Posted by : Suya Violet

Enquanto Suya Violet permanecia desaparecida — seu paradeiro envolto em mistério —, em Eteria os planos de Green avançavam com precisão calculada. A sede da BloodDragons já não era apenas um reduto de rebeldes… tornara-se o centro de uma nova estratégia. E agora, com Cain sob seu comando, Green não precisava mais agir nas sombras. Ele tinha força. Tinha influência. E, acima de tudo, tinha ambição. Sem hesitar, deixou a base e seguiu em direção à imponente Torre Corporação Toya — o arranha-céu reluzente que dominava o centro da capital. A estrutura espelhada refletia o céu metálico de Eteria, como se a própria cidade se curvasse ao poder de Toya.

 As portas automáticas se abriram com um leve silvo hidráulico. Os passos de Green ecoaram pelo saguão de mármore negro. Funcionários desviavam o olhar. Havia algo na postura dele — firme, direta, perigosa. Ele parou diante da recepção.

A secretária, impecavelmente vestida, manteve o sorriso profissional. — Senhor, tem horário marcado? Green inclinou levemente o rosto, seus olhos frios fixos nela. — Não. — Sua voz saiu grave e controlada. — Mas diga ao Toya que Green está aqui. Ele vai querer me receber. 

A secretária hesitou por um segundo. O nome claramente significava algo. — Um momento, por favor.

Ela tocou o painel holográfico da mesa, ativando a linha direta para o escritório presidencial. A tela projetou a imagem de Mai — a androide de traços elegantes e expressão serena. Seus olhos artificiais brilhavam em tom azul suave.

— Escritório presidencial da Fumacinha Musical. Aqui é Mai. Em que posso ajudar? — sua voz era perfeitamente modulada, sem falhas, sem emoções desnecessárias.

A secretária engoliu seco. — Senhorita Mai… há um homem aqui. Ele se identifica como Green. Diz que o senhor Toya vai querer recebê-lo. Houve uma pausa milimétrica. Quase imperceptível. Mas suficiente para indicar que Mai processava informações. — Confirmando… Green, um associado à BloodDragons?

Green aproximou-se levemente do balcão, falando alto o bastante para ser ouvido pela transmissão. — Associado não. — Seus olhos estreitaram. — Líder.

Os olhos de Mai cintilaram com um novo fluxo de dados. — Solicitação recebida. Aguarde. Alguns segundos se passaram. 

Então, Mai retornou: — O senhor Toya aceita a reunião. Envie-o ao elevador presidencial. Andar 87.

 A secretária assentiu rapidamente. — Pode subir. Elevador à direita. 

Green abriu um leve sorriso de canto. — Sábia decisão. Virou-se e caminhou em direção ao elevador exclusivo, enquanto, no topo da torre, Toya observava a cidade através da parede de vidro — já sabendo que aquela visita não era mera formalidade.

O elevador presidencial subiu em silêncio.


Vidros escurecidos revelavam, aos poucos, a grandiosidade de Eteria ficando menor sob seus pés. Green manteve as mãos nos bolso, postura ereta, olhar fixo no próprio reflexo no metal polido.

Tudo está se alinhando, pensou.

Um leve som eletrônico anunciou a chegada: 87º andar, as portas se abriram.

O ambiente era amplo, luxuoso, minimalista. Iluminação suave. Um tapete negro que absorvia o som dos passos. No centro, uma enorme parede de vidro revelava toda a capital.

De costas para a entrada, Toya observava a cidade.

Elegante. Terno impecável. Uma das mãos no bolso, a outra segurando um tablet transparente com projeções flutuando ao redor.

Sem se virar, falou:

— É curioso… — sua voz era suave, quase musical. — Normalmente, quando a BloodDragons visita alguém, não é para tomar chá.

Green caminhou até o centro da sala.

— Eu não vim representando a BloodDragons.

Toya finalmente se virou, um leve sorriso brincando em seus lábios.

— Não? Então devo me preocupar mais?

Silêncio…

Os dois se encaram. Dois predadores medindo território.

Mai estava parada ao lado da mesa central, postura impecável.

