. A tela à frente mostrava a prisioneira sentada em silêncio, algemada, sendo vigiada por dois guardas armados. O Coronel Lucien permanecia de pé, imponente, com as mãos cruzadas atrás das costas enquanto observava a gravação ao lado do grupo.
— No entanto, essa mulher... — disse ele, sua voz firme ao apontar para a imagem ampliada da prisioneira na outra sala — … estava em nossa lista de vigilância. Interceptamos atividades suspeitas dela algumas semanas atrás vindas de Eteria.
Ele se virou para encarar o grupo, com o semblante sério.
— Investigamos um pouco e descobrimos que ela faz parte de uma organização cibercriminosa. Ainda não sabemos quem está por trás dela — o mandante permanece um mistério. Mas temos evidências de que esse grupo atua há pelo menos dois anos com roubos de dados de empresas multimilionárias, sabotagem de redes privadas e publicas e manipulação de sistemas de segurança de alto nível. Eles são meticulosos, eficientes, e nunca deixavam rastros... até hoje.
O ambiente silenciou por um momento. Os olhos de Lucien se estreitaram, reconhecendo o peso daquele passado.
— Então estamos diante de um guerreiro da velha linha de frente... — disse ele com respeito. — É uma honra, Cain. Seu instinto e ação rápida impediram que essas informações caíssem nas mãos erradas. Com sua experiência, será uma peça valiosa no que está por vir.
Suya e Niele trocavam olhares discretos, percebendo que a situação era muito mais complexa do que pensavam. A captura da mulher não fora apenas um acontecimento isolado — era o início de uma nova frente de batalha contra uma ameaça invisível e tecnológica.
— Capitão Cain, continuou Lucien, — se estiver disposto, gostaria de contar com você — e com seus companheiros — para formar uma força-tarefa. Iremos interrogar a prisioneira em breve, mas com sua presença, talvez tenhamos mais chances de obter respostas.
— Estamos dentro, disse Cain, sem hesitar.
A sala de observação era fria, silenciosa, iluminada apenas por luzes brancas foscas embutidas nas paredes. Suya e Niele estavam lado a lado, separadas da sala de interrogatório por um grande vidro espesso de segurança — uma barreira que permitia observar tudo sem serem vistas.
Do outro lado, a mulher cibercriminosa estava sentada, algemada à mesa de metal fixada ao chão. Seu traje escuro ainda pingava da água do oceano, os cabelos colados ao rosto e os olhos afiados varrendo o ambiente com cautela. Apesar da captura, ela mantinha uma postura altiva, como alguém que sabia mais do que dizia.
— Ela não parece assustada, murmurou Suya, os olhos semicerrados.
— Nem um pouco. É como se estivesse esperando por algo, respondeu Niele, com os braços cruzados e o bracelete ainda ativo em modo de monitoramento.
Na porta da sala de interrogatório, Cain e o comandante Lucien surgiram. Cain entrou primeiro, a postura firme e autoritária, seguido por Lucien, que carregava uma pasta com informações.
A mulher ergueu o queixo ao vê-los. Não disse nada.
— Você sabe por que está aqui, disse Lucien, sentando-se diante dela, com calma ensaiada. — Mas o que talvez não saiba é que já identificamos parte da sua rede. O erro que cometeu hoje vai custar caro para a sua organização.
A mulher soltou uma risada breve, seca.
— Vocês não têm ideia do que estão enfrentando. Interromper uma coleta não muda nada. O que vem... já começou.
Cain se aproximou e apoiou as duas mãos na mesa. Seu tom era grave.
— Quem está por trás disso? Quem comanda a Blooddragrons?
Enquanto Cain mantinha o olhar fixo sobre a mulher à sua frente, esperando uma resposta, foi Lucien quem quebrou o silêncio com um tom firme e autoritário. Ele abriu a pasta de relatórios em suas mãos e começou a ler em voz alta, como quem desfaz qualquer falsa sensação de vantagem.
— Seu nome é Mirage. Vinte e cinco anos. Especializada em reconhecimento cibernético e hackeamentos de alto nível. Também opera e controla androides de combate à distância.
Mirage manteve a expressão fechada, mas seu olhar se estreitou levemente — um indício claro de que Lucien havia tocado em algo mais profundo do que simples informações de registro.
— Você faz parte da célula Blooddragons, continuou Lucien , implacável. — Uma organização cibercriminosa altamente organizada, conhecida por infiltrações em redes militares, sabotagens de infraestrutura e manipulação de unidades automatizadas. Estamos atrás de vocês há mais de dois anos. Raramente deixam rastros. São fantasmas digitais. E mesmo assim, aqui está você.
Ele fechou a pasta com um estalo seco e pousou-a sobre a mesa.
— Sabe o que eu não entendo, Mirage? — Lucien inclinou-se um pouco para frente. — Como alguém com o seu perfil, com o seu histórico de evasão e perfeição operacional, pôde ser tão descuidada hoje. Por que se arriscar assim? O que havia nos dados que tentava extrair?
Mirage permaneceu em silêncio, mas uma veia surgiu discretamente em sua têmpora — frustração, talvez medo.
— Então vamos direto ao ponto, disse Lucien , o tom mais frio agora. — Você nos conta o que queremos saber. Quem é o mandante. O que estão planejando. Ou vamos acabar tomando outras providências. E elas... — ele fez uma pausa significativa — não serão boas para você.
Cain observava tudo com atenção. Percebia a tensão crescendo, sentia a resistência de Mirage começar a rachar. Suya e Niele, do outro lado do vidro, observavam concentradas.
A atmosfera na sala de interrogatório tornou-se ainda mais densa quando Mirage, apesar das acusações e do dossiê detalhado, soltou um sorriso sarcástico, quase desdenhoso. Ela recostou-se levemente na cadeira, os pulsos ainda presos às algemas, e olhou diretamente nos olhos de Cain e Lucien com uma expressão de triunfo contido.
— Vocês não sabem de nada, disse, sua voz carregada de desprezo. — Acham que sabem quem eu sou e o que faço… mas a Blooddragons é muito maior do que podem imaginar.
Fez uma breve pausa, inclinando a cabeça com teatralidade.
— A única coisa que vou dizer é: em breve, o show vai começar.
Suya, observando por trás do vidro, cerrou os dentes. Niele praguejou em voz baixa.
Cain, que até então mantinha uma postura firme mas contida, avançou um passo, o rosto endurecido. Sua voz saiu fria, afiada como uma lâmina.
— Pare de nos fazer perder tempo. Se não vai colaborar por bem… então será da pior forma.
Lucien não perdeu tempo. Acenou discretamente para um dos guardas à porta.
— Levem-na para a Ala de Extração de Informações, ordenou. Sua voz era dura, quase mecânica. — É lá que tratamos os casos... mais resistentes.
Mirage não reagiu com medo — ao contrário, manteve o sorriso de escárnio, mas seus olhos entregaram um leve lampejo de inquietação quando os soldados se aproximaram para soltá-la das algemas da mesa e colocá-la em contenção especial.
— Capitão Cain, disse Lucien , voltando-se para ele. — Acompanhe-os. Quero ser informado assim que ela estiver disposta a cooperar. Use os métodos que forem necessários, mas mantenha-a viva.
Cain assentiu com um aceno seco, os olhos ainda fixos em Mirage. Ele não precisava dizer mais nada.
À medida que os soldados escoltavam a prisioneira para fora da sala, Suya e Niele observavam em silêncio. O corredor que levava à Ala de Extração era escuro, isolado — poucos voltavam de lá os mesmos.
— A Blooddragons planeja algo grande, murmurou Suya, os olhos seguindo a figura de Mirage sendo levada.
— E o “show” que ela mencionou pode estar prestes a começar..., completou Niele com preocupação. — Precisamos nos preparar para o pior.
Enquanto Cain e os soldados conduziam Mirage pelos corredores da base rumo à Ala de Extração, um outro soldado, de nome Tenente Ryvor, caminhava apressado até o coronel Lucien com uma expressão tensa e um tablet de dados em mãos.
— Senhor, temos novas informações sobre a interferência sônica que derrubou os androides subaquáticos há pouco, anunciou Ryvor com urgência.
Lucien assentiu com firmeza. — Vamos até a sala de monitoramento agora. Suya, Niele, venham comigo.
O grupo atravessou rapidamente os corredores iluminados por luzes azuladas até adentrarem uma sala circular com painéis por toda a parede, monitores e hologramas pulsando dados da cidade subaquática de Astrid. No centro, uma enorme tela principal exibia leituras de profundidade, longitude e estatísticas da base.
Ryvor se adiantou e tocou em um painel sensível, projetando uma imagem detalhada da área externa de Astrid.
— Aqui está a origem do distúrbio, disse ele, destacando o ponto no mapa. — Foi um pulso eletromagnético extremamente poderoso. A onda de choque percorreu 50 quilômetros ao redor do ponto de emissão, e o curioso é que veio de fora da água...
A imagem mudou para a gravação capturada por sensores visuais.
Na tela, em meio à vegetação costeira, surgiu a figura de um homem encapuzado de preto, imóvel, como uma sombra de pé sobre as rochas. Em um instante, um brilho intenso se expandiu ao redor dele, seguido por distorções visuais — o claro sinal do pulso se propagando.
— No exato momento em que essa figura apareceu, continuou Ryvor, registramos o pulso. Nossos geradores protegidos impediram que a base sofresse apagão completo, mas a cidade de Astrid não teve a mesma sorte. Sistemas inteiros falharam, robôs entraram em pane, comunicações foram cortadas por vinte minutos. Ele não precisou sequer tocar em nada…
— E você está dizendo que ele estava em terra firme? — perguntou Lucien , o rosto carregado de tensão.
— Sim, senhor. E mesmo assim, o impacto atingiu todos os equipamentos eletrônicos embaixo d’água.
Suya, que assistia em silêncio, aproximou-se da tela, os olhos semicerrados em análise. A imagem do encapuzado permanecia congelada no quadro.
— Você poderia voltar o vídeo por favor? — pediu ela, a voz firme, porém curiosa.
Ryvor assentiu e rebateu o vídeo alguns segundos antes da aparição. O grupo observava com atenção. O mar ao fundo, as árvores ao vento, e então... o encapuzado surgindo repentinamente, como se a própria realidade tivesse permitido sua entrada.