— Detectando aumento de tensão no ambiente — disse ela calmamente. — Recomendo moderação verbal.

Toya riu baixo.

— Relaxa, Mai. Ainda não estamos em guerra.

Green cruzou os braços: — Ainda.

O sorriso de Toya diminuiu apenas alguns milímetros — o suficiente para revelar que o jogo deixara de ser mera provocação.

— Vá direto ao ponto, Green. — disse, com a voz baixa e controlada. — Você não atravessaria metade da cidade só para trocar ameaças elegantes.

Green deu alguns passos à frente, o som abafado pelo tapete escuro. Parou a uma distância calculada, nem próxima demais para parecer agressivo, nem distante o bastante para parecer hesitante.

Seus olhos permaneceram fixos nos de Toya.

— Vim falar de futuro. — respondeu, firme. — E de quem vai sobreviver a ele.

Toya não respondeu de imediato. Apenas virou-se com tranquilidade, caminhando até o bar embutido na parede. O movimento era lento, quase casual, mas cada gesto parecia cuidadosamente ensaiado.

Serviu duas taças de uma bebida âmbar. O líquido capturava as luzes da cidade e as devolvia em reflexos dourados.

Estendeu uma delas: — Continue.

Green não se moveu para pegar a taça.

— Uma cidade unificada sob uma nova ordem. — disse, sem desviar o olhar. — Sem divisão entre Techris e Antyros. Sem sabotagens. Sem instabilidade que afete seus negócios.

Toya observou a taça que permanecia suspensa entre eles por um segundo… então deu um pequeno sorriso de canto antes de recolhê-la.

— Ah… — murmurou, girando o líquido. — Então isso é sobre negócios.

Green respondeu sem hesitar, a voz firme como uma sentença: — Sempre é.

Mai projetou gráficos holográficos no ar. Linhas vermelhas descendentes cruzaram o espaço entre eles. — Análise preliminar: instabilidade social pode gerar queda de 23% nos lucros da Fumacinha Musical nos próximos dois trimestres. Toya suspirou teatralmente. — Mai… você sabe como estragar o drama com números. Green inclinou levemente o rosto. — Eu não vim pedir apoio.

Toya estreitou os olhos.

— Vim informar. — a voz de Green ficou mais fria. — Você pode estar comigo… ou pode ser o próximo obstáculo. O silêncio voltou a dominar o escritório. Lá embaixo, Eteria brilhava — ignorando a tensão que começava a moldar seu futuro. Toya girou a taça lentamente, observando o líquido rodar. — Você fala como alguém que já se vê vencedor. Green respondeu sem hesitar: — Eu não faço movimentos sem calcular o fim do jogo. Mai inclinou levemente a cabeça. — Sugestão: propor acordo condicional. Toya sorriu novamente — mas agora havia algo diferente ali, algo perigoso. — Muito bem, Green. Vamos falar de termos. Lá fora, uma nuvem escura começava a avançar sobre o céu de Eteria. Mas não era apenas uma nuvem.

Enquanto isso, longe dali, Luarina e Liush  lutavam com o que parecia impossível. As criaturas que haviam surgido na ilha espalhavam-se rapidamente. Não caminhavam apenas pelo solo — alcançaram o mar e os céus, eram como fumaça negra viva. Fragmentavam-se. Multiplicavam-se e invadiam. A cidade aquática de Astrid foi uma das primeiras a sentir o impacto. Do horizonte, uma massa escura avançava como tempestade. As águas agitavam-se. O céu perdia o azul. E aquela mesma nuvem agora se deslocava em direção a Eteria. Carregada de criaturas.

Havia alguém observando tudo. Uma mulher de cabelos longos e negros, pele clara, olhos azuis frios como vidro. Movia-se com precisão profissional — discreta, calculada. Ela registrava tudo, imagens. Vídeos. Movimentações.

Seu NeuroBrace projetava dados em tempo real enquanto ela se infiltrava entre multidões em pânico. Por ironia do destino, estava em Antyros quando captou o momento mais impactante: Uma mulher de cabelos roxos e olhos violetas segurando um arco. Um clarão, e então… desaparecendo. A gravação foi estabilizada, editada e publicada em questão de minutos. Legenda: “Quem são eles? Alienígenas de outro planeta? Que criaturas são essas?” A internet explodiu, o vídeo se espalhou como incêndio em campo seco. Em poucos minutos, todos os noticiários transmitiam as imagens. Telões espalhados por Eteria exibiam a mulher do arco desaparecendo em luz. As criaturas negras avançam sobre o mar. Astrid está parcialmente encoberta pela sombra. Os pulsos de quem possuía NeuroBrace começaram a apitar. ALERTA GLOBAL. AMEAÇA EM EXPANSÃO. EVITAR ÁREAS COSTEIRAS. O caos começou a se formar não apenas nas ruas — mas na mente das pessoas. Medo, Teorias, Alienígenas, Armas biológicas, Magia proibida, Retaliação dos Antyros. E falha dos Techris e , no topo da torre, enquanto Toya e Green discutiam o futuro da cidade… As telas do escritório se acenderam automaticamente. Mai virou o rosto para os dados emergenciais. — Atualização urgente. — seus olhos brilharam em vermelho pela primeira vez. — Entidade desconhecida aproximando-se do espaço aéreo de Eteria. Origem: Ilha de Velyria. Green e Toya trocaram um olhar. A partida política acabara de se transformar em algo muito maior. A tempestade havia chegado.

A mulher desligou a transmissão assim que os índices de compartilhamento ultrapassaram qualquer projeção inicial. Milhões de visualizações em minutos. O caos já não podia mais ser contido. Sem pressa — mas também sem hesitação — ela guardou o NeuroBrace sob a manga do casaco tático. Caminhou até o topo de um edifício parcialmente abandonado em Antyros, onde sua moto a aguardava. Aerodinâmica. Negra. Linhas afiadas como lâminas. O motor gravitacional emitia um brilho azul profundo sob o chassi, pulsando como um coração artificial. Ela passou a mão pela lateral do veículo, ativando-o, A moto respondeu com um som grave e elegante e, em um único movimento fluido, montou. O capacete se fechou ao redor de seu rosto com um selo magnético, projetando dados no visor. Destino confirmado, rota aérea criptografada, sem rastreamento autorizado. Ela acelerou, e a moto ergueu-se do prédio como uma flecha negra cortando o céu, deixando apenas um rastro luminoso discreto para trás. Voou acima das ruas congestionadas, acima das sirenes, acima do medo que começava a tomar Eteria. Seu destino não aparecia em mapas públicos.

A base da Organização Gênesis ficava além das fronteiras urbanas — escondida entre formações rochosas ao norte da ilha de Velyria, camuflada por tecnologia de ocultação óptica e campos de distorção eletromagnética. Para olhos comuns, era apenas um paredão natural, para quem possuía a chave genética correta… era outra história. A moto reduziu a velocidade ao se aproximar da encosta, um scanner invisível percorreu o corpo da piloto, Identidade confirmada, codinome reconhecido. As rochas começaram a se mover silenciosamente, revelando uma abertura metálica oculta sob a ilusão natural.


Ela pousou suavemente na plataforma interna, as portas se fecharam atrás dela. Luzes brancas acenderam-se em sequência, revelando o interior da base. A Gênesis não era uma organização comum. Era antiga — mas extremamente avançada. Seu símbolo, uma árvore estilizada com raízes profundas e galhos que se transformavam em circuitos, estava gravado no centro do hangar. A estrutura combinava tecnologia de ponta com arquitetura quase ritualística: corredores amplos de metal escuro, painéis holográficos suspensos no ar, salas de análise, câmaras de contenção, áreas de treinamento onde agentes praticavam combate corpo a corpo e manipulação de armas energéticas. A Gênesis operava nas sombras, monitorava ameaças globais, catalogava fenômenos anômalos. Intervinha quando o equilíbrio do mundo era ameaçado. E agora… o mundo estava mudando. A mulher retirou o capacete, cabelos negros caíram em cascata sobre os ombros. Os olhos azuis mantinham o mesmo brilho frio e calculista.