Niele franziu a testa, sussurrando: — Não parece um simples humano...
Lucien cruzou os braços. — Ou estamos lidando com uma nova arma... ou com algo que nunca vimos antes.
Suya manteve os olhos fixos na tela enquanto o vídeo era rebobinado mais uma vez. A figura encapuzada apareceu lentamente, envolta em uma aura de mistério e ameaça. À medida que os segundos passavam, algo dentro dela despertava — não era apenas a curiosidade de uma guerreira experiente, mas um sentimento mais profundo... familiaridade.
A postura do homem, o modo como permanecia imóvel diante do caos que causava, o brilho tênue que escapava da borda do capuz. Havia algo ali que tocava em sua memória, mas ela não podia — ou não queria — ter certeza. Suya franziu levemente a testa, mas não disse uma palavra. Ao seu lado, Niele observava em silêncio, sem notar a tensão no olhar de sua companheira.
Com um leve suspiro, Suya se afastou um passo da tela e se virou para Lucien, seu semblante já mais resoluto.
— Coronel... por que não vamos até o local investigar? — sugeriu ela. — Eu e Niele podemos ir até lá. Se há algo mais por trás desse pulso, precisamos saber agora, não depois.
Lucien a encarou por um instante, ponderando. O pedido fazia sentido: Suya era ágil, discreta, e Niele, com seus recursos tecnológicos, poderia rastrear qualquer vestígio do que causou o pulso.
— É arriscado, — disse ele, cruzando os braços. — Mas também é nossa melhor chance de entender o que está por trás disso tudo.
Niele assentiu, animada com a possibilidade.
— Estamos prontas, completou Suya, tentando manter a voz firme, mesmo com o eco da suspeita latejando em sua mente.
Enquanto a missão era preparada, Suya evitava revelar a sensação estranha que queimava dentro dela — a ideia de que aquele homem encapuzado não era um estranho... mas alguém que talvez ela já tivesse conhecido.
Enquanto Suya e Niele reuniam seus equipamentos na sala de preparação da base, o clima era silencioso, mas tenso. Niele verificava o funcionamento do bracelete de escudo e ajustava o visor de dados, enquanto Suya prendia o cabelo e conferia sua bolsa.
As duas sabiam que aquela missão podia ser mais do que uma simples investigação — havia algo obscuro por trás daquele pulso eletromagnético, e Suya sentia isso de forma quase instintiva.
Do outro lado da base, em uma ala mais isolada e sombria, Cain encarava a cela da ala de extração de informações. A luz era baixa, e o som constante de máquinas monitorando sinais vitais preenchia o ambiente.
Mirage estava presa a uma cadeira metálica, cercada por painéis que emitiam pulsos de luz e ruídos agudos — métodos de pressão psicológica testados em criminosos cibernéticos.
— Ainda não vai falar? — disse Cain com voz firme, aproximando-se, os olhos fixos nos de Mirage.
A mulher, ainda com um leve sorriso de desdém nos lábios, apenas desviou o olhar por um instante. Mas não respondeu.
Cain não era cruel, mas conhecia o peso da guerra — e os riscos de permitir que informações valiosas se perdessem. Com um gesto, autorizou o início da sequência de estímulos sensoriais. O ambiente ficou mais opressivo, mais tenso. Cada pulso de luz aumentava em intensidade, e os sensores já começavam a detectar microexpressões e alterações nos batimentos cardíacos de Mirage.
— Você pode evitar isso. Só precisamos de nomes. De coordenadas. Você sabe que, mais cedo ou mais tarde, vai acabar falando, — disse Cain, sua voz mais grave.
Mirage apertou os punhos e respondeu com um sussurro quase inaudível:
— Vocês não fazem ideia do que estão enfrentando...
Cain se aproximou ainda mais.
— Então nos faça entender. Antes que seja tarde demais — pra você.
Mirage: (sorri, os olhos ardem de desafio) — Vocês realmente acham que sou fraca o bastante pra quebrar com isso? Já passei por coisa pior do que brinquedinhos de soldado.
Cain: (se aproxima, olhos fixos nos dela) — Então você prefere sofrer por um grupo que vai te abandonar assim que souberem que foi capturada? Isso é lealdade... ou estupidez?
Mirage: — Vocês não entendem. O que está vindo não pode ser parado. E quando acontecer, vão se lembrar de mim — e de como vocês estavam sempre um passo atrás.
Cain: (encarando o técnico) — Aumente o nível. Ela quer resistir, que sinta as consequências.
A atmosfera na ala de extração era carregada, densa, como se o próprio ar pesasse com a tensão acumulada. Mirage estava presa à cadeira de contenção, fios conectados a seus membros, sensores colados à pele, e painéis pulsando em tons vermelhos e laranjas.
— Mirage: — Vocês não entendem. O que está vindo não pode ser parado. E quando acontecer... vão se lembrar de mim — ela sorriu com escárnio, mesmo suando frio — ...e de como vocês estavam sempre um passo atrás.
Cain, firme e impassível, se virou para o técnico ao lado, que hesitava por um segundo.
— Cain: — Aumente o nível. Ela quer resistir? Que sinta as consequências.
O técnico obedeceu, e os pulsos intensificaram. Luzes estroboscópicas misturadas com sons ensurdecedores invadiram a cela. A dor era tanto física quanto sensorial. Mirage arqueou o corpo, e então vieram os gritos — longos, roucos e desesperados.
— Mirage: — AAAAAHH! VOCÊS NÃO FAZEM IDEIA DO QUE ESTÃO FAZENDO! AHHHHH! NÃO VÃO PARAR! NINGUÉM VAI PARAR!
A cena era brutal. Seus músculos tremiam, os batimentos cardíacos disparavam nos monitores. Mesmo em meio à tortura, seus olhos ainda mantinham um traço de desafio, como se soubesse que o tempo jogava a seu favor.
A alguns metros dali, entre as sombras do teto e dos tubos de ventilação, um pequeno drone metálico, de não mais que vinte centímetros de altura, observava tudo em silêncio absoluto. Seus olhos vermelhos gravavam com tecnologia térmica e ótica simultaneamente. As imagens eram transmitidas e armazenadas.
Com movimentos rápidos e ágeis, ela recuou pelo sistema de dutos, escapando sem levantar suspeitas. Antes que qualquer sensor pudesse detectá-la, já estava fora da ala de extração, rumo a uma pequena câmara submarina camuflada nas rochas ao redor de Astrid.
Ali, aguardava um dispositivo de transmissão cravado nas comunicações da Blooddragons. O arquivo foi enviado — completo, intacto — com a seguinte assinatura ao final do pacote de dados:
"Código FD-003: Interrogatório hostil confirmado. Infiltração bem-sucedida. Retorno à base autorizado." A organização tinha olhos em todos os lugares.
A sala de extração estava mergulhada em uma penumbra vermelha, com o som constante e tenso dos monitores cardíacos e neurológicos ecoando no fundo. O suor escorria pelo rosto de Mirage, agora pálida e tremendo. Seus olhos estavam semiabertos, fixos em um ponto indefinido do teto. A resistência começava a ceder.
— Mirage: (voz fraca, entre gemidos) — F-fui enviada... pelo Conselho... da organização...
Cain imediatamente se adiantou, o olhar afiado.
— Cain: — O conselho? Quantos são? Quem são eles?
Houve um longo silêncio. Mirage piscou lentamente, como se reunisse forças para resistir mais uma vez. Mas dessa vez, não respondeu. Ela apenas encarou Cain com um olhar cansado, desafiador, mas vazio de palavras.
— Cain: (frio) — Última chance.
Mirage fechou os olhos.
— Mirage: — Podem me destruir... mas isso não vai parar... nada.
Sem paciência para mais jogos, Cain assentiu para o técnico ao lado.
— Cain: — Aumente para o nível máximo.
O operador hesitou por uma fração de segundo, mas a ordem era clara. Os sistemas intensificaram os impulsos cerebrais e sensoriais até um ponto crítico. Mirage começou a se debater, os gritos foram substituídos por espasmos silenciosos. Os monitores dispararam alarmes.
— Pulso neural irregular... colapso sináptico detectado...
As luzes dos painéis começaram a piscar. Então, de repente, um longo e contínuo biip preencheu a sala. No visor, uma linha plana marcava o fim da atividade cerebral.
Mirage havia sofrido uma morte neural — o cérebro desligado, colapsado, irreversível. Um corpo vivo, mas vazio.
Cain respirou fundo, imóvel, encarando o corpo diante dele. Não havia alívio, nem vitória — apenas a frustração de ter chegado perto, e ainda assim, ter perdido a chance de saber mais.
— Cain: (frio, para o técnico) — Registre o óbito. Nada sai dessa sala sem minha autorização.
Ele se virou e saiu da sala, a expressão endurecida, o coração carregando o peso de uma guerra silenciosa…
O céu nublado lançava uma luz cinzenta sobre o píer abandonado, onde o som do mar batendo nas rochas misturava-se ao vento que soprava constante. Suya e Niele subiram pelas escadarias de acesso à superfície, deixando para trás as águas que levavam à cidade subaquática de Astrid. O lugar estava deserto, tomado por uma estranha quietude.
O chão de concreto úmido próximo ao píer revelava sinais de algo fora do comum: um círculo gravado, quase perfeitamente simétrico, com símbolos estranhos e arcanos entalhados em sua borda. Eles pareciam queimados ou desenhados com algum tipo de energia que deixou marcas profundas e ainda fumegantes.
Niele se aproximou primeiro, ajoelhando-se com curiosidade.
— Niele: — Esses símbolos... não são comuns. Nunca vi nada parecido.
Ela sacou seu bracelete e projetou um escâner holográfico, capturando uma imagem nítida do círculo.
— Vou registrar isso... talvez Lucien consiga comparar com algum banco de dados.
Enquanto isso, Suya ficou imóvel, encarando os símbolos com olhos atentos. Algo dentro dela se remexeu — um reconhecimento instintivo, como se estivesse diante de algo que sua mente tentava trazer à tona. Então, um lampejo de memória a atingiu como um trovão.
Ela se lembrou...
As paredes frias e úmidas da caverna de Cronos, os símbolos antigos entalhados em pedra, o círculo rúnico que envolvia a fonte mágica que quase tocaram...