Agentes ao redor abaixaram levemente a cabeça ao vê-la passar. Não por protocolo, por respeito, ou temor. Ela era conhecida dentro da organização por um único título: A Lâmina do Éden. A agente de campo mais eficiente da Gênesis. Especialista em infiltração, extração, neutralização, e, quando necessário… Eliminação. Enquanto caminhava pelo corredor principal, enormes telas exibiam o vídeo que ela mesma havia publicado. Mapas com a propagação das criaturas negras piscavam em vermelho. Astrid parcialmente encoberta. A nuvem aproximando-se de Eteria. Um dos analistas se aproximou. Analista: — Clara, o impacto foi maior do que o previsto. Governos locais estão mobilizando forças. Teorias sobre invasão alienígena estão dominando as redes. Ela parou diante da tela principal. Observou a imagem congelada de Suya — arco em mãos, envolta em clarão. Seus olhos estreitaram levemente.

Clara: — Não são alienígenas — disse, firme. Analista: — Então o que são? Ela respondeu sem desviar o olhar da tela.

Clara: — Ainda não sei. — Sua voz perdeu qualquer traço de especulação. Era estratégia pura. — Mas vamos descobrir. Fez um gesto discreto com a mão, ampliando o rosto de Suya na projeção. Clara: — Procurem registros no banco de dados. Reconhecimento facial. Cruzem com arquivos históricos, arquivos selados, arquivos pré-Guerra HR. Quero qualquer ocorrência relacionada a essa mulher

Os painéis começaram a piscar: — Varredura iniciada, — Cruzamento com 12 milhões de perfis civis. — Acessando arquivos restritos. Ela então se virou parcialmente para a equipe. Clara: — Ativem o Protocolo Raiz Primordial.

O impacto da ordem foi imediato, alguns agentes se entreolharam e outros ficaram rígidos. Aquele protocolo nunca havia sido executado em escala total, era um plano de contenção global. Oficial tático: — Confirma, Clara? — perguntou o oficial tático, a voz mais baixa do que o habitual. O visor ainda refletia o clarão da imagem congelada, seus dedos repousaram sobre a superfície fria. Clara: — Confirmo. Caminhou alguns passos à frente, agora encarando a projeção da nuvem negra que avançava pelos céus. Clara: — Se essas criaturas cruzarem totalmente o espaço aéreo de Eteria… — fez uma breve pausa, deixando que o peso das palavras se instalasse — não estaremos lidando com política. Seus olhos voltaram-se para a imagem de Suya. — Estaremos lidando com extinção. Silêncio absoluto….

Então, como se a própria base respondesse à sentença, as luzes diminuíram um tom. Sistemas selados há anos começaram a despertar, portas blindadas foram destravadas. Satélites ocultos iniciaram sincronização orbital, arquivos classificados como “pré-colapso” foram restaurados. Nas camadas mais profundas da Gênesis, algo antigo — planejado para o pior cenário possível — voltava à vida.

Os painéis holográficos continuavam a piscar enquanto a busca avançava pelos servidores centrais da Gênesis.

Analista: — Correspondência encontrada… — murmurou um dos analistas.

Na tela principal, os dados digitais modernos desapareceram, dando lugar a uma interface diferente mais antiga e raro.

Sistema: — Origem do registro: arquivo físico digitalizado. 
Sistema: — Classificação: Século Medieval. 
Sistema: — Posição: preservado na Biblioteca Raiz.

A projeção estabilizou e a capa de um livro antigo surgiu na tela — couro escurecido pelo tempo, símbolo desgastado de quatro figuras sob uma estrela de oito pontas. Título: “A Lenda dos Heróis Valentes.” O salão ficou em silêncio e as páginas começaram a virar digitalmente, revelando ilustrações e textos preservados por séculos, o conto falava de quatro jovens que surgiram em uma era medieval, Uma maga chamada Luarina Olivën, uma arqueira chamada Suya Violet, um ladino chamado Corey Kirby e um guerreiro chamado Bryan Kirby. As imagens eram rudimentares, mas inconfundíveis, a arqueira desenhada nas páginas antigas tinha cabelos longos e traços delicados — e segurava um arco semelhante ao da mulher do vídeo. O nome brilhava na tela: Suya Violet. Um murmúrio percorreu a sala. — Isso é impossível… — sussurrou alguém.