Aquela era a mesma linguagem. O mesmo padrão.
— Suya: (num sussurro) — Eu já vi isso... na caverna onde tudo começou. Antes de sermos lançados neste tempo.
Ela se ajoelhou ao lado de Niele, agora com o olhar fixo no centro do círculo.
— Suya: — Isso não é só tecnologia... é algo muito mais antigo. Algo mágico. E não é coincidência estarmos aqui agora.
Niele olhou para ela, assustada e impressionada.
— Niele: — Você acha que... isso tem relação com o que transportou vocês até essa era?
— Suya: — Tenho quase certeza. E se for o caso... alguém está tentando repetir aquilo.
— Niele: — voce esta dizendo que, aquele mago que voce falou antes pode estar envolvido nisso?
— Suya: — MaouCron e o mago que nos trouxe para essa era, mas a pergunta é, se realmente é ele quem esta por tras dessa viagem, quem ele mandou para cá?….
Suya, ainda ajoelhada ao lado de Niele, estendeu a mão com hesitação. Seu dedo tocou suavemente o centro do círculo mágico. No exato momento em que sua pele fez contato com o símbolo, um pulso sutil de energia percorreu seu corpo, como um choque morno subindo pelo braço.
Seus olhos se arregalaram, e o mundo à sua volta desapareceu.
Tudo se tornou luz e sombra, cores girando em espirais até que, de súbito, uma imagem nítida tomou forma. Suya estava fora do tempo e espaço, suspensa em uma espécie de plano etéreo, como se estivesse dentro de uma lembrança ou uma transmissão psíquica.
À sua frente, seu amigo e companheiro de batalhas, estava ajoelhado no chão de um ambiente escuro, cercado por tecnologia estranha e feixes de luz vermelha, a visão foi se tornando um cenario mais nitido, diante de uma paisagem devastada, um campo árido coberto de destroços metálicos e poeira. No céu, naves robóticas sobrevoavam lentamente como abutres, e o som de sirenes distantes ecoava. Ao centro da visão, entre escombros e um pôr do sol sombrio, estava Corey Kirby.
Ele estava vivo.
Vestia trajes de combate desgastados e segurava sua espada com firmeza. Estava cercado por inimigos que continham um simbolo de dragão verde que pulsavam sob suas latarias— robôs deformados, como soldados cibernéticos corrompidos — mas ele mantinha a postura de um guerreiro. Olhos firmes, dentes cerrados. Seu rosto estava sujo, com pequenos cortes, mas seus olhos — vivos, determinados — mostravam que ele ainda resistia.
Suya conseguia ouvir sua voz, como um eco dentro de sua mente:
— Se puderem me ouvir... estou resistindo. Mas não por muito tempo.
A visão se intensificou por um momento. permitindo com Corey conseguisse ver brevemente a imagem de suya, ele olhou diretamente para ela. — Suya... se ainda estão aí fora... encontrem o portal. Antes que seja tarde….. Ele continuou dizendo — o que eles querem... é….
Nesse momento a ligação deles foi cortada, e em um piscar de olhos, tudo desapareceu. Suya perdeu o equilíbrio, cambaleando para trás.
— Niele: — Suya! Está tudo bem?!
Suya levou a mão à cabeça, ofegante.
— Suya: — Eu vi... eu vi o Corey. Ele está vivo. Está lutando... cercado. Mas ele…
Ela hesitou em continuar a falar enquanto olhava para Niele.
— Niele: — Mas o que? pode confiar em mim suya, não direi nada a ninguem e posso ate te ajudar…
Suya decidiu confiar em Niele, então respirou fundo e disse — Ele nos mandou um aviso... falou de um portal.…
Niele arregalou os olhos.
—Niele: —Um portal? Voce diz o mesmo por qual voce e sua amiga travessaram, ate chegar nessa era?
Suya assentiu lentamente.
— Suya: — "Preciso encontrar Luarina. Ela é a única capaz de rastrear magia, e talvez assim descobrir onde Corey e Bryan estão. O bom é que agora sei que ele tá vivo. Encontrar meus amigos é prioridade, Niele."
— Niele: — "Eu vou te ajudar. Embora Astrid seja uma cidade subaquática, nem sempre fomos capazes de respirar debaixo d’água. Antes, éramos humanos assim como você. Mas depois da Guerra HR, que ocorreu há 20 anos — o ano era 6480 — tudo mudou. Foi um completo caos: homens e máquinas lutando sem trégua. Os fundadores de Astrid fugiram de Etéria e vieram para essa ilha, mas os robôs estavam em todos os lugares — terra e céus."
Niele faz uma pausa, encarando o circulo magico no chão, pensando que poderia haver alguma ligação mais profunda.
— "Para sobreviver, eles pensaram em se esconder sob as águas, mas... como concretizar isso? Foi então que Filipe Ferreira, um nadador habilidoso, encontrou uma joia mágica a 20 metros de profundidade. Ele a chamou de Pedra do Despertar. Assim que a tocou, a magia percorreu seu corpo e se espalhou por 200 metros ao redor. Ali nasceu Astrid. Todos que estavam com ele tocaram na pedra e ganharam o dom de respirar sob a água."
— Suya: — "Então... em Astrid há magia?"
— Niele: — "Sim, mas não como na época dos nossos fundadores. Hoje usamos a tecnologia para canalizá-la. Nosso sonar pode ser calibrado com os registros residuais da Pedra do Despertar para detectar se há magia ativa, mas há um problema..."
Niele abaixa o tom, olhando para Suya com seriedade.
— "A Pedra do Despertar se perdeu nas profundezas da cidade. Filipe a escondeu, temendo que alguém a usasse para nos prejudicar, e morreu sem contar a localização. Há boatos, no entanto, de que ele deixou pistas para momentos de emergência. Se conseguíssemos encontrá-la... talvez ela pudesse nos ajudar a detectar as anomalias mágicas — como essa que ocorreu hoje."
— Suya (com firmeza nos olhos): — "Então vamos atrás dessa pedra. Se há pistas, vamos encontrá-las. Não posso perder mais tempo. Bryan e Corey estão por aí, em algum lugar... e Luarina também. Se a Pedra do Despertar pode rastrear magia, então ela pode nos levar até eles."
— Niele (assentindo com um leve sorriso): — "Gosto da sua determinação. Mas não vai ser fácil. A cidade antiga de Astrid, a parte original construída quando a Pedra ainda estava ativa, está parcialmente submersa e em ruínas. Ela fica além da cúpula principal, numa zona que chamamos de Véu Profundo. Quase ninguém vai lá, por medo e respeito."
— Suya (erguendo uma sobrancelha): — "E é claro que é exatamente onde precisamos ir."
— Niele (rindo com leve nervosismo): — "Exato. Mas antes, precisamos consultar os registros históricos — o Arquivista do Salão das Memórias pode ter anotações deixadas por Filipe Ferreira. Dizem que ele escrevia tudo, e deixou até enigmas codificados nas paredes antigas da cidade."
— Suya: — "Enigmas, túneis abandonados, magia escondida... ótimo. Parece o tipo de coisa que estamos ficando boas em lidar."
— Niele: — "Vou preparar os trajes pressurizados e marcar uma reunião com o Arquivista. Mas Suya... se formos até o Véu Profundo, talvez despertemos mais do que apenas uma pedra."
— Suya: — "Se for por eles, eu encaro o que for."
À frente, sobre o solo rochoso e úmido, o círculo mágico que havia se manifestado momentos antes permanecia quieto… até que, subitamente, brilhou pela última vez.
Uma pequena onda eletromagnética foi liberada em um pulso suave, quase como um suspiro. A energia tocou apenas Suya e Niele, fazendo os cabelos de ambas se arrepiar levemente. Elas fecharam os olhos instintivamente diante da forte luz que emergiu do centro do círculo.
Assim que a luz se dissipou, no coração do símbolo mágico, repousava algo novo.
Um bracelete metálico e antigo, com um design refinado e enigmático, estava agora ali. Suas bordas eram adornadas com entalhes rúnicos, e havia sete encaixes nele, como se fosse feito para receber gemas. Um deles brilha fracamente, os outros permanecem vazios.
— Niele (assustada e encantada): — "O que é isso...? Isso não estava aqui antes..."
Suya se aproximou devagar, como se algo dentro dela reconhecesse o objeto. Ao tocá-lo, uma onda morna percorreu seu braço, e uma imagem breve — quase um sussurro na mente — surgiu.
Enquanto isso, os símbolos no chão começaram a desaparecer lentamente, como se o círculo tivesse cumprido seu propósito
A sombra do mago MaouCron, envolta em névoa, cruzou sua memória como um lampejo. Ele não dizia nada, mas sua presença era clara. Era como se ele estivesse guiando-a, incentivando-a a seguir em frente, a reunir as sete pedras.
— Suya (baixinho, olhando para o bracelete): — "Você está me ajudando... não é?"
— Niele (curiosa, olhando o artefato): — " Parece... incompleto. …—"Suya... esse bracelete. É como se... fosse feito para você.”"
— Suya (encarando os encaixes vazios): — "Sete pedras. Sete caminhos. Talvez essa seja a chave para entender tudo isso... e encontrar meus amigos."
— Niele: — "Vamos voltar para base de segurança, não iremos informar nada disso para Lucien, embora ele seja o coronel, eu não confio muito nele, iremos dizer mostrar a foto do impacto que ocorreu, e que ao redor algumas plantas queimaram.
— Suya: — "Obrigada Niele, não quero colocar meus amigos em perigo então vamos manter a discrição”.
A base está localizada em uma das cúpulas mais protegidas de Astrid, cercada por grossos painéis de vidro reforçado que resistem à pressão oceânica. Soldados Krinis patrulham a entrada, enquanto drones aquáticos flutuam em vigilância constante. Quando Suya e Niele se aproximam, o portão se abre automaticamente com um ruído hidráulico abafado.
No interior, luzes brancas iluminam os corredores, e o som ambiente de alertas suaves e comunicação via rádio compõem a atmosfera militar. Em uma sala de comando revestida por telas holográficas e mapas mágicos do território submarino, o Coronel Lucien as aguarda com os braços cruzados.