Mas para a Gênesis, impossível era apenas algo ainda não compreendido. A organização era mais antiga do que qualquer governo moderno. Mais antiga do que a própria Guerra HR. Operava nas sombras desde eras em que a história ainda era escrita à mão. Guardava registros de todos os séculos; não apenas em servidores criptografados. Mas em sua vasta biblioteca subterrânea — onde livros, pergaminhos e artefatos eram preservados longe da corrosão digital e da manipulação política.

Os olhos de Clara permaneceram fixos na tela por alguns segundos a mais. 

Clara: — Localização do exemplar físico? — perguntou, calma. 
Analista: — Biblioteca Raiz. Ala Sete. Prateleira restrita. 
Clara: — Mantenham a análise cruzada. Quero tudo que conecte as criaturas às narrativas medievais.
Especialmente qualquer menção a “sombras vivas” ou “pragas celestes”. Sem esperar resposta, virou-se, caminhou pelos corredores internos da base, os passos ecoando suavemente no metal escuro. À medida que avançava, a arquitetura mudava.

 A tecnologia dava lugar à pedra as paredes tornavam-se mais antigas, mais sólidas. Portas blindadas protegiam o que não podia ser substituído. 

A Biblioteca Raiz ficava nas camadas mais profundas da Gênesis e ali não havia hologramas flutuando, havia estantes colossais que se perdiam na altura. Escadas móveis, luzes âmbar suaves, e o cheiro de papel antigo e madeira preservada. Conhecimento intocado pelo tempo. Clara percorreu os corredores com precisão, passando os dedos pelas lombadas marcadas por séculos de história, até que encontrou. Capa de couro envelhecido, símbolo da estrela de oito pontas com marcas sutis de restauração. Ela retirou o livro com cuidado, o peso era real e então ela abriu na primeira página ilustrada. Ali estavam eles, os quatro, e no centro da imagem, a arqueira de cabelos longos — arco erguido contra criaturas da época, Clara não sentiu medo, mas reconhecimento. Se as lendas eram verdadeiras… Então as criaturas que agora cobriam o céu de Eteria não eram novas. E os Heróis Valentes talvez também não fossem apenas passado. Ela fechou o livro lentamente. — Então vocês voltaram… — murmurou para si mesma. Acima, nos céus da ilha, a nuvem negra continuava a se espalhar.

Clara caminhava entre estantes que guardavam séculos esquecidos, seus dedos deslizando pelas lombadas marcadas por poeira controlada e selos de preservação. O livro dos Heróis Valentes repousava aberto sobre uma mesa de carvalho antigo, mas ela precisava de mais do que lendas. Precisava de registros. — Arquivos civis. Registros de nascimento. Títulos concedidos pela coroa — murmurou para si mesma enquanto acessava o terminal discreto embutido entre as estantes. 

O sistema interno da Gênesis cruzou os dados digitalizados com o catálogo físico. Resultado encontrado:

Nome: Suya Violet
Origem: Reino de Grimor
Período estimado: Século XIV

Clara ergueu levemente o olhar, Grimor — murmurou para si mesma. O nome não era desconhecido. Aparecia em diversos registros antigos como um reino atípico para sua época. 
Ela seguiu até a ala dedicada aos Reinos da Era Medieval. Após alguns minutos de busca precisa, encontrou uma coleção encadernada com o brasão de Grimor — uma árvore prateada cujas raízes envolviam símbolos de diferentes raças.
Retirou o volume principal e ao abri-lo, encontrou uma página destacada por marcadores antigos.