— Coronel Lucien (alto, de postura rígida, olhos cinzentos que não perdem nenhum detalhe): — "Niele. Suya. Recebemos os alertas de distorção mágica e sinais de pulso eletromagnético. O que encontraram lá?"
Suya permanece em silêncio por um instante, observando o rosto severo do coronel, enquanto Niele conecta seu bracelete ao terminal holográfico da sala. Uma projeção azul se abre no ar, revelando registros da área investigada.
— Niele (em tom técnico, quase neutro): — "Essas são as imagens do local após o pico de energia. O solo sofreu um impacto concentrado, formando um círculo de queima. As plantas e árvores ao redor foram carbonizadas... mas não havia mais nada. Nenhum corpo. Nenhum inimigo. Nenhum artefato restante. Apenas... silêncio."
Lucien observa atentamente os dados enquanto desliza as imagens com os dedos pela projeção. Seus olhos se estreitam.
— Coronel Lucien (com frieza): — "E a origem do pulso? Alguma anomalia tecnológica? Alguma máquina? Uma bomba?"
Niele troca um breve olhar com Suya, mas não menciona o bracelete ou o círculo mágico.
— Niele: — "Negativo. Nenhum sinal de máquina ou artefato humano ou robótico conhecido.
— Coronel Lucien (encarando Suya agora): — "E você, Suya? Viu algo mais?"
Por um momento, Suya hesita. Sente o peso do bracelete oculto sob sua roupa, como se ele estivesse aguardando a hora certa para ser revelado. Mas algo dentro dela diz que ainda não é o momento.
— Suya (calma e firme): — "Não. O lugar estava vazio quando chegamos. Mas algo passou por lá... algo que deixou marcas. Não foi natural, coronel."
Lucien cruza os braços novamente, pensativo.
— Coronel Lucien: — "Muito bem. Preparem um relatório completo e fiquem à disposição para interrogatório. Isso pode se repetir... e quero que estejam prontas. Vocês duas estão liberadas por enquanto."
Ele se vira, mas antes de sair da sala, lança um último olhar por cima do ombro:
— Coronel Lucien: — "E se virem algo fora do comum... reportem imediatamente. Qualquer segredo que mantenham pode custar vidas."
A porta se fecha atrás dele, deixando Suya e Niele em silêncio. Ambas trocam um olhar tenso. O bracelete pesa mais agora — não no pulso de Suya, mas no destino que começa a se formar em torno dele.
As luzes frias iluminam os corredores metálicos da base. O som dos passos ecoa entre os compartimentos. Suya e Niele caminham lado a lado em silêncio, processando ainda tudo que aconteceu no local do impacto. À frente, um homem alto se aproxima — ombros largos, postura reta, expressão sombria. É Cain, o ex-soldado de guerra e interrogador da base.
Ao cruzar com elas, Cain apenas lança um olhar breve, firme, como quem carrega o peso de uma tarefa difícil. Suya sente algo estranho naquele olhar. Niele o reconhece com um aceno contido, mas não diz nada. Cain segue em frente, com passos pesados, em direção à sala de comando.
O Coronel Lucien está de costas, observando uma projeção suspensa de dados sobre a distorção mágica, quando a porta se abre com um aviso digital.
— Cain: — “Coronel.”
— Coronel Lucien (sem se virar): — “Terminou com ela?”
Silêncio por um instante.
— Cain: — “Sim... mas ela não resistiu. Mirage está morta.”
Lucien se vira bruscamente, o maxilar travado de raiva contida.
— Coronel Lucien: — “Ela morreu? Antes de nos dizer tudo?!”
— Cain (com frieza): — “Não suportou o protocolo de tortura estendida. Tentei manter ela viva o máximo possível, mas...”
— Coronel Lucien (interrompendo, furioso): — “Você devia ter evitado esse desfecho, Cain! Ela era nossa única ligação direta com a Bloddragons.
Lucien passa por Cain e sai da sala, caminhando rápido. Cain o segue em silêncio.
Cena: Sala de Confinamento – Minutos Depois
Luzes baixas iluminam o interior. No centro da sala, o corpo de Mirage repousa sobre uma maca metálica, frio, os braços ainda presos. Os olhos estão entreabertos, inexpressivos. Há marcas de sangue seco no canto da boca e feridas pelos pulsos. O cheiro metálico do ambiente é forte.
Lucien para diante do corpo, frustrado.
— Cain (voz firme, mas carregada de tensão): — "Mirage... não resistiu. O processo foi... mais difícil do que esperávamos. Antes de morrer, ela revelou algumas informações, coronel."
Lucien para e se vira abruptamente e agarra Cain pela gola, o empurrando contra a parede fria.
— Coronel Lucien (furioso, os olhos faiscando): — "Você quebrou meu único elo com o ataque! Eu te dei ordens claras: extrair informações, não matar a informante!"
Cain não reage fisicamente. Apenas encara o coronel com rigidez.
— Cain (em tom sombrio): — "Ela já estava à beira da morte quando chegou. A mente dela... treinada para resistir. Mas ela falou. O suficiente."
— Coronel Lucien: — “Você transformou uma fonte de informação em um cadáver. Pelo menos me diga que conseguiu algo.”
Lucien solta Cain com um empurrão brusco e avança para dentro da sala de contenção.
— Coronel Lucien (olhando a cena, controlando a raiva): — "O que ela disse?"
Cain, mais contido, ativa um dispositivo no pulso. Uma imagem holográfica se projeta: um dragão chinês verde enrolado em uma espada vertical.
— Cain: — "Segundo ela, o conselho a enviou, mas não revelou quem são os membros nem quantos existem. Disse que são fantasmas, espalhados pelas sombras de várias cidades."
Lucien encara o símbolo com intensidade. Ele franze a testa. Sua expressão muda — da raiva para a inquietação.
Ele fecha o punho .
— Coronel Lucien: — "Ela revelou mais alguma coisa?”
Cain respondeu em tom seco e direto — “Não”
Lucien estava incrédulo com a atitude de Cain. Ele era capitão, um ex-soldado de guerra respeitado — e ainda assim permitira que um veterano de duas décadas atrás conduzisse o interrogatório. Talvez essa tenha sido a verdadeira falha: confiar em alguém tão marcado pelo passado para lidar com algo tão delicado no presente. Era um erro, e Lucien sabia que não se perdoaria por ele tão cedo.
Ele respirou fundo e em tom firme a autoritario disse: ****— *"*Vasculhe todos os arquivos históricos, vasculhe Eteria se for preciso, e da próxima vez, Cain... traga resultados antes do corpo esfriar.”
Na tentativa de reparar seu erro crucial, Cain não hesitou em aceitar as ordens do Coronel Lucien. Partiu imediatamente para Eteria, determinado a corrigir o rumo dos acontecimentos. Ao deixar a sala de comando, sabia que não poderia viajar como soldado — sua presença chamaria atenção demais. Com isso em mente, trocou o uniforme por roupas comuns, assumindo a aparência de um civil qualquer.
A jornada até Eteria foi silenciosa, e quando chegou à grande capital, a noite já havia caído sobre os imensos prédios e avenidas brilhantes. A cidade era um espetáculo de luzes e tecnologia, com drones sobrevoando os céus e telões transmitindo anúncios por toda parte. As ruas estavam bem iluminadas e movimentadas, um contraste marcante com o silêncio frio das instalações militares que deixara para trás.
Cain caminhava atento, procurando um lugar para passar a noite. Não muito longe dali, um grupo chamava atenção: humanos e androides estavam reunidos, fazendo apostas em plena via pública. Em Eteria, as noites pertenciam às gangues locais — e durante esse período, as atividades de apostas eram liberadas, quase como um pacto silencioso entre as autoridades e as sombras que comandavam a cidade quando o sol se escondia.
Cain observou de longe, ciente de que, mesmo disfarçado, estava entrando em um território onde cada passo exigiria cautela.
Ele caminhava com cautela pelas ruas vibrantes de Eteria, os olhos atentos a cada movimento, cada reflexo nos vidros espelhados dos prédios. Procurava uma pousada onde pudesse se abrigar, algo discreto, longe dos olhos curiosos. No entanto, o que ele não sabia era que sua chegada já era esperada — e que olhos bem mais atentos já o observavam desde o momento em que pisou na cidade.
Foi então que, inesperadamente, um garoto surgiu de um dos becos próximos. Tinha o rosto manchado de lágrimas, os olhos arregalados pela angústia. Parecia ter cerca de dez anos. Ele se aproximou com passos hesitantes e perguntou, entre soluços, se Cain poderia ajudá-lo a encontrar seus pais.
A suspeita surgiu no fundo da mente de Cain — era estranho, tarde da noite, uma criança sozinha. Mas ao encarar o rosto abatido do garoto, sujo e chorando, algo dentro dele hesitou. Não podia ignorá-lo. A última coisa que queria era chamar atenção desnecessária recusando ajuda a um civil indefeso.
O garoto segurou sua mão com firmeza e, com a voz embargada, indicou o local onde vira os pais pela última vez. Cain o acompanhou em silêncio, seguindo pelas ruas cada vez mais vazias da cidade até que alcançaram uma área menos movimentada, quase esquecida entre os prédios altos e os becos escuros.
A desconfiança de Cain crescia a cada passo. O lugar era calmo demais. Mesmo assim, manteve a mão do garoto firme na sua, atento a qualquer movimento ao redor. Até que, num instante gelado e repentino, um furgão de revestimento militar freou ao lado deles. O barulho dos pneus foi seguido por portas se abrindo bruscamente.
Dois androides armados desceram em sincronia precisa. Antes que Cain pudesse reagir, foi cercado. Movimentos rápidos e eficientes o dominaram — algemas de última geração prenderam seus pulsos, e vendas tecnológicas cobriram seus olhos, privando-o da visão.Sem trocar uma palavra, o jogaram dentro do furgão. O metal frio do piso pressionava suas costas enquanto o veículo, permanecia imovel.
Do lado de fora, os dois androides entraram calmamente na parte da frente. Entre eles, sentou-se o garoto — agora calado, o rosto sem lágrimas — como se todo o choro anterior fosse apenas parte de um papel bem encenado.
Cain, imobilizado, só podia ouvir os sons do motor e o balançar do veiculo que agora acelerava pelas ruas de Eteria.
Continua.....