Reino de Grimor, Data: 17 de maio de 1347 Primeira celebração do Dia da Harmonia Multirracial. No Reino de Grimor, sob o reinado da Rainha Melody e do Rei Sebastian, consolidou-se um marco histórico sem precedentes: a oficialização do Dia da Harmonia Multirracial. Localizado entre florestas ancestrais, montanhas enevoadas e vales férteis, Grimor destacava-se como um raro exemplo de coexistência estruturada entre diferentes povos. Elfos, humanos, anões e outras criaturas que, em muitos territórios da época, eram motivo de guerra, ali, eram cidadãos.

A Rainha Melody, elfa de linhagem ancestral, era descrita nos registros como uma soberana de sabedoria incomum. Diplomata habilidosa, defendia que a diversidade não era ameaça, mas força estratégica. 
O Rei Sebastian, humano de origem humilde, conquistara o trono não por herança, mas por mérito em batalha e habilidade política. Sua coragem durante conflitos fronteiriços garantiu-lhe respeito entre todas as raças. Juntos, governaram com firmeza e compaixão. As cortes de Grimor tornaram-se referência de justiça imparcial. Leis foram reescritas para garantir direitos iguais entre espécies. A celebração de 17 de maio de 1347 marcou oficialmente a união simbólica do reino — não apenas como território, mas como ideal. Sob seu governo, Grimor floresceu, não apenas economicamente, mas culturalmente. A união das raças era celebrada como fonte de prosperidade e inovação. Festivais misturavam tradições élficas e humanas. Guildas eram compostas por membros de diferentes origens. Exércitos treinavam lado a lado.Era um reino à frente de seu tempo.


Clara virou a página lentamente, o papel antigo rangeu sob seus dedos enluvados, ali não havia mais descrições poéticas nem celebrações do reino. Havia anexos oficiais — registros frios, redigidos com a formalidade rígida da coroa, listas de cidadãos notáveis, condecorações concedidas. Missões autorizadas pelo selo real. Seus olhos percorreram as linhas até que um registro isolado chamou sua atenção. O selo da Rainha Melody e do Rei Sebastian marcava o documento. A Convocação Real — Expedição da Joia Mística Perdida, O texto era objetivo. “Os melhores aventureiros do reino foram convocados pela coroa para recuperar a Joia da Alvorada, artefato místico de origem desconhecida, desaparecido

Abaixo, uma lista de nomes, e entre eles estava o de Suya Violet. Clara sentiu o ar ficar mais denso e leu o trecho seguinte com atenção redobrada. “Partiu aos 16 anos do Reino de Grimor. Equipamento registrado: arco longo, lâminas curtas e provisões leves. Situação da missão: inconclusiva, condição da aventureira: desconhecida.” Não havia registro de corpo encontrado, ou registro de retorno e nem registro de falha confirmada. A joia permaneceu perdida. Outros aventureiros da expedição tiveram destinos documentados. Alguns retornaram mutilados, relatando terrores indescritíveis. Outros foram declarados mortos, com corpos recuperados nas fronteiras do reino. Alguns simplesmente desapareceram. Mas Suya Violet… nunca foi encontrada, nem viva nem morta. Clara virou outra página.

Após a partida, havia apenas uma menção indireta: “Relato de avistamento no Clã Kirby, ao norte do Reino de Nevasca.” Clara fechou o volume de Grimor e dirigiu-se imediatamente à ala referente ao Reino de Nevasca. Minutos depois, outro livro repousava diante dela. Reino de Nevasca — Arquivos da Rainha Drakania

Uma soberana conhecida por sua liderança severa e estratégica em tempos de crise. Entre os registros militares, Clara encontrou o que buscava. “Enviados da coroa: Bryan Kirby e Corey Kirby.

Objetivo: Corey Kirby, acompanhar seu irmão Bryan Kirby e trazer a joia mística para a rainha Drakania. 
Status: não retornaram.Corpos: não recuperados. 
Última localização confirmada: Clã Kirby.

Clara continuou lendo, relato civil anexado por anciões do clã: “Quatro jovens aventureiros auxiliaram na derrota de uma entidade sonora. A criatura utilizava vibrações para invocar esqueletos e controlar matéria inerte — estátuas tornavam-se golens, homens tornavam-se marionetes.” Os nomes eram citados: Bryan Kirby, Corey Kirby, Suya Violet e Luarina Olivën. Clara fechou os olhos por um segundo. Eles haviam lutado juntos. Após a derrota da entidade, o último depoimento registrado — transcrito por um escriba do clã — dizia: “Seguiremos para a Caverna Cronos. Se a joia ainda existir, estará lá.”Caverna Cronos. A anotação seguinte era curta. “Local mortal. Exploradores entram. Nenhum retorna.” Clara sentiu um frio percorrer sua espinha, algo raro para alguém como ela. Folheou até a última página relacionada à expedição. Nada, nenhum relato posterior, nenhum corpo e nenhum retorno. E então—ela percebeu algo que fez seu olhar se fixar na margem inferior da página. Um símbolo pequeno, quase imperceptível, desenhado à mão, diferente do brasão real. Uma marca circular com traços que lembravam… runas temporais. Clara aproximou o livro da luz. Não fazia parte do registro oficial, era uma anotação posterior e a tinta, embora antiga… não era medieval, uma tinta invisível revelada diante da luz. Clara: Alguém, séculos depois, revisitou o registro e deixou uma marca. A Caverna Cronos, o nome ecoou em sua mente. Se as criaturas estavam retornando, se Suya havia desaparecido lá. Se Cronos estava ligado ao tempo, então talvez eles não tivessem morrido. Talvez tivessem sido deslocados. Clara fechou o livro lentamente enquanto concluía sua pesquisa.

Enquanto isso, em Eteria, as sombras avançavam sobre a cidade.

Como uma maré escura, elas se espalhavam pelas ruas da capital, invadindo becos, prédios e avenidas iluminadas. O pânico se espalhava entre a população. Gritos ecoavam ao longe enquanto algumas máquinas — robôs que antes serviam pacificamente à cidade — eram dominadas por aquelas entidades sombrias. Seus olhos brilhavam em um tom profundo e antinatural, e seus movimentos tornavam-se erráticos, violentos.

Do alto da Torre Fumacinha, duas figuras observavam a cidade mergulhar lentamente no caos.

Green permanecia em silêncio diante da enorme janela de vidro, as mãos atrás das costas. Seu rosto mantinha a mesma expressão neutra de sempre, quase indiferente ao desastre que se desenrolava abaixo. No entanto, sua mente já trabalhava rápido, analisando possibilidades.

Uma situação como aquela… podia ser perigosa.

Mas também podia ser útil.

Ao seu lado, Toya observava as ruas com um olhar mais tenso, refletindo as luzes vermelhas de alerta que piscavam pela cidade.

Green finalmente se virou.

— Parece que Eteria terá uma noite… interessante — disse ele calmamente.

Toya cruzou os braços, sem tirar os olhos da cidade.

— Isso está fora de controle.

Green deu um pequeno sorriso de canto.

— Talvez. Mas também abre algumas oportunidades.

Ele ajeitou o colarinho do casaco e caminhou em direção à porta.

— Voltarei outro dia, Toya. Terminaremos nossas negociações quando a cidade não estiver sendo consumida por… sombras.

Sem esperar resposta, Green deixou a sala.

Seus passos ecoaram pelo corredor silencioso até chegar ao elevador. Assim que as portas se fecharam, ele tirou um comunicador do bolso e iniciou uma chamada.

Do outro lado, a voz firme de seu soldado respondeu.

— Cain falando.

Green falou sem rodeios:

— Cain, preciso que capture um dos robôs possuídos por essas criaturas. Leve-o imediatamente para o laboratório. Estou retornando.

— Entendido.

A chamada foi encerrada.

Minutos depois, Green saiu do prédio. O vento da noite carregava o som distante de sirenes e explosões elétricas vindas das ruas.

Um carro preto já o aguardava.


Ele entrou no banco traseiro com tranquilidade, como se a cidade não estivesse à beira do colapso.

O motorista virou levemente a cabeça.

— Para onde, senhor?

Green olhou pela janela, observando a capital de Eteria afundar em caos.

Então respondeu, com frieza:

— Para a sede.

O carro arrancou, desaparecendo na noite enquanto as sombras continuavam a se espalhar pela cidade.


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